Revista Outro estilo nº 06- versão web

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Published on February 28, 2014

Author: eduardoaags

Source: slideshare.net

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Revista de "life style" e comportamento

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Revista OutRO estilO edição 06 oe lança seu sexto álbum top 6 boom boom kid colaboradores converse block party lourenço mutarelli bianca jhordão & rodrigo brandão livro transfer superchunk vista verde cultura lowrider no brasil sneakers lívia cruz linha de frente carla elektra e jéssica gabrielovna photografobia por luiz costa niterói rock underground 8 10 12 14 16 20 36 42 44 52 66 84 92 104 110 115 128 Ilustração de Lourenço Mutarelli para seu próximo livro, “Diomedes”, que será lançado pela Companhia das Letras no segundo semestre de 2011.

A música é forte e presente nessa edição da revista Outro Estilo. E não foi uma escolha, aconteceu, a música entrou nestas páginas como ela entra nos ouvidos, sem bater na porta. Eclética, renovadora e inspiradora. E assim, a Outro Estilo virou uma banda lançando seu sexto álbum. Porque o mesmo motivo que faz pessoas se juntarem para montar acordes, melodias e letras é o que nos move para contar histórias diferentes, convidar pessoas criativas e mostrar pontos de vista paralelos. E imprimir tudo isso de maneira jovem, como um desafiador Rock and Roll. Não é uma bela música clássica: na OE nada é belo, é outra coisa, é “estiloso”, sem perder a inteligência. A cada página uma música e a cada música uma ideia que mostra distintos universos que têm muito em comum. Olha só as três principais faixas desse álbum: um entrevistão com o multiartista Lourenço Mutarelli, a história da cultura lowrider no mundo e aqui no Brasil, e lições aprendidas com e pela rapper Lívia Cruz. Rimas fortes, com personalidade e atitude. Mas não é só isso, deguste e sinta que, mesmo gostando da energia da música tocada com três notas, estamos trabalhando para ir além. Com um estilo diferente. C M Y CM MY CY CMY K 10

TOP 6 6 discos fundamentais do punk argentino Dá pra pensar numa lista de discos fundamentais do punk argentino sem nenhum álbum do Boom Boom Kid ou Fun People? Quase impossível. O que justifica a ausência é a modéstia do autor da lista, o próprio Boom Boom Kid. Com muitos discos lançados, fãs ardorosos e shows memoráveis em todos os cantos do planeta, BBKid construiu uma trajetória única. Boa parte dessa história será contada no DVD que sai em breve no Brasil (pelo selo Läjä, de Vila Velha/ES), chamado “Incendios de um Pitecantropus Sin Iutub”. Encabeçado pelo próprio artista em parceria com o santista Lucas Valente, o DVD trará trechos de shows (inclusive do Fun People), viagens, clipes, entrevistas e muito mais. Sempre na estrada, o músico respondeu seu Top 6 diretamente da Bolívia. Fique com as escolhas do BBKid: os 6 discos fundamentais do punk argentino. C M Y CM MY CY CMY Texto Marcelo Viegas Foto Renato Custodio (1) Los Beatniks – ReBeLde / no Finjas Más K *Los Saicos foi uma banda de garage rock do Peru, de meados da década de 60. (1987) eu consegui com um menino de um fanzine da época, mas não sei se foi oficialmente lançada. Peguei informações sobre a banda através do primeiro zine de Skate Rock local, o Contorted, que era feito por Chara e Ras Marianito Gonzalez, ícones do skate argentino dos anos 80. (2) aLeRta Roja – deMo-tape (5) cadaveRes de ninios - deMo-tape 85/88 Começo dos anos 1980, antes de 1983, o disco trazia o super hit “Derrumbando La Casa Rosada”. Imagina o que era cantar isso nessa época*? Hardcore/Punk como ninguém fazia aqui. Letras inspiradoras. Assisti a muitos shows deles, e foram, sem dúvida, a maior e única referência “Faça Você Mesmo” dos anos 80, tendo muita influência para mim na hora de montar o Fun People. Essa Demo-Tape teve distribuição apenas de mão em mão, assim como a Demo do Cero De Pulso. Eles se recusaram a participar da coletânea “Invasion 88”, porque uma das bandas da compilação tinha óbvias tendências nazistas. Depois mudaram o nome para Cadaveres, a primeira e verdadeira banda de KillerGlam Garage Rock de Buenos Aires! Compacto 7 polegadas de 1966. Proto Punk portenho. Sim, Los Saicos* eram bestiais, mas Los Beatniks tinham as letras... *No começo dos anos 80 a Argentina ainda vivia sob uma ditadura militar. A tradução desse título é “Derrubando a Casa Rosada”. A Casa Rosada, como se sabe, é a sede da presidência da república argentina. (3) sentiMiento incontRoLaBLe – Les divieRte asesinaR Punk pacifista e, por que não dizer, anarco, de sonoridade única. No início, soavam como bandas finlandesas dos anos 80. Mas, no final da carreira, gravaram um LP chamado “Nuevas Tierras” que trazia uma sonoridade meio The Mission, perdendo um pouco da força de sua música, mas não de suas tão inteligentes letras. (4) ceRo de puLso – deMo-tape Esta é, simplesmente, A BANDA de Skate Rock da Argentina. Com verdadeiros skatistas em sua formação, é o The Faction portenho! A Demo-Tape 12 (6) Los BaRaja – coLetânea eM k7 Começo dos anos 1980. Los Baraja tinham imagem e atitude mais fortes que qualquer banda do gênero nessa época. Sua música evoluiu para um hardcore à la Septic Death, mas dessa fase não há nenhum registro. Na Internet anda rolando uma gravação do que eles eram no começo, com a mítica “Operación Ser Humano”.

1 3 1. Nairah Matsuoka tem 22 anos de carreira como filha de Rosângela e Marcos, e neta de Zézinho e Nair. Começou o ano como repórter de revista masculina e, nos últimos meses, chegou a apanhar da polícia e a se infiltrar em uma gangue. Apesar de japa, detesta peixe cru. 2 4 2. Endrigo Chiri Braz, 31 anos, resolveu virar jornalista de tanto ler revistas de skate na adolescência. Mais tarde, uma vez que já era skatista e jornalista, o caminho natural foi se especializar em cultura urbana. Atualmente, ele responde pelo conteúdo editorial da SubVert Comunicação. 3. Allan Hipólito é jornalista, DJ e um apaixonado por música e pela noite de São Paulo, além de ser um colecionador inveterado de qualquer merchandising relacionado ao filme Star Wars. 4. R. Donask, 37 anos, paulistano, fotógrafo autodidata desde 98, formado em Educação Física. Fundador do (coletivo 011), já trabalhou em jornais e revistas, bem como em agências internacionais, e atualmente trabalha no jornal Diário de São Paulo. 9 7 5 8 6 5. Ricardo Nunes, pernambucano, dentista de formação e um apaixonado por tênis desde sempre. Caiu de pára-quedas em outro universo e hoje comanda o SneakersBR, primeiro site a falar do mercado e da cultura sneaker no Brasil. 6. Aldine Paiva, 33 anos, jornalista de moda e stylist. Nasceu em São Paulo e desde a maternidade foi contaminado pelo aço e concreto, desde então o lifestyle urbano domina sua vida. Quando era criança comia sabonete, na adolescência trabalhou como ator e há dez anos se apaixonou pela possibilidade de usar as roupas como mídia. 7. Luiz Costa, mora em São Paulo, nasceu em São Paulo e quer morrer em São Paulo! Se especializou em fotografar pessoas nas melhores casas noturnas da cidade devido a variedade de tipos e situações que esse ambiente pode proporcionar. 8. Tide Martins. Beauty artist de 23 anos, traz seu estilo inovador e criativo para as páginas dessa edição da OE. Atualmente faz suas procuradas produções no Salão Capitu Cabelo, na capital paulista. Seu estilo diferenciado atinge todos os públicos, trazendo bom gosto associado com moda e muito glamour. 9. Fabio Bitão, 37 anos, skatista, fotógrafo, orgânico, Rastafari em prol da natureza. Depois que lançou o livro 365GRAUS não parou mais de flipar e continua entalhando shapes de skate. Cibelie Trindade. Formada em moda pela universidade Anhembi Morumbi, é idealizadora do projeto fashion corner. Já viveu em Paris, e hoje trabalha como maquiadora em desfiles, eventos e atualmente no Villaggio – (V.I.P. Sallon). Suas influências vêm do universo da moda, da arte, das tatuagens e dos grandes penteados (haute couture). 14

