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Revista Outro estilo nº 04- versão web

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Information about Revista Outro estilo nº 04- versão web
Design

Published on February 27, 2014

Author: eduardoaags

Source: slideshare.net

Description

Revista de "life style" e comportamento
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ENtREvIStA FABIO MASSARI o reVerendo Conta tudo discos que mudaram o rap PARTeuM faz a lista MONIQUE MAION NO COMPASSO DE Jazz, sensualidade e Bukowski JUNECA pessoinHa desVendamos a lenda urBana dos anos 80 outro estilo #05 DANIEL MELIM | PREFERÊNCIAS FELIPE & MARIA (IDEAL SHOP) | BIQUÍNIS E MAIÔS | CAMILA CORNELSEN | SNEAKERS outroestilo.com.br 9 780021 766925 edição 04 | R$ 9,90 04> #04

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editorial Verão 2011 edição 04 outroestilo.com.br 10 Fabio Massari é um exemplo do que significa ter outro estilo. apaixonado pelos “bons sons” o , reverendo sempre foi além da superfície, pesquisando, descobrindo e divulgando. através das suas dicas, muitos tiveram – e continuam tendo – acesso a um universo musical amplo, rico e alternativo. ou seja, um universo outro estilo. Nessa quarta edição da revista outro estilo, além da entrevista histórica com o Massari, ainda temos Monique Maion, Juneca Pessoinha, Parteum, daniel Melim e muito mais. e assim começamos 2011...

C M Y CM MY CY 16 night photos 18 add to cart 20 top 6 24 monique maion 40 preferências 48 fabio massari 12 outroestilo.com.br edição 04 Verão 2011 índice 62 biquínis e maiôs 74 camila cornelsen 78 moda+bikes 84 parteum 86 sneakers br 94 editorial de moda 104 juneca pessoinha 110 night photos CMY K

Loja Billabong Oscar Freire R. Oscar Freire, 909 - Jardins TEL: (11) 3081 -2798

diogo brasiliano 24 anos, diretor de estilo da Agência Tout (atout.com.br) e pai da Beatriz, assina o editorial de moda “Another Side” nessa edição da OE. caMila cornelsen 28 anos, é vocalista da banda Copacabana Club. Nasceu e mora em Curitiba, é apaixonada por fotografia e, surpreendentemente, possui formação em engenharia civil. david toledo Paulistano, fez história como skatista profissional, foi um dos produtores do documentário Dirty Money e hoje trabalha com produção e assistência de fotografia. gabi garcez duarte A maior parte do tempo é professora de moda, mas também escreve, faz produções e figurinos. Gosta de sair pra se divertir e observar as pessoas e a cidade. Michel goMes Trabalha com cinema e fotografia. Opa! Michel, bão?! juliana sassi 23 anos, formada em jornalismo e ensaiante a cientista social. Escreve para revistas de educação, política e economia, e agora está se arriscando por outras áreas. C M Y CM luiza salati Manfrinato 25 anos, veio da terra da pamonha, Piracicaba, mas não gosta de pamonha. Já fez produção para vídeos, estudou Naturologia e trabalhou numa galeria de arte. Na próxima vida quer ser cantora (e ter um estilingue). 14 outroestilo.com.br edição 04 verão 2011 colaboradores luiz costa Mora em São Paulo, nasceu em São Paulo e quer morrer em São Paulo!!! Se especializou em fotografar pessoas nas melhores casas noturnas da cidade devido a variedade de tipos e situações que esse ambiente pode proporcionar. ana Paula negrão 32 anos, skatista, fotógrafa e produtora. Nasceu em Ribeirão Preto (SP) e mora desde 2000 nos EUA. É artista da Galeria do Consulado (Los Angeles) e baixista da banda As Catantes. tide Martins 22 anos, é maquiador e cabeleireiro. Apaixonado por imagens, adora usar seus pincéis e tesouras para embelezar uma mulher. Atualmente trabalha no Salão Bardot, em São Paulo. renata aMaral 34 anos, divide seu tempo entre os trabalhos como assistente de direção de filmes publicitários e sua paixão, o trabalho com moda. Piero d’avila 29 anos, é natural de Belo Horizonte (MG). Formado em publicidade e propaganda, decidiu se dedicar à fotografia há cinco anos. Há dois anos em SP, Piero se reconhece a cada dia em um trabalho efervescente de aprimoramento da sua imagem de moda. Fotografia de moda em duas palavras? “Luz e atitude”. MY CY CMY K

