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Roteiro americano

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Information about Roteiro americano

Published on March 10, 2014

Author: luaraschamo

Source: slideshare.net

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Chega de Saudade Luiz Bolognesi São Paulo, 2008 Chega de Saudade miolo.indd 3 30/6/2008 17:00:16

Coleção Aplauso Coordenador-geral Rubens Ewald Filho Governador José Serra Imprensa Oficial do Estado de São Paulo Diretor-presidente Hubert Alquéres Chega de Saudade miolo.indd 4 30/6/2008 17:00:16

Apresentação A relação de São Paulo com as artes cênicas é muito antiga. Afinal, Anchieta, um dos fundado- res da capital, além de ser sacerdote e de exercer os ofícios de professor, médico e sapateiro, era também dramaturgo. As 12 peças teatrais de sua autoria – que seguiam a forma dos autos medie- vais – foram escritas em português e também em tupi, pois tinham a finalidade de catequizar os indígenas e convertê-los ao cristianismo. Mesmo assim, a atividade teatral somente se desenvolveu em território paulista muito len- tamente, em que pese o marquês de Pombal, ministro da coroa portuguesa no século 18, ter procurado estimular o teatro em todo o império luso, por considerá-lo muito importante para a educação e a formação das pessoas. O grande salto foi dado somente no século 20, com a criação, em 1948, do TBC –Teatro Brasileiro de Comédia, a primeira companhia profissional paulista. Em 1949, por sua vez, era inaugurada a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, que mar- cou época no cinema brasileiro, e, no ano seguin- te, entrava no ar a primeira emissora de televisão do Brasil e da América Latina: a TV Tupi. Estava criado o ambiente propício para que o teatro, o cinema e a televisão prosperassem Chega de Saudade miolo.indd 5 30/6/2008 17:00:16

entre nós, ampliando o campo de trabalho para atores, dramaturgos, roteiristas, músicos e téc- nicos; multiplicando a cultura, a informação e o entretenimento para a população. A Coleção Aplauso reúne depoimentos de gente que ajudou a escrever essa história. E que conti- nua a escrevê-la, no presente. Homens e mulhe- res que, contando a sua vida, narram também a trajetória de atividades da maior relevância para a cultura brasileira. Pessoas que, numa lin- guagem simples e direta, como que dialogando com os leitores, revelam a sua experiência, o seu talento, a sua criatividade. Daí, certamente, uma das razões do sucesso des- ta Coleção junto ao público. Daí, também, um dos motivos para o lançamento de uma edição especial, dirigida aos alunos da rede pública de ensino de São Paulo e encaminhada para 4 mil bibliotecas escolares, estimulando o gosto pela leitura para milhares de jovens, enriquecendo sua cultura e visão de mundo. José Serra Governador do Estado de São Paulo Chega de Saudade miolo.indd 6 30/6/2008 17:00:16

Coleção Aplauso O que lembro, tenho. Guimarães Rosa A Coleção Aplauso, concebida pela Imprensa Ofi- cial, visa a resgatar a memória da cultura nacio- nal, biografando atores, atrizes e diretores que compõem a cena brasileira nas áreas de cinema, teatro e televisão. Foram selecionados escritores com largo currículo em jornalismo cultural, para esse trabalho em que a história cênica e audio- visual brasileiras vem sendo reconstituída de maneira singular. Em entrevistas e encontros sucessivos estreita-se o contato entre biógrafos e biografados. Arquivos de documentos e imagens são pesquisados, e o universo que se reconstitui a partir do cotidiano e do fazer dessas persona- lidades permite reconstruir sua trajetória. A decisão sobre o depoimento de cada um na pri- meira pessoa mantém o aspecto de tradição oral dos relatos, tornando o texto coloquial, como se o biografado falasse diretamente ao leitor. Um aspecto importante da Coleção é que os resul- tados obtidos ultrapassam simples registros bio- gráficos, revelando ao leitor facetas que também caracterizam o artista e seu ofício. Biógrafo e biografadosecolocaramemreflexõesqueseesten- deram sobre a formação intelectual e ideológica do artista, contextualizada naquilo quecaracteriza e situa também a história brasileira, no tempo e espaço da narrativa de cada biografado. Chega de Saudade miolo.indd 7 30/6/2008 17:00:16

São inúmeros os artistas a apontar o importante papel que tiveram os livros e a leitura em sua vida, deixando transparecer a firmeza do pensamento crítico ou denunciando preconceitos seculares que atrasaram e continuam atrasando nosso país. Muitos mostraram a importância para a sua formação terem atuado tanto no teatro quanto no cinema e na televisão, adquirindo, portanto, linguagens diferenciadas – analisando-as com suas particularidades. Muitos títulos extrapolam os simples relatos bio- gráficos, explorando – quando o artista permite – seu universo íntimo e psicológico, revelando sua autodeterminação e quase nunca a casualidade por ter se tornado artista – como se carregasse desde sempre, seus princípios, sua vocação, a complexidade dos personagens que abrigou ao longo de sua carreira. São livros que, além de atrair o grande público, interessarão igualmente a nossos estudantes, pois na Coleção Aplauso foi discutido o intrincado processo de criação que concerne ao teatro, ao ci- nema e à televisão. Desenvolveram-se temas como a construção dos personagens interpretados, bem como a análise, a história, a importância e a atua- lidade de alguns dos personagens vividos pelos biografados. Foram examinados o relacionamento dos artistas com seus pares e diretores, os proces- sos e as possibilidades de correção de erros no exercício do teatro e do cinema, a diferença entre esses veículos e a expressão de suas linguagens. Chega de Saudade miolo.indd 8 30/6/2008 17:00:16

Gostaria de ressaltar o projeto gráfico da Coleção e a opção por seu formato de bolso, a facilidade para ler esses livros em qualquer parte, a clareza e ocorpodesuasfontes,aiconografiafartaeoregis- tro cronológico completo de cada biografado. Se algum fator específico conduziu ao sucesso da Coleção Aplauso – e merece ser destacado –, é o interesse do leitor brasileiro em conhecer o percurso cultural de seu país. À Imprensa Oficial e sua equipe coube reunir um bom time de jornalistas, organizar com eficácia a pesquisa documental e iconográfica e contar com a disposição, o entusiasmo e o empenho de nossos artistas, diretores, dramaturgos e roteiristas. Com a Coleção em curso, configurada e com identida- de consolidada, constatamos que os sortilégios que envolvem palco, cenas, coxias, sets de filma- gem, cenários, câmeras, textos, imagens e pala- vras conjugados, e todos esses seres especiais – que nesse universo transitam, transmutam e vivem – também nos tomaram e sensibilizaram. É esse material cultural e de reflexão que pode ser agora compartilhado com os leitores de todo o Brasil. Hubert Alquéres Diretor-presidente da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo Chega de Saudade miolo.indd 9 30/6/2008 17:00:17

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O Tema do Filme Chega de Saudade Sempre gostei de dançar. Sou de uma geração que recuperou o gosto pelos bailes. Peguei uma boa fase onde se dançava brega e forró. Fre- qüentei muitas casas em que a gente dançava ao som ao vivo de pequenas bandas. Jamais vou esquecer o Panelinha Baiana, onde os garçons que trabalham na Vila Madalena iam dançar às segundas. Descobri esse mesmo frisson nos bai- les tradicionais, com repertórios mais variados e bandas sofisticadas. Antes mesmo do filme Chega de Saudade ser um projeto bem definido, uma coisa já era certa para mim: o meu segundo longa-metragem teria o salão de dança como personagem. Mais do que uma locação, o salão União Fraterna, onde o filme foi rodado, em São Paulo, é personagem de Chega de Saudade. O salão de dança é um mosaico de personagens fantásticos. O desejo pulsa em cada corpo. O charme e a sensualidade transbordam. Mas tudo isso esconde sombras de melancolia, solidão, avareza. Enfim, sempre senti nos salões de baile uma metáfora da vida. Meu desafio era tentar fazer um filme aparentemente singelo e despre- tensioso como os bailes, mas com a profundidade e os conflitos humanos se revelando lentamente, sem golpes abruptos. 11 Chega de Saudade miolo.indd 11 30/6/2008 17:00:17

Uma mulher me disse que ao assistir ao filme se sentiu como se tivesse ido ao baile. Que foi como se conhecesse cada um dos personagens, inclusive os menores. E que se sensibilizou com os sentimentos retratados nas pequenas histórias que se desenrolam numa noite de dança. Isso me soou como o maior dos prêmios. A meu ver, este filme é feminino. Aborda questões universais, mas de um ângulo próprio das mulhe- res. Você ganha, você perde. E para ganhar, muitas vezes tem de ceder em algo. Neste contexto, existe a verdade da esposa, e a verdade da amante. A razão da casada, e a da solteira. A glória da arro- jada e a da tímida. Sem certo e errado. O que me encanta no povo dos bailes é que eles procuram a chance de terem momentos felizes. Elas têm uma atitude de ir para a rua, de sair do casulo. Chega de Saudade pretende oferecer ao especta- dor a chance de ser uma mosquinha que pode se aproximar de uma mesa e ouvir segredos ditos ao pé de ouvido, ou a conversa de duas mulheres em frente ao espelho. Ele permite uma gostosa visita ao mundo dos bailes. Que é uma festa com muitos atrativos e emoções, sensualidade e libido. Laís Bodanzky 12 Chega de Saudade miolo.indd 12 30/6/2008 17:00:17