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O dia em que um chinelo de dedo se sentiu deslocado em plena Lapa carioca texto Endrigo Chiri Braz fotos alexandre vianna e fabio bitão 16

Nessa página: O Rap dá o tom nos Arcos da Lapa; os artistas Wilbor, Pedro Sánchez, CDR e Vagner Donasc, injetando cores nos tapumes; Zegon no comando das pick ups. No ônibus, as coisas já estavam meio estranhas, fora do habitual. Mesma linha, mesmo horário, mesmo destino – a Lapa Carioca. A princípio, um domingo como outro qualquer. Sambinha no final de tarde pra gastar um pouco de sola, apreciar uns dedinhos e tal. É isso que está faltando. Belos dedos femininos para distrair a viagem. Tem muito tênis nesse busão... Enquanto caminho em direção aos Arcos da Lapa começo a ouvir um som do ConeCrew Diretoria ecoando ao longe, o rap na Lapa é uma parada normal, mas eu continuo achando a paisagem diferente. Mais chapada de cor. Flagro que os tapumes administrativos do Bondinho estão diferentes, cobertos por colagens de uns artistas do Rio, o Wilbor, o Pedro Sánchez, o CDR e o Vagner Donasc, mas não é só isso. Não vislumbro dedinhos! Tudo que vejo é couro e camurça de tudo quanto é cor, chevrons, listras e swooshs aos montes. Nada de tiras. Dou um rolê pela feirinha, paro pra ver os caras do break dançando, e ali começo a entender o porque dos dedos protegidos. Quando encontro com uma mini rampa, vejo os skatistas profissionais gastando seus sneakers na lixa do skate; ali do lado, no famoso gap da Lapa, os amadores disputando a melhor manobra sem economizar solado, e começo a entender melhor o que está acontecendo. Enquanto caminho distraído com os meus pensamentos, passo a trombar com uns tênis grandes, maiores que o normal e com cara de ainda mais confortáveis. É dos parceiros do basquete que estão disputando a melhor enterrada na quadra armada sob os olhares curiosos de quem cruza os arcos de bondinho. E aí que tudo se conecta e passa a fazer sentido. 17

Rap, arte, break, skate, basquete... A Lapa está dominada por uma celebração da cultura urbana, a Converse Block Party Rio. Me dei mal. Os protagonistas da festa são os sneakers, o elo entre todos os elementos que compõem a cultura que vem das ruas. Aqui, chinelo de dedo não tem vez. Mas mesmo estando por fora do movimento, vou esquecer o samba. Fiquei instigado pra conhecer os dedinhos misteriosos escondidos dentro de algum bem servido par de sneakers. Está rolando o show do Marechal, e mais tarde ainda tem Zegon & BNegão e The Electric no Circo Voador. Vai que eu me arranjo com uma das estrelinhas que estão desfilando por aí e descolo um convite. Se tudo der certo, na próxima encarnação eu quero nascer sneaker. 18

Sentido horário: Um All Star no palco; visão geral da estrutura armada nos Arcos da Lapa, cartão postal carioca; a silhueta de Zegon e BNegão; Marcelo Formiguinha, a minirrampa, skate sempre presente. 19

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Entrevista Allan Hipólito (colaborou marcelo viegas) Fotos Atilla Chopa Quando alguém menciona o nome de Lourenço Mutarelli em uma conversa, fica difícil não sentir a aura cult que ele conserva. Quadrinhista de mão cheia e um dos poucos autores brasileiros a atravessar a década de 1990 com um trabalho autoral consistente, Mutarelli foi um sopro de novidade entre os que ainda teimavam em criar personagens anabolizados saídos diretamente de academias galácticas. A humanidade e os defeitos de seus personagens conquistaram uma pequena legião de fãs, que se debruçavam nos anos 90 sobre álbuns como “Transubstanciação”, “Eu Te Amo Lucimar”, “A Confluência da Forquilha” e “Desgraçados”, com a mesma devoção reservada somente a algo sagrado. Porém, isso não impediu que fosse ignorado pelos próprios colegas de profissão, além de sofrer financeiramente com um mercado ainda inexperiente e pouco profissional. Mas quis o destino que Lourenço tivesse seu talento reconhecido, e isso não seria nos quadrinhos, mas sim na literatura. Foi com seu romance de estreia, “O Cheiro do Ralo”, que o escritor viu sua vida mudar de repente. Sua obra chegou aos cinemas em produção dirigida por Heitor Dhalia e estrelada por Selton Mello. O filme contava ainda com Lourenço como coadjuvante, no papel do hilário segurança da loja do personagem de Selton Mello, demonstrando um namoro com o cinema que renderia a participação do autor no recém lançado “Natimorto”, inspirado no livro de sua autoria. Dessa vez, como protagonista principal. Depois de desenhar mais um capítulo de sua vida com seu traço forte de nanquim, Lourenço se sente livre para experimentar. Seja no cinema, no teatro ou na literatura, enfim está livre do peso de quadrinhista que tanto o atormentou, e agora pode viver (e criar) seus sonhos de modo mais plural: um multiartista, talentoso e devidamente reconhecido. Lourenço recebeu a revista Outro Estilo para falar sobre o início da carreira, a indiferença de Angeli e Laerte por seu trabalho, a virada por cima com a literatura e curiosidades que só alguém como Lourenço Mutarelli poderia reservar. 21