V O N Z I P P E R . C O M LO JA B I L L A B O N G O S CA R F R E I R E R . O S CA R F R E I R E , 9 0 9 - JA R D I N S | T E L : ( 1 1 ) 3 0 8 1 - 2 7 9 8

NIGHT photos silvinho clash Melina depeyre e aMigo Michele freitas e celso galani fabio pi e aMigas tibira e aMiga fotos luiz costa dalvi brothers aManda tedesco verão 2011 night photos carla Martins e o vocalista do she wants revenge 16 outroestilo.com.br edição 04 eduardo azevedo, tiago carandina e caMila Marder stephan doitschinoff veridiana bressane e parteuM kichi e lekka glaM

kika martines helena sasseron e ma sasseron moe pirata homes e debora casella carol barbieri rodrigo moretti mauro farina e rizza bonfim elaine ela luciana araujo, marcelo casanova laima e iggor (mixhell) marcelo casanova, bra zales e rodrigo (carniceria)

alto evoke (fast forward) R$ 767,00 absurda (bela vista) 18 outroestilo.com.br edição 04 verão 2011 add to cart fotos alexandre vianna embaixo R$ 490,00 ray-ban (aviator) R$ 650,00 vonzipper (fulton) meio R$ 649,90 oakley (marcelo d2) R$ 369,00

S NE S IT &F R A WE H C A BE santik.com.br Show Room av. Professor Alfonso Bovero 1238, cj 01 tel 11. 2639.1290

tExto MarCElo viEGaS | foto EDuarDo Braz (2) TOP 6 Daniel Melim 20 outroestilo.com.br edição 04 vErão 2011 top 6 D ( 6 intervenções urbanas que marcaram época em Sp ) Daniel Melim é um dos artistas urbanos mais politizados da sua geração. Seus estênceis levaram cores e mensagens aos bairros pobres de SBC (sua terra natal), e também chamaram atenção das galerias. Hoje, aos 31 anos, Melim faz parte do cast de artistas da Choque Cultural (está produzindo novos trabalhos para uma grande exposição na Galeria, ainda sem data definida), tem um projeto programado para 2011 na Suíça e continua “rabiscando as ruas” como ele mesmo diz. Com exclusividade para a revista , outro Estilo, o artista listou seis intervenções urbanas que marcaram época em São paulo. (1) PICHAÇÕES POLÍTICAS As pichações políticas marcaram a época da ditadura não só em São Paulo, como em todo o Brasil, levando consigo mais uma carga política do que de intervenção urbana propriamente dita. Mas considero intervenção não só o resultado final, mas o “acontecimento”, ainda mais dentro do contexto da época: Arte e Política. ENSACAMENTO O grupo 3Nós3 foi criado em 1979, por Hudinilson Jr., Mario Ramiro e Rafael Franca. Suas ações eram marcadas pela transgressão, ilegalidade, manifestações de pensamentos e práticas marginais, como a intervenção “Ensacamento”, onde o grupo cobriu com saco de lixo preto diversas estátuas e monumentos públicos pela cidade de SP, causando uma grande polêmica e confusão. A intervenção virou notícia em diversos jornais impressos da época. O 3Nós3 realizou 11 intervenções desde sua criação até 1982, quando o grupo de dissolveu.

(3) A RAINHA DO FRANGO ASSADO Alex Vallauri é considerado o pai do graffiti no Brasil, por ser o pioneiro a aplicar seu estênceis pelas ruas de São Paulo durante o início da década de 80, ainda com resquícios da ditadura. Ele começou a espalhar o desenho de uma bota pela cidade, usando um molde em papel e spray. Mas foi com uma mulher de botas de salto alto, luvas e segurando um frango assado que ganhou popularidade, imprimindo seu trabalho nos muros da City. Tssss! (4) TÚNEL DA PAULISTA Já faz algum tempo que “O Túnel da Paulista” virou um livre espaço de intervenção relacionado ao graffiti, e também foi palco de diversos desentendimentos dentro da arte de rua. É um lugar controverso, já que abriga o único painel de graffiti que é restaurado quase todo ano - controverso pensando no graffiti como arte efêmera -, uma grande obra do Rui Amaral, desenvolvida no final dos anos 80, que virou patrimônio da cidade. Rui é um dos pioneiros a explorar esse espaço de Sampa, fazendo os primeiros rabiscos, junto com o grupo Tupinãodá, no agora lendário Túnel da Paulista. (5) GRAFFITI MURO DO CARANDIRU O Muro da Penitenciária Feminina do Carandiru foi suporte para diversos painéis de graffiti na primeira metade da década de 90. Foi lá que surgiu um dos painéis mais bacanas de graffiti na época, onde pintaram juntos OsGemeos, Tinho, Speto, Vitché e Herbert. Esse painel formou uma estética única com a linguagem de cada um, que já continham traços inconfundíveis. (6) OSSÁRIO Ossário foi uma intervenção do artista Alexandre Orion, que ocorreu na madrugada do dia 13 de julho de 2006, no túnel que liga a Av. Europa com a Cidade Jardim. A ação consistia em “limpar” a poeira e fuligem produzidas pelos carros nas paredes do túnel, criando imagens de caveiras. O trabalho não tinha nenhum tipo de autorização ou coisa do gênero. Com isso, Orion levou vários “enquadros” durante sua intervenção nos 150 metros de muros. Mas nada pôde ser feito pelos policiais, já que ele estava “limpando” o muro e não há na lei nada que impeça alguém de limpar alguma coisa. Enfim, Nada Consta! Desde sua intervenção com as caveiras nos túneis, a Prefeitura de São Paulo vem realizando limpezas periódicas nos diversos túneis da City. Cof! Cof!.