Como a Idéia Virou Filme A idéia do filme Chega de Saudade nasceu no final da tarde de uma quarta-feira quando Laís e eu fomos ao Clube Piratininga tomar uma cerve- jinha, ver os casais dançarem e ouvir a Orquestra Tabajara tocando ao vivo seus naipes de metal. Havia um delicioso mistério naquele lugar. Ho- mens e mulheres com roupas coloridas, na sua grande maioria entre cinqüenta e setenta anos, dançavam, flertavam e papeavam como adoles- centes. O contraste entre a idéia de finitude e a vontade de viver pulsava em cada corpo. E diante do eterno conflito entre eros e tanatos, aqueles corpos moviam-se com elegância e sabedoria ao som dos mais variados ritmos, afirmando uma opção maravilhosamente sublimada pela arte. Claramente, a beleza desse lugar não está em vo- lumes siliconados, narizinhos arrebitados, nem na beleza efêmera da juventude. Pulsa na sabedoria dos corpos, na postura das colunas, na graça dos movimentos de pernas e braços. Sorrisos e gar- galhadas pipocam em todo canto. Contudo, con- forme a noite vai avançando, novos contornos da existência vão se revelando, nota-se uma pequena melancolia aqui, uma situação ridícula ali, uma maldade sendo feita acolá. O salão de baile é uma manifestação exuberante de humanidade. Se levarmos em consideração a afirmação de Camus de que o suicídio é a única questão filo- sófica verdadeira, os bailes nos oferecem muitos 13 Chega de Saudade miolo.indd 13 30/6/2008 17:00:17

elementos de reflexão entre uma dança e outra. Até chegarmos à conclusão de que todas as res- postas estão na própria dança, muitas indagações e contradições passam na nossa frente junto com o garçom equilibrando garrafas em sua bandeja. Uma das coisas mais libertadoras que se percebe nos bailes é a diversidade de sapatos, vestidos, opiniões e pontos de vista. Há o ponto de vista da esposa, da amante, do viúvo, do filho, do pai, de quem que namorar, quem só quer dançar, de quem usa longo e quem usa sainha rodada com pouco mais de um palmo. O que é impressionan- te é que tudo isso podemos sentir nos primeiros quinze minutos. E por mais que a nossa atitude seja de permanecer isolado, como um frio e dis- tante observador da vida, sem nos comprometer- mos com ela, acabamos levados de roldão para o cerne dos acontecimentos. Basta que um senhor esbelto, que baila maravilhosamente pelo salão, visivelmente disputado pelas damas, aproxime-se e peça licença para dançar com a dama que está em sua companhia, para que a imparcialidade se extinga instantaneamente. Ainda mais se a dama que lhe acompanha sorri para aquele velho em três minutos de dança mais do que sorriu para você nos três últimos dias. Melhor ir ao banheiro, melhor não pensar. Eis que no ca- minho, duas senhoras que podiam ser suas tias, olham dentro dos seus olhos com a sensualidade de monalisas, desafiadoras e instigantes, no alto de seus decotes surpreendentemente atraentes, 14 Chega de Saudade miolo.indd 14 30/6/2008 17:00:17

ainda que sexagenários. Uau, quanta coisa em quinze minutos. Eu e Laís sempre achamos que a coisa mais importante para se fazer um filme é a vontade de expressar alguma coisa que é tão forte, que se não realizarmos a expressão dessa vontade, melhor seria não fazer mais nada. Assim, a partir daquele fim de tarde em que a cida- de fervilhava na hora do rush e nós descobríamos um novo mundo dentro dos salões, começamos a trabalhar a idéia de um filme. Doze anos se passa- ram entre essa tarde e a noite em que o Chega de Saudade foi projetado pela primeira vez no Festi- val de Brasília. E se tem alguma coisa que ganhou com essa passagem de tempo, foi o roteiro. Um bom roteiro deve envelhecer na gaveta. Costumo dizer que um roteiro se escreve com os ouvidos. Nunca me esqueço de uma palestra do Marçal Aquino onde ele contou que gosta de andar por botecos e ruas ouvindo conversas e seguindo pessoas, e que, depois, diálogos e personagens dos seus livros e roteiros nascem dessas andanças. Sigo esse método. Além de bisbilhotar, ler também faz parte do mé- todo de escrever com os ouvidos. Devoro tudo que encontro com temas que tangenciam o assunto do trabalho. No caso de Chega de Saudade, encontrei o sentimento central numa idéia que Simone de Beauvoir escreveu no livro A Velhice. Diz ela: a ve- lhice é particularmente difícil de assumir, porque 15 Chega de Saudade miolo.indd 15 30/6/2008 17:00:17

sempre a consideramos uma espécie estranha: será que me tornei, então, uma outra, enquanto permaneço eu mesma? Ela continua: em mim, é o outro que é idoso, isto é, aquele que eu sou para os outros: e esse outro sou eu. O que ela está dizendo, em filosofês de primeira, é que nós sem- pre nos sentimos os mesmos jovens, são os outros que nos apontam a velhice e exigem que usemos a máscara de velhos. Isso me lembra aquela situa- ção típica por que passamos quando encontramos um antigo amigo do ginásio: nossa como ele está gordo, careca e velho, pensamos, acreditando que continuamos iguais. Claro, ficamos anos sem vê-lo e isso torna óbvio as marcas do tempo, enquanto com a nossa imagem fomos nos acostumando em doses homeopáticas de espelho diário. Simone fala isso de modo bem mais bonito: Nenhuma impressão sinestésica nos revela as involuções da senescência; a velhice aparece mais claramente para os outros, do que para o próprio sujeito. Mais para frente ela completa: Se, aos vinte anos, nos fizessem olhar num espelho o rosto que teremos ou que temos aos sessenta anos, comparando-o ao dos vinte, cairíamos para trás e teríamos medo dessa figura; mas é dia após dia que avançamos; estamos hoje como ontem, e amanhã como hoje, assim avançamos sem sentir. Aí chega outro e lhe atira a velhice na cara. Dói, diz Simone. Ela relata que certa vez uma amiga de sessenta anos lhe contou que atraiu um homem por sua silhueta magra e esbelta, mas quando ele viu seu rosto, 16 Chega de Saudade miolo.indd 16 30/6/2008 17:00:18

apertou o passo, afastando-se rapidamente. Não é uma sensação das mais agradáveis por que passa uma mulher na vida. Simone conta dela mesma: Eu estremeci, aos 50 anos, quando uma estudante americana me relatou a reação de uma colega: Mas então, Simonme de Beauvoir é uma velha! Toda uma tradição carregou essa palavra de um sentido pejorativo – ela soa como insulto. Aí está do que queria tratar Chega de Saudade. A questão que se colocava era como eu poderia mer- gulhar águas profundas da imensidão feminina, sendo apenas um menino. Sou obrigado a confes- sar que Adélia Prado ajudou muito. Escrevia com Adéliasempreporperto.Umdiaelamedizia:Jesus tem um par de nádegas, noutro: Os casamentos são tristes porque externam, à vista de testemu- nhas, a mais funda ânsia de perenidade. Teve um dia que ela me saiu com um, tão desconcertante quanto surpreendente, depoimento, ainda mais para uma católica temente a Deus: De tal ordem é e tão precioso o que devo dizer-lhes, que não posso guardá-lo sem que me oprima a sensação de um roubo: cu é lindo! Fazei o que puderdes com essa dádiva. Quanto a mim, dou graças pelo que agora sei e, mais que perdôo, eu amo. Além de Adélia, Memória e Sociedade, da Eclea Bosi, A viagem vertical, de Enrique Vila-Matas, Memento mori, de Muriel Spark e Salão de Baile, de Vânia Clares, foram livros que sugeriram óti- mos sabores. 17 Chega de Saudade miolo.indd 17 30/6/2008 17:00:18

Lembranças, claro, são sempre úteis. Rostos que viraram estátuas na memória, frases, equívocos, antigas paixões não vividas. Memória é redenção, afinal mulheres impossíveis de serem contidas podem ser contadas. O poço profundo de lem- branças fornece a água sempre fresca que pode saciar a sede de qualquer roteiro. As derrotas, as quedas, os fracassos, nessa hora, revelam-se mais úteis que os sucessos. Viva. Por exemplo, veio do subsolo da memória a cena final do Chega de Saudade. O poema simbolista de Camilo Pessanha que encerra o filme, veio pa- rar ali direto de uma aula de cursinho, quando um professor leu o poema após uma minha desilusão amorosa.Opoemaquenuncamaisesqueci,queéa farsadeumalíricaromântica,jáquenaverdadefaz sucumbirtodosospreceitosdoromantismoclássico, jogando por terra os pilares do amor idealista e afirmando de modo tão subversivo quanto liberta- dor a frugalidade e a efemeridade de um encontro amoroso que só faz sentido pela circunstância, caiu comoumaluvaparaomomentodahistória.Asub- versão amorosa é a maior redenção de Chega de Saudade,querocrer.Ocasaldejovens,naplenitude de sua beleza não possui ferramentas para manter vivo nenhum tipo de amor, não têm experiência para escapar das armadilhas do amor institucional, enquanto o outro casal, com barriga e rugas, sinais do tempo, possui ferramentas capazes de afirmar um amor original, seja lá de que moral for, quando tudo em torno conspirava terrivelmente contra. 18 Chega de Saudade miolo.indd 18 30/6/2008 17:00:18

