Simbologia2

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Published on May 6, 2014

Author: armindagoncalves

Source: slideshare.net

Memorial do Convento SIMBOLOGIAS Baltasar e Blimunda A derreter um pouco o bloco de gelo que foi a actuação da sua personagem Blimunda em público num momento tão dramático como o da despedida da mãe, o narrador vê-se na necessidade de revelar o lado oculto da sua sensibilidade. (…). A Baltasar é que estes olhos não são indiferentes, não pela sua cor, versátil conforme o estímulo, mas pela penetração profunda, hiperbolicamente singular (…). Nesta primazia semiótica do olhar, em detrimento da palavra, o silêncio é o canal que permite uma comunicação em profundidade, através de gestos simples como o deixar a porta aberta, o sentar-se, o acender o lume na lareira, o servir a sopa, o esperar pela colher do homem escolhido para a levar à boca. É neste jogo pantomímico que surge a sugestão de um original rito de casamento, embora como uma mera hipótese narrativa (…). Então na ambiguidade entre o ser e o parecer, o acontecer e o sonhar, a bênção do padre, sem exigências canónicas proclamas, testemunhas, ou outras, confirma o que parece a expressão tácita da vontade de casar (…). Só depois vem o namoro, o noivado e a noite nupcial, novamente sob o signo eloquente do silêncio, entrecortando algumas breves conversas que quase mais não fazem do que esclarecer, em função metalinguística, a capacidade intercomunicativa do silêncio (…). O convite mágico do encantamento, numa simplicidade despojada de quem nada espera em troca, arrasa o pícaro andarilho (…). O ritual da iniciação sexual tem a naturalidade de um casal actual, ma também a profundidade cultural de uma personagem crente ou supersticiosa que a nossa época, na ânsia de tudo desmitizar, tem dificuldade em entender (…). Só na manhã seguinte, ao ver Blimunda a comer de olhos fechados, Baltasar intuiu quão misteriosa era aquela mulher. António Moniz, Memorial do Convento in Os Sinais e os Sentidos- Literatura Portuguesa do sec XX, Ed Caminho A mãe da pedra Uma outra situação-acontecimento de cariz mítico em Memorial do Convento constitui-se com a gesta heróica, epopeica, do transporte da pedra gigante de mármore, a mãe da pedra, de Pêro Pinheiro para Mafra. Desde o início, a narração anormaliza as situações descritivas: o tamanho gigantesco da pedra, o carro especialmente construído para o seu transporte (uma “nau da índia”), as duzentas juntas de bois e os seiscentos homens necessários para as puxarem, os difíceis obstáculos do caminho. Como que imitando a narrativa de heróis clássicos, anunciam-se os “trabalhos” fabulosos que terão de ser contornados e o esforço imperioso, mais do que humano, que terá de ser despendido. Porém, neste capítulo, o herói mítico constitui-se na totalidade do povo trabalhador, numa saga que envolve uma nação completa, sem protagonismos individuais senão aqueles que já se demarcavam como personagens centrais deste episódio ( os amigos de Baltasar; Manuel Milho, Francisco Marques, José Pequeno…) Assim, o narrador engenha uma descrição original, a qual é a de usar um nome próprio para cada letra do alfabeto para designar… tudo quanto é vida, sobretudo se atribulada, principalmente se miserável… E desenvolvendo o paralelismo temático antitético abundantemente usado em Memorial do Convento, o narrador não só opõe socialmente os que concebem e mandam, os que têm caput (caput, capitis, cabeça, étimo de capital, capitalismo) àqueles que fazem a opus (opus, operis, étimo de operariado, os que fazem a obra, o trabalho), como opõe igualmente uma ética do corpo leitoso, branco e perfeito, à ética dos miseráveis que possuem um corpo não embelezado, que suportam naturalmente as doenças que têm e se resignam a ser o que são, ainda que no seu interior sempre nasça a vontade de ser outra coisa. Miguel Real, in op.cit

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