24 outroestilo.com.br edição 04 Verão 2011 enSaio + PerFil TexTo Juliana SaSSi | FoToS Michel GoMeS no coMPaSSo De MONIQUE MAION

N Num primeiro momento, o visual de Monique Maion, também conhecida como Mon Maion, confunde quem espera ver uma típica cantora de jazz. Monique combina elementos estéticos que remetem às pin ups e aos junkies com traços de cabaret. Mas o que pode parecer contraditório faz todo o sentido quando sobe ao palco. Sua música é carregada da sensualidade do jazz, com doses sombrias do folk, de blues e de referências da música francesa como Serge Gainsbourg. Tudo em perfeita sintonia.  A cantora prefere fugir dos conceitos pré-estabelecidos. Para ela, os rótulos são traiçoeiros e auto restritivos. Prefere dizer que o jazz a influencia, assim como o rock and roll e a música eletrônica. Inserida em uma cena de músicos criativos e independentes, procura construir uma identidade baseada em seu modo de ver o mundo e, com muita qualidade e elegância, consegue transmitir essa ideia através de suas letras e performances no palco. A sensualidade aparece como traço marcante. Segundo ela, todos deveriam estimular essa energia vital, mas compreende, ao mesmo tempo em que critica, o tabu que ainda ronda a questão. “Muita gente tem vergonha de explorar sua sensualidade por causa dos padrões sociais. Eu demorei um tempo para me aceitar, para conseguir ficar de calcinha e dançar no palco, mas vale muito a pena”.   26 outroestilo.com.br edição 04 Verão 2011 O interesse de Monique pela música começou aos sete anos. Passou por uma fase metaleira, ouvia Sepultura, Motörhead, chegando ao Hendrix, que a levou a Janis Joplin, quando conheceu o jazz e o blues.  “Tinha influência da Odetta, uma das musas do Bob Dylan, que tinha essa pegada meio gospel, soul e folk, e nessa comecei ouvir muita coisa antiga, dos anos 30, 40.” Mon Maion, que já foi comparada a Tom Waits, uma notável referência em suas músicas, subiu ao palco pela primeira vez em um Pub aos 15 anos, quando viajou para Londres em férias. Ela brinca que “na época era muito louquinha, meio hippie”. Uma loucura que se mostra mais do que necessária para quem faz e pretende viver da própria arte no Brasil. São 10 anos na batalha para produzir e divulgar seu trabalho, ainda restrito a cena underground. “Eu luto pelo  mainstream”, diz ela. “Esse lance de dizer que eu faço jazz alternativo, se for pela ideia de ser fora do padrão, dos standards jazz, aí tudo bem, eu aceito. Mas se for pensar porque está em uma cena alternativa, não é nem uma opção minha, eu luto para minha música ser mais conhecida, não faço apologias ao alternativo.’’