O roteiro do Chega de Saudade também deve muito de sua alma à Dani Smith e Ricardo Kauff- man. Ela, atriz e dramaturga, ele jornalista e cro- nista. Pedi aos dois que me ajudassem visitando os salões e ouvindo histórias. Trouxeram relatos e crônicas maravilhosos. Da própria presença da Dani nos bailes, uma jovem estrangeira desper- tando desejos, ciúmes e invejas, veio a idéia de construir Bel, a jovem namorada do DJ. O roteiro contou também com a importante ajuda do DJ Tutu. A Laís encomendou a ele uma pesquisa com músicas dançantes de qualidade. Os diversos cds que ele entregou colaboraram diretamente na construção do roteiro. Climas e letras foram incorporados à sintaxe do filme. Algumas músicas levaram à construção de várias cenas. O roteiro indica muitas canções, quando elas não funcionam como um molho externo, mas como um elemento revelador do mundo interior das personagens. Finalmente foi decisivo para a história que está na tela, as pauladas carinhosas que tomei de alguns leitores muito especiais: Sérgio Penna, Silvana Matteussi, Nando Bolognesi, Roberto Gervitz, Adriana Falcão, Bráulio Mantovani e claro, a rai- nha da borduna, Laís Bodanzky. Devo confessar que a grande vantagem de um roteiro sobre um filme é que um filme não melhora com as críticas, mas um roteiro sim. Luiz Bolognesi 19 Chega de Saudade miolo.indd 19 30/6/2008 17:00:18

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À Laís Bodanzky, onde tudo começa e culmina; e ao montador e amigo Paulo Sacramento, que fez do roteiro o seu melhor, meu eterno agradecimento. Luiz Bolognesi Chega de Saudade miolo.indd 21 30/6/2008 17:00:18

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Chega de Saudade Roteiro Luiz Bolognesi SEQ. 1 – DIA / EXT./ RUA – PONTO DE ÔNIBUS Ponto de ônibus. Um senhor aguarda ao lado do ponto (Erivelton). Carros passam. Ele olha o relógio e olha para a rua, esperando ansioso o ônibus. Uma Marajó anos 80, suja e maltratada, pára em frente ao ponto. Um jovem casal desce de dentro do carro sem desligar o motor. O rapaz (Marquinhos) tira apressado duas mochilas e dois equipamentos de som do banco de trás e vai colocando tudo na calçada. A moça que estava ao seu lado no carro, Bel, só olha. MARQUINHOS (ríspido, para a jovem): Vamo Bel! Se me- xe, ajuda aqui. Bel começa a ajudá-lo a empilhar as coisas na calçada. MARQUINHOS Fica aqui olhando, que eu vou estacionar o carro. Marquinhos volta correndo para o carro e parte. Bel fica em pé ao lado da pilha de equipamen- tos de som e mochilas. Ela e o senhor do ponto 23 Chega de Saudade miolo.indd 23 30/6/2008 17:00:20

se olham, Bel examina a entrada do prédio em frente ao ponto. Não vemos o que ela vê. Ela não está confortável. O carro parte. Um táxi entra na vaga. SEQ. 2 – DIA / INT. EXT. / TÁXI – RUA, PONTO DE ÔNIBUS Câmera fica no táxi. Taxista desce e abre as portas. No banco de trás, uma senhora de uns 80 anos (D. Alice) está tirando a sandália dos pés e colo- cando sapatos de salto alto. No banco da frente, um senhor de quase 80 anos (Seu Álvaro), muito elegante num terno branco, olha para trás e observa-a com evidente mau humor. O motorista assiste aos movimentos deles de modo indiscre- to, aguardando que eles desçam. Chega de Saudade miolo.indd 24 30/6/2008 17:00:20

SEU ÁLVARO (em tom rabugento): Você devia sair de casa arrumada. D. ALICE (tranqüila, pondo as sandálias baixas na bolsa): A escada de azulejo escorrega muito. SEU ÁLVARO (ainda mais irritado): É mania de velha achar que tudo escorrega... Ela não fala nada, mas olha para ele sentida: D. ALICE (seca e objetiva): Vou buscar ajuda, já venho. Ela sai e entra num predinho. Seu Álvaro olha para os próprios pés. Vemos que seu pé esquerdo está numa bota ortopédica. Taxista observa-o. Seu Álvaro o encara contrariado, como quem diz: o que tá olhando?. Mexe-se e tira do bolso do pa- letó umas poucas notas dobradas de dinheiro. SEU ÁLVARO (dando ordem): Tira metade aqui, o resto você pega com ela. Motorista pega o dinheiro e devolve troco do- brado a Seu Álvaro. Seu Álvaro abre-as e conta 25 Chega de Saudade miolo.indd 25 30/6/2008 17:00:21

ostensivamente. Depois, encarando o motorista, guarda-as no bolso. Taxista curva-se para ajudá- lo a sair do carro. SEU ÁLVARO (em tom repreensivo): Espera! O motorista aguarda impaciente. Seu Álvaro, indiferente, ajeita a gravata e aguarda altivo. SEQ. 3 – DIA / EXT./ RUA, PONTO DE ÔNIBUS Ficamos na calçada vendo duas senhoras que chegam caminhando. Uma está com roupa re- catada e postura encolhida (Dona Nice), a outra (Elza) esbanja sensualidade e sorrisos, usa um vestido bem decotado que deixa à vista uma pele bronzeada. D. Alice acompanhada de um senhor elegante, de sapatos brancos (Eudes), saem do predinho e ajudam Seu Álvaro a cruzar a calçada até a entrada do predinho. Assim que vê D. Alice, Seu Álvaro e Eudes, Elza, de longe, abre um sorriso exagerado e se apressa em fazer espalhafatosos acenos de oi. D. Alice e Eudes retribuem sem a mesma euforia e entram. Bel observa tudo, parada na calçada. Vemos Elza e Nice se aproximarem da entrada do predinho. Nice olha para cima e observa o predinho, não vemos. Ela parece não gostar do que vê. Elza puxa NICE. 26 Chega de Saudade miolo.indd 26 30/6/2008 17:00:21

ELZA (percebendo o desânimo de Nice): Lá dentro é uma beleza. Vem. Elza abre um grande sorriso quando vê um jovem de vinte e poucos anos (Betinho), arrumado, bigode, cavanhaque, camisa social e sapato de couro, encostado na parede a poucos metros da porta de entrada: ELZA (para Betinho, jogando charme): Oi, meu amor, tudo bem com você? Betinho manda um beijo com a mão. Ela fica cheia de si. ELZA (cochicha para Nice): Pinto novo na can- ja velha... Nice fica ainda mais retraída diante da extrover- são crescente da amiga. NICE (retraída): Ai, Elza, acho que esse lugar não é pra mim. Você fica brava se eu pegar um táxi e for pra casa? ELZA Bravíssima, uma fera. Vem, Nice, você vai gostar. 27 Chega de Saudade miolo.indd 27 30/6/2008 17:00:21

As duas entram. SEQ. 4 – DIA / EXT. / RUA – SAGUÃO DE ENTRA- DA DO PREDINHO Vemos um ônibus brecando e parando no ponto. O senhor que esperava, Erivelton, estende a mão e ajuda uma senhora, Iolanda, a descer. Iolanda cumprimenta Erivelton com um selinho e fala: IOLANDA (andando na frente dele): Você não sabe, na hora de sair, meu marido resolveu ficar sem ar... – imita o marido puxando ar com dificuldade – Deu pra fazer isso, é eu botar o vestido que a asma ataca. Já estava na porta! Tive que voltar pra ligar a máscara de oxigênio. Esperei ele acabar e saí... Não ia perder hoje de jeito nenhum. Entram no predinho. Bel ouve e observa. SEQ. 5 – DIA / EXT. INT. / RUA – SAGUÃO – ESCADA Marquinhos vem correndo pela calçada até Bel. Ele começa a pegar as coisas. MARQUINHOS (apressado): Pega essa mochila. Bel e Marquinhos entram pelo saguão de um predinho e começam a subir uma escada car- regando as coisas. Há uma procissão subindo lentamente a escada. No alto, impedindo os 28 Chega de Saudade miolo.indd 28 30/6/2008 17:00:21

demais de avançar, vai Seu Álvaro, ajudado por Eudes e D. Alice. Atrás sobem Elza, Nice, Iolanda, Erivelton e Betinho. Bel e Marquinhos entram na procissão e come- çam a subir a escada. Marquinhos está apressado e irritado. BEL (fala baixo com Marquinhos): Até que horas vai isso? MARQUINHOS (seco): Meia-noite. BEL (surpresa): Cê falou que era jogo rápido... MARQUINHOS Pensa na praia. BEL Cê me convidou pra ir pra praia ou pra pensar na praia? Podia me buscar em casa depois, né? MARQUINHOS Aqui já é caminho, gata, é mais rápido. BEL Ah,claro,euficarcincohorasesperandona festa do Tutancamón é super-rápido... Um fio do equipamento que Marquinhos leva cai no chão. 29 Chega de Saudade miolo.indd 29 30/6/2008 17:00:21

