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Entertainment & Humor

Published on April 26, 2014

Author: blimblims

Source: slideshare.net

Description

Sonhos de Paquita

ESCLARECIMENTO Esclareço aos leitores que a história contada em prosa nesse livro foi baseada em depoimentos espontâneos dados ao autor e autorizados pelas protagonistas, acompanhadas sempre por responsáveis, em gravações de áudiotape e também ratificados pelas mesmas nos manuscritos originais, devidamente registrados e guardados em cofre forte bancário. João Henrique Schiller Direitos do Autor Registro nº. 100515 Livro 144 - Ficha 87BN - Biblioteca Nacional Fotos da capa: Renato Neto © 1995 Edição: 2008

SONHOS DE PAQUITAS Nos Bastidores do Xou © De: JOÃO HENRIQUE SCHILLER

SONHOS DE PAQUITA - TREZE ANOS Na verdade, o livro tem quatorze anos de escrito e nunca mais saiu de evidência. Bem mais que os quinze minutos de fama que muitos esperavam. ‘A verdade sempre reinará’ e ‘quem cala consente’ são ensinamentos antigos dos mais velhos que me criaram. Mesmo não se provando e nem mesmo se questionando explicitamente nenhuma linha do que foi publicado, alguns radicais extremistas, que por si só se resolvem, não acreditam no livro. Da boca para fora, é claro! Digo ‘da boca pra fora’ por simples observação dos últimos meses em que participo da comunidade do site de relacionamentos Orkut, ‘Paquitas: Mitos e Lendas’. O que mais rebate também é o que mais cita, e por conseguinte o que mais lê. É ele quem mais apóia, por tabela. Mesmo me trazendo mais problemas do que imaginava, esse ‘livro lenda’ é um mito, literalmente. Jogo de palavras? Não. Pura realidade! Se o que nele escrevi é verdade ou ficção, não importa. O que vale é o que ele representa na vida de toda uma geração. A geração da Rainha, suas fiéis escudeiras Paquitas e seus fãs, que são talvez os mais importantes dessa história, com ‘H’ de honestidade. Um abraço respeitoso aos que dizem não acreditar, e um beijo no coração dos que acreditam e que, da mesma forma, não deixaram de amar direta ou indiretamente: Xuxa, Paquitas, Paquitos, Irmãs Metralhas, Praga, Dengue, Marlene, Angel, Lenice,Vivian, Jorginho, Berry, My Boy, Luisinho, Paulo Netto,Aluísio Augusto, Walter Lacet, Mário Lúcio Vaz, Boni, Sullivan e Massadas, Russo, Helmar Sérgio, Vicente Burguer, Mikimba, Solano, Felipe, e muitos amigos e companheiros de trabalho (não tenho como lembrar de todos), que sempre

exerceram, em seus variados níveis, profissionalismo com um fim comum: o sucesso do programa Xou da Xuxa. Espero que esse livro sirva de ponto de reflexão. De percepção, para enxergarmos melhor a tênue linha que norteia o tão desejado sucesso televisivo. Parabéns especiais ao Manoel Guimarães, que sempre intervém com seu modo ‘porra-louca’ para que a verdade prevaleça. Sem ele, esse material não estaria agora à disposição de todos. Obrigado, grande Manoel! João Henrique Schiller junho / 2008

ÍNDICE INTRODUÇÃO 11 O INÍCIO 13 O PRIMEIRO PASSO 19 O PRIMEIRO BEIJO 29 NAS ÁGUAS DO SUCESSO 34 SER PAQUITA 36 TRAPALHADAS E ‘MICOS’ INTERNACIONAIS 40 MENSAGEM 45 JANTARES, CONVITES E FESTAS 47 A REUNIÃO 51 RELACIONAMENTO PROFISSIONAL 56 BATENDO PAPO 59 ANJO NAS TREVAS? 66 O LADO POSITIVO 68 O NOVO PROGRAMA E OS ‘CLIMAS’ 71 CIÚMES DE VOCÊ 73 A ÚLTIMA E CANSATIVA TURNÊ 75 OS SHOWS 85 OS NAMORADOS 90 FASE FINAL NA ÁRGENTINA 94 SONHOS, DECEPÇÕES E MOMENTOS ATUAIS 99 O POVO QUER SABER 118 O RESULTADO 166 AS PAQUITAS NO BRASIL 168 GLOSSÁRIO 170

INTRODUÇÃO Há nove anos fui escalado para editar um novo programa. Pela minha experiência em programas infantis do mestre Augusto César Vannucci, eu iria editar um programa infantil diferente dos que iam ao ar na ‘casa’. Gravado em estúdio, com participação de público e apresentado por uma ‘loirinha’ que estava incomodando a ‘Vênus Platinada’ (Rede Globo), com seu Ibope cada vez mais alto. E logo com a sua concorrente mais forte no momento, a TV Manchete. Convite feito e aceito, parti ‘de mala e cuia’ para São Paulo, terra até então totalmente desconhecida para mim. Mas, como sempre, eu adoro desafios. Fui conquistar essa nova aventura. Duas máquinas de videotape, centenas de fitas e muita ousadia. Assim nasceu (na época, muito desorganizado) o Xou da Xuxa. Parecíamos uma família unida e disposta a resolver nossas deficiências. Xuxa tratava a todos nós com igualdade e, principalmente, com muito carinho. Marlene Mattos era a amiga de fé da ‘loirinha’, e participava da produção do programa. Ainda me lembro bem do primeiro programa: Xuxa vestia saia e blusa verde e preta; o cenário era do Reinaldo Waisman, desenhista da equipe do Mauricio de Souza, ‘pai’ da Mônica e do Cebolinha. Era meio tímido, assim como a Xuxa: loirinha, olhos azuis, dentes dianteiros ‘trepados’, nariz um pouco maior que o necessário, quase nenhuma criança no palco, mas já esbanjando talento e pureza. O tempo foi passando, o talento aumentando e a pureza acabando. Com o abandono do diretor Paulo Neto, foi sugerido por mim ao diretor artístico Walter Lacet numa reunião de emergência que a Marlene assumisse a direção do programa, mesmo sem experiência, por ser muito

íntima da Xuxa. Ela inicialmente recusou o convite por telefone, mas depois aceitou, a pedido da própria Xuxa. O programa foi apelando para a sensualidade de Xuxa e suas assistentes. Marlene Mattos se especializou em opinião pública, controlando as crianças e, conseqüentemente, seus pais. Romperam-se todas as barreiras e fronteiras, chegando a ser exibido em 22 paises, inclusive nos Estados Unidos. Tornei-me diretor do programa em 1988, trabalhando nas gravações externas com os repórteres mirins Duda Little, Caíque Benigno e Raquel Batista. Ultimamente, dirigia quadros diversos com as ex-Paquitas Andréa Veiga, Andréa (Sorvetão) Faria, Louise Wichermann e as oito protagonistas dessa história: Ana Paula Almeida (Pituxita), Ana Paula Guimarães (Catú), Bianca Rinaldi (Xiquita), Cátia Paganote (Miúxa), Flávia Costa (Paquitita), Juliana Baroni (Catuxa), Priscilla Couto (Catuxita) e Roberta Cipriani (Xiquitita). Embora sem voz, Xuxa bateu recordes com seus discos, que venderam milhões, massificados diariamente pela TV, deixando os pais sem qualquer condição de defesa. Este livro não se destina a contar a história do Xou da Xuxa, mas de um pedaço dele. De um certo grupinho de igualmente ‘loiras’, tão sonhadoras como qualquer um de nós, que numa determinada hora supostamente têm a oportunidade da suas vidas, que com o passar do tempo se transformou num paradoxo de oportunidades e decepção. Mas que serviu também, no mínimo, de incentivo de vida, quem sabe, artística. Hoje, não sou mais um dos diretores do programa. E depois de nove anos de convívio (e, por que não dizer, nove anos de cumplicidade nos sonhos de um futuro melhor), sinto-me muito à vontade e muito orgulhoso de contar para vocês os Sonhos de Paquitas.