Quadrinhos No início da carreira, você trabalhou no estúdio do Maurício de Souza. Quando tomou a decisão de se jogar de vez nos quadrinhos autorais? Entrei no estúdio do Maurício porque precisava de trabalho. um amigo foi procurar emprego lá e acabei indo também. Queria trabalhar com animação na época e foi com isso que trabalhei por lá. Tinha uma gibiteca para os funcionários com muita coisa que não conhecia, umas coisas mais recentes, então comecei a ficar com vontade de tentar fazer um trabalho mais autoral. nesta época também começou a sair, além da Chiclete com Banana, a Circo que tinha o trabalho do Laerte, do Luiz Gê, com o qual me identificava muito. Tirei férias depois do primeiro ano trabalhando no estúdio do Maurício e comecei a produzir o meu material, além de tentar publicar, mas não consegui. depois voltei para o estúdio, e quando saí de lá de vez estava determinado a conseguir um espaço. Existiam muitas editoras na época, mas como o meu trabalho não era de humor, não consegui espaço. Foi aí que comecei a publicar os meus fanzines em 1988, depois recebi o convite da animal e algumas outras revistas, para as quais eu já tinha mostrado meu material, oferecendo uma página ou coisa assim. Como foi essa fase na Animal? a primeira página que a animal gostou e topou publicar foi a do Cãozinho sem pernas. Mas aí eles iam ter uma edição especial sobre ratos, na número cinco se não me engano, e pediram para fazer uma página que tivesse a ver com o tema. Porque na verdade eu publicava no Maus, que era um suplemento da revista. Comecei publicando estas histórias curtas e o primeiro trabalho autoral mesmo foi o álbum “Transubstanciação”, isso já em 1991, três anos depois. Fora isso, publiquei histórias menores e ganhei um pouco mais de espaço, mas nunca mais do que sete páginas. Era possível viver trabalhando com quadrinhos nesta época? até hoje é muito difícil essa coisa do que um autor ganha, tanto de livros quanto de quadrinhos. Peguei um trabalho agora de quadrinhos não porque queria, mas porque era um trabalho que pagava muito bem. até porque estou fora do meio e tem aparecido muitos convites e são valores mais significativos. Costumava brincar, na época, que era a minha mulher que trabalhava. Então era meio isso, ou você tinha outro emprego, ou tinha uma mulher ou uma namorada que ajudasse. Você comentou que voltou a fazer quadrinhos, mas por uma necessidade financeira. E também já afirmou que HQ é uma coisa que dá um trabalho muito grande e que não compensava. Você tem algum ressentimento com o meio? Tenho muito ressentimento. não existe nada muito claro, acho que é uma série de pequenas coisas. Mas cheguei em um ponto que não consigo mais ler quadrinhos. Trouxe alguns álbuns do hugo Pratt de uma vez que viajei à Portugal, e não consigo ler nem ele, que eu adoro. não consegui voltar a ler quadrinhos. Tenho um ressentimento, um desgaste, tem a coisa de trabalhar tanto. Quando fiz “o Cheiro do ralo”, minha vida mudou completamente. o filme sem dúvida abriu muitas possibilidades, mas o próprio livro abriu esses caminhos. E foi algo que fiz muito rápido e de uma forma muito prazerosa. Escrevi o livro em 2002 e lancei no mesmo ano, e o mundo mudou pra mim. Trabalhava e me dedicava de 12 à 18 horas por dia e nunca conseguia nada. Lembro que quando saiu “o Cheiro do ralo”, estava profundamente endividado e mesmo com 22 a minha mulher trabalhando pra caramba minha situação era bem difícil. outra coisa que me frustava muito, era nunca ter sido aceito nos quadrinhos e entre os quadrinhistas. Primeiro porque sou de uma geração intermediária de autores, como o osvaldo Pavanelli e o andré Toral, por exemplo, que sempre me trataram bem e tínhamos uma relação legal. Mas Laerte, angeli, e todos esses caras, tinham uma distância da gente e faziam questão de se manter distantes. nunca consegui publicar na revista Circo que era um grande desejo meu. sempre foi estranho pra mim esse meio. E na literatura, que tem caras que respeito profundamente, fui aceito como um igual ou sem nenhuma cerimônia do tipo: “ah, você veio dos quadrinhos”. nada disso, são pessoas que são amigos até hoje como o Valêncio Xavier, que pra mim é o maior autor brasileiro, o Marcelino Freire, o Marçal aquino, o Joca, o ronaldo Bressane, o ademir assunção, Ferréz, Xico sá, é muita gente mesmo. Tem alguns com quem você não tem muita afinidade, mas a maioria são pessoas que a gente tem um afeto. Como é sua relação com a atual geração de quadrinhistas? Participei outro dia de uma mesa na Livraria Cultura, num evento da Companhia das Letras, que tinha um pessoal novo, como o Caeto, e um outro menino que não vou lembrar o nome agora. E pensei que estava ficando velho, porque o pessoal era muito novo. Mas a minha relação é tranquila. Conheço uma molecada de Curitiba que frequentava minhas palestras lá e as vezes conheço pessoas mais novas ainda. só me dói muito ver que todo esse pessoal não tem espaço para publicar. Quando comecei a publicar umas tiras no Estadão, uma das únicas coisas que impus é que tivesse um espaço de tiras para pessoas novas, nem que fosse uma por semana. a proposta foi estudada, mas acabaram cortando

a minha participação antes que conseguisse concretizar esse projeto. Mas pra mim é tranquilo, porque tem muita gente que acaba tendo influência e um respeito pelo trabalho. Como você lida com o fato de ser uma referência para os quadrinhos brasileiros? É legal, mas não queria influenciar ninguém. Não quero que seja um peso, uma sombra ou uma reverência. Entendo porque já vivi o outro lado. Conheci caras que nos quadrinhos eram monstros e quando estive junto não consegui nem falar, não queria nem incomodar os caras. Para mim, estar junto ali já era legal. Mas sei lá, a gente quando faz não pensa onde isso vai chegar, ou quanto tempo isso vai durar, ou se isso vai tocar ou influenciar alguém. Tento desmistificar tudo isso quando conheço essas pessoas. Páginas da HQ “Seqüelas” (Devir Livraria), lançada em 1998. “Outra coisa que me frustrava muito, era nunca ter sido aceito nos quadrinhos e entre os quadrinhistas. Laerte, Angeli, e todos esses caras, tinham uma distância e faziam questão de se manter distantes. Nunca consegui publicar na revista Circo que era um grande desejo meu. Sempre foi estranho pra mim esse meio.” Tem algum movimento artístico com o qual você se identifique mais? Acho que o expressionismo e o impressionismo, esses dois movimentos tinham muitos artistas que gostava. É que tem umas pequenas variações dentro destes movimentos que também gosto. Mas acho que são os mais fortes pra mim. Qual a maior diferença entre a sua geração e a atual? É o excesso de liberdade e de acesso às coisas, essa é a maior diferença. O vídeo-game também muda demais: tenho certeza que se tivesse vídeo-game igual aos que têm hoje na minha época, eu não seria desenhista e nem teria feito quadrinhos, ia ficar só jogando. Você não ter algumas coisas tão fantásticas e hipnóticas assim, te obrigava a criar coisas, criar momentos. Às vezes acho meio delicado isso, algo ser tão fascinante que é difícil você sair dali. Mas o mundo está mudando e isso pode ser útil em algum momento também. 23

Lourenço muLtiartista “Quando fiz ‘O Cheiro do Ralo’, minha vida mudou completamente. O filme abriu muitas possibilidades, mas o próprio livro abriu esses caminhos. E foi algo que fiz muito rápido e de uma forma muito prazerosa. Escrevi o livro em 2002 e lancei no mesmo ano, e o mundo mudou pra mim.” 24 Além dos quadrinhos, você tem trabalhado recentemente com a literatura, o teatro e o cinema. Qual é a mais interessante para você e qual mais te castra dentro do processo criativo? o que mais tenho gostado é a literatura, e o que é mais experimental e onde você pode ir mais longe é no teatro. tenho desenhado e escrito coisas bem experimentais em uns cadernos, que também é onde tenho uma liberdade absoluta e não tem nenhum fim, mas acaba sendo um laboratório de ideias tanto para escrever quanto para desenhar. mas a literatura às vezes me castra um pouco, porque tem essa coisa de você ter um editor e ter que passar pelo olhar dele. algumas vezes o livro passa batido sem nenhum problema, mas às vezes surgem problemas quando estou escrevendo mentalmente e começo a me preocupar com isso, e não é comum porque sempre escrevi pra mim. então, em alguns momentos quando escrevo eu penso “será que vai ter algum problema, será que eles vão aceitar?” isso pra mim é muito desagradável, mas é contornável e negociável. Já o teatro é um lugar muito interessante em que você pode experimentar muito mais do que em qualquer outra área. Quanto aos quadrinhos, não tenho mais fôlego pra fazer história como tinha antes, pelo menos não nesse momento. Pode ser que eu volte a fazer alguma coisa com o mesmo prazer e com a mesma dedicação, mas por enquanto não tenho tido fôlego, por isso ele é o mais frustrante para mim. E o cinema? É uma coisa que entrei naturalmente a partir do Cheiro do ralo. Fiz algumas participações pequenas ou fiz o protagonista, como no caso do “natimorto”, mas é uma cosia que já se esgotou. Brincava dizendo que eu era mais como um policial infiltrado, o autor infiltrado. estava mais experimentando e vivenciando esse outro