MARQUINHOS Pega aí, Bel. Presta atenção. Ela abaixa e pega. Param de andar porque al- cançaram a procissão de Seu Álvaro, que sobe muito lentamente com seu pé na botinha. EUDES (para todo mundo embaixo): Devagar, minha gente, vamo devagar que o Brasil é nosso... Na frente de todos, sobe D. Alice, de olho em Álvaro e seu apoiador, Eudes. Todos estão quase chegando no alto onde há uma mesa que vende ingressos. D. Nice observa a procissão, levemente aflita com a precariedade do transporte de Seu Álvaro numa escada tão perigosa. Elza dá um jeito de passar na frente de todos, puxando Nice pelo braço. SEQ. 6 – DIA / INT. / SAGUÃO – ESCADA Elza chega até uma mulher que vende ingressos numa mesinha coberta por uma toalha. Nice ob- serva um cartaz enquanto Elza compra os ingres- sos. Plano de cartaz em que está escrito: Fiado só para maiores de 80 anos. Acompanhado dos pais. Nice deixa escapar uma leve risadinha. Nice segue Elza, entrando numa salinha que dá acesso a um enorme salão. A câmera entra junto com Nice... o que ela vê e ouve é deslumbrante. Música toca alto. Casais coloridos dançam num grande salão de taco. A maioria tem entre 50 e 30 Chega de Saudade miolo.indd 30 30/6/2008 17:00:22

70 anos. Nice caminha observando tudo, surpre- sa. Elza já está lá na frente, faz sinal para Nice vir, apontando a mesa. Nice vai em direção à Elza, no caminho tem que passar por um homem de aproximadamente 140 quilos (Ferreira), que está de pé, dançando sozinho, sem notar que Nice se aproxima. Nice fica embaraçada. NICE (tímida, sem olhar no rosto dele): O se- nhor pode me dar licença... Ferreira sai de seu devaneio e recua para ela pas- sar, curva-se e estende os braços numa paródia exagerada de cortesia, indicando-lhe o caminho. Nice vira-lhe o rosto. Vemos Nice chegando em sua mesa e sentando ao lado de Elza. Nesse momento, Ferreira olha para Nice, que desvia o olhar imediatamente. Elza, a seu lado na mesa, fala: ELZA (dançando sentada): Não é maravilhoso? Nice faz que sim com a cabeça, enquanto obser- va de canto de olho que Ferreira vem vindo em direção à mesa delas. Ferreira chega e se dirige a NICE. FERREIRA (oferecendo à dama sua mão espalmada): Boa tarde. Posso ter a honra desta dança? 31 Chega de Saudade miolo.indd 31 30/6/2008 17:00:22

Ela olha para ele incomodada. NICE (virando o rosto): Não, obrigada. Ele faz que sim com a cabeça, sem expressar o desapontamento, a coreografia do corpo não perde a fleuma, retorna à posição ereta de modo cortês, ainda que ela olhe propositadamente para o outro lado. Ele sai, dando passinhos de dança. ELZA (aproxima-se de Nice e fala): Ele usa montes de perfume porque tem um chei- ro horrível! Chega de Saudade miolo.indd 32 30/6/2008 17:00:23

Câmera vê Ferreira indo embora com dificuldade entre as cadeiras e mesas muito próximas. Close de Nice olhando. ELZA Olha! Hoje tem bastante cavalheiro no salão, isso aqui vai ferver. Vou dançar até me acabar. Nice ouve, intimidada. SEQ. 7 – DIA / INT. / SALÃO DE DANÇA Bel e Marquinhos estão entrando no salão. Bel fica surpresa com o ambiente. Um senhor, Mo- rais, gerente do salão, intercepta-os. MORAIS (para Marquinhos): Isso é hora de chegar? O garçom Gilson se aproxima solícito. Ajuda Marquinhos, tirando do ombro dele uma mo- chila pesada. MARQUINHOS Eu passei pra pegar a mesa de som, mas não tava pronto, o técnico falou que... MORAIS (cortando): Não quero ouvir desculpa de moleque. Aqui a gente é profissional. Eu mesmo tive que ligar o som e botar as fitas, vê se tem cabimento isso! 33 Chega de Saudade miolo.indd 33 30/6/2008 17:00:24

De repente, Morais olha para Bel de cima a bai- xo. Bel sente-se acuada. MORAIS E essa menina? (Para Marquinhos) Você não sabe que mulher não pode entrar de calça? MARQUINHOS (fala severo com Bel, como se a culpa fos- se dela): Tem uma saia nessa mochila? Bel faz que sim com a cabeça. MORAIS (apontando o palco para Marquinhos): Rápido, Marquinhos. Vamo! Depois a gente conversa. GILSON GARÇOM (para Bel): Ó, é ali o banheiro. Bel sai em direção ao banheiro. Observa Mar- quinhos e GILSON GARÇOM indo apressados em direção à mesa de som. Ela vê uma mulher muito sensual parar Marquinhos e falar com ele com inti- midade. Ele fala algo que faz a mulher dar uma gargalhada. Ele parte. Bel nota uma tatuagem nas costas da mulher. Bel repara outras mulheres do salão. Estão arrumadíssimas, femininas e sensuais. Um contraste com a imagem de Bel, de cabelos presos, roupa casual e nada feminina. Bel entra no banheiro carregando sua mochila. 34 Chega de Saudade miolo.indd 34 30/6/2008 17:00:24

SEQ. 8 – DIA / INT. / SALÃO DE DANÇA Eudes ajuda Seu Álvaro a sentar-se ao lado de D. Alice, espera um comentário ou agradecimento pela ajuda, mas Seu Álvaro apenas vira o rosto e observa mudo o salão, como se toda ajuda fosse uma deferência devida. Eudes pisca e joga um beijo com a mão para D. Alice. Nesse instante, Eudes é atingido por um amendoim. Vemos um outro senhor (Ernesto) jogando um segundo amendoim em Eudes, dan- do risada. Ele se aproxima da mesa de Seu Álvaro com um copo de conhaque na mão e um punhado de amendoins na outra. Quando Ernesto chega, Eudes dá um soco de brincadeira no seu braço. Chega de Saudade miolo.indd 35 30/6/2008 17:00:24

EUDES (saindo): Licença, D. Alice. ERNESTO (apontando para o pé de Álvaro): Já tá desmanchando sozinho, Seu Álvaro? SEU ÁLVARO Vou fazer de conta que não ouvi... ERNESTO (sádico): Vai fazer de conta ou não ouviu mesmo? – dá uma risada sem pudor – Eu li numa revista que com a idade os ossos ficam que nem madeira com cupim. SEU ÁLVARO Leu besteira! Isso é conversa de médico homeopata, crendice de gente ignorante. Ernesto ri. D. ALICE Senta, Ernesto – ele senta – Álvaro foi num médico muito bom, está em boas mãos... SEU ÁLVARO (vira-se para D. Alice, descarregando a agressividade): Como é que você sabe que ele é bom? Você foi comigo? ERNESTO Mas o que aconteceu? 36 Chega de Saudade miolo.indd 36 30/6/2008 17:00:26

D. ALICE Ele foi atender o telefone e caiu. Foi ontem. Tava sozinho na casa dele. Olha que perigo. ERNESTO E aí, Seu Álvaro? ÁLVARO Chamei o táxi e fui pro hospital. D. ALICE Ainda bem que ele tem plano de saúde. O médico atendeu rápido. Ernesto come mais um amendoim e abre a mão, oferecendo para Seu Álvaro. ERNESTO (oferecendo amendoim): Qué Seu Álvaro, viagra de pobre? Seu Álvaro olha reflexivo para ele, faz não com a cabeça e olha para o outro lado. Instante de silêncio. D. ALICE Que é que a gente tava falando? ERNESTO (comendo um amendoim): A senhora ta- va falando do médico do Seu Álvaro. 37 Chega de Saudade miolo.indd 37 30/6/2008 17:00:26