O INÍCIO Tarde fria e chuvosa. Final de gravação externa para o quadro ‘Par ou Ímpar’. Passamos o dia inteiro no Museu Imperial e na casa de Santos Dumont em Petrópolis, cidade serrana a uma hora e meia de distância para o centro do Rio de Janeiro de ônibus. Pela segunda vez nessa semana, Ana Paula ‘Catú’ me pergunta ansiosa: - E aí? - E aí o quê? - Vamos fazer a peça ou não? - Todas estão a fim, Catú? - Nosso único pedido é segredo. - Está bem então. Pode marcar um encontro. Já dentro do ônibus a serviço da TV GLOBO, viajando de volta para o Teatro Fênix, comecei a pensar na seriedade da proposta, e ao mesmo tempo nas revelações que elas poderiam fazer. Não foi difícil imaginar o rebuliço que isso poderia causar. Mas que desafio gostoso!!! Era uma quarta-feira, dia 31 de agosto de 1994, e o primeiro encontro foi na casa da Catú às 19h30, com todos reunidos. Eu e as oito Paquitas, mais três bicões: Seu Rui, paizão da pequenina Juliana; o representante esportivo masculino do grupo, o namorado da Cátia e, na época, atacante do Fluminense

Djair; e, finalmente, o sempre sorridente, de bem com a vida e nosso anfitrião, Ricardo, maridão da não menos simpática Catú. Porém, cientes da importância dessa primeira reunião, o trio resolveu assistir a um jogo de futebol na televisão do quarto do casal. Eram dois técnicos em potencial e um jogador fora do seu habitat, o gramado. Todas me pareciam muito nervosas. Falavam umas com as outras, todas ao mesmo tempo, querendo lembrar as coisas mais importantes a dizer. Fiquei uns minutos observando aquela cena de improviso que elas estavam me proporcionando, antes de interrompê-las e falar: “Dá pra gente começar?”. - Sim - respondeu Catú. - Nós poderíamos começar falando da castração artística - disse Priscilla. - A falta de liberdade é triste - criticou Roberta. - É, mas nós crescemos muito como pessoas - rebateu Flávia. - Também, a que preço? - perguntou Cátia. - Ah, eu acho que valeu para a gente perder o medo de ser mulher - concluiu Bianca. A essa altura, tudo indicava que o assunto ia pegar fogo. Foi quando Catú começou a colocar os pingos nos i’s. - Olha só, as reuniões estão começando hoje, vamos seguir em frente. É um compromisso muito importante. Se for preciso, vamos ensaiar aqui mesmo, no play do meu prédio. Estou doida para ver essa peça pronta, em cartaz, fazendo sucesso. Tudo bem, mas pelo que estou vendo isso vai dar em livro. - Livro? - assustaram-se com a minha afirmação.

Com essa possibilidade, as meninas procuraram relaxar, cada uma ao seu modo. A maioria preferiu comer os diversos tira-gostos que foram servidos por Catú na mesinha de centro da sala, cercada por um sofá com Priscilla, Ana Paula Almeida e eu. À nossa direita, estavam Cátia, Bianca e Flávia, devidamente acomodadas em confortáveis almofadões. Em frente, do outro lado da mesinha sortida de salgados e refrigerantes, estavam Roberta, Juliana e Catú. - Não é melhor pedir uma pizza? Inacreditável! Tanta comida e alguém ainda queria pedir uma pizza. - Quando nós ficamos nervosas, danamos a comer. A Marlene tem vontade de matar a gente. Mas depois de uma de suas muitas broncas, não há nada melhor do que comer uma coisinha. Nesse momento, aparece na sala mais um bicão: Seu Paulo, pai da Robertinha. - Vocês precisam de alguma coisa? - perguntou Seu Paulo. - Tio, nós queremos uma pizza de calabresa com cebola. - Está bem. Vou buscar uma pra vocês. - Oba! - todas gostaram muito. Por um momento, me vi como alvo principal dos olhares das meninas. Silêncio absoluto. Parecia-me que aguardavam uma palavra mágica que as tirasse daquele nervosismo causado pelo medo do novo, do desconhecido. A situação voltou ao normal graças à Roberta. - Sabe aquela corrida? Aquela da gravação das ‘Olimpíadas das Paquitas’ para o ‘Par ou Ímpar’. Deixou-me com os músculos das pernas...

Aiii... (ela fala passando a mão nas pernas, fazendo cara de dor). Está tudo assim, óóó... - Caramba! Como você se queimou. - Você acha mesmo, Flávia? Estou muito vermelha? - Passa uma pomada hidratante ou uma pra queimadura - recomendou Catú, a protetora de todas. - Hipoglos é bom para isso. Muito bom! Bom mesmo! - completou Cátia. Elas sempre usaram essa pomada para tirar as olheiras causadas pelo pique de trabalho muito forte que lhes era imposto, com muito pouco tempo de descanso na época de shows, gravações pelo Brasil e exterior. - Olha só! Ontem eu vi no Jornal da Manchete o desmentido daquela menina dos dólares falsos no Barra Shopping, que diziam ser Paquita - comentou Flávia. Amenina falada nunca foi Paquita. Ela foi ‘figurante’dos Trapalhões, contracenou com o ator Conrado e trabalhou também no ‘Bolão do Faustão’. O assunto ia se desenvolvendo sem compromisso com nada. Era como se estivessémos ali para bater papo furado. Deixei rolar para ver até onde iriam chegar para se acalmar. Priscilla então comentou: - Ontem eu fui ao shopping. Foi vergonhoso. Fica todo mundo olhando. Eu não vou mais não! - Você abandonar o shopping? - perguntou Ana Paula, meio desconfiada. - Que abandonar nada. Isso só dura duas semanas - brincou Cátia. - Tem gente no shopping falando que ela é Paquita, sabiam? Na administração! Fiquei muito ‘P’ da vida.

- Eu também fui ver aquele... Como se chama mesmo? ‘Cidade Nacional’... - comentou a Cátia, meio perdida no assunto. - ‘Cidade em Ação’ - arriscou Flávia. Catú, a essa altura viajando num passeio pelos cinemas do Shopping, completamente alheia ao assunto original (os dólares falsos da também falsa Paquita dos Trapalhões que contracenou com o Conrado e com o ‘Bolão do Faustão’). - Você já viu ‘Velocidade Máxima’? - dirigindo-se a Ana Paula. - Já. Muito bom! - Dizem que em ‘Velocidade Máxima’, você tem que acreditar em Papai Noel e no Coelhinho da Páscoa. Cátia deu uma gargalhada nesse momento, enquanto Catú prosseguiu: - Tem mesmo! No final, é uma mentirada só. Nessa hora, ouviu-se a campainha da casa tocar. - Dá licença, vou atender a porta... Gente! Chegou a nossa pizza! - gritou Juliana. - Vai se servindo aí... Eu não acreditei! Falei assim: “Só falta o ônibus voar”. - É! Decepção! - Ah, não vai contar a história, Roberta. Eu ainda não vi o filme - reclamou Priscilla. - Decepção! - Todo mundo sabe, o ônibus faz zzzap! - continuou Catú.

- Decepção, hein cara? Gente, é a maior besteira - completou Roberta, com cara de abismada. - Alguém quer gelo? Também tem pipoca, alguém vai querer? - Nem me fale em pipoca - respondi. “Pipoca” é uma musica gravada pela Xuxa no disco Sexto Sentido, mas fez parte da minha peca musical infantil O Noivado do Capitâo Barba Verde, escrita há dois anos e que estava esperando patrocínio no meio de tantos pacotes econômicos. Porém, foi oferecida a ela pelos músicos, perdendo seu ineditismo. Bom, isso é um outro assunto. - Ai, gente! Eu estou nervosa - disse Roberta, franzindo a testa e roendo as unhas. Bom, vocês já falaram a beça! Vamos tentar começar. - De cebola com calabresa... Hummmm... Adoro cebola! - Bianca, vem cá, minha filha. Vamos bater papo ou comer a merenda? - Está gravando? Está sempre gravando.

O PRIMEIRO PASSO Bianca, quando você resolveu ser Paquita? Você queria só ficar ao lado da Xuxa? - Em São Paulo, todo mundo disse assim: “Ah, você podia ser Paquita, ganhar dólares, fazer comerciais, etc.”. E com influência, você acaba querendo. Foram fazendo a minha cabeça. O que eu queria mesmo era fazer comerciais. Aí teve um dia que a minha mãe estava assistendo a Xuxa enquanto eu varria a casa. Aliás, lá em casa só assistíamos a Xuxa. Na hora dos desenhos, nós trocavamos para o SBT. No programa dela, eu só gostava dos desenhos da Disney. Nesse dia, teve o boato que ela estava grávida e eu queria ver a barriga dela como estava. Então minha mãe descobriu que ela estava querendo uma Paquita paulista. “Bianca, sabe de uma coisa? Por que você não manda uma foto pra lá? Já pensou se você ganha? Trabalhar com a Xuxa!”. “Que é isso, mãe? Impossível! Pra entrar na Globo tem que ter um ‘padrinho’”. - Até que nós não tivemos ‘padrinhos’... - interrompeu Roberta. - Foi aí então que eu tomei coragem, tirei as fotos e entreguei na Sunshine. Daí um tempo, eles me chamaram e disseram que eu tinha ficado entre as quarenta escolhidas de mil inscritas. Viajei para o Rio e me tornei Paquita. Fiquei o primeiro mês com a Juliana, um pouco na casa de um, um pouco na casa de outro. Fiquei bastente tempo também na casa da Tânia Catavento, que na época era a mais próxima da Marlene e que sempre me levava de um lugar para o outro. Até que a minha mãe largou o emprego em São Paulo e veio morar comigo no Rio, lá no Hotel Paissandu, durante uma semana, até conseguir um apart-hotel, também no Flamengo. Minha irmã iria vir para cá só no meio do ano, quando acabassem as férias, mas minha mãe