lado que é muito interessante e fascinante, mas eu já estou satisfeito. Você disse que o Cheiro do Ralo foi determinante na sua vida. Como o Heitor Dhalia (diretor do filme) escolheu seu livro para fazer o filme? É culpa do Marcel Aquino, que não tinha nem terminado de ler o livro e indicou para o Heitor. Eles estavam fazendo o filme Nina, e aí o Marcel ligou para o Heitor e falou: “Olha, acho que tenho o livro que você está procurando”. O Heitor estava procurando alguma coisa na linha do Cheiro do Ralo para filmar, então ele acabou terminando de ler o livro antes do Marcel e pediu para ele me procurar, porque queria conversar comigo. Ele tinha ficado obcecado pelo livro, assim como o Selton Mello, que lutou para conseguir o papel. Como foi fazer o papel do segurança no filme? Foi muito divertido. Tinha feito um curta-metragem atuando um pouco antes disso e o Heitor pediu para que eu fizesse os testes com os atores e com as atrizes quando o Selton não pudesse vir para São Paulo. Nós provocávamos muito o pessoal nos testes, só para vê-los improvisando, e o Heitor gostou do que eu fazia, e fez o convite para participar como ator e escolher um papel. Disse para ele escolher, e de brincadeira ele sugeriu o segurança, porque sou pequeno e magro. Em quem você se inspirou para fazer o segurança? Um pouco antes de começar a filmar, fui em um caixa eletrônico que tinha no Shopping Center 3, na Av. Paulista, e tinha uma fila. Em frente tinha uma academia de ginástica, e saiu de lá um menino destes que fizeram a primeira aula de musculação, todo estufado. Ele parecia um frango, mas ele saiu num porte e, quando olhei, decidi que o segurança tinha que ser assim. Aquele cara que se acha, que não tem noção e acaba tendo outra visão dele mesmo. Outro que serviu de inspiração foi um segurança de um café que frequentava. Sabe esses seguranças meio tiozinhos? Ele era assim e tinha sangue nos olhos, um cara que você vê que é meio perigoso. Então veio meio que dessas ideias o personagem. Seu livro “O Natimorto” virou filme recentemente, com você no papel principal, e também foi adaptado para o teatro. Você notava estas possibilidades na época que você o escreveu? Não. Ele tem uma estrutura que vem do meu prazer em ler obras teatrais, lia muitas peças, e gostava de ler como se fosse livro. Era uma forma de como isso era apresentado, especificando quem está falando, essas rubricas. Então escrevi o livro assim por isso, por gostar dessa forma e querer experimentá-la. Mas nunca imaginei que ele fosse ser adaptado. Muita gente procurou para querer comprar os direitos pro teatro, que eu achava até mais natural, mas demorei pra encontrar alguém para quem quisesse vender. Aí encontrei a Maria Manuela e o irmão dela comprou para o cinema. Eu até falei que via isso como uma peça, mas não via como um filme. O que você achou do resultado do filme? Quando vi o corte final numa cabine, eu, o diretor, o montador e o músico, eu adorei! Adoro a peça também, e são completamente diferentes. Foi o Mário Bortolotto que adaptou (para o teatro) e fez um trabalho muito impressionante, porque ressaltou o humor que está no livro, e era muito divertido. Tem esse humor no livro, mas o Paulo Machline resolveu tirar esse humor do filme, ou deixar ele quase imperceptível. Achei que isso talvez pudesse deixar o filme muito pesado, mas quando vi o corte final me chocou como ele ficou próximo ao meu trabalho. Foi a adaptação mais fiel ao meu trabalho, talvez por essa opção mais radical. Acho que tive o impacto dele (o filme) que as pessoas tem do meu trabalho, que muitas vezes não é igual ao que eu tenho. Seu trabalho sempre tem um lado de auto-ironia e humor negro. O que você acha da condição humana? É muito patética, existe um ridículo muito grande no ser humano. Existe muita coisa boa também, mas não consigo levar tudo isso a sério, nem olhar isso sem um humor até agressivo, que é o humor negro. Mas é como vejo as coisas e isso está presente no meu cotidiano. Eu mesmo brinco muito com essas coisas, porque acho que não dá pra lidar com isso de outra forma. Seus personagens possuem um ar grotesco, mas são absolvidos de seus pecados durante o enredo de suas histórias. Isso surge naturalmente ou você busca exatamente transmitir isso em suas obras? No Cheiro do Ralo isso é totalmente intencional. Queria criar um personagem que fosse, no princípio, a minha antítese, que fosse totalmente desagradável, e fazer com que mesmo assim ele conquistasse quem está acompanhando o livro, ou até mesmo assistindo ao filme. Então, em alguns casos é muito intencional e em outros são personagens que eu vou tentando humanizar e nessa tentativa crio personagens desagradáveis. Mas, por outro lado, acaba criando uma identidade ou uma redenção. A criatura é tão patética que você acaba perdoando. 25

Quanto do Lourenço Mutarelli existe nos personagens que você faz? Tem muito. Porque mesmo esse personagem (do Cheiro do Ralo), que era uma antítese, no meio do livro eu acho que já estava tudo muito misturado. É muito difícil não misturar vivências e experiências. Se é um trabalho verdadeiro, você acaba misturando, embolando ou colocando eventos que tenham a ver com a sua vida ou experiências. InfânCIa Você nasceu em 1964, ano do golpe militar, e seu pai era delegado de polícia. Como foi crescer em meio a ditadura? Demorei muito pra entender o peso que esta época teve, porque não percebia o próprio regime militar entrar diretamente na minha infância. Estudava em colégio de padre, então além do militar, tinha esse peso religioso. foi uma época que cresci sob uma opressão muito grande. O melhor foi que de alguma forma aprendi muito cedo, não só por isso, mas pela minha situação econômica. Morei perto de onde hoje é a avenida Águas Espraiadas, exatamente entre uma favela e umas mansões, e tinha amigos dos dois lados. Então percebi que era classe média: pros favelados eu era filhinho de papai, e pro pessoal que tinha muita grana eu era o favelado. Então cresci sob uma opressão grande de todos os lados. acho que a única vantagem disso é que você aprende que tem coisas que não são pra você. acaba tendo um conformismo, mas por outro lado esse conformismo é grande demais e acaba afetando a sua auto-estima também. O importante também é sobreviver com o menor dano possível de tudo isso, já que ficaram marcas profundas. Como você descobriu o talento para os quadrinhos e para as outras mídias que você trabalha atualmente (teatro, literatura e cinema)? O desenho é o mais estranho porque lembro exatamente do momento que ele surgiu. foi muito natural, e acredito que com o tempo algumas coisas fiquem mais fáceis e você tem mais domínio; outras se tornam mais difíceis, porque você perde a crueza e uma pegada que é muito de quando você começa. Lembro de, ainda muito pequeno, começar a copiar uns desenhos de um livro do meu pai. Já rabiscava algumas coisas, mas naquele momento, copiando os desenhos, aquilo impressionou demais o meu pai e as pessoas a minha volta. E aí comecei a desenhar, que era uma coisa que me diferenciava num sentido legal, porque geralmente era muito inexpressivo, isolado e retraído. Então foi uma coisa muito positiva pra mim, que surgiu nesse momento e foi ficando natural dentro da minha limitação com meu traço tremido e pesado, que acaba sendo o meu estilo. Queria muito fazer um curso de desenho, mas meus pais não tinham condição de pagar, e isso foi muito bom para que eu me desenvolvesse do meu jeito. aMORES ExPRESSOS Como foi a experiência de passar um mês em New York para fazer disso um novo livro dentro do projeto Amores Expressos? acho o projeto maravilhoso, fiquei muito feliz de ser convidado, mas não queria ir pra new York. Queria ir para outro lugar, mas era o único que não conhecia a 26 cidade e eles queriam esse olhar estrangeiro. Era uma cidade que não me atraía em nada e foi um pouco frustrante. Porque é uma cidade que você conhece: é um lugar do qual você tem muita referência no cinema, na televisão, em tudo. Então não é o mesmo impacto do que chegar em uma cidade que você não tem muita referência, que é muito mais instigante para entender ou perceber. O livro sai no ano que vem e ainda não está pronto para mim. Já terminei, mas tive problemas com a Companhia das Letras que não gostou, aí mexi e dessa vez foi eu que não gostei. Mas como está previsto só para o ano que vem, vou voltar nele agora, já que acabei outro trabalho. Mas foi a primeira vez que a solidão me incomodou e entendo isso porque não era a minha solidão, era a solidão do Iliya, o dono da casa que fiquei. E isso eu tenho vontade de escrever, um livro com esse título mesmo, “a solidão de Iliya”. Porque eram os desenhos da filha dele na parede, eram as coisas dele. O que eu comprava, nada era meu, porque só ia ser meu quando chegasse aqui na minha casa. Então foi a primeira vez que tive um problema de lidar com a solidão, que era uma coisa natural e tranquila para mim. Depois de um ano, acabei tendo o meu primeiro bloqueio criativo, em função do livro e das circunstâncias. Então um ano depois voltei pra new York e fiquei mais dez dias. Dessa vez eu fiquei em Manhattan mesmo, porque na primeira vez eu tinha ficado no Brooklin. Qual foi a diferença da primeira para a segunda viagem? Brutal, porque do Brooklin eu ia para Manhattan todos os dias, mas tinha ficado em uma região meio barra pesada. É um lugar que tem uns lofts, umas fábricas antigas e é um lugar muito bom, mas o entorno tem uns conjuntos habitacionais com negros e latinos, e os táxis não me levavam até lá porque tinham medo. Embora não tenha tido nenhum problema, é um lugar estranho. O fato é que atravessar o Brooklin todos os dias para chegar até Manhattan era um desgaste emocional. Era muito triste, porque as pessoas pediam para você pagar o bilhete para eles irem trabalhar, e todo dia era isso. Então comecei a mudar o meu caminho e andava muito a pé, e passava em uma área nobre do Brooklin, onde você não era bem vindo. E em Manhattan não tem isso porque tem todo tipo de pessoa. Mas naquela região do Brooklin High era muito estranho. E é onde eu situo a minha história: ali ainda é um pouco mais tranquilo, porque tem muita mistura de latino. Mas até chegar ali tem uma região que o pessoal ficava muito atento e preocupado, tipo São Paulo, com as pessoas com medo umas das outras. Mas foi uma experiência legal, e acho que em algum momento voltarei para ela, mas não com essa encomenda. Você escreveu sobre New York no blog: “É uma cidade em que tudo já se viu. É como caminhar na lembrança”. Você diz isso pelas referências sobre a cidade? Sim, e uma coisa que me impressionou é que imaginava tudo maior. Parecia que estava em uma cidade temática de new York. Tentei fazer um pouco dos passeios turísticos também, tipo a Estátua da Liberdade, mas não tive nem coragem de descer do barco. fiquei olhando e pensei em não descer porque não me interessava, além dela ser muito pequena. aí tentei ir no Empire State, mas a fila era gigantesca. Tentei ir umas três vezes, mas a fila era sempre igual, e desisti porque não queria perder horas com aquilo. a Times Square é tudo aquilo que você conhece e no fim parecia tudo menor. não sei se é porque sou de São Paulo, mas nesse sentido era um pouco frustrante sim.