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D. Alice olha para Seu Álvaro e franze o rosto tentando lembrar. D. ALICE Por que a gente tava falando do médico? Close em D. Alice com semblante tenso e olhar aflito, olhos vão para a esquerda e para a direita, sem foco em lugar algum. SEU ÁLVARO Deve ser horrível a pessoa ficar gagá. Ernesto sorri e desiste da conversa. Seu Álvaro e Ernesto abandonam D. Alice em sua divagação e passam a observar o salão. Close em D. Alice com olhos franzidos, tentan- do lembrar. SEQ. 9 – DIA / INT. / SALÃO DE DANÇA Bel está caminhando pelo salão meio deslocada. Veste uma saia que não combina com a blusa e carrega uma mochila que não tem nada a ver com o ambiente. Pára para ver o salão. Duas se- nhoras param ao seu lado, examinando a pista: uma mulata exuberante com um grande decote (Aurelina) e uma mulher muito bonita (Marici) usando uma roupa hippie-chic. AURELINA (para Marici, apontando Eudes com o queixo): Ó o pavão! 39 Chega de Saudade miolo.indd 39 30/6/2008 17:00:30

As três observam Eudes desfilando pelo salão. MARICI Lindo, leve, solto. Bel observa Eudes caminhando pelo salão com passos coreografados ao som do samba (Disrit- mia) que está tocando. Vai passando e cumpri- mentando os homens, faz brincadeiras aqui e ali, assume posição de boxer com mãos em punho na frente de uma senhora (Nair), ela assume po- sição idêntica e trocam socos de brincadeira. Ele parte, cutuca os ombros de um senhor e sai pelo Chega de Saudade miolo.indd 40 30/6/2008 17:00:31

outro lado. Sempre com passinhos de samba e movimento de ombros no ritmo da música. Bel ouve indiscretamente a conversa das duas. AURELINA Você deixa ele muito solto! MARICI Na gaiola ele não canta. AURELINA Ninguém tá falando em gaiola, ave Ma- ria, mas esse sistema seu não serve. Intima Chega de Saudade miolo.indd 41 30/6/2008 17:00:33

ele: qual é, meu filho? Vai assumir ou não vai? MARICI Você acha? AURELINA Tenho certeza. Ele vai te respeitar. Se você não intima, ele vai continuar cis- cando por aí. MARICI Tenho medo dele voar de vez. AURELINA Que nada, então eu não conheço! O Eudes tem uma queda diferente pro seu lado. Ele gosta de você. Se ele sentir que vai perder, vem comer na sua mão. Arrocha ele. Hoje! Vai ficar esperando o dia certo? Já vi essa história, minha filha, aí babau. Marici percebe Bel escutando a conversa, abre um leve sorriso de cumplicidade para a menina. Aurelina fala com BEL. AURELINA (receptiva): Você tá sozinha? Bel faz que sim com a cabeça. 42 Chega de Saudade miolo.indd 42 30/6/2008 17:00:38

AURELINA (mostrando uma mesa vazia): Você não quer sentar-se com a gente? É bem me- lhor que ficar de pé a noite toda... BEL Obrigada... As três caminham para uma mesa vazia. SEQ. 10 – DIA / INT. / SALÃO DE DANÇA Bel, Marici e Aurelina sentam-se à mesa. Eudes se aproxima trazendo uma flor. Aurelina cutuca Marici, que abre um pequeno sorriso. EUDES (simpático): Oi meninas Chega de Saudade miolo.indd 43 30/6/2008 17:00:38

MARICI (charmosa): Oi Eudes. Eudes estende a mão, oferecendo a flor para Marici. MARICI (apontando cadeira): Tô guardando pra você. EUDES Oba. Eudes senta-se e pega na mão de Marici. Ela se derrete. EUDES Você tá muito bonita... como sempre. MARICI Obrigada. EUDES Sua netinha tá melhor? MARICI Graças a Deus! EUDES Dá pra ver nos seus olhos, voltaram a brilhar. 44 Chega de Saudade miolo.indd 44 30/6/2008 17:00:41

MARICI Por mais que a gente já tenha passado isso com os filhos, não adianta, uma semana de febre deixa a gente toda atrapalhada! EUDES (sem olhar para Marici, observando Bel): É isso mesmo. O importante é que ela já tá boa. MARICI Nem me fale... Eudes volta os olhos para Marici e encontra o olhar dela posto nele. Ele percebe que foi in- discreto e que ela deve ter percebido que ele olhou para Bel. Chega de Saudade miolo.indd 45 30/6/2008 17:00:42

EUDES Você fez muita falta. Sem você, o baile é uma noite sem sua estrela mais brilhante e eu um marinheiro sem estrela-guia, perdido no salão. Marici torce a boca em careta de desprezo, sinalizando que não entrou na conversa mole dele. Em seguida, parte para o que interessa, aproxima-se dele, provocativa. MARICI Minha netinha e minha filha foram em- bora da minha casa ontem... EUDES (pegando na mão dela): Então, se mais tar- de a gente quiser tomar aquele capucci- no quentinho que só você sabe fazer, a gente não incomoda ninguém...? Marici sorri. MARICI (sedutora): Com certeza, não incomoda ninguém... EudesbeijaamãodeMariciecontemplaobailepor alguns instantes. Olha para Bel, de canto de olho. MARICI Hoje, eu estou usando almíscar. Você gosta? 46 Chega de Saudade miolo.indd 46 30/6/2008 17:00:44

Nessemomento,BelfalacomAurelina;Eudescheira duas vezes Marici, prestando atenção na menina. BEL (para Aurelina, apontando um casal dan- çando): Gente, esse casal é demais. Que delícia eles dançando. EUDES (para Marici): Ótimo. Muito bom mes- mo... – afastando o corpo. Eudes afasta-se de Marici e volta-se para Bel. EUDES (para Bel): Posso ter a honra? Chega de Saudade miolo.indd 47 30/6/2008 17:00:44

Marici observa, surpresa, engolindo a decepção. BEL Eu não sei dançar essas músicas. EUDES Eu te levo. Bel olha para Marici como quem pede permissão, Marici encoraja-a, fazendo sim com a cabeça, forjando um sorriso. Bel se levanta e vai. Marici observa-o, desapontada. Eudes pára na frente de Bel, pega em sua mão, passa o braço em sua cintura e começam a dançar. Bel se deixa levar com elegância. Marici observa com desconforto. Chega de Saudade miolo.indd 48 30/6/2008 17:00:47

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AURELINA (para Marici, chacoalhando os punhos como quem segura uma rédea): Arrocha! Homem de baile não presta! Um senhor mulato chama Aurelina para dançar, com gestos. Ela se levanta imediatamente, toda sorridente e vai até ele. Marici fica só na mesa, observando Eudes ensi- nando Bel a dançar. SEQ. 11 – DIA / INT. / SALÃO DE DANÇA Marquinhos trabalha concentrado na mesa de som, está conectando cabos de microfones, vê Bel dançando com Eudes. Pára o serviço por um instante. Em seguida volta a ligar os cabos, de Chega de Saudade miolo.indd 50 30/6/2008 17:00:53

olho no casal dançando, observa sem entender muito bem. SEQ. 12 – DIA / INT. / SALÃO DE DANÇA Vemos Seu Álvaro, D. Alice e Ernesto sentados à sua mesa, observando o salão. Um casal passa e cumprimenta Álvaro e Alice com reverência. Seu Álvaro faz uma cara de dor e mexe no pé. SEU ÁLVARO Isso aqui tá doendo, a gente não devia te vindo hoje... D. ALICE Eu posso até ficar sem dançar, mas tenho que pelo menos olhar o pessoal dançan- do... SEU ÁLVARO Aqui não tem ninguém que vale a pena. Ver dançar... D. ALICE O argentino! SEU ÁLVARO Só o tango ele sabe dançar, no resto ele é um desastre... D. ALICE Ele dança muito bem bolero e samba também. 51 Chega de Saudade miolo.indd 51 30/6/2008 17:00:54

SEU ÁLVARO (olha para ela em tom grave): Você deve estar começando a caducar mesmo... D. ALICE Não importa se o argentino dança bem, eu gosto de observar o jeito de cada casal, quem tá dançando com quem... SEU ÁLVARO Caduca e fofoqueira... De repente rostos de Alice e Álvaro se contraem, como se tivessem visto um fantasma. O argen- tino Hugo se aproxima, sujeito viril e elegante, 60 anos. HUGO Con licença, seu Álvaro, como o senhor está impossibilitado hoje, peço su consen- timento para dançar con D. Alice... SEU ÁLVARO (sem disfarçar o mau humor): Pode dançar. D. ALICE Eu agradeço muito, mas enquanto o Álva- ro tiver assim, eu prefiro fazer companhia pra ele, não leve a mal... HUGO Isso é que é una dama, dama non, una rai- nha! ... O senhor é un home de sorte! 52 Chega de Saudade miolo.indd 52 30/6/2008 17:00:54

SEU ÁLVARO (irritado): Se eu fosse um homem de sorte não tava com esse pé! HUGO (olha um pouco, o tempo de concluir que Seu Álvaro não está para prosa): Dos ma- les o menor, non é Seu Álvaro... SEU ÁLVARO (subindo o tom de voz): O que você quer dizer com isso, que eu deveria estar en- fartado? HUGO (na defesa): Não... não foi isso... pero non és nada grave... SEU ÁLVARO (fala baixo, para si mesmo, imitando o sotaque do argentino): Pero pimenta no cu dos outros, non?... D. ALICE Álvaro! HUGO Bom, de qualquer jeito, desejo melhoras... D. ALICE Obrigada. 53 Chega de Saudade miolo.indd 53 30/6/2008 17:00:54