não agüentou e acabou vindo antes. Ficamos um tempão nesse apart-hotel, até eu conseguir alugar um apartamento para a gente. Eu, minha mãe e minha irmã. Papai já faleceu há seis anos. Minha mãe não pode trabalhar, tem que cuidar da minha irmã, que tem doze anos, e das minhas coisas também. - Eu sempre fui fã da Xuxa e fui algumas vezes participar da gravação - contou Priscilla. - Na primeira vez que participei, foi na brincadeira ‘Pinte o Palhaço’, em 1987. Eu estava lá atrás, pendurada naquela aranha, igual a um bicho do mato, quando a Louise me chamou pra participar da brincadeira. Daí em diante, eu sempre fui e participei de vários desfiles, ganhando todos. No final do ano, no desfile final, eu já estava até participando de desfiles para O Bicho Comeu (grife de roupas da Xuxa). Ficamos eu e uma menininha, que a Xuxa deu um presente e se despediu. Enquanto isso, eu continuava desfilando de um lado para o outro. Acabando a gravação, a Xuxa virou e disse para a Marlene: “Marlene, essa menina é a que eu te falei pra fazer teste pra Paquita”. “Quantos anos você tem?”. “Nove”. Ela então marcou os testes comigo no dia 17 de dezembro de 1987. Entramos eu e a Tatiana para sermos Paquitas. Ana Paula, você foi para o programa por causa da Xuxa ou pela TV Globo? - Eu vim foi por causa da Xuxa mesmo. Eu era, quero dizer, eu sou ‘fanzoca’, quase doente. Tinha loucura pra estar perto dela, meu sonho era ver a Xuxa passar de carro pela minha rua. Eu realmente acreditava que um dia ela ia passar. Eu morava em Vista Alegre (subúrbio do Rio de Janeiro) e pensava que, por ser suburbana, nunca iria conseguir chegar perto da Xuxa. - Ana Paula e o suburbanismo dela... - interrompeu Roberta. - Igual a mim. Lá em São Paulo, na minha casinha simples, eu pensava que jamais chegaria aqui - continuou Bianca. - Eu também. Saí de uma vila em Jacarepaguá. Agora, trabalho com a Xuxa e moro na Barra daTijuca. Levo uma vida totalmente diferente daquela que eu tinha - completou Priscilla. - Ah, minha Macaé! - suspirou Catú. - Nós todas entramos para o programa muito novas. As que entraram mais velhas foram a Bianca, com quinze, e eu, com treze.

- Eu entrei brincando de Barbie - lembrou Priscilla. - Eu estudava num colégio super forte e fazia aula particular. Perto do dia do meu aniversário, a minha mãe chegou para mim e perguntou: “Ana Paula, o que você quer de aniversário?”. “Eu quero ir no Bicho Comeu”. Na época, só tinha uma loja da Bicho Comeu, na Praça Saens Peña (Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro), que era longe pra caramba da minha casa. “Quero comprar uma roupa igual a da Xuxa e quero passar o meu aniversário como se fosse o Xou da Xuxa”. Nisso, minha mãe foi comigo e compramos a roupa. Na minha casa, tinha uma escada, que eu desci vestida de Xuxa como se fosse o próprio Xou da Xuxa. Minha mãe tirou várias fotos. Já a minha irmã, que estava assistindo a televisão, me disse que a Xuxa estava precisando de meninas de nove a doze anos de idade para serem Paquitas. “Por que você não pega uma dessas fotos e manda para o programa?”. Eu mandei uma carta com a foto para o programa, sem a minha mãe saber, porque com certeza ela não teria deixado. Depois de dois meses, eu estava saindo para o colégio e tocou o telefone: “Por favor, a Ana Paula”. “É ela”. “Você foi escolhida. Sua carta foi uma das escolhidas para vir fazer teste para o programa da Xuxa”. Eu peguei o endereço da produção e fui falar para a minha mãe, que a princípio não me deixou ir. “Não, você não vai abandonar os estudos. Você está super forte com as aulas particulares. Você não vai!”. “Ah, mãe, vamos? Vamos ver como é que é lá. Às vezes, não é preciso abandonar os estudos”. Chegando lá, eu fiz aquela bateria de testes. Concorri com vinte meninas. Na época, achar o Teatro Fênix no Jardim Botânico era o fim do mundo, longe pra caramba. Peguei mais de não sei quantos ônibus. Não sei quanto tempo depois, era o dia 6 de abril de 1988, a Marlene chegou para mim e disse: “Ana Paula, amanhã você vem preparada, porque virá uma menina de São Paulo. Ela é a última concorrente, e virá até aqui só para isso. Traz a sua família inteira para assistir, que amanhã vai ser o dia da escolha”. Aí foi todo mundo, a ‘cambada’ inteira da minha família. Eu fui pra maquiagem, e a Angel chegou perto de mim e começou a fazer perguntas, que eu fui inocentemente respondendo. Perguntou meu nome todo, onde eu morava, etc. De repente, ela falou: “Que pena! É tarde e todos os seus familiares já foram embora. Mas fica aí, você e sua mãe, até o final pra ver o que vai dar”. No último bloco do último programa, a Xuxa chegou e falou assim: “Gente, eu queria dizer que nós mentimos. Nós enganamos vocês. Falamos que viria uma menina de São Paulo e era tudo mentira. Ela concorreu com vinte meninas e conseguiu passar todas, e agora é a nova Paquita, a Pituxita Ana Paula”.

Nisso, eu vim desesperada, chorando pra caramba.Aí foi que surgiu o apelido Bonequinha.AXuxa virou e falou: “Ela não é parecida com uma bonequinha chorando?”. A Louise veio e colocou o chapéu de Paquita na minha cabeça. - Eu vim de Brasília para o Rio e fui assistir a uma gravação do programa duas vezes - contou Cátia. - Na segunda vez, pedi para a Xiquita me deixar participar da brincadeira do desfile. Quando terminou a brincadeira, a Marlene me chamou no switch e me perguntou se eu não queria fazer teste para Paquita. Eu respondi que queria e fiquei fazendo teste por dez meses. A Marlene me disse que estava procurando uma menina com idade entre quinze e dezesseis anos. Na época, eu tinha treze anos. Aí eu continuei a freqüentar as gravações do programa. Até que numa festa de aniversário dela na Zoom, em São Conrado, a Xuxa pegou o microfone à meia-noite em ponto e falou: “A Marlene quer dar um presente hoje. A partir de agora, dia 27 de abril de 1989, a Cátia é a Paquita Miúxa”. Ela entrou comigo, com o Cláudio, o Robson e o Gigio, que também estavam entrando para o programa. Uma semana depois, a Xuxa confirmou tudo no programa. - Eu curtia o programa lá em São Paulo - prosseguiu Juliana. - Não era fanática não, mas curtia. Até que um dia, cheguei do colégio e a Xuxa estava falando que queria uma Paquita paulista. Eu anotei o endereço, tipo de bobeira. A minha intenção era mandar uma carta para a Sunshine, que era a empresa responsável pelas pretendentes paulistas, para tentar arrumar um trabalho em alguma coisa parecida. Isso porque eu já participava de desfiles lá em Limeira (interior paulista), mas achava que não tinha futuro. A minha meta era fazer desfiles e comerciais a nível profissional. Sem a minha mãe saber, eu e meu pai escrevemos uma carta e mandamos junto com umas fotografias do meu book. Passaram uns quatro meses, até que me ligaram da Sunshine dizendo que eu estava entre as quarenta selecionadas de São Paulo. Marcaram uma data e fizeram milhares de testes, de onde foram escolhidas cinco meninas para a final. Viajamos para o Rio de Janeiro e gravamos três programas com a Xuxa. Quando estávamos no último, eu fui escolhida para ser a Paquita paulista. Aí começou o meu problema. Eu adorei! Não esperava de jeito nenhum.Até aquele momento, eu estava curtindo a situação. Conhecer o Rio, estar entre as cinco... Era tudo muito legal. Uma vitória! Eu levei um susto quando a Xuxa falou: “Juliana”. As pessoas perguntavam o que eu estava sentindo e eu nem sabia direito, estava muito assustada. Às duas horas da manhã, quando acabou a gravação, eu liguei para a minha casa e falei: “Pai, sou Paquita agora!”. Fui com o grupo para São Paulo e depois voltei

