Terrorismo, capitalismo e governança mundial

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Information about Terrorismo, capitalismo e governança mundial

Published on June 30, 2016

Author: falcoforado

Source: slideshare.net

1. 1 TERRORISMO, CAPITALISMO E GOVERNANÇA MUNDIAL Fernando Alcoforado* A frequência com a ocorrência de atos terroristas como o de Istambul no dia 28 de junho próximo passado e da violência em geral como aqueles que acontecem continuamente no Brasil significam a vitória da barbárie sobre a civilização. Civilização é considerado o estágio mais avançado de determinada sociedade humana. Existem alguns elementos geralmente aceitos por todos sobre o que tornaria uma sociedade civilizada: 1) assegurar emprego para toda a população; 2) oferecer segurança garantida para todos os cidadãos que não devem temer a perda de suas vidas ou ter danos físicos; 3) prover assistência médica da melhor qualidade possível para todos os membros da sociedade; 4) conceder acesso à comida e água para todos os cidadãos de modo que nenhuma pessoa passe fome ou sede; 5) prover as condições básicas de habitação para todos os cidadãos; 6) possuir um sistema legislativo democrático cujas leis sejam estabelecidas para preservar o bem-estar da população; 7) prover um sistema educacional que garanta igualdade de acesso à educação de alto nível para todas as pessoas visando tornar sua população altamente educada; 8) assegurar para a população a liberdade de pensamento, crença e religião; e, 9) garantir o direito da população participar das decisões de governo. O termo barbárie tem dois significados distintos, mas ligados entre si: falta de civilização e crueldade de bárbaro. Eric Hobsbawm observa que a barbárie significa uma ruptura com os padrões morais que regulam a vida em sociedade e os controles sociais tradicionais dando lugar à violência desenfreada e o desprezo pelo ser humano (Ver La barbarie: guia del usuario no site <http://pt.scribd.com/doc/50203686/La- barbarie-guia-del-usuario>). O grande desafio da era contemporânea é fazer a humanidade evoluir do estágio de barbárie em que se encontra no momento ao de civilização. O sistema capitalista mundial e a falta de governança global são os dois grandes responsáveis pela barbárie que caracteriza a era contemporânea. A violência desenfreada e as crises que se manifestam sob várias formas no mundo em que vivemos têm como causa o sistema capitalista mundial, principal responsável pela disseminação da desigualdade social. A ausência de um organismo de caráter global que atue com autoridade para mediar e solucionar os conflitos regionais e mundiais é a outra grande causa das guerras e da disseminação do terrorismo em todo o mundo. O terrorismo está hoje associado ao fundamentalismo islâmico. A oposição do fundamentalismo islâmico contra o Ocidente tem origens históricas seculares, mas, ele ascendeu no cenário político do Oriente Médio a partir da Revolução Xiita no Irã, em 1979. O Movimento dos aiatolás foi visto como uma grande mobilização das energias islâmicas adormecidas pela presença da inaceitável modernidade ocidental. A sua repentina aparição deveu-se em grande parte pelo fracasso político dos estados árabes em dar um combate eficiente ao Estado de Israel que é visto como o grande inimigo político e teológico e retirar seus países da situação de imobilismo econômico. Esta situação tem se agravado ao longo do tempo pelo posicionamento das potências ocidentais em apoio a Israel no conflito palestino-israelense e, sobretudo, pelas violentas intervenções militares norte-americanas com apoio da OTAN no Afeganistão, no Iraque e na Líbia para se apossarem das reservas de petróleo e na Síria por fatores geopolíticos. No momento atual, o terrorismo alcançou grande dimensão no Oriente Médio com o surgimento do denominado Estado Islâmico que tem como objetivo expandir seu