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“Demorei um tempo para me aceitar, para conseguir ficar de calcinha e dançar no palco, mas vale muito a pena” Mesmo fora do mainstream, a cantora demonstra grande preocupação com a influência que possa ter sobre seus fãs. “Principalmente depois que comecei a ter muitos seguidores jovens no twitter, por ser amiga da Mari Moon, caiu muito a minha ficha quanto ao que a gente que faz arte deve falar, do que devo criticar, porque as coisas ficam e muita gente pode ouvir anos e anos depois.” A compreensão passa pelas letras do novo CD. “I Killed a Man foi mais uma piadinha, é uma música engraçada, meio Woody Allen, mas tem a Human Kindness, que eu falo da capacidade humana de matar uns aos outros durante séculos, e começo a tratar de assuntos que eu penso muito, minha teoria da conspiração.” 30 outroestilo.com.br edição 04 Verão 2011 Dando vazão à teoria, ri ao lembrar que uma vez indicou um vídeo no twitter e recebeu uma mensagem de Global Security Warning e teve o computador bloqueado. “Bloquearam meu twitter porque eu tinha falado do HAARP, um documentário que mostra como o ser humano tenta controlar o clima, podendo causar um terremoto. É uma audácia do ser humano achar que pode controlar tudo, quando a maior maldição é a nossa consciência.” Monique também encontra inspiração nos livros de Charles Bukowski, Henry Miller, Woody Allen e, nas fases mais românticas, em Scott Fitzgerald.  “Gosto dessa coisa meio hipocondríaca do Woody Allen ‘ai, eu to com câncer’, essas doenças típicas da sociedade de concreto. É estresse, atraso, trânsito, fobia de ser assaltado no farol, ter que andar sempre atento. Para um cara do seu lado no farol e ao invés de falar ‘e aí, cara, beleza?’ e pensar que está tudo de boa, você fecha o vidro porque acha que aquela pessoa pode te causar algum mal, o que é um absurdo no sentido humano. Nós temos medo uns dos outros, e como o que eu posso fazer é escrever, eu escrevo.”

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“Eu luto para minha música ser mais conhecida, não faço apologias ao alternativo” Já no seu primeiro CD, chamado Lola, Monique mostra essa inquietação em relação aos  padrões sociais ao contar a história de uma prostituta que fica noiva, mas opta pela prostituição ao imaginar sua vida como dona de casa.  “Minha crítica é justamente porque as pessoas são todas moldadas. Eu tenho essa crítica principalmente por morar em São Paulo, uma cidade que exige muito da gente, e onde é muito difícil ser artista. E muitas vezes a gente pode fazer escolhas que são julgadas como erradas, porque fogem do padrão, como ser prostituta.” 34 outroestilo.com.br edição 04 Verão 2011 Quando está em São Paulo, quase sempre trabalhando, Monique conta que acaba indo basicamente aos mesmos lugares onde toca e gosta muito do Tapas, bar da Dida, Talco Bells, VoodooHop, “um conceito de festa bem Berlin, de fazer festas bem animadas em lugares inusitados e recuperar lugares no centro da cidade.” Mas ela também gosta de curtir momentos de paz e sossego. E nessas horas pega a estrada de volta para casa, um refúgio próximo ao Pico do Jaraguá, onde pode ficar um pouco “fora da noia de São Paulo”. “Sou mais da natureza do que da cidade. Gosto muito de ficar em casa, ir para a fazenda, curtir uma cachoeira. Todo dia vou para um clube a 500 metros de casa que tem muito mato, pássaros, pavão, um laguinho e eu gosto de compor por lá.” Durante 2010, Monique se dedicou mais à composição e gravação de novas músicas do que propriamente a fazer shows. O novo CD ganhou um nome há pouco mais de duas semanas, e divulgamos aqui em primeira mão: The Stolen Records. O projeto do Sunset II (assim como o EX! e Die Katzen) está rolando, e Monique e Gustavo Garde pensam em lançar pelo menos uma música na internet antes do Natal. Para 2011, a expectativa é cair na estrada com muitas e boas novidades. É ficar atento e conferir: Monique Maion.

Thiago Navas Marcelo raMos e DaviD ToleDo FotograFia. Michel goMes cheFe De elétrica. aNToNio ToTi agraDecimento. FruiT De la PassioN, liMecriMe, raquel BoTTas e MariMooN Direção De arte. 36 outroestilo.com.br edição 04 verão 2011 ProDução.