sozinha. Fui ficando de casa em casa. Fiquei um pouco na casa da Xuxa, um pouco na casa da Letícia... Aliás, um bom tempo na casa da Letícia. Depois, conversando, resolvi que meu pai viria morar comigo. Para isso, ele teve que largar minha irmã pequena, meu irmão também pequeno, minha mãe e o emprego dele, que estava numa época super boa. Ele estava ganhando muito dinheiro, estava super bem. Mas largou tudo e veio. Ainda não sei como ele fez isso. Veio comigo por uma coisa que eu queria, e foi super ruim para gente. Eu tinha onze anos, e no primeiro ano longe da família foi um ‘baque’. Eu até fiquei doente, estava acostumada a ter hora para dormir, pra comer... Tem hora para tudo! De repente, eu venho para essa loucura, que não tem hora para nada, não estudo, não faço nada. ‘Pirei’, ‘pirei’ mesmo. Perdi meus amigos de escola. Quando cheguei, sentia uma revolta de ter que ir à escola daqui.Pareciaumhospício!EmLimeira,eratudorígido,tudobonitinho.Quando o diretor chegava na sala, todos se levantavam. Era tudo muito limpo. Era uma escola estadual super legal, com um ensino super bom. A escola daqui era particular e era uma ‘zona’, uma confusão. Deu um nó na minha cabeça. O primeiro ano foi deslumbramento. No segundo ano, comecei a me estruturar. Fui mais vezes à Limeira, me liguei mais a minha família. Se eu parasse para pensar: “Puxa, estou longe dos meus irmãos e da minha mãe”... Eu não me lembro da minha irmã na fase de um pra dois anos, só me lembro dela depois dos três anos. Tenho pena dessas coisas que eu perdi. Mas valeu a pena porque eu cresci muito, cresci pra caramba. Agora é a sua vez, Catú! Conta aí, você saiu e voltou? - Eu não era fã da Xuxa nem assistia ao programa dela, porque eu estudava de manhã lá em Macaé. Mas não sei por que motivo eu sonhei com ela no camarim. Nas férias escolares, eu vim para Niterói (RJ) ficar com meu pai, que é separado da minha mãe, quando meu irmão viu na televisão e me disse que a Xuxa estava precisando de uma nova Paquita e que eu deveria me inscrever. Depois de ele insistir bastante, eu achei que até podia ser. A Rose, na época esposa do meu pai, trabalhava na Globo. Inclusive, ela não é minha mãe, mas sempre teve muito carinho comigo, sempre me deu força para tudo. Pedi a meu pai para ser Paquita, e ele então me perguntou: “O que é Paquita?”. “São as ajudantes da Xuxa. Trabalham no programa da Xuxa”. Ele me disse que iria ver o que podia fazer e falou com a Rose, que é amiga

da Claudinha, secretária do Lacet, que por sua vez também é muito gente fina. Ela é minha ‘madrinha’. A Rose também é amiga do próprio Walter Lacet (diretor artístico do programa). Eles disseram que a Marlene tinha comentado com o Lacet que se ele tivesse uma menina para ser Paquita a mandasse para fazer os testes. Chegando a produção, encontrei a Louise sentada no colo do pai dela, conversando com a Marlene. A produção era pintada de cor-de-rosa, uma bagunça! Isto em fevereiro de 1987 (oito meses de programa no ar na Globo). Eu estava com um vestido preto, todo justinho, super queimada de praia, com o cabelo branco, dourado de sol. Cheguei meio sem graça para falar com a Marlene, pois eu só tinha doze anos de idade. E ela me disse: “É, eu gostei de você, mas você está muito mulher para a sua idade com esse vestido preto”. Naquela época, ela não gostava nem que a Xuxa usasse roupa preta. “Você está muito mulher, venha aqui na terça-feira, que vai ter gravação. Mas traga umas roupinhas mais coloridas, mais alegrinhas e mais infantis para você fazer um teste”. “Tá bom”, respondi. Saí e voltei na terça-feira. Me arrumei no camarim da Xuxa, e a primeira vez que a vi foi exatamente como a do meu sonho. Igual, a mesma coisa. Nossa! Você se considera uma pessoa perceptiva? - Muito! Eu sou muito. Eu fiquei no camarim super feliz, contente. Minha perna era toda loirinha, cabeludinha, e a Xuxa quando viu falou: “Ih, olha lá! Ela é igual a mim, toda cabeludinha, loirinha...”. Ela foi super gentil comigo. Eu fiz o teste com as outras Paquitas me olhando de rabo de olho, com ciúmes porque eu tinha me arrumado no camarim da Xuxa. Fiz um mês direto de testes, e no final já não sabia se queria ser Paquita mesmo ou não, devido à não ser acostumada a ver aquele tipo de coisas que aconteciam lá. Aí, um dia, eu fui gravar e no terceiro programa já estava até pensando que a Luciana Vendramini era a vencedora e não eu. Tanto que antes de entrar no palco eu a coloquei na minha frente. Mas a Xuxa me chamou e disse que eu era a escolhida. Entrei no palco chorando muito, e ainda me recordo da imagem da Luciana se abaixando no canto da parede e chorando, toda ‘encolhidinha’. A Xuxa e a Marlene me elogiaram por minha emoção e sensibilidade, me fazendo chorar mais ainda. Fui acompanhada no choro pela Rose, que estava na primeira fila da platéia. Ela chorava muito, deixando o filho que estava ao seu lado, com cara de curioso, sem entender nada. A Luciana era experiente, linda de morrer. Eu tinha quase certeza que ela ia ganhar. Mas eu ganhei! Saí

em 1989 e fui fazer um programa com a Louise na TV Rio, que não deu certo. Até que um dia em 1990, eu encontrei o Berry (coreógrafo da Xuxa) na rua e ele falou: “Pô, vamos até lá no programa, está todo mundo morrendo de saudades”. Eu não sei se foi burrada ou inteligência ir ao programa. Fui e a Xuxa falou pra mim: “Puxa, o que você está fazendo?”. E eu respondi: “estou estudando inglês, talvez fazer intercâmbio”. Ela me disse “Faz espanhol. Segunda língua...”. - Nada é por acaso - disse Roberta. - Eu não me arrependo nem um pouco - continuou Catú. - Eu aprendi muito. A Xuxa chegou pra mim e disse assim: “Sabe o que é, Catú? Eu estou indo para o México e precisava levar uma Paquita. Só que as meninas estão muito novinhas, não vão poder morar lá. E eu precisava de alguém que morasse, porque eu vou e volto. Mas você teria que ficar morando lá na minha casa, e eu só iria de vez em quando para gravar. Você está a fim?”. Respondi na mesma hora: “Lógico, não estou fazendo nada. É lógico que estou a fim”. Como sempre, as coisas que falam que vão acontecer só acontecem bem depois, isso quando acontecem. Eu cheguei para o meu pai e falei: “Pai, o que você acha? Vou até lá perguntar?”. Ele me respondeu que sim e eu fui. “Marlene, aquela proposta que vocês me fizeram para o México, mas o programa não é mais para o México, é para Argentina, ainda está de pé?” “Lógico que ainda está de pé!Assim que comerçamos as gravações, entramos em contato contigo. Você ainda está fazendo espanhol?”. “Estou”. “Então está bem”. Depois de algum tempo, fiquei sabendo que ela falou para todo mundo que eu tinha pedido para voltar para o programa. Depois de me convidar, eu é que fui pedir. Mas tudo bem, voltei. Voltei, mas com uma cabeça mais aberta. A ilusão que as meninas tinham, e que de repente eu voltava a ter também, ainda tinha alguma força. Porque quando a gente vê, está fechado ali, fica ‘bitolado’.Agente aprende a não acreditar em nós mesmas.Aprimeira coisa que a Marlene falou quando eu estive na produção foi: “Você foi uma boba!As meninas gravaram um disco, estão fazendo um filme, já compraram carro, apartamento, isso e aquilo...”. Só que quando eu voltei, a realidade era outra. As meninas não tinham comprado nada. Estava tudo a mesma coisa de quando eu saí. E você, Flávia?

- Eu era fã da Xuxa e das Paquitas. Tinha quatorze anos e era muito tímida. Minha mãe é que me incentivava muito.Até que um dia, ela disse que eu estava com uma postura péssima e que tinha que fazer um curso de manequim. Ela me dava força em tudo, até escola de circo eu fiz durante três anos. Vieram os testes pra Paquitas. Eu me encantei e pensei: “É isso que eu quero”. Fui tomando tino pra essas coisas com o tempo. Fui fazendo e vendo que não era bem por aí. Que eu não era murcha, quieta, na ‘minha’, introvertida... Que eu ia conseguir as coisas, que eu ia me realizar. Aí, quem estava dando um curso de manequim numa academia ao lado da minha casa? O Berry! Ele chegou pra mim e perguntou: “O que você acha de fazer um teste pra Paquita?”. Na época, era a maior coisa! Estava começando o sucesso da marca Paquita, e eu respondi que queria. Em casa, eu ficava: “Pô, que máximo”. Eu nunca vou conseguir fazer o que elas fazem. Eu não sei dançar. Elas olham para câmera numa hora e já sabem quando tem que olhar para outra. E eu não sei nada disso.Aminha mãe o tempo todo falava: “Flávia, vai, vai...”. Me empurrava. Eu ia ‘P’ da vida às vezes, mas ia. Você então descobriu que existe uma luz em cima das câmeras, que acende mostrando para qual você tem que olhar? - Foi! E a Catú me ajudou muito, me ensinou muito. - A Catú é o maior barato - elogiou Roberta. - ACatú é o contrário das outras mais velhas. Ela nos dá muito apoio em tudo - completou Ana Paula. Catú é uma espécie de ‘mãezona’ para as meninas. Além de ser a mais velha e experiente do grupo, ela sempre teve muito carinho e amizade por todas. Enquanto as outras que saíram seguiram carreiras solo, ela continuou junto às meninas, dando-lhes total apoio. - Eu desenvolvi muito o meu lado criança também, entendeu? Não quis ficar “Ah, virei mulher...”.