Ilustração do “Diomedes”, que será lançado pela Companhia das Letras no segundo semestre de 2011. “Na minha infância, morei exatamente entre uma favela e umas mansões, e tinha amigos dos dois lados. Então percebi que era classe média: pros favelados eu era filhinho de papai, e pro pessoal que tinha muita grana eu era o favelado. Cresci sob uma opressão grande de todos os lados.” 27

Internet Você não gosta muito de Internet, mas teve que escrever diariamente em um blog durante sua estadia em New York. Como foi a experiência? Foi maravilhoso, além de ser uma recompensa e uma companhia para essa minha solidão. Acho que foi o que me ajudou. Lá eu comprei um celular pré-pago, e é muito barato ligar para o Brasil e toda noite eu falava uma hora com a minha mulher e com o meu filho, pra dar um alô, o que era bom. Mas, fora isso, essas pessoas que postavam acabaram virando meio amigos. eu nunca tinha tido um blog, mas fazia parte do pacote ter um blog, fazer fotos e filmar algumas coisas também. e no fim foi muito bom, porque era uma coisa que fluía muito fácil. Como ficava o dia inteiro fora, quando chegava a noite era muito bom entrar e ver quem postou e também comentar. Tem vontade de ter um blog novamente? tentei voltar e não consegui manter. no ano passado comecei um outro blog, que foi legal porque permitiu que eu reencontrasse essas pessoas, mas aí uma entrevista usou algumas coisas do blog como se tivesse dito para eles e acabei deletando. Me senti meio ingênuo, porque achei que o blog era aquilo, era para aquelas pessoas, não achei que qualquer pessoa entraria e usaria aquilo de outra forma, então não pretendo ter novamente. E as redes sociais, você costuma usar alguma? tive um Facebook porque um cara com quem estava trabalhando falou que era bom ter para uma coisa que estava fazendo. nunca consegui usar o Facebook, só adicionava todo mundo e não conseguia postar, responder. Achava aquilo confuso e saí também. Pelo menos por enquanto não pretendo e não tenho nenhuma intenção de ter um perfil ali novamente. O twitter nunca me atraiu, tenho amigos com quem você conversa e eles ficam twittando. Acho isso muito desagradável, mas entendo, porque é fácil você ficar viciado nessas coisas. O blog mesmo, durante este mês em new York, eu queria entrar e ver os comentários e você começa quase que a criar uma dependência disso. Mas no momento não tenho nenhuma vontade de ter algo desse tipo. Você sempre afirmou apreciar a solidão. O que mais te agrada nela? A solidão, principalmente depois da literatura, é um momento fértil em que as coisas acontecem pra mim. Mas eu gosto de estar com meus amigos a partir de algum momento e recebê-los aqui na minha casa. Como você analisa o interesse do público jovem pelo seu trabalho? É engraçado, porque o meu público sempre foi universitário. Pelo menos em palestras, que é quando tenho contato e noto isso. Acho que é um momento da vida que surgem muitos questionamentos, e que apesar de todos estarem vivendo, descobrindo e vivenciando muita coisa, eles também se defrontam muito com a condição deles. Acho que por isso talvez tenha uma identidade, a partir do momento em que as pessoas começam a refletir mais. e quanto mais cedo a pessoa começa a ler ou a ir ao cinema, ou apreciar uma pintura, quanto mais ela está nisso, maior é esse questionamento. 28 “Tenho certeza que se tivesse vídeogame igual aos que têm hoje na minha época, eu não seria desenhista, ia ficar só jogando. Você não ter algumas coisas tão fantásticas e hipnóticas assim, te obrigava a criar coisas, criar momentos. Às vezes acho meio delicado isso, algo ser tão fascinante que é difícil sair dali.”

Predileções Que tipo de música você escuta? escuto muito os minimalistas, que chamam de erudito contemporâneo. É um tipo de música que induz ao transe e são muito repetitivas e atonais. ela ilumina áreas da minha cabeça que nada mais instiga. Costumo dizer que a música é minha religião e meu importador é o são Horácio (vendedor de discos). são músicas que eu demoro um ano escutando pra me emocionar. Gostava muito de rock quando era mais jovem e tem coisas que ainda respeito, como Black sabbath, que amava e colecionei todos os lPs. Gostava de AC/dC e também de Pink Floyd. Meu irmão tinha um cara que trazia umas coisas muito raras e lembro da primeira vez que ouvi Tom Waits, que é uma coisa que gosto até hoje. Mas tem muita coisa, principalmente as mais pesadas, que eu gostava demais. Quem entraria no seu top five musical? eu ficaria nos atuais: John Cage, Philip Glass, György sándor ligeti, Tom Waits e Arvo Pärt. Tem muitos outros, mas acho que estes são os que tem maior peso. Ouvi dizer que você é fã da adaptação para o cinema de “Naked Lunch” do William Burroughs, feita pelo David Cronenberg... É curioso porque é um filme que eu detestei nos anos 1980, quando fui ver no cinema. Tinha tentado ler Naked lunch e achei insuportável. Quando fui ver o filme achei muito chato e aí alguns anos atrás eu ganhei um Box de dVds com o filme, e decidi ver novamente. Aí ele me pegou de um jeito, não sei porque, e resolvi voltar atrás e ler a obra completa do Willian Burroughs. Fiquei completamente intoxicado por ele e por aquele trabalho. O livro “A Arte de Produzir efeito sem Causa” é fruto desse momento. Mas tem muitos filmes que eu gosto. Adoro os irmãos Coen, dos mais contemporâneos. Adoro o david lynch. Tem muita coisa que eu gosto. Cinema foi uma grande influência para mim. Tive a sorte de viver os cineclubes, então vi muita coisa. Teve um filme que me marcou muito e sempre cito como determinante: “As Três Coroas do Marinheiro”, do chileno raul ruiz. Polanski também tinha coisas que adorava. Tem esse pessoal novo, como os roteiros do Kauffman que acho muito interessante. O “sangue Negro” também, que foi um filme maravilhoso. Você ainda é um grande apreciador de café? eu tomo ainda, geralmente de manhã até a hora do almoço. Antigamente tomava café o dia inteiro e isso passou um pouco. Não tenho encontrado mais bons cafés e era uma coisa que eu explorava e apreciava muito. Acho que a gente tem no suplicy o melhor café de são Paulo, embora eu não goste muito do ambiente. essa coisa de Jardins me intimida um pouco. O que você faz no seu tempo vago? Geralmente aproveito de uma forma ociosa ou fico jogando paciência e assistindo a essas séries estranhas que passam na TV a cabo. Com a minha mulher e o meu filho costumo ver “Two And A Half Men”, que a gente acompanha. eventualmente vejo simpsons com o meu filho, mas estava vendo muito seriado de eT, por causa do livro que estou fazendo. 29