Hugo faz um cumprimento de cabeça para D. Alice e sai. SEU ÁLVARO Sujeito grudento... desagradável! D. Alice vira-se para a pista e começa a dançar, sentada em sua cadeira. ERNESTO Foi uma pena vocês não participarem do concurso do Carinhoso no ano passado, acho que vocês iam ganhar. SEU ÁLVARO Já enjoei de ganhar esse concurso. ERNESTO É, mas nos últimos anos só ganha o argen- tino e a mulher dele... apesar que vocês são melhores. SEU ÁLVARO Não somos, não. Perdemos porque Alice esquece metade dos passos... É a idade. Pra ganhar novamente, vou ter que achar outra parceira... Alice fica sentida. ERNESTO Que é isso, seu Álvaro. O senhor é fera, mas D. Alice também é. Essa rainha atual não chega aos pés de D. Alice. 54 Chega de Saudade miolo.indd 54 30/6/2008 17:00:54

SEU ÁLVARO (apontando o conhaque na mão do Ernes- to): Você precisa beber menos, Ernesto, não tá fazendo bem pra você... D. ALICE (aponta Eudes dançando com Bel): Olha quem tá ali, o Eudes. Gozado, ele não veio cumprimentar a gente hoje... Ernesto se levanta e sai dando risada. Seu Álvaro olha para ela preocupado. SEU ÁLVARO (falando baixo para não ser ouvido, num tom carinhoso): Alice, Alice... Presta aten- ção. (tira uma caneta do bolso e pega uns guardanapos, dá tudo para ela) Alice, atenção, tudo que for importante, você anota no guardanapo. De vez em quan- do, você pega e lê. Mas só escreve o que for importante. Ela guarda tudo com um sorriso, aprovando a idéia. Seu Álvaro faz cara de dor e coloca mão no pé. SEU ÁLVARO (solícito): Alice, será que você pode buscar um analgésico pra mim. D. ALICE Vou já. 55 Chega de Saudade miolo.indd 55 30/6/2008 17:00:54

Ela se levanta e vai. Seu Álvaro a observa, com ternura. SEQ 13 – DIA / INT. / SALÃO DE DANÇA Bel, Marici, Eudes e Aurelina estão na mesa. Gar- çom chega com cerveja para Aurelina e Marici e, duas caipirinhas para Eudes e Bel. GILSON GARÇOM (para Bel): Batida de maracujá. Fruit de la passion, é assim que os franceses chamam. BEL Eu não pedi, não. GILSON GARÇOM O Eudes ofereceu. Chega de Saudade miolo.indd 56 30/6/2008 17:00:54

Marici dá um gole na cerveja, olhando para baixo. A banda entra e começa a tocar (Não deixa o samba morrer). Planos da banda começando. Aurelina abre os braços e começa a cantar jun- to, como se fosse um hino: Não deixa o samba morrer, não deixa o samba acabar... Bel observa e sorri. Aurelina levanta-se e puxa Bel. Bel resiste, mas Au- relina insiste. Bel dá um enorme gole na caipirinha, levanta-se e samba um sambinha modesto ao lado de Aurelina, que samba e canta. Eudes e Marici ficam sozinhos na mesa. Eudes vê as duas dançarem. Marici aguarda um gesto de Eudes. Olha para ele, ansiosa. Ele se levanta, passa pelas duas e fala para Bel Chega de Saudade miolo.indd 57 30/6/2008 17:00:54

EUDES (enquanto passa ao lado de Bel): Gostei do seu samba! Eu já volto pra gente dançar... Bel sorri meio sem graça, olha para Aurelina, que não está nem aí, está viajando em seu mantra. Bel pega seu copo na mesa e bebe dois goles de caipirinha. Sorri para Marici e volta a dançar. Marici contempla Bel. Depois, olha para a pró- pria mão sobre a mesa, faz pequenos movimen- tos com os dedos, observando as rugas nas costas da mão. SEQ. 14 – DIA / INT. / SALÃO DE DANÇA Dionízio, 70 anos, um senhor bem magro, anda com certa dificuldade, passa em frente à mesa de Erivelton e Iolanda (a mulher que demorou por- que teve que ligar o oxigênio) e os cumprimenta com um gesto tímido, que eles respondem com igual timidez, como se preferissem não vê-lo. Erivelton bebe água; ela, cerveja. Ela abre a bolsa. Ele observa curioso o movimento dela. Ela tira umas sete ou oito cartelinhas de seringa e põe na frente dele na mesa. IOLANDA Trouxe pra tua diabete... ERIVELTON (olhando contente as seringas sobre a mesa): Você trouxe pra mim? Onde arru- mou? 58 Chega de Saudade miolo.indd 58 30/6/2008 17:00:55

IOLANDA Consegui no posto de saúde onde eu pego os remédios do meu marido... O sorriso de Erivelton apaga quando ela fala do marido. Erivelton põe no bolso. Instante de silêncio. IOLANDA Será que você podia me emprestar o celular pra eu ver se tá tudo bem com o Laurindo lá em casa? Tô preocupada. Ele tira o celular contrariado e dá para ela. Ela disca, espera... não atende. Vemos Erivelton olhar impotente, com ciúme. IOLANDA (pondo o celular na mesa): Ele não está atendendo... Erivelton guarda o celular no bolso, como se isso encerrasse o assunto. ERIVELTON Vamos dançar? IOLANDA (irritada): Perdi a vontade... O Laurindo não atende de propósito, só pra estragar minha noite... Erivelton olha para ela, contrariado e enciumado. 59 Chega de Saudade miolo.indd 59 30/6/2008 17:00:55

SEQ. 15 – DIA / INT. / SALÃO DE DANÇA D. Alice está em pé observando a banda tocar. Seu Álvaro observa D. Alice da sua cadeira. Cha- ma GILSON GARÇOM, que vai passando. GILSON GARÇOM chega. SEU ÁLVARO Alice foi buscar um analgésico pra mim, mas acho que ela esqueceu. GILSON GARÇOM tira várias cartelas de compri- midos dos bolsos. GILSON GARÇOM Qual o senhor quer? Chega de Saudade miolo.indd 60 30/6/2008 17:00:55

SEU ÁLVARO Não, não, não. Você leva lá pra ela e fala pra ela trazer pra mim porque, se ela perceber que esqueceu, vai ficar muito chateada. GILSON GARÇOM O senhor é que manda. GILSON GARÇOM sai em direção à D. Alice. SEQ. 16 – DIA / INT. / SALÃO DE DANÇA Elza está dançando em pé, sedutora. ELZA (animada): Sabia que, quando o pessoal da Luar de Prata começasse, não iam falhar. Agora vai esquentar. Vem, Nice, vem! NICE (sentada): Não, prefiro ver daqui. Nice permanece sentada. Planos da banda tocando. Elza está dançando so- zinha, realizando passos, como se estivesse sendo conduzida por um parceiro invisível. Ela fica ao lado da mesa e conversa com Nice, que perma- nece sentada. Vemos que, ao seu lado, homens se dirigem às mesas e tiram várias mulheres para dançar. Alguns parecem vir até Elza, mas tiram sempre outras. Elza fica um pouco sem graça, mas continua dançando sozinha. Vemos as duas con- 61 Chega de Saudade miolo.indd 61 30/6/2008 17:00:55

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versando nessa seqüência, sem ver o salão. Fica- mos nelas, imaginando o que elas estão vendo. ELZA (sorrindo para o salão): Olha lá, que coroa enxuto. Bem que podia me tirar... Ih, olha lá, ele tirou aquela rapariga loira... NICE É. A concorrência com essas mocinhas não deve ser fácil... Elza observa o casal dançando e se senta. ELZA (arrasada): É, parece que hoje não é meu dia de sorte... Será que é o meu vestido? É novinho, fiz na Selma... Chega de Saudade miolo.indd 63 30/6/2008 17:00:57

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Ernesto aproxima-se. ERNESTO Oi, Elza, posso? – apontando a cadeira. ELZA (animada): Claro. ERNESTO (olhando para Nice): Não vai apresentar sua amiga... ELZA Sim, essa é Nice, vizinha lá do prédio. ERNESTO (olhando-a com certa indiscrição): Bem- vinda, Nice. Casada? NICE (indignada com a pergunta): Viúva. Vim só conhecer, a Elza conta tanta história... ERNESTO (tirando sarro): A Elza é fera na ficção. Elza não entende. Nice ri. ERNESTO Brincadeira, a Elzinha já é uma figurinha carimbada aqui do baile, né, Elzinha? Elza sorri amarelo, sem saber exatamente se gostou do comentário. Nice percebe que foi uma 65 Chega de Saudade miolo.indd 65 30/6/2008 17:00:58

cutucada e compreende o humor de Ernesto. Ernesto começa a cantar samba de Martinho da Vila (Mulheres) junto com a banda: ERNESTO Já tive mulheres de todas idades... Mulhe- res cabeças, mulheres malucas, até prosti- tutas, de todas idades, mas nenhuma me faz tão feliz, como você me faz... – quan- do fala essa frase, olha para Nice. Elza olha para ele incomodada. Nice olha com curiosidade, achando graça. Ele solta a voz sem pu- dor. De repente, pára de cantar e fala para NICE. ERNESTO Só olhar não tem graça. O bom é dançar... Todo mundo aqui dança muito. Só tem duas coisas que faz a dama não ser tirada: – faz um instante de suspense, elas aguar- dam curiosas – não saber dançar... e mau hálito – sorri para Nice, olha para Elza, ela fecha a cara, ele se levanta – Divirtam-se. Dá licença... – antes de sair, fala para Nice – Muito bonito seu vestido! – sai. Ele caminha até a mesa ao lado e tira uma japo- nesa sensual para dançar. Elza comenta: ELZA (para Nice): Como é desagradável esse ho- mem! Além de ser um chato de galocha, 66 Chega de Saudade miolo.indd 66 30/6/2008 17:00:58