-Aprimeira vaga que ‘pintou’, estavam disputando a Letícia Spiller e a Cátia - lembrou Flávia. - Eu preferi ficar fora, e a Letícia ganhou. Depois da Paquita paulista, que a Juliana venceu, veio a disputa da Paquita de todos os Estados. Tinha eu e outra menina do Rio, Bianca representando São Paulo, uma de Minas, uma do Espírito Santo e outra de Niterói (RJ). Ganhou a Bianca. Fiquei desiludida! Desci as escadas do camarim chorando e pensando: “Está vendo? Puxa vida, não é isso! Marlene não gosta de mim”. Marlene foi, me chamou na produção e disse: “Se eu não gostasse de você, eu não te chamaria para fazer teste. A próxima vaga que aparecer pode deixar que é sua. Se você quiser continuar vindo ao programa, você vem. Se não, você fica em casa e quando aparecer a vaga, você me liga e tudo está feito.”. Tudo bem, eu já tinha feito os testes, tinha feito de tudo, não tinha mais nada a fazer, era só ela ir com minha cara e falar: “Pronto! Você agora é Paquita”. Ou então não ir e falar: “Pô, desiste”. Eu continuei indo ao programa durante uns dois ou três meses. Fui a um show das meninas para ver como é que era. Fui à Som Livre para testes de voz, acompanhei bem de perto o trabalho delas, até que a Tatiana saiu e eu entrei no mesmo dia. - Bom, o programa da Xuxa ‘rolava’, e eu nem assistia muito - revelou Roberta. - Preferia assistir ao Lupu Limpim Clapla Topo (programa com Lucinha Lins e Cláudio Tovar, exibido entre 1986 e 1987).A minha primeira participação na televisão foi nesse programa. Eu estava vestida de baiana, foi muito legal. Gravei em vídeo e depois de me ver achei que dava para tentar algum dia.As pessoas mais chegadas disseram que eu deveria seguir a carreira artística. Mas tive que ir morar em Curitiba por um tempo. Depois voltei a morar no Rio de Janeiro, e meu pai ia ser transferido novamente para Curitiba. Era meu aniversário e ele me concedeu um presente especial de despedida do Rio de Janeiro. Embora eu sempre fosse participar das gravações do Xou da Xuxa e adorasse a Xuxa, o que eu gostava mesmo era das Paquitas. Então, para variar eu pedi para ir pra gravação do programa pela última vez. Nós fomos e eu participei de quatro programas. Na gravação do primeiro, eu participei do desfile e fui na nave junto com a Xuxa. Quando estávamos na nave, eu comecei a chorar. Chorei muito! Aí eu disse para ela que ia ter que mudar novamente para Curitiba, que eu a amava muito, que eu ia escrever sempre para ela e que de vez em quando eu ia aparecer no programa... “Poxa, Roberta, logo agora que você ia ser Paquita? Logo agora que a Marlene te escolheu”. Eu fiquei quieta. Não falei nada e fui para casa. “Pai, a Xuxa falou que eu vou ser Paquita” “Roberta, é mentira! Que é isso, ela estava mentindo”. Eu pensei e falei que devia ser mentira mesmo. Nisso, minhas

amigas me chamaram pra voltar para o programa e eu fui. Quando chegamos lá, eu participei novamente da brincadeira do desfile e ganhei de novo. A Xuxa foi e disse que eu não poderia ganhar mais porque eu era hors concour. Aí eu comecei a chorar. Fiquei chateada e pensei: “Pô, a Xuxa sabe que eu vou pra Curitiba e não me deixa ganhar”. Fiquei chorando lá no meu cantinho. Ela veio, me puxou pra perto e começou a desfilar comigo. Nós rolamos no chão e fizemos caras e bocas. No intervalo da gravação, a Marlene falou pelo alto-falante geral do Teatro Fênix: “Xuxa, eu quero a Roberta como Paquita. Era ela que a gente estava procurando”. Aí eu dei aquela olhada sem rumo em volta, e a Marlene continuou: “Roberta, você quer ser Paquita?”. Eu não respondi na hora, e no final a Marlene voltou a me perguntar “Roberta, você quer ser Paquita?”. “Não, Marlene, eu não quero”. “Ué, por quê?”. “Não quero, porque meu pai foi transferido e a gente vai ter que mudar para Curitiba. Eu não posso ficar aqui. Não posso ser Paquita”. “Espera que eu vou falar com seu pai”. Ela chamou meu pai e disse: “Seu Paulo, o senhor quer que sua filha se torne uma Paquita?”. “Quero”. “Mas o senhor não vai para Curitiba?”. “Vou, mas largo tudo! Para realizar o sonho da minha filha, eu largo tudo”. “Ah, então o pai da Roberta vai ficar sendo o sapo”, disse a Marlene, dirigindo-se às pessoas de sua platéia, e referindo-se à coreografia nos shows da música do Sapo Pula-Pula (“Croc Croc”). Eu comecei a chorar. Como fui a primeira das ‘itas’ (Paquititas), teria que ser a Pituxita. Mas a Marlene queria que eu fosse a Catuxa II. A Xuxa disse que Catuxa II não. “Ela se parece com a Xiquita, vamos chamá-la de Xiquita II”. Ela ficou um tempo me chamando assim, até que resolveu que eu seria a primeira das ‘itas’. Paquitita, que quer dizer Pequena Paquita. E assim eu me tornei a Xiquitita, com onze anos de idade.

O PRIMEIRO BEIJO O primeiro beijo é, talvez para todos, um dos poucos momentos de nossa vida que guardamos para sempre. Com as Paquitas não poderia ser diferente. Por isso, usei esse tema para ilustar a inocência de meninas em tempos de Paquitas. -Ah, meu primeiro beijo foi demais!!! Com uma cara de muita, mas muita saudade, um olhar desviado para o teto, mãos se espremendo, Ana Paula suplicou: - Deixa eu contar? Todas consentiram, balançando suas cabeças e se ajeitando em seus lugares. Silêncio total e olhares convergidos para ela, que começa a contar. - Ainda me recordo bem. Minha maior dúvida era com relação à língua. Aliás, minha só não! Essa era a dúvida de quase todas as minhas amigas antes de darem seu primeiro beijo. O que eu deveria fazer com a minha língua? Colocar na boca do rapaz? Deixar na minha? E se ele colocar a língua dele na minha boca, o que faço? Resolvi o impasse com a ajuda de uma amiga, que me ensinou a ‘treinar’com uma uva, de preferência ‘moscatel’, bem grande. É simples, você dá uma mordidinha na uva e, segurando na ponta dos dedos, começa a sugá-la, encostando a língua na uva. Assim é que

acredita-se que seja o beijo de um príncipe. Doce, macio, úmido e, principalmente, puro e saudável, a ponto de ser inesquecível. Depois de ter treinado muito, chegou o grande dia. Ela decidiu dar o seu primeiro beijo. Tratou de resolver logo um problema: o menino.Arranjou um colega, bonitinho é claro, para ‘ficar’, digo, namorar. - Cara, foi muito legal. Ele estava mais nervoso do que eu, imagine só! Não perdi tempo. Arrumei uma uva e pronto. Ficamos um tempão nos beijando, com uma uva entre as duas bocas. Comemos uns dois cachos de uva. Foi o primeiro, o maior e o mais gostoso ‘beijo de uva’ que eu já dei na minha vida. Simplesmente demais! - Ai, que melação. Por isso que você andou meio gordinha, não é? - soltou seu veneno Roberta. - Beijo de arrepiar deu mesmo a Cátia. Conta aí, vai! - É, foi muito engraçado. Vou contar... - Espera aí! Engraçado para você. Coitado do menino, não sabia nem o que estava acontecendo - continuou Roberta. - Tudo bem, mas, você e a Priscilla sabiam de tudo. - Sabe o que foi? Dois meninos bonitinhos a beça, que freqüentavam as gravações do programa, nos convidaram para irmos ao Tivoli Park, na Lagoa - explicou Priscilla. - Nós, ‘vírgula’! - rebateu Cátia. Nesse momento, a Roberta, acalmando os ânimos só um ‘pouquinho’ abalados, explicou: - Eles tinham realmente convidado as três. Sabe como é? Tipo por educação, sem saber a confusão que poderiam arrumar. Eu tinha o meu. Elas que teriam de decidir quem iria ficar com o outro menino.APriscilla tinha que esperar duas amigas que queriam ir com ela ao passeio, sei lá, não me lembro bem, acho que moravam fora do Rio.