Você tem manias que as pessoas acham estranhas? Tem uma que é muito cruel e que as pessoas não se conformam. Nunca falei isso, mas tenho uma coleção de sedex lacrados, com coisas que me mandam. Não sei o que tem dentro, porque nunca abro e fica lá guardado. Começou com uma coisa que mandaram para minha editora e que o meu editor na época disse ser uma coisa urgente. Disse que depois pegava e ele me entregou o pacote somente seis meses depois. Fiquei com um pacote escrito “urgente” e pensei que não tinha urgência nenhuma naquilo. Aí não abri. Conforme fui ganhando outros fiquei com essa mania, e tem gente que não se conforma. Você não tem curiosidade de saber o que tem dentro de cada pacote? Nenhuma. É meio cruel, porque podia ser uma coisa incrível, pode ser uma coisa maravilhosa, pode ser uma coisa que mudaria a minha vida, mas não preciso disso, sei lá. Acho que essa é uma mania estranha minha. Qual a maior gafe que você já cometeu? Foi na primeira vez que fui para Portugal. Estava com a minha mulher e uns amigos e fomos jantar num restaurante, e tinha um senhor com uma moto muito diferente com uma cadeira atrás. Aí eu cheguei perto dele e perguntei se podia tirar uma foto. Ele desceu mancando e perguntou se eu queria sentar na moto, aí fui lá e tirei a foto e perguntei como chamava o veículo. Aí ele disse me disse que era um veículo para deficientes físicos (risos). Tenho a foto até hoje, mas fiquei muito constrangido. Foi a minha maior gafe, e eu nem me toquei, achei que era uma coisa adaptada porque era muito diferente e o cara mancava demais, tinha uma perna muito mais curta. Eu também não guardo nome nem fisionomia, então isso gera muita gafe. Outro dia encontrei uma pessoa e perguntei do bebê dela, e a pessoa me perguntou sobre qual bebê estava falando. De repente percebi que era outra menina que estava grávida e que não tinha nada a ver com ela... Na sua viagem à New York você mencionava ter comprado muitas coisas. O que você costuma comprar em viagens? Geralmente livros e CDs. É onde eu vou garimpar. Felizmente não tenho comprado tanto assim. A Lú, minha mulher, faz uma coisa: ela dá todos os livros que compra. Ela lê e, no fim do ano, ela junta e escolhe pessoas que tem a ver com os livros e dá. Mas eu não quero me desapegar dos meus livros. Às vezes eu dou, porque não tem mais onde colocar. Fiz isso uma vez na vida e vou ter que fazer isso de novo, juntar alguns pra levar no sebo de um amigo. Acho que estou menos impulsivo com isso, mas sem dúvida CD e livro é o meu ponto fraco. Você tem muito apego com suas coisas? Eu já tive mais, mas meus CDs e livros são coisas que não empresto. Não emprestaria um CD para ninguém. Você é um leitor compulsivo? Não sou mais desde que comecei a escrever. Li muito uma época, mas parei de ler ficção por alguns anos, então comecei a ler só livros teóricos. Fui ler Darwin, li muita biografia e também sobre a Inquisição. Me aprofundei em 30 “Meus CDs e livros são coisas que não empresto. Não emprestaria um CD para ninguém”

“Eu gosto de roupas que tenham tons meio mortos. É um estilo meio tiozinho, meio Seu Madruga, não sei definir (risos).” alguns temas que eram do meu interesse e, como trabalho com isso, minha cabeça fica cheia. Então eu tenho lido pouco. Quais são os seus autores prediletos? Tem épocas, eu diria. O Antonio Prata me falou do Kurt Vonnegut, um cara que eu nunca tinha lido e, depois que descobri, estou lendo tudo o que encontro. É o cara do momento e que me influenciou muito sem eu nunca ter lido. Ele tem uma forma e uma identidade com o que eu faço, sabe? Além de ter um humor muito doído, que é muito precioso e fascinante. Então quando descubro alguém, tento ler o máximo possível desse autor, mas tenho lido muito pouco. Esse ano está bem difícil. Quanto mais eu trabalho e tem mais coisas envolvidas, menos eu leio. Tem essa coisa de ver televisão também que é um hábito de, sei lá, uns dois, três anos pra cá. É o que minha mulher fala: “Ver TV algumas vezes é um forma de esvaziar”. Que é o que meu amigo falava da paciência ser igual a meditação. É um processo pra você esvaziar um pouco a cabeça. Sebo ou livraria? Sebo. Por que? Isso não é uma crítica e sim uma observação, como por exemplo no caso das editoras. Elas fazem os lançamentos e existe uma tendência, e no sebo não. No ano passado, estava em Curitiba e lá tem uns sebos muito legais e encontrei muita coisa do Anatole France, que não republicam, você não encontra nada. O próprio Burroughs você não encontra muita coisa, se encontra é um da LP&M e um da Companhia das Letras. Então sebo é legal porque você acaba encontrando pessoas que você nem lembrava mais, ou títulos que instigam. Como você definiria o seu estilo de se vestir? Eu gosto de roupas que tenham tons meio mortos. É um estilo meio tiozinho, meio Seu Madruga, não sei definir (risos). CASA, FAMíLIA, rOTINA Qual a importância da sua esposa na sua vida? É fundamental para tudo. Nós vamos fazer 20 anos juntos e costumo dizer que ela é uma extensão minha. É algo que faz parte totalmente de mim. Acho que tem momentos, pela rotina da vida, pela quantidade de obrigações e pressões que a gente vive, que as vezes nos descuidamos um pouco disso. Mas quando você percebe, isso volta de uma forma muito boa. Ela, meu filho Francisco, minha casa e meus gatos, são coisas muito importantes para mim. É a minha estabilidade, e de uma importância profunda e vital. Como é o Lourenço Mutarelli pai? Eu já falei que queria ser o meu pai (risos). Mas é dificílimo ser pai. Essas gerações não têm o peso que eu tive do respeito, da hierarquia. Meu filho me trata como um coleguinha, é muito diferente. Mas eu o adoro e tento ser um bom pai. Mas acho que é muito difícil. 31