40 outroestilo.com.br edição 04 vERão 2011 PREFERÊNCIAS tExto mARCElo vIEgAS | FotoS RENAto CuStodIo Preferências IDEAL SHOP Felipe Gasnier & Maria Maier

E Empreendedorismo voltado à cultura alternativa. Essa é uma boa maneira de resumir a trajetória de Felipe Gasnier, mais conhecido como “Felipe da Ideal” O que começou timidamente em 2002, nas famosas . banquinhas dos shows de hardcore, virou negócio sério com o passar do tempo. Hoje a Ideal é um conglomerado de atividades relacionadas ao universo independente: selo, loja virtual, editora, estamparia e afins. Aos 25 anos, Felipe nunca trabalhou com outra coisa. Foi com o rock que construiu sua vida. E seu casamento também: “A primeira vez que vi a Maria, ela usava camiseta do Pennywise e tinha o cabelo roxo” recorda, ao mesmo tempo em que troca um olhar com a esposa e sócia. Sim, além do apto em SBC, , o casal também divide contas, orçamentos e jobs na Ideal e na 7Polegadas, empresa que criaram recentemente, e que faz licenciamento, produção, distribuição e venda de merchandising oficial de bandas e artistas nacionais e internacionais. Conheça agora as Preferências do Felipe. Felipe Gasnier 42 outroestilo.com.br edição 04 VERãO 2011 PREFERÊNCIAS 1. CAMISETA ARNALDO BAPTISTA “Começamos a trabalhar com o Arnaldo na 7Polegadas e um dia recebi em casa essa camiseta pintada a mão por ele. Até hoje ainda não caiu a ficha para mim, ele é um dos melhores artistas do Brasil, um ser ímpar.” 2. MONÓCULOS - LEMBRANÇA DO CASAMENTO “Essa foi a lembrancinha do ‘churras/casamento’. É muito especial para mim, mais que todos itens. Nunca ligamos para festa e toda essa parada de casamento, mas quando olho para essa fotinha me emociono.”   3. COLEÇÃO FUN PEOPLE / BOOM BOOM KID “Por ter a loja foi mais fácil ir juntando a coleção. Guardei tudo e mais um pouco que consegui deles, tenho todos os CDs (tem título que tenho versão argentina/brasileira/americana/ japonesa), vinil, shape, pôster, livro, gibis, button, camisetas... Um dia o mundo vai descobrir o Nekro!!” 4. VINIL RENATO E SEUS BLUE CAPS “Sou fanático por Jovem Guarda, desde o Rei Robeto, Erasmo, Sergio Murilo, Fevers, Os Incríveis... fui tão a fundo que às vezes sinto que presenciei os programas do Ronnie Von e RC. Esse disco ai é de quando o Erasmo Carlos entrou para a banda no lugar de Ed Wilson.” 5. DVD “MOACIIR - ARTE BRUTA” “Um documentário que mostra um cara cheio de problemas no interior de Goiás, mas que faz uma arte única e em todo canto. Tem o trailer no Youtube, que resume tudo.” 6. O COMEÇO DO SESPER “Tenho bastante coisa do Sesper, artista que me influenciou muito tanto na música (com o Garage Fuzz) como na arte, web, skate... Um dia ele me presenteou com uma de suas primeiras artes, ela diz ‘terça 3’. Será que é melhor ou pior que sexta 13? Em breve vou colocar em uma moldura e terá um lugar especial na casa.” 7. ARTE ORIGINAL DO AGAINE “Carlos Dias me deu uma das primeiras artes do Againe. Lindona, feita a mão para virar camiseta da banda. Banda incrivelmente foda, para mim top1 no hardcore melódico brazuca.” 8. LIVROS VINTAGE T-SHIRTS “Gosto muitoooo de camisetas de banda, tenho uma coleção gigante e passo horas vendo esses livros e querendo mais e mais. Eles catalogam por ordem cronológica as camisetas clássicas da música, skate e surf.” 9. VINIL THE MARS VOLTA - SCABDATES  “Vinil duplo do Mars Volta, picture disc com arte cabulosa. Adoro essa banda, a arte do vinil, At The Drive-In, tudo.” 10. BONEQUINHO DO MILO “Peguei a dica aqui na Revista OE, não acreditei quando lançaram o boneco do Milo! Meu medo era pelo fato de ser limitadíssimo, mas corri para o computador e garanti o meu a tempo. Ufa!”