Em pé: Tatiana, Xuxa,Ana Paula e Priscillla.Abaixadas: Bianca e Roberta Bianca, Priscilla,Ana Paula e Xuxa

- Moravam não, moram. Elas ainda não se mudaram, e muito menos morreram. - Eu acho melhor eu contar a história. Se vocês deixarem, é claro. Afinal, o beijo foi meu. Certo? As meninas imediatamente ficaram em silêncio, o que era de se esperar. Disciplinadas como sempre quando o assunto é trabalho. O que era o caso naquele momento, por incrível que possa parecer. - Bom, nós chegamos no Tivoli e foi aquela coisa, né? A Priscilla ainda não tinha chegado com as amigas, a Roberta toda feliz com o cara que estava com ela. E eu suando frio cada vez que sentia vontade de atacar. Agora, vocês não vão acreditar! Eu tambem estava com medo da tal da língua. - Está vendo? Não sou só eu não - gritou eufórica Ana Paula, como se estivesse tirando um peso da sua consciência. - Cada vez que pensava na língua, inventava uma disputa entre os meninos, para que eu e a Roberta pudessemos conversar. “E aí, vamos beijar os garotos ou não, pô?”. “Aqui em público não, né?”. “Se não fosse a língua, eu ‘tacava’ um beijo nele aqui mesmo”. “Cátia, esse papo de língua está me cheirando é a medo mesmo”. “Eu hein, medo do quê?”. “Do quê eu não sei, mas se demorar muito a Priscilla vai chegar, e aí...”. “E aí o quê? Está querendo dizer o quê? Você acha que ele está a fim dela? Ou é ela que está a fim dele?Ah, não quero nem saber. Vamos para o Trem Fantasma, que com língua ou sem língua, no escurinho eu beijo”. - Gente, vocês tinham que ver a cara dela. Parecia que tinha visto um fantasma. Pegou o menino pela mão quando eles saíram da auto-pista depois de mais uma disputa e, sem explicar nada, saiu arrastando-o para o Trem Fantasma. Eu fui atrás para dar aquela força de amiga. - Deixa de ser mentirosa, Roberta. Você estava com um fogo danado, isso sim. - Cara, foi pior a emenda do que o soneto. Uma vez lá dentro, eu nem conseguia olhar para o lado. Fiquei parada como uma estátua, só sentindo um calor danado e o cheiro do perfume do menino, que era ótimo. Enquanto isso,

a Cátia no vagão de trás, quer dizer, acho eu, pois não tive coragem de olhar e me arriscar a dar de cara com um olhar romântico que eu não pudesse resistir. Se isso acontecesse, o que eu ia fazer com a maldita língua? - Nisso, chegamos ao final do Trem Fantasma e demos de cara com a Priscilla e suas amigas - prosseguiu Cátia. - Enquanto os rapazes cumprimentavam-nas, perguntei a Roberta: “E aí, foi bom pra você?”. “E você, beijou lá dentro?”. “Não”. “E agora, o que você vai fazer?”. “Não vou deixar barato, não. Daqui ele só sai depois de me beijar. Dá licença, Priscilla”. Não foi assim que aconteceu, Roberta? - Foi! - risos de todas. - Foi sim - continuou Cátia. - Me deu uma loucura, peguei na mão dele e o puxei para dentro do Trem Fantasma, novamente pra uma volta decisiva. As pessoas ficaram nos olhando sem entender nada. Mal o vagão do trem começou a andar, o menino foi logo me agarrando e me beijando, sem parar nem para respirar. Até a saída, onde todos nos esperavam curiosos. Saímos do brinquedo sem dar conta de ninguem. Corri em direção a ela, quase que em êxtase, gritando “Beijei! Beijei! Beijei!!!”. Roberta me abraçou e fomos embora juntas, deixando os meninos, a Priscilla e suas amigas sem entender nada do que estava acontecendo. Foi muito legal. - Calma aí, calma aí - interrompeu Roberta. - O que foi? - Você está esquecendo de contar a melhor parte. Está esquecendo que, quando você saiu, estava parecendo um palhaço de circo. Aliás, os dois estavam com as bocas completamente borradas daquele batom super vermelho, que eu não sei por que você passou antes. - Passei sim. Só pra ficar mais bonita, ué! Não posso? - Que coisa! Vê se pode? - disse Catú. - Vê se pode o quê? - Eu não me lembro do meu primeiro beijo. É mole? Depois dessa afirmação da Catú, perguntei às outras sobre os seus beijos. Todas lembravam-se, mas curiosamente acharam que essas duas histórias as representariam nesse ato único que é o primeiro beijo.

NAS ÁGUAS DO SUCESSO - Em Fortaleza, a Marlene entrou numa de testar nossa popularidade: “Meninas, vamos todas para a praia. Desçam com as camisetas, que eu quero testar a popularidade das Paquitas”. Fomos todas para a praia com a Marlene e os seguranças. Quando o povo viu a gente descendo a rua indo pra praia, correu em nossa direção e a Marlene gritou: “Não toquem nas minhas Paquitas! Não toquem nelas!”.Alguns fãs passavam as mãos nos nossos cabelos. “Tirem as mãos! Deixem as meninas”. Ela começou a ficar preocupada, mas resolveu levar a gente a praia assim mesmo. Chegando lá, nos disse para ficarmos despreocupadas, que ela iria ficar de guarda tomando conta da gente. Fomos para a água, e o povo que estava saindo do colégio, com uniformes, pastas, mochilas, etc. entrou na água com roupa e tudo mais. “Magno, vá até lá e traga as meninas para fora”, ordenou a Marlene. Foi muito engraçado, o Magno (atual chefe da segurança) teve que dobrar a calça comprida e entrar na água acompanhado dos seguranças e da Marlene para tirar a gente do meio dos fãs - lembrou Bianca. - Em Fortaleza, também num show das Paquitas sozinhas, resolvemos passear na praia - continuou Roberta. - Todas estávamos com roupas de noite, meio transparentes. Começamos a brincar de pique, jogando água uns nos outros, inclusive os seguranças. Mergulhamos e depois voltamos para o hotel encharcadas, com as roupas coladas nos corpos. Eu estava usando um macaquinho branco, imagina? Foi muito gostoso, cara! - Eu tinha doze anos, e nessa mesma praia estava ensinando para a Ana Paula a brincadeira de fazer um coração na areia com um pauzinho, escrever o nosso nome e o nome de quem a gente estava a fim ou do namorado e esperar a onda vir. Se ela apagasse o meu nome, era porque eu estava mais a fim do que ele; se apagasse os dois, era porque um estava a fim do outro. Se

não apagasse nenhum, era porque não ia dar em nada. Fui ensinando a uma por uma e quando acabei, a Cátia veio e me jogou dentro da água. Enquanto isso, as outras gritavam que era sacanagem e entravam correndo na água, seguidas por seguranças e algumas pessoas da equipe. Já passava das onze horas da noite - completou Juliana.

SER PAQUITA Ser Paquita es... ...ser parte de ese milenário sueño que hoy se realiza: hacer feliz la vida. Haber venido del Celestial Reino a ser, con hermosura y simpatía, figura angelical y compañia de uma princesa cósmica en la Tierra, que es arco-iris, arte y fantasía. Princesa cuyo pueblo son los niños y cuyo Rey es Dios, que en su camino, le puso almas vibrantes de cariño, y coronó de glória su destino de ser un sol radiante de dulzura, de magia, de energia, de ternura, e de ser luna llena de pasiones, romántica de sueños y emociones. Y ser Paquita es, junto con ella, ser en la Tierra una dorada estrella que ilumina la fé, las ilusiones,