Quais as maiores dificuldades, uma vez que seu filho é adolescente? Eu acho que o mais difícil é essa coisa do artista, porque você acaba tendo uma vida que você tem diferenças. Trabalho muito de manhã cedo, então quando chega no fim da tarde eu paro, e tenho meu tempo. Me preocupo com o que eu estou passando pra ele, porque eles aprendem com o que eles vêem, não exatamente com o que você fala. Tenho passado boas coisas, mas é difícil aquele diálogo que você diz: “Pode falar que eu não vou te julgar, vamos conversar”. E é difícil porque você escuta coisas que são muito contrárias e você prometeu que ia entender. Acho que a dificuldade é essa. Como é o seu dia a dia? Existe uma rotina? Preciso da rotina, porque você só consegue trabalhar em casa se tiver disciplina. Então acordo cedo pra chamar meu filho para ir à escola e já começo a trabalhar bem cedo. É o melhor horário para mim. Mas também entendo que tem dias que não está indo, e tenho que parar e jogar paciência, ou ir andar, assistir televisão, porque as coisas estão se processando. E agora, que estava terminando esse livro que é muito trabalhoso, tiveram momentos que fiquei dois dias sem trabalhar. Mas passava esse tempo e voltava totalmente revitalizado. As vezes um pouco de ócio - se você conseguir dosar e não tomar conta - é muito produtivo. Você tem cinco gatos. O que mais admira neles? Não tem um dia, desde que tenho meus gatos, que não tem algum momento em que fique totalmente encantado, vendo alguma atitude deles. Acho um animal incrível, mesmo que às vezes eles encham o saco no inverno, porque dormem todos em cima de mim e eu 32 acabo indo dormir na sala. Mas é incrível, adoro o ritmo deles, o silêncio e a bagunça que eles fazem. Como você se relaciona com a cidade de São Paulo? Adoro essa cidade porque consigo viver no meu ritmo. Não aguento o trânsito, por isso saio muito antes, uso muito metrô, não gosto de dirigir, então acho que é isso. É uma cidade que gosto muito quando você consegue viver no seu ritmo. Porque viver no ritmo dela é muito desgastante. “Nunca falei isso, mas tenho uma coleção de sedex lacrados, com coisas que me mandam. Não sei o que tem dentro, porque nunca abro. É meio cruel, porque pode ser uma coisa incrível, pode ser uma coisa maravilhosa, pode ser uma coisa que mudaria a minha vida, mas não preciso disso, sei lá.” No blog você cita o uso constante de remédios para dormir. Qual sua relação com medicamentos deste tipo? Depois de muitos anos, eu parei de tomar no começo deste ano. Era uma coisa que eu vinha tentando e aí parei. É algo que fez parte da minha vida por mais ou menos 25, 26 anos, mas que é possível também em alguns momentos ficar sem. Porque também, se eu ficar mal, eu volto sem nenhum problema. Parei por uma tentativa de vencer um pouco isso, porque tinha uma dependência química com um destes medicamentos, e queria vencer isso. Como está essa nova fase: tem sido melhor? Tem sido sim. Às vezes é melhor, e às vezes não, mas tem sido sim. A arte imita a vida ou a vida imita a arte? Outro dia eu estava vendo um filme do Woody Allen que me dá uma certa vertigem, porque tem a câmera muito solta. E nele, um personagem diz: “Você tem razão, a vida não imita a arte, a vida imita essas novelas mexicanas vagabundas”. Mas num sentido mais profundo, eu acho que a arte tenta imitar a vida, porque pelo ritmo do que a gente vive, acabamos deixando de perceber muitas coisas grandiosas e mágicas, que são banalizadas.

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Preferências O momento de união é fácil: a chama do amor brilha intensa, aquelas duas pessoas não conseguem mais se imaginar uma distante da outra, os minutos sozinhos demoram horas e os juntos, segundos. Dependendo da disponibilidade de recursos, aluga-se um apartamento. Uma festa e cerimônia de casamento atestam a tão sonhada liberdade, independência e a certeza de que terão muito tempo juntos para sonhar, viver, amar. Se o início é simples, cada vez menos casais conseguem desvendar os segredos que proporcionem a continuidade de algo que parecia indestrutível. Bianca Jhordão e Rodrigo Brandão têm desvendado juntos, por 15 anos, todos os mistérios da convivência, dividindo a moradia e o palco com harmonia. Ambos são integrantes do Leela, banda de rock com primeiro álbum lançado em 2004 (vencedora da categoria Revelação do VMB de 2005), que transita sem grandes traumas entre o mainstream e o circuito da música alternativa. Eles separaram as representações físicas que lhe trazem os bons sentimentos, tão necessários para a renovação constante da alegria dos primeiros dias. Texto Douglas Prieto Fotos Renato Custodio 36

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Preferências Guitarra Giannini Gemini Adoro o som dessa guitarra! Fica sempre a mão para criação de novas canções e também serve como terapia para as angústias do dia-a-dia. É só pegar e tocar! Case estação de trabalho Eu projetei o case e montei essa estação móvel de gravação de áudio em 16 canais separados. Consigo transportá-la com facilidade para gravações em shows, ensaios e é também onde criamos e gravamos nossas músicas em casa. box eriC Clapton Crossroads Foram os primeiros CDs que ganhei. Minha mãe me presenteou e apresentou, com esse Box Set, o som de Eric Clapton, e virei um devoto. Ela escreveu uma dedicatória contando que assistiu ao show de retorno aos palcos dele em 1973 no Rainbow Theater em Londres e, na mesma fileira, estavam Paul, George e Ringo, eles mesmos! hQ inCal de Jodorowsky e moebius Essa é a nova edição da primeira série que comprei de quadrinhos europeus adultos. É uma ficção científica com roteiro e arte espetaculares. Depois dela virei um aficionado colecionador de HQs adultas. Tá aqui representando minha coleção. box dVd star wars e boneQuinhos Esses filmes marcaram minha infância, e curto demais eles até hoje. Os bonequinhos são da época em que era criança e vivia brincando de Star Wars. saCola beatles sGt pepper’s Ganhamos da vendedora da loja oficial dos Beatles na estação do metrô St. John’s Wood próxima a Abbey Road, quando fomos visitar o famoso estúdio. Era uma brasileira que nos reconheceu do Leela e nos presenteou com essa bolsa linda. Foi muito representativo para mim: os Beatles, Londres (que é minha cidade natal) e ainda ser reconhecido. Inesquecível! troféu Vmb Foi um momento marcante pro Leela ser eleito a Revelação do ano pela audiência da MTV em 2005. Um reconhecimento do nosso trabalho. faixa menGão hexa Comprei no Maracanã no jogo em que o Flamengo se sagrou hexa campeão brasileiro em 2009. Já havia mudado para São Paulo e rolou um saudosismo, um retorno às minhas origens no Rio, quando morava próximo e frequentava o clube. Também assisti pela primeira vez a jogos do Mengão em estádios paulistas. Memorável! miCrokorG xl Trouxemos de Londres esse sensacional mini sintetizador que tem sons e timbres maravilhosos. É possível personalizar as configurações e criar meus próprios timbres. Várias canções e idéias surgem quando toco nele. box pantera Cor-de-rosa Série hilária e maravilhosa com um dos meus atores favoritos: Peter Sellers. 38

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Preferências Computador O computador é meu canal de comunicação com os amigos e fãs. Essa troca de ideias e contatos me instiga. Lembro da época de ir ao correio sempre, agora a conexão é direta. É com ele que atualizo as redes sociais, respondo entrevistas, edito fotos e vídeos, estudo os convidados do Combo (programa de televisão apresentado por Bianca, no Play TV), descubro novas bandas, leio jornais, revistas, blogs. altar eCumêniCo Buda, Sri Ramakrishna, Sarada Devi, Swami Vivekananda, Santa Cecília (padroeira dos músicos), Santa Rita, Mago Merlin, anjos, fadas, bruxas, cristais... No altar na porta de casa, eles me trazem boas energias e vivem em harmonia. pôster show Blur Em 2009, Rodrigo e eu comemoramos nossos 13 anos juntos no Hyde Park, em Londres, no show que marcou a reunião de volta do Blur, uma de nossas bandas preferidas. Depois esse show virou DVD, eternizando, assim, esse momento especial. Bateria Essa bateria Alesis DM5 Pro Kit é de pads, tem vários timbres bacanas e ideal para ter no apartamento. Gosto de sentir o ritmo pulsando o corpo e também pratico para tocar ao vivo no show do Brollies & Apples e para compor batidas pro Leela. teClado nord eleCtro 3 O som do piano embalou minha infância com as canções tocadas pelos meus pais. Adquiri esse teclado recentemente numa viagem. Os timbres são sensacionais, era o que faltava em casa. leela Grammy Concorrer ao Grammy Latino foi uma das notícias mais inesperadas que recebemos com o Leela em 2005. Nosso primeiro álbum ser indicado à “Melhor Álbum de Rock Brasileiro” ao lado de artistas já consagrados nos deixou muito satisfeitos e felizes com o reconhecimento do nosso trabalho. XBoX + Games Em 2009 comecei a apresentar o Combo: Fala + Joga e desenvolvi a habilidade de jogar videogames enquanto entrevisto personalidades. Jogar entrevistando é um desafio que tô dominando cada vez melhor. Jogo em casa com um Xbox360 + Kinect e curto algumas madrugadas com Alan Wake, Red Dead Redemption, Tekken 6, Marvel Vs Capcom 3, Fifa11, Lego Star Wars, L.A. Noire e por aí vai. ÓCulos de natação Fazer exercícios físicos sempre fez parte de minha vida. Já pratiquei sapateado, ballet, dança moderna, remo, musculação, spinning, hatha-yoga, ginástica aeróbica, pilates e há 2 anos treino na piscina, nadando cerca de 1.600m duas vezes por semana. É um momento de meditar em movimento, adoro. plantas: melindrosa e Verdita Cresci num sítio em Itaipava (RJ) rodeada de árvores, plantas e flores. Ter plantas em casa é um modo de me conectar com a natureza e com as boas lembranças da infância. A Melindrosa (a planta mais alta) faz parte de minha vida há 9 anos, é o xodó. A Verdita ganhei na época que apresentava o “Nickers” na Nickelodeon e já está aqui há 4 anos. Elas são minhas amigas, converso com elas todo dia. Guitarra / Violão A guitarra Schecter Diamond Series e a Craviola da Giannini estão à mão para serem tocados a qualquer hora do dia, da noite ou da madrugada. 40