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é um péssimo bailarino... – enquanto fala, pega um drops sobre a mesa, desembru- lha e põe na boca. Nice observa Ernesto dançar. Ernesto dança mui- to bem, com muita sensualidade, com a dama, que retribui. Nice observa fascinada. Ajeita a coluna e cruza as pernas. Nessa hora, as pernas dela ficam de fora. Ernesto observa Nice. Quando os olhares se cruzam, Nice parece que tomou um choque. Olha para o outro lado e se depara com um grande espelho. Observa-se no espelho e arruma discretamente o cabelo. SEQ. 17 – DIA / INT. / SALÃO DE DANÇA D. Alice escolhe um comprimido na mão de GIL- SON GARÇOM. SEQ. 18 – DIA / INT. / SALÃO DE DANÇA Aurelina e Bel sambam em pé. Marquinhos está olhando atentamente, enquan- to segura um cabo conectado à entrada da mesa de som. AURELINA (aponta uma japonesa dançando sensual- mente com um mulato): Enquanto as mulatas tão na igreja com a Bíblia na mão, as japonesas tão tomando conta do salão. Humn, essa aí gosta de uns amassos... – aproxima-se de Bel e complementa com cumplicidade – mas quem não gosta, né? 68 Chega de Saudade miolo.indd 68 30/6/2008 17:01:00

Bel sorri e faz sim com a cabeça. Bel observa Au- relina. Ela dança animadamente, fecha os olhos de vez em quando. Retira com as mãos o suor que junta embaixo dos seios fartos e limpa na saia. Um homem passa e pisca para ela. AURELINA (para Bel): Se eu morasse sozinha, levava esse aí pra casa. Bel observa. Aurelina continua. AURELINA Meu filho ainda mora comigo. Quero ver se, mais pra frente, vendo a casa, repar- to o dinheiro e vou morar sozinha... Ele fica contando quantas vezes eu saio, que horas eu chego, parece que é meu pai, um inferno. Bel fica olhando, surpresa. Garçom Gilson se aproxima com bandeja e Aure- lina pega uma cerveja. AURELINA Hoje eu vou caçar um homem pra mim, deixa eu ver aqui atrás como tá... Aurelina olha pela janela que dá para o bar e dá de cara com um moreno, Vágner, ao lado de uma falsa loira, Liana. Vágner fica assustado quando vê Aurelina. Aurelina repara em Liana do lado dele e volta-se para Bel, assustada. 69 Chega de Saudade miolo.indd 69 30/6/2008 17:01:01

AURELINA Vixe, meu Deus do céu. O cara que eu tô de rolo tá aí com a mulher dele. Muita cara de pau desse homem trazer a mu- lher aqui. Bel olha para trás e vê o casal. Vagner puxa Liana para trás. SEQ. 19 – DIA / INT. / SALÃO DE DANÇA Do ponto de vista de Marquinhos, vemos Eudes se aproximar de Aurelina e Bel. Sempre do ponto de vista dele, vemos Eudes falando (sem ouvir- mos) e elas rindo muito. Bel gargalha e pega novamente a caipirinha. Bebe. Eudes puxa-a para dançar. Marquinhos fica nervoso. Solta um cabo que es- tava mexendo e sai pelo salão, indo em direção a Bel e Eudes. Ele caminha no meio do pessoal, tentando não perdê-los de vista. Tem dificuldade de avançar entre mesas e casais dançando. Um enorme ruído ecoa nas caixas de som. Ele pára, faz careta e ameaça voltar para a mesa de som. O ruído some sozinho, ele vê os dois dançando e se divertindo, e resolve avançar até eles. Quando está quase che- gando, o ruído volta. Ele nota o Morais de braços abertos, gesticulando de cima do seu mezanino, muito bravo. Marquinhos hesita, volta para a mesa de som. Chega e põe a mão no cabo, o ruído some nessa hora. Ele fica segurando o cabo, tentando observar Bel e Eudes dançando. O casal some e 70 Chega de Saudade miolo.indd 70 30/6/2008 17:01:01

aparece por trás dos outros dançarinos. Marqui- nhos fica nervoso vendo os dois se divertirem. SEQ. 20 – DIA / INT. / BAR Vágner e Liana estão de pé no bar. Liana dança e puxa ele. LIANA Vem Vágner, vamos dançar. dsw Vágner olha para Aurelina no salão. VÁGNER (pegando ela para dançar ali mesmo): Vamos dançar aqui, lá tá muito cheio. Dançam ali. Vágner está tenso, de olho em Aurelina. SEQ. 21 – DIA / INT. / SALÃO DE DANÇA D. Alice chega trazendo o comprimido de Seu Álvaro. Dá para ele. D. ALICE Desculpa a demora, Álvaro. SEU ÁLVARO O importante é que você não esqueceu... Álvaro faz uma careta de dor e toma o compri- mido. D. Alice cumprimenta Aurelina com um aceno efusivo. 71 Chega de Saudade miolo.indd 71 30/6/2008 17:01:01

SEU ÁLVARO (ainda com careta de dor): Você precisa escolher direito suas amizades, essa moça é muito chula, não fica bem pra você ficar na companhia desse tipo de mulher... D. ALICE (firme): Eu gosto dela, ela tem um astral pra cima... SEU ÁLVARO Se você gosta é porque tem vontade de ser igual ela, mulher fácil... D. ALICE (olha para ele, irritada): Isso que você falou eu não admito... Hoje você está intragável! SEU ÁLVARO Os incomodados que se mudem. D. ALICE (olha para ele com ar furioso): Você está me mandando embora? Ele não responde, olha para o salão com ar su- perior. D. Alice olha para Seu Álvaro com olhar fulminante, levanta-se e sai. Seu Álvaro observa, surpreso. Ela vai até Hugo (o argentino), que está ao lado, e convida-o para dançar. Seu Álvaro observa a rebeldia de boca aberta. Os dois dançam. Seu Álvaro leva a mão ao pé 72 Chega de Saudade miolo.indd 72 30/6/2008 17:01:01

fazendo careta de dor e olha com o rosto con- traído o casal dançando no salão. SEQ. 22 – DIA / INT. / SALÃO DE DANÇA Eudes acompanha Bel até sua mesa sob o olhar de Marquinhos e Marici. Marici puxa a cadeira para ele, mas ele vê Dionízio no salão, franze a testa. Dá um largo sorriso para Bel e sai na direção de Dionízio. Caminha entre as mesas observado por Bel e Marici. Eudes se aproxima de Dionízio, um senhor ma- gro e fragilizado, caminhando com passos lentos no salão: EUDES (abrindo os braços): Dionízio! Eudes dá um abraço em Dionízio, se emocio- na. Afastam-se e se olham. Dionízio também está emocionado: DIONÍZIO Vi a danada da morte de perto, Eudes, duas semanas de rosto colado, dançando com ela na UTI... eta rostinho gelado, viu... Rapaz, nunca pensei que podia gostar tanto de uma musiquinha besta feito aquela: titi...titi...titi... (desenha no ar o gráfico cardíaco que a máquina fazia) Nem dormia, de medo que a musiquinha parasse de tocar... 73 Chega de Saudade miolo.indd 73 30/6/2008 17:01:01

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Os dois se abraçam novamente, emocionados. Afastam-se e se olham. EUDES Rapaz, você tá bem demais. Dionízio abre a camisa e mostra a cicatriz enorme no tórax. Eudes olha. SEQ. 23 – CREPÚSCULO / INT. / SALÃO DE DANÇA Ernesto chega apressado e senta-se à mesa de Seu Álvaro. ERNESTO Você viu, Seu Álvaro? O Dionízio não morreu. O pessoal aqui já tava enterran- do o homem... Chega de Saudade miolo.indd 75 30/6/2008 17:01:04