Entrevista coletiva Entrevista coletiva

con música, color, baile, poesia; Y hacer vibrar de amor los corazones con infantilidad, con alegría. Claudio Omar Rodrigues Essa demonstração de amor por parte de um admirador argentino mostra o carinho que as meninas conquistaram nas suas viagens internacionais. Elas têm diversos fã-clubes por toda a América, graças ao amor e carisma delas. E foi justamente viajando que começaram a passar necessidades que nunca poderiam pensar que fossem acontecer. Até nas viagens para a Argentina, elas sofreram com o descaso da Marlene (hoje o principal motivo de disputas em processos trabalhistas com a Xuxa Produções). Depois de cortar a única refeição que seus funcionários ‘ilegais’ brasileiros tinham direito no hotel (pois até a água e o telefonema para suas famílias era pago a parte), nenhum dos agentes de segurança as acompanhava até algum restaurante, que por acaso, em Buenos Aires, não ficavam perto do Hotel Regente, onde estavam todos da equipe, muito cansados de gravar o dia inteiro, sem condições de sair do hotel para nada. Com exceção da Xuxa, da Marlene e dos seguranças em serviço, que, logicamente, estavam na casa argentina da Xuxa, longe da ‘turma’. Com isso, as meninas eram obrigadas até a esquentar sopa no ‘bidê’ da suíte. Sopa esta levada do Brasil por elas. Os argentinos, que as adoram, assim como diversos jovens em todo o continente americano, e que assistiam ao programa, jamais poderiam pensar que esse tipo de absurdo acontecesse. As Gêmeas chegaram a levar uma máquina de esquentar, que usavam em cima da cama para derreter queijo. Todas comiam muito queijo derretido e Alfajor (doce tradicional daArgentina), chegando a ficar inchadas. Depois, só broncas! Nas viagens nacionais, logo no início, iam de avião ou de ‘Paquimóvel’, uma veraneio cedida pela Chevrollet para transportar as meninas. Há algum tempo, elas viajam de ônibus de carreira ou não viajam, pois o ‘Paquimóvel’ primeiro serviu de transporte de carga da fazenda da Xuxa e depois desapareceu.

Entrevista coletiva

TRAPALHADAS E ‘MICOS’ INTERNACIONAIS El Negrón foi uma passagem cômica dentro de várias acontecidas nas viagens de Xuxa e sua equipe pelo mundo afora. Cátia, sempre que pode, causou problemas ao Silvão, na época chefe da segurança da Xuxa, hoje um dos reclamantes judiciais trabalhistas contra a Xuxa Produções. Quem relata o episódio é a Bianca. - Nós estavámos na Espanha ou em Porto Rico, eu não me recordo bem. Só sei que foi no ano de 1990. Estavámos saindo do hotel numa limusine. Marlene, quatro Paquitas e Xuxa. Silvão sempre falava que a Cátia não gostava dele, porque ela sempre pegava no pé dele e todos nós sabíamos disso. Na hora que o carro começou a andar, a Marlene olhou para todos e disse: “Ué, está faltando alguém”. “Que é isso, não está faltando ninguém, imagina”. “Está faltando alguém”. Ela contou as Paquitas, a Xuxa, e, de repente, Cátia começou a gritar: “Pare! Pare! Falta El Negrón! Pare! Pare!”. Nos danamos a rir sem parar, enquanto o motorista ficou sem saber o que estava acontecendo. “Que passa? Que passa?”. Nós continuamos a rir, sem conseguir explicar o que estava acontecendo para o motorista, que parou sem entender nada. Nessa época, nós não sabíamos quase nada em espanhol. Quando olhamos para fora, vinha aquele negão de três metros de altura por dois de largura correndo atrás do carro. Ele tinha ido comprar um souvenir nas lojas do hotel. E nós, por incrível que pareça, tínhamos esquecido dele. - Quando fomos a Miami (Estados Unidos) pela primeira vez, inclusive para Xuxa, fomos eu (Roberta), Xiquita (Andrea Faria), Pituxa (Letícia Spiler) e a Pituxita (Ana Paula Almeida). Isso foi no final de 1989. Ficamos num hotel, que naquela época era dos mais luxuosos e que tinha uma dessas máquinas de refrigerante da Pepsi, que só chegaram aqui há pouco tempo e e pra gente era uma novidade. Nós nunca tínhamos ido a um lugar assim,

Cátia, Priscilla e Juliana Da esquerda para a direita: Cátia, Priscilla , Roberta e Juliana

moderno. “Ai, gente, adorei essa máquina. Por favor, Magno, me dá setenta e cinco centavos (U$ 0,75), que eu quero experimentar”. Aqui no Brasil não existia essa onda de importados. Eu ainda tinha aquele meu ‘probleminha’ de falar com a língua presa. O Magno me deu o dinheiro e perguntou “Você vai aonde?”. “Vou comprar uma Pepsi (com a língua presa)”. “Vamos lá, eu te ajudo a pegar na máquina”. “Vamos embora”.Aí foi todo mundo pra máquina e eu perguntei pra ele como é que era. “Olha, você tem que fazer o seguinte: você pega o dinheiro, coloca na máquina e grita o nome do refrigerante que você quer”. Na época, eu queria o novíssimo Diet Pepsi. Estavam todos reunidos, camareira, faxineiro, etc. Eu coloquei a moedinha na máquina e comecei a gritar: “Diet Pepsi” (com a língua ainda presa) várias vezes. O Magno então chegou para mim e disse que eu tinha que gritar mais alto, porque a máquina não estava me ouvindo. E eu, burra, ingênua, treze anos de idade, continuei: “Diet Pepsi! Diet Pepsi!”. Gritei ainda mais alto, na frente de todo mundo, foi um riso geral. O Magno continuou a me enganar, pedindo para eu falar mais alto ainda. Pensei então: “Vou tirar o Diet, porque posso não estar conseguindo falar direito por causa da minha língua presa”. “Pepsi! Pepsi”. “Mais alto”, disse o Magno. “Pepsiii! Pepsiii!”. “Espera aí, vou te ajudar”, disse o Magno, se aproximando da máquina e, sem deixar que eu precebesse, apertou o botãozinho e ao mesmo tempo batendo com a mão nela, liberando a latinha de Pepsi. “Puxa, Magno, você conseguiu, hein?” “Pois é, Roberta, a máquina estava com defeito”. Fiquei toda feliz com a minha latinha. Até que a Ana Paula chegou na máquina, colocou moedinha e ficou gritando: “Coca-Cola! Coca-Cola!”. E apertou o tal botão e pegou a latinha. Então eu cheguei para ela e perguntei: “Ana, por que você apertou essa paradinha?”. “Ué, para sair a latinha tem que apertar o botão”. “E por que você ficou gritando?”. “Ah, queria te imitar”. Eu não achei graça nenhuma, e não falei nada para a Xuxa nem pra mais ninguém. Depois, de volta para o Brasil, nós fomos para o Domingão do Faustão. E para minha surpresa, a Xuxa contou ao vivo o meu mico para todos. Fiquei passada. Em abril de 1991, as Paquitas mais novas viajaram para LosAngeles para o lançamento do disco em espanhol da Xuxa nos Estados Unidos. Foram Roberta, Juliana, Priscilla e Cátia. Todas com menos de quinze anos de idade. Receberam como presente um passeio à Disney, com o Berry controlando-as para que não tirassem fotos. Uma noitada em uma boate no dia do aniversário da Marlene e uma tarde de pichação com lápis piloto na famosa Calçada da

Fama com a Xuxa. Já em Nova Iorque, foi a vez de desafiar as leis de trânsito. As meninas foram autorizadas a dirigir um dos carros da Xuxa. De volta a LosAngeles, foi a vez do nosso fiel amigo, o Silvão, pagar o seu mico. Ao misturar inglês com portuquês, ele pediu em uma lanchonete “Tem milk?”. E foi prontamente servido com dez (ten) copos de leite, para a gargalhada geral. Elas também foram fazer uma apresentação na entrega do Disneylândia. Da esquerda para a direita: Berry, Silvão, Cátia, Juliana, Roberta e Priscilla

prêmio Grammy, e a melhor parte do evento foi o traje da Marlene: terno social com gravata borboleta e gel no cabelo. Completamente de ‘vanguarda’ para o tradicional prêmio norte-americano. - Nós fomos a uma entrevista em Miami e não falávamos muito bem o espanhol. Era a segunda vez que a Xuxa ia para Miami, e nos disse que era pra respondermos com pequenas frases, tipo: “Mucho gusto”, “plazer”, etc. - contou Priscilla. - Como nós não sabíamos falar coisa nenhuma, fiquei dentro do meu quarto só ensaiando, treinando ‘portunhol’: “Mucho gusto”, “mucho gusto”, “mucho gusto”... Quando chegou a hora da entrevista, todas riram de mim, dizendo que com ‘muito custo’eu tinha aprendido ‘mucho gusto’.As meninas contaram para a Andrea Faria, que contou pra Xuxa, que contou pra todo mundo, mais uma vez, no Domingão do Faustão - lembrou Cátia.