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No mês de maio a Livraria da Vila (São Paulo/SP) recebeu artistas e convidados para o lançamento de TRANSFER arte urbana & contemporânea transferências e transformações, um livro que teve origem na mostra de mesmo nome, realizada entre julho e outubro de 2010 no Pavilhão das Culturas Brasileiras do Parque do Ibirapuera, em São Paulo, sob curadoria de Lucas Pexão. Editado pela ZY, em parceria com a Conceito – Consultoria em Produções Culturais, com patrocínio do banco Santander, por meio do Santander Cultural, o livro conta com 228 páginas que abordam todo o universo da mostra. Publicação única no cenário editorial brasileiro, TRANSFER traz pinturas, desenhos, fotografias, frames de vídeos, registros de intervenções urbanas e arquitetura, com trabalhos de artistas nacionais e internacionais. Releitura de Frederico Antunes da obra Compo Pdmpetesp, de Flavio Samelo. Livraria da vila Ana ferraz e lucas pexão whip luciana araujo ignácio e louise 42

sesper e roger mancha zansky, renan cruz e joão lelo arthur dantas e marcelo viegas renata simões 43

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Certas memórias permanecem conosco pelo resto de nossas vidas. O ano era 1998, e a banda norteamericana Superchunk, uma das mais importantes do rock alternativo da época, fazia sua primeira viagem ao Brasil. Como de costume, as datas principais (finais de semana) eram reservadas para as capitais. Assim, quis o destino que o show inaugural da turnê acontecesse em São Bernardo do Campo (SP), numa inesquecível noite de quinta-feira. Para receber o quarteto de Chapel Hill (Carolina do Norte), o palco nada glamouroso e pouco iluminado do extinto Planeta Rock. Sem estrelismo ou afetação, fizeram um show memorável, cheio de energia e emoção, com a plateia colada na banda, quase sem acreditar naquilo que estavam presenciando. Em 2000 voltaram ao país, para mais uma tour, divulgando o recém-lançado Come Pick Me Up. Corte para 2011. Onze anos depois, o Superchunk pisa novamente em território brasileiro, para dois shows gratuitos na Virada Cultural Paulista, em Mogi das Cruzes e Sorocaba, cidades do interior. A minitour veio no momento certo, pois a banda lançou, em 2010, um novo disco, Majesty Shredding, o primeiro álbum completo em nove anos. Novos e velhos fãs compareceram às apresentações, comprovando a força e a longevidade da música feita pela banda. Muita coisa aconteceu nesse intervalo de tempo, no mundo, no país e na história do grupo. O mercado musical, em especial, sofreu profundas transformações. Mas nada que pudesse modificar o essencial: Superchunk continua relevante. Conversamos com o vocalista e guitarrista Mac McCaughan, numa entrevista exclusiva que fala sobre a emoção de tocar no Brasil novamente, a relação entre os membros da banda, o trabalho na gravadora Merge, sua admiração pela música brasileira e até sobre o dia em que foi confundido com um integrante de outra famosa banda de indie rock. Entrevista Marcelo Viegas Fotos Alexandre Vianna 45

Antes do primeiro Bis, no show de Mogi das Cruzes, o público estava gritando “Superchunk! Superchunk!”. Quando você entrou no palco, disse algo como “gostaria de estar gravando isso”. Por que? Bem, o Guided By Voices tem algo parecido com isso num disco antigo – nem sei dizer se era verdade ou não – no qual o público ficava gritando “G-B-V!”. E em Mogi foi mais ou menos assim. Teria sido muito legal se estivéssemos gravando... As plateias não fazem isso tão frequentemente nos EUA. Qual a sensação de tocar no Brasil novamente, depois de 11 anos? Foi demais! E foi realmente louco ver que existem tantos fãs que ainda se importam com o que fazemos, e que viajaram de outros lugares para assistir os shows. Também foi surpreendente ver que haviam muitos fãs jovens, e não apenas velhos como nós! É uma longa viagem, dos EUA para o Brasil, para fazer apenas dois shows, e eu gostaria de ter tocado também em alguns clubes, mas quem sabe numa próxima vez... O que notou de diferente no país? Foi interessante tocar nesse festival (Virada Cultural Paulista) em pequenas cidades, comparadas com os lugares que tocamos nas outras vezes, como São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, etc. É uma sensação diferente. Outra coisa diferente dessa vez foi o fato de que todos os shows aconteceram exatamente no horário marcado! 46

época da gravação do disco ele ainda estava em Nova Iorque, e ficava indo e voltando. Assim, tínhamos que ensaiar as músicas bem rapidamente, e então gravávamos as linhas principais de 3 ou 4 músicas em poucos dias, para que ele pudesse voltar pra Nova Iorque. Eu fazia overdubs e acrescentava outros detalhes no estúdio da minha casa, e mandava as faixas abertas para o Scott Solter mixar. Foi uma maneira divertida de trabalhar, bem tranquila. Vocês já tocaram um cover do Misfits (“Where Eagles Dare”), e já se caracterizaram como a banda para um show especial de Halloween. Curioso pensar no Misfits como uma influência para o Superchunk... É engraçado isso, porque não existem muitas bandas que são uma unanimidade para nós, e o Misfits é uma dessas poucas exceções. As músicas são demais, a maquiagem é divertida, a coisa toda é absolutamente única... se por um lado as letras são horríveis, por outro as músicas são demais! Além disso, é Punk Rock! É Punk Rock empolgante, e era exatamente isso que gostaríamos de ser quando começamos. Sua gravadora, a Merge Records, continua operando a pleno vapor apesar da crise da indústria fonográfica. Qual o segredo para sobreviver nesse novo cenário? Nosso fotógrafo registrou vocês no camarim, conversando, relaxando, se divertindo... Bem, vocês têm feito isso desde 1989: qual a sensação hoje em dia? Chega uma hora em que você percebe: “acho que é isso que faço: eu sou um músico”. Então, enquanto for divertido, nós continuaremos fazendo, apesar de hoje tocarmos bem menos do que antigamente (uma das razões pelas quais não fizemos uma tour maior no Brasil dessa vez, é que todos nós ficamos muito tempo longe de casa recentemente). Assim, desde que coloquemos limites nisso para manter nossa sanidade, nós podemos nos divertir. Se o fotógrafo tivesse nos flagrado naquele mesmo camarim depois de uma tour de três meses, eu não sei se estaríamos nos divertindo tanto assim... Ano passado vocês lançaram um novo álbum, Majesty Shredding. O primeiro vídeo-clipe foi da música “Digging for Something” (“procurando por algo”). O que vocês estão procurando? Essa música é sobre uma certa época da vida – os vinte e poucos anos – na qual todo mundo parece estar se divertindo, indo à festas, fazendo qualquer coisa que tivesse vontade de fazer, mas sem pensar muito sobre isso. Mas, ao mesmo tempo, quando você olha pra trás e reflete sobre aquele período, percebe que as pessoas estavam sim buscando algo com significado, seja em termos profissionais ou pessoais, mas tudo isso estava sempre abaixo da superfície. É uma época muito interessante. Como foi gravar esse disco? Pelo que sei, o Jon Wurster (baterista) não mora no mesmo estado que o resto da banda... Agora o Jon está morando novamente na Carolina do Norte, mas na Infelizmente não temos nenhum segredo para compartilhar. Nós apenas fazemos o que sabemos fazer! Eu acredito que o fato de sermos u

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