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44 outroestilo.com.br edição 04 VERão 2011 PREFERÊNCIAS 02 01 09 07 04 05 06 03 10 08

M Maria Maier, 23 anos, é o braço feminino da Ideal. Braço firme, é possível supor, afinal é a responsável pela vida financeira do negócio. Nascida em Manaus, mudou-se para SBC com poucos meses de vida, e lá vive até hoje, ao lado do marido Felipe. Se conheceram em setembro de 2001, quando Maria tinha apenas 14 anos, e o casório aconteceu em 2009. Juntos, transformaram o sonho de “viver do rock” em realidade, mesmo que isso tenha custado alguns sacrifícios: “Já carreguei muito peso (caixas de CDs, malas com camisetas, e às vezes íamos de ônibus pros shows), trabalhamos no começo de domingo a domingo, e financeiramente se trabalhasse em outro lugar, ou com outra coisa, talvez ganharia mais, mas os benefícios são muitos e não tem preço” afirma. Sua lista mescla arte contemporânea, “coisas de menina” e , boa música. Mas demonstra, principalmente, aquilo que seu jeito reservado já permite desconfiar: Maria é uma mulher à moda antiga, que gosta de cozinhar, fazer picnic e cuidar de plantas. Ao som de Beatles ou The Evens, claro... Maria Maier 1. LP DO THE EVENS AUTOGRAFADO “Dois músicos incríveis, arranjos originais, letras que falam de coisas em que acredito, um casal bacana. Altamente inspirador... Peguei o autógrafo no show de São Paulo em 2007.”   2. QUADRO “DEUS EH MAYS”, DO CARLINHOS “Foi presente, e é um dos meus preferidos. Eu queria colocar na parede em cima da nossa cama, mas nos mudamos há pouco tempo e ainda não definimos direito.”   3. KIT PICNIC “Cestinha de vime, toalha xadrez vermelha grande e toca disco portátil: kit clássico de picnic dos anos 50, que eu adoro. Usamos às vezes em domingos ensolarados.”   4. IDEAL 666 “O Felipe encomendou essa placa com uma colega de faculdade, que era crente. Imagine o conceito dela sobre a gente depois disso... (risos)”   5. CÂMERA FOTOGRÁFICA “Estou longe de ser fotógrafa, mas adoro fotografia. Ando ensaiando pra comprar uma câmera Lomo, mas ainda não decidi qual modelo vai ser.” 6. PENTEADEIRA ANTIGUINHA “Mais feminino impossível. Era uma escrivaninha da avó do Felipe, e pedi de presente quando nos mudamos. Estou querendo pintá-la com alguma cor bem forte.”   7. LIVROS DE CULINÁRIA “Não tem nada mais vintage e delicioso pra mim que uma cozinha com um bolo assando, café preto de bule e toalhinha de crochê na mesa. Às vezes levo os livros de receita pra ler na cama a noite... acho que nasci na época errada.”   8. SAPATILHAS “Sou mais altinha, vou caminhando pro trabalho e odeio estar desconfortável. Salto alto só de vez em nunca, eu me encontrei mesmo foi com as sapatilhas, tenho um monte.”   9. VIVA O VERDE “Ter plantinhas pra cuidar é tão bom. Como não dá pra ter quintal, estamos tentando lotar a varanda mesmo... Toda vez que vou ao mercado volto com um vasinho novo.”   10. COLEÇÃO BEATLES “Os discos e a paixão pela banda eu herdei do meu pai. Para aquela pergunta sobre ficar ilhado numa praia deserta, eu responderia com certeza que se tivesse um disco dos Beatles comigo tava tudo bem. Não enjôo nunca.”

P H O T O B Y: F E L I P E M O R O Z I N I / ROGER MANCHA , LUCAS XAPARRAL & KLAUS BOHMS

+ E L E M E N T S K AT E B O A R D S { C O M . B R} {FACEBOOK .C O M / E L E M E N T S K AT E B O A R D S B R A S I L } @ E L E M E N T B R { TW I TTE R} ADVO C ATE S S E RI E S P OR FE LI P E MOTTA AKA MOTTILAA

48 outroestilo.com.br edição 04 verÃo 2011 entrevista entrevista marcelo viegas (colaborou charles franco) | fotos fernando martins ferreira FABIO MASSARI na missÃo