MENSAGEM Xuxa eAna PaulaAlmeida

Quarta-feira, 19 de outubro de 1994. Fizemos nesse dia a leitura das primeiras páginas desse livro, sem a presença da Ana Paula Almeida. Ela não pode comparecer, pois tinha um compromisso na sua igreja. Alguns de nós pensaram na possibilidade de que ela estivesse com dúvidas. Ela estava bem mais próxima da Xuxa ultimamente, mas por outro lado estava se aproximando de Deus. Ela sempre me pareceu a mais sonhadora de todas. Seus olhos sempre se encontraram distantes quando conversávamos, tanto de coisas boas quanto de ruins. Para seus olhos, o sonho continuava vivo e forte como um fogo eterno de amor. Talvez isso também possa ser um efeito causado pela abertura espontânea do seu coração para a religião, para Deus. Tento compreendê-la, penso nas desilusões as quais poderíamos passar em conseqüência dessa ou de outra história qualquer que trate de fatos reais, sem capa, sem qualquer tipo de compromisso a não ser a verdade. Mas na vida temos que ter coragem para agarrar as oportunidades, que sem dúvida nenhuma nos são dadas por Deus. As desilusões, os momentos difíceis poderão acontecer, mas serão passageiros. Só nos restará a satisfação imensa de ter conseguido realizar o sonho de ser livre, independente. Todavia, se nos intimidarmos, estaremos renunciando ao que nosso Deus nos ofereceu. O dom sagrado de crescer externa e internamente. Sem dúvida, nos arrependeremos e veremos que a vida passou ao longe, levando consigo os nossos sonhos. E nós, sem nenhuma explicação, vivemos os sonhos dos outros como se fossem os nossos.

JANTARES, CONVITES E FESTAS No final de 1993, na Argentina, aconteceu um curioso jantar na casa da Xuxa, com a presença de convidados ilustres argentinos e do Brasil. Entre eles, estava a estrela da música latina Mercedes Sosa. Marlene ordenou às meninas que comparecessem vestindo calca Lee, camiseta e boné da Arisco. Elas estavam super cansadas, pois tinham gravado até tarde nos últimos dias, e queriam mesmo era ficar no hotel dormindo e descansando. Mas tinham que obedecer e foram até a casa argentina da Xuxa . - Foi muito engraçado. Nós ficamos desde as três horas da tarde até as nove horas da noite do lado de fora da casa. Aliás, ficaram sete do lado de fora, junto aos seguranças e aos repórteres. Somente a Juliana pode participar, junto à mesa com os convidados ‘finíssimos’, fazendo um contraste total com sua roupa de ‘plebéia’. Tivemos que disputar uma lingüiça com os seguranças para comermos com pão. E tudo isso debaixo de um frio insuportável. Chegamos a tremer de frio e de fome. Além de estarmos do lado de fora da casa, estava caindo uma garoa fina, e a grama toda molhada, nos obrigando a dividir um banco de ferro, daqueles de jardim. E a gente ali, só babando com as bandejas cheias de comida, com aquele cheirinho… Os convidados só se divertindo e comendo, e nós óóó!!! - Teve um pãozinho com não sei o quê, que foi o bicho. Saímos avançando e ele acabou ‘rapidinho’ - lembrou Roberta. - Eu sei que é falta de educação comer à mesa usando boné na cabeça. Pedi a Marlene para tirar e ela não deixou. Tive que comer vestida de calça Lee, camiseta e boné no meio de convidados ilustres, super bem vestidos, super educados - contou Juliana.

- É, mas você se deu bem, pode comer paella na sala, na hora, fresquinha… Nós só comemos o resto, depois que todos tinham comido bastante - disse Bianca. - Hummm, mas aquele pãozinho… - continuou viajando nos canapés a Roberta. - Era pra todo mundo, sabia? E eu não comi - reclamou Ana Paula. - Isso é verdade. Eu estava cochilando e escutei aquela coisa assim: “Pipoco, frango, chichonucci…”. Avançou todo mundo. “Dá um pedacinho, pelo amor de Deus” - disse Flávia, seguida de risos intensos de Ana Paula, Menem: jantar em sua casa

que não parou mais. - Quando chegaram as paellas para as meninas, trazidas pela Maria (governanta da Xuxa), a Marlene veio comer do lado de fora. - Também... Não sabe comer churrasco à mesa com tanta gente fina, né? - apimentou Juliana, com mais risos desenfreados de Ana Paula. - Gente, e aquele jantar na casa do Menem (presidente daArgentina)? Nesse dia a Xuxa nem veio falar com a gente - lembrou Bianca. - Ela falou sim. “Oi, meninas”, e foi entrando. Nem parece que trabalhamos com ela tantos anos. No programa, ela fala com todo mundo, inclusive o Marlboro (DJ), que nos adoramos, ele é uma gracinha de pessoa, mas entrou para o programa agora. Ela vai até ele e conversa. Já com a gente é no máximo: “Oi, meninas” - criticou Roberta. - Numa gravação feita em agosto de 1994, a Xuxa ficou olhando para fotos antigas com um certo ar de desencanto. Ela olhava para a gente e olhava para as fotos com saudade do nosso tempo de criança pequena. Numa viagem a Salvador (Bahia), ela chegou para gente e falou: “Como vocês cresceram”. Não sabemos o motivo da decepção dela em relação a tomarmos o rumo de vida normal de cada ser vivo. Nós continuamos gostando muito dela. Também teve um dia que eu, Cátia eAna Paula estavamos dentro do banheiro do camarim, quando ouviram uma voz familiar e foram ver quem era. Surpresas, demos de cara com a Xuxa, que tinha ido ao camarim apenas para levar flores para as Gêmeas. E nós, nada! Pô, isso machuca a gente, cara! Quando nós entramos, era um dengo só por parte da Xuxa. A Marlene, embora grosseira como sempre, ligava para nossas casas convidando para passarmos uns dias com a Xuxa. Um dia, ela ligou para a Catú e falou: “E aí, Catú? É a Marlene”. “Oi, Marlene, tudo bem?”. “Você quer ir para a fazenda com a Xuxa?”. “Espera aí, Marlene…”. “Espera aí não! Eu estou querendo saber se você quer ir ou não”. “As meninas também vão estar lá?”. “Eu estou querendo saber se você vai ou não. Se elas vão estar lá, eu não sei”. “Não, não quero ir não. Eu vou para Macaé ficar com a minha mãe”. “Está bem”. Desligou. Ela não quis saber de nada, como sempre sequer deu um ‘bom dia’. Foi seca e objetiva. Já aconteceu algo parecido comigo. A Marlene ligou para a minha casa e falou: “Eu já liguei para a Priscilla e ela não sabe se vai, e você?”. “Olha, Marlene, eu não quero ir, porque vou passar o reveillon com meus pais. Eu já prometi a eles”. - Engraçado é que quando ligou para mim, ela falou: “Eu hein, menina! Você fala muito, não sai do telefone. Estava falando com quem? O telefone

da Roberta estava ocupado o tempo todo também. Você estava falando com ela? Vocês conversam muito, hein? Você vai para Angra dos Reis com a gente?”. “Sabe o que é? Eu prometi a minha mãe que vou passar com ela, não vou deixá-la aqui, sabe como é?” - contou Priscilla. - Eu disse para a Marlene que iria passar as festas de fim de ano com meus pais, meu irmão e meus amigos, e com a Priscilla e os pais dela também. “É isso aí! Já tem tanto baba-ovo em volta da Xuxa que é melhor vocês aproveitarem com seus amigos e com seus pais mesmo. Divirtam-se”. Ela fala isso, mas é ela mesma quem chama as pessoas para ficarem em volta da Xuxa, fazendo palhaçadas para ela se divertir. Ela não gosta de ver a Xuxa sozinha para não ficar com a consciência pesada, pois ela sabe que é responsável pela tristeza da Xuxa, deixando só quem lhe interessa chegar perto, não respeitando a liberdade da Xuxa de ter seus próprios amigos. Ela faz com que a Xuxa abdique de muitas coisas que ela gostaria de fazer na vida. Foi uma desilusão para a Marlene quando ela percebeu que nós estávamos dando mais valor para a nossa família do que para aquela obrigação que o nosso trabalho exigia, de estar sempre fazendo as vontades particulares dela. Até porque quando íamos às festas, elas só davam atenção para os mesmos. Fafi (Siqueira), Andréa Veiga, Gêmeas... E nós ficávamos juntas num canto qualquer, sem atenção nenhuma. No sítio da Marlene, teve uma pessoa que pediu para a gente dançar para os convidados da festa. Nos negamos e essa pessoa chegou para a gente e falou: “É por isso que a Marlene está decepcionada com vocês. Ela disse que vocês não são mais as meninas que eram antigamente. E é por isso que as Gêmeas estão no lugar que estão. Elas sabem fazer a Xuxa rir e chorar. Vocês cresceram, não sabem mais fazer isso” - continuou Roberta.

A REUNIÃO Posso afirmar, com absoluta certeza, que a reunião convocada por Marlene Mattos na sede da Xuxa Produções, na Barra da Tijuca, no início de março de1994 foi até hoje o momento de pior lembrança para as meninas. Ela foi lembrada em praticamente todas as vezes que estivemos juntos, trabalhando. Mas o que certamente chamou a atenção para o qu

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