2. 2 califado por todo o Oriente Médio, que se pautaria pela Sharia, a Lei Islâmica interpretada a partir do Alcorão, estabelecendo conexões na Europa e outras regiões do mundo com o propósito de realizar atentados que lhes possam conferir autoridade através do terror. A história do grupo terrorista Estado Islâmico está relacionada com a violenta intervenção militar dos Estados Unidos no Iraque após a guerra iniciada em 2003. Como sabemos, a Guerra do Iraque se deu dois anos após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque, chefiados por membros da organização Al- Qaeda, então liderada por Osama Bin Laden. A Al-Qaeda possuía grande espaço de atuação no território iraquiano e em parte da Síria. O grupo Estado Islâmico (EI) nasceu como uma derivação da Al-Qaeda fundamentado nos mesmos princípios desta organização. Contudo, as ações do EI ficaram gradativamente mais radicais, até mesmo para os padrões da Al-Qaeda, o que provocou a separação entre as duas organizações terroristas. Outro fator que tem agravado esta situação é a crescente onda de "islamofobia" em todo o mundo, sobretudo na Europa com discriminações sofridas no trabalho e nas ruas e ataques violentos contra muçulmanos e seus descendentes nascidos no continente europeu. O Centro de Monitoramento Europeu de Racismo e Xenofobia elaborou documento "Muçulmanos na União Europeia: Discriminação e Islamofobia", de 118 páginas, no qual mostra que, em 2004, 50% dos europeus viam todos os muçulmanos como um suspeito de ser terrorista (Ver o artigo Estudo mostra crescimento da "islamofobia", publicado no website <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft1912200612.htm>). Os muçulmanos discriminados na Europa e em todo o mundo estão se constituindo em potenciais aliados do Estado Islâmico que está perdendo territórios ocupados no Iraque e na Síria com o esforço de guerra que se realiza com ações militares coordenadas dos Estados Unidos, da Rússia, do Iraque e da Síria. O terrorismo como o praticado recentemente em Paris, Bruxelas e Istambul faz com que se torne um imperativo a criação de uma nova superestrutura jurídica e política internacional para tratar dessas novas questões, isto é, a estruturação de um governo mundial haja vista que nenhuma grande potência será capaz de derrotá-lo por mais poderosa que seja ou atue em coalizão com outras grandes potências. A preservação da paz é a primeira missão de toda nova forma de governo mundial. Ele teria por objetivo a defesa dos interesses gerais do planeta compatibilizando-o com os interesses de cada nação. O governo mundial trabalharia também no sentido de mediar os conflitos internacionais e construir o consenso entre todos os Estados nacionais, fazer com que cada Estado nacional respeite os direitos de seus cidadãos, além de buscar impedir a propagação dos riscos sistêmicos mundiais. Ações para constituir uma governança mundial foi objeto do Concerto das Nações em 1815, da Liga das Nações em 1920 e da Organização das Nações Unidas em 1945 que foram em vão porque as grandes potências não abriram mão de impor suas vontades no plano mundial. Até o surgimento de um governo mundial, as relações internacionais serão regidas pela lei do mais forte. E este é o pior cenário porque nenhum país por mais poderoso que seja terá capacidade de construir a paz mundial nem solucionar os problemas do planeta. As crises econômica, financeira, ecológica, social e política, o desenvolvimento de atividades ilegais e criminosas atuais e o avanço do terrorismo mostram que elas são insolúveis sem a existência de um governo mundial. É preciso entender que os problemas que afetam a economia mundial e o meio ambiente global e contribuem para o avanço do terrorismo só poderão ser solucionados com a existência de um governo

3. 3 mundial verdadeiramente democrático representativo de todos os povos do mundo. O Direito Internacional não pode ser aplicado e respeitado sem a presença de um governo mundial que seja aceito por todos os países e assegure sua governabilidade. *Fernando Alcoforado, 76, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (P&A Gráfica e Editora, Salvador, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012) e Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015). Possui blog na Internet (http://fernando.alcoforado.zip.net). E-mail: falcoforado@uol.com.br.

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