S Sua voz chegou primeiro, pelas ondas do rádio, na segunda metade dos anos 1980. E não demorou para que aquela voz virasse uma referência de qualidade. Depois, no começo da década seguinte, a voz ganhou um rosto: ela estava na TV, transmitindo boa música para todo o país. Sem fronteiras, a voz também transformou-se em palavras escritas, e contaminou culturalmente através de revistas, jornais e livros. Então veio a Internet, e ela adaptou-se, numa boa, ao novo formato. E, como num ciclo (que não se fecha, longe disso), a voz recentemente retornou ao rádio, veículo e paixão primeira. Falamos da voz de Fabio Massari, o Reverendo, verdadeira instituição do jornalismo cultural brasileiro. Ou seria “jornalismo rock”? A terminologia não importa aqui, mas sim a trajetória, impecável e fundamental para a formação de uma geração inteira. É a missão, como ele mesmo gosta de frisar, de difundir os “bons sons” Missão detectada e premiada: nos anos 1990, a banda Urge Overkill deu . uma medalha de ouro para ele, pois ele estava “na missão” A medalha está bem guardada; e a missão continua, sempre. . Nessa entrevista exclusiva para a revista Outro Estilo, o Reverendo fala de todas as fases de sua carreira – 89FM, MTV, Poploaded, livros, Oi FM –, bizarrices do show business e, é claro, da sua paixão pela “galáxia dos bons sons” . AS ORIGENS Tem uma frase no seu livro “Rumo à Estação Islândia” que é marcante, do desafio de fazer um livro sobre o rock islandês sem a Björk. Proponho então fazer uma entrevista com você sem falar do Zappa, pode ser? Podemos tentar, podemos tentar... Não posso nem chegar perto? Ainda mais que estamos nos aproximando de uma efeméride importante que é 70 anos de Frank Zappa. Ele faria 70 anos no dia 21 de dezembro. Mas vou me policiar pra não falar muito a respeito. (risos) Você nasceu no ano do golpe militar (64) e viveu sua infância, adolescência e início da vida adulta sob as garras da ditadura. Qual seu sentimento em relação a isso? Por ter vivido essa fase de descobertas e “loucuras” sem ter a mesma liberdade que teria num regime aberto... Dá pra concordar com isso, mas ao mesmo tempo a gente lembra daquele período, hoje em dia, como uma época em que a molecada crescia na rua. Tudo bem que era um período de ditadura, mas ao mesmo tempo a correria da garotada se manifestava no prédio, no bairro, na rua. Eu cresci na rua. Skate, bola, bicicleta, toda a evolução dessas vibes eu aprendi na rua. Tínhamos algumas liberdades... E hoje em dia, pela situação que vivemos, vejo cada vez menos as gerações mais novas fazendo o que fazíamos. Nasci em 1964, mas só fui perceber um pouco mais daquela situação nos anos 70. Tenho eventualmente uns flashbacks: lembro de chegar na escola, colégio tradicional, Dante Alighieri, tinha que cantar hino, etc. Tinha o clássico “Brasil, ame-o ou deixe-o”, a foto do Médici... Mas o impacto disso numa criança você só avalia um tempo depois. Eu passei a ver várias coisas da minha formação com outros olhos daqui, avaliando do presente, como adulto. Lembro de professores e coisas ensinadas na aula que hoje em dia, apesar de não ter cabelo, me deixam de cabelo em pé! (risos) Eram tempos muito diferentes mesmo. Lembro muito de um episódio envolvendo o Chacrinha. Eu fui muito ao programa do Chacrinha, era um período que uma galera de escola ia no programa. Era gravado na Brigadeiro, no Teatro Bandeirantes. E uma vez o “Velho Guerreiro” foi trocar uma ideia com a gente, e não parou de falar sobre a censura: “Pô, esses caras da censura ficam me enchendo o saco, é impressionante, puta que pariu!” Então você começa a perceber essas coisas de um outro jeito, com menos inocência. Vai percebendo a influência do período em vários lugares. E eu nunca esqueci disso. E também teve outro episódio, em que a molecada da escola arrumou uma confusão com os seguranças do programa do Chacrinha, e na saída sofreu uma emboscada violenta de forças de repressão. Essas coisinhas depois de um tempo você começa a avaliar de outro jeito. E na sua família, você também percebia a influência do período? Acho que não. Meu pai é italiano, minha mãe também é de família italiana, então tudo sempre foi muito conversado em casa. Conforme fui crescendo os assuntos foram abordados, mas nada muito traumatizante em relação ao período, como muita gente sofreu. Meu pai, apesar de ser italiano, estudou aqui, fez economia no Mackenzie e viu muita confusão na rua. Na medida em que fui crescendo, aprendi a sacar essas coisas. Mas aquele era o período em que a gente vivia, então não tinha muita escolha. O que me parece curioso é que, apesar disso, eu cresci muito na rua. E a rua te ensina muita coisa, te mostra muita coisa que você vai ver lá na

50 outroestilo.com.br edição 04 Verão 2011 frente, como o convívio entre pessoas diferentes. A rua é uma super escola nesse sentido. O Skate que o diga... Pois é, e o skate também tem a ver com ritos de passagem na minha vida. O skate me revelou várias coisas a respeito da vida. Até um pouco da ética do skate, que talvez exista ainda hoje... Nos anos 70, lembro que tinha interesse no assunto, e um dia meu pai me levou numa das ladeiras do Sumaré, que era onde a galera se encontrava. Me levou pra dar uma olhada, pra saber como era o ambiente, ou algo parecido. E teve um cara mais velho (e nessa época um cara com 5 anos a mais que você parecia que tinha 20 a mais) que colou na gente e disse: “Quer andar?” Eu peguei e fui. Esse momento foi muito importante pra mim, de alguém da cena colar e dizer “vai aí”. Pô, e eu andei muito de skate, mas naquela época a gente não tinha nem tanto repertório de manobras, nem informações. Era a coisa da velocidade, de ver a cidade de um outro jeito. Andei muito no velho Torlay... A gente frequentava uma loja em Pinheiros, e quando um camarada comprou as rodinhas Cadillac Wheels, a gente ficou “nossa, que demais!!” Skate foi muito importante pra mim. E teve outro episódio curioso, que também foi rito de passagem musical, mas envolvendo skate. Andando aqui na região da Pompéia e Perdizes, tinha uma casa abandonada, rolando uma festa, um churrasco, uns caras mais velhos, cabeludos. E a gente tinha 14 anos. Mas aí um som incrível começou a sair da casa. Um som inacreditável! E eu já gostava de música, já estava me interessando em ter discos, Secos & Molhados, Elvis, Beatles, etc. E aí tomei coragem, peguei o skate e subi no muro. Avistei um cara e chamei. “Cara, que som é esse que tá rolando?”, eu perguntei. O cara foi lá dentro e trouxe o k7. Era um Kraftwerk, “Radio-Activity”. “Comprei lá no (mercado) Super Bom da Pompéia”, ele falou. “É pra lá que a gente vai”, dissemos, e fomos todos de skate até o Super Bom da Pompéia pra tentar comprar o tal do k7 do Kraftwerk. E isso foi uma revelação pra mim. Não acreditava no que estava ouvindo. Tenho esse k7 até hoje. É fundamental na minha formação. Na verdade o k7 foi para o espaço, mas tenho a caixinha original. Agora, por incrível que pareça, tem novamente um mercado pros k7’s, e comprei um k7 igualzinho outro dia, lacrado, na loja de um camarada. Então agora tenho dois. (risos) Você já visitou a Itália pra conhecer suas raízes? Sim, já fui bastante pra Itália. Na verdade, meu pai nasceu na África. Aquele período da guerra, colônia italiana no norte da África. Mas enfim, é italiano e veio pra cá com 15 anos. E minha mãe é brasileira de família italiana. Por conta da conexão familiar acabei descobrindo o país, visitei, mas depois me encantei pessoalmente pelo país, pela língua, pelas questões culturais. Pra música, a Itália foi muito importante pra mim. Eles têm uma super tradição musical, cultural, muita revista, muito programa, muito show, muita produção discográfica. Estive lá em muitos momentos nos anos 80 e 90, e eles estavam muitos anos à frente da imprensa inglesa. E isso pra mim foi muito importante, pois tinha a facilidade de ir pra lá. Minha irmã estudou lá muito tempo, então tinha a desculpa de visitar minha irmã. Então a Itália foi muito importante na minha formação musical. Além disso gosto muito de cinema italiano também, literatura, cultura... Os italianos são divertidos. (risos)

“Eu tinha 14 anos. Passei por uma casa e começou a sair um som incrível. Tomei coragem, subi no muro e perguntei ‘que som é esse que tá rolando?’. O cara foi lá dentro e trouxe o k7. Era um Kraftwerk, ‘RadioActivity’. Tenho esse k7 até hoje.” Seus pais eram fãs de rock? Curiosamente não diria que é uma família musical. Tinham uns discos lá em casa, lembro da vitrolinha, dos compactos 7 polegadas, mas não era uma coisa forte. Mas teve o estímulo quando eu comecei a curtir. Mas não são pessoas que ouviam muita música ou de grande coleção. A mesma coisa com livros, com o hábito da leitura. Não foi algo imposto. Foi algo que passei a curtir e aí foi estimulado. Qual foi o primeiro show marcante da sua vida? Foi o show da Cor do Som, no Ibirapuera, um show famoso de 1980. Eu sempre tento investigar esse show, porque deu muita confusão, virou uma espécie de Woodstock brasileiro. Tinha 60 mil pessoas