Seu Álvaro observa Dionízio atentamente. ERNESTO O filha da mãe é carne de pescoço, rapaz. Passou a vez. Quem será o próximo da fila, então? SEU ÁLVARO (aponta um senhor de cabelos brancos, de mais de 80 anos): É o João Alfredo. ERNESTO É ele ou é o senhor, Seu Álvaro... Seu Álvaro parece que não tinha pensado nessa possibilidade, fica sério, meio aflito. ERNESTO Brincadeira, Seu Álvaro... O senhor é um touro. Dá licença, que eu vou bater coxa... Ernesto se levanta e sai. Seu Álvaro fica sentado, olhando para João Al- fredo, meio apavorado. SEQ. 24 – CREPÚSCULO / INT. / SALÃO DE DANÇA Bel está perto do banheiro e tira uma foto do salão pelo celular. O garçom Gilson, a poucos metros, faz sinal para ela não tirar, faz sinal de anel no dedo e depois passa a mão no paletó indicando que é sujeira. Bel entende e faz que sim. 76 Chega de Saudade miolo.indd 76 30/6/2008 17:01:05

Marquinhos observa Bel. Acena para ela. Ela não olha. Ele faz sinal para a senhora da foto chamá-la. Chama. Bel olha. Marquinhos faz si- nal para ela vir que ele quer falar com ela. Ela faz sinal de depois, mostrando o banheiro. Ela entra no banheiro. Marquinhos volta a mexer no som irritado. SEQ. 25 – CREPÚSCULO / INT. / SALÃO DE DANÇA D. Alice está de pé sozinha, observando Seu Ál- varo. Florista pára ao lado dela, tira uma rosa e dá para ela. Ela agradece e observa Seu Álvaro na mesa bebendo um uísque. D. ALICE Uísque com analgésico. Chega de Saudade miolo.indd 77 30/6/2008 17:01:05

FLORISTA O quê? D. ALICE O Álvaro está misturando uísque com analgésico. A pressão vai subir. Os dois olham preocupados para Seu Álvaro. SEQ. 26 – CREPÚSCULO / INT. / SALÃO DE DANÇA Rita, uma dama emperiquitada de uns 55 anos, está entrando no salão de óculos escuros. Veste- se de modo sofisticado. Assim que entra, abaixa os óculos escuros e por cima das lentes observa o salão. O garçom Gilson faz sinais para ela, mostrando uma mesa. Ela vai até lá. Ele puxa Chega de Saudade miolo.indd 78 30/6/2008 17:01:06

a cadeira para ela sentar-se e fala enquanto ela senta. GILSON GARÇOM Tudo bem, Dona Rita? Sua mesa tá sempre reservada... Posso trazer sua garrafa? Ela ouve o que ele fala, de olho no salão. Só faz que sim com a cabeça. Olha a pista por cima dos óculos. SEQ. 27 – CREPÚSCULO / INT. / SALÃO DE DANÇA Bel sai do banheiro em direção à mesa de Mar- quinhos. Marquinhos vê. De repente, Eudes aparece, pega-a pela mão e puxa-a sem falar nada. Nessa hora, Marquinhos estava mexendo Chega de Saudade miolo.indd 79 30/6/2008 17:01:10

no som, quando ele levanta a cabeça, Bel sumiu. Ele a procura com o olhar, sem achar. Bel é puxada por Eudes, surpresa com a ousadia dele. Deixa-se levar. No caminho, ele pega uma água e dois copos na bandeja do garçom Gilson e manda ele anotar. Eles sentam-se a uma mesa vazia, afastada num canto. Eudes olha-a, com um sorriso. Ela devolve um sorriso meio amarelo. BEL Pensei que cê tava me levando pra dançar. Ele serve água nos dois copos. Chega de Saudade miolo.indd 80 30/6/2008 17:01:12

EUDES Precisa hidratar. A coisa mais importan- te que aprendi na vida é que entre dois copos de caipirinha tem que beber uma garrafinha d’água. Envelhecer tem que servir pra alguma coisa, né? BEL Eu acho que não chego na idade de vocês. EUDES Por que não? BEL Meu pai morreu com 28 anos. EUDES Menino. BEL Ele se matou... Eudes fica olhando em silêncio. BEL Nunca consegui decidir se é covardia ou coragem. EUDES Isso passa na cabeça de todo mundo, pelo menos uma vez na vida, mas... 81 Chega de Saudade miolo.indd 81 30/6/2008 17:01:14

BEL Quando eu era menor, achava que a gente não podia viver mais que os pais da gente. Tô com 25. EUDES Bobagem, você é uma menina astral, superfeliz. BEL Felicidade pode ser fingimento. EUDES É, nesse mundo fingir resolve muita coisa, mas fingir não é gozar. Bel olha um pouco surpresa com o viés picante. É como se percebesse pela primeira vez que está correndo os riscos que se corre diante de um homem. BEL Você acha que ser feliz é uma escolha? EUDES Tenho certeza. E quem não saca isso, passa a vida vendo novela. O mundo tá cheio de zumbis, gente que escolheu o suicídio e nem percebeu. BEL Tô achando um pouco simplista esse seu discurso, Eudes. Agora você vai me dizer 82 Chega de Saudade miolo.indd 82 30/6/2008 17:01:15

que eu tenho que acreditar mais em mim mesma... EUDES Não ia falar isso não. Ia dizer que a pru- dência e o desejo são fundamentais na vida, mas se tiver que escolher, o desejo é bem mais gostoso. Bel observa Eudes e sorri. BEL Vamos dançar. Eudes sorri e se levanta. SEQ. 28 – CREPÚSCULO / INT. / SALÃO DE DANÇA O garçom Gilson passa rapidamente e deixa um sanduíche na mesa de som de Marquinhos. MARQUINHOS Viu a Bel? O garçom Gilson sai apressado, com a bandeja carregada, apontando com o dedo uma direção. Marquinhos nem presta atenção no sanduíche, está nervosíssimo, com pescoço esticado pro- curando Bel na direção que Gilson mostrou, sem encontrar. SEQ. 29 – CREPÚSCULO / INT. / SALÃO DE DANÇA Vemos Betinho, o jovem dançarino que cumpri- mentou Elza na entrada, dançando com Sílvia, 83 Chega de Saudade miolo.indd 83 30/6/2008 17:01:15

65 anos, vestindo minissaia, que ela roda para lá e para cá. Sílvia procura ser sensual em tudo que faz. Betinho dança muito bem, como os velhos dançarinos do salão. Sílvia dá piruetas, faz coreografias. Ela exibe Betinho. Terminada a música, Silvia aponta Betinho para uma senhora que está na mesa. A senhora faz sim com a cabeça. Sílvia empurra Betinho na sua frente até a mesa dela. Chegam. SÍLVIA Vinte reais, seis músicas. SENHORA Ai, muito caro... SÍLVIA Meu bem... Ele tá fazendo teste pra nove- la. Logo logo, você vai ver ele lá na TV e vai se arrepender pelo resto da vida. Vai lembrar, eu tive o Betinho por vinte reais só pra mim e deixei passar... Senhora sorri para ele. Ele dá um sorriso de galã. SENHORA Quinze reais, cinco músicas. SÍLVIA Vai. Betinho leva a senhora para a pista. 84 Chega de Saudade miolo.indd 84 30/6/2008 17:01:16

SEQ. 30 – CREPÚSCULO / INT. / SALÃO DE DANÇA Vemos Ferreira, aquele de 140 quilos, dançando na pista em vôo solo, rodopiando pelo salão com velocidade e equilíbrio surpreendentes. Não pára. É leve, rodopia pelo salão sozinho, exibindo-se declaradamente. Abre toda a sua en- vergadura, estendendo seus braços ao máximo, faz seguidos giros de 360° com grande rapidez. Diverte-se e dá show. Elza e Nice observam. Ferreira caminha dançando, dando piruetas pelo salão. Leva uma flor na mão. Vai dando piruetas até a mesa de Elza e Nice. Vai com estilo, olhar de matador. Elas estão sentadas. Vai até Elza com flor na mão. Entrega a rosa coreograficamente e fala para as duas: FERREIRA Espero que estejam se divertindo esta noite, senhoras. Sai dançando com a maior categoria. Passa ao lado de Bel e Eudes, que dançam. Elza observa sentada, com cara de boba. Vários casais vão para a pista. Elza se levanta, oferecendo-se, mas ninguém a tira. Ela senta-se novamente, constrangida. Niceobserva-a,batucandonamesaedançandocom o corpo. Ela observa Ernesto se aproximar com seu copo de conhaque. Ele aponta pedindo um drops. Nice pega antes de Elza e dá para ele. Ele desem- brulha o drops e pergunta: 85 Chega de Saudade miolo.indd 85 30/6/2008 17:01:16

ERNESTO Se a vida fosse um filme, que filme seria? Nice responde sem titubear. NICE Juventude transviada. Ernesto faz sinal de positivo. Vira e sai. Nice fica olhando, encantada. SEQ. 31 – CREPÚSCULO / INT. / SALÃO DE DANÇA Ernesto caminha com seu conhaque, observan- do um casal na pista. Vemos o casal, a mulher é deselegante e dança com movimentos exces- sivamente animados, de modo ridículo. Ernesto ri. A dança acaba, o homem de camisa vermelha que dançava com ela acompanha a dama até a mesa e se afasta. Ela começa a conversar com a amiga, excitada. Ernesto tira uma caneta do bolso do garçom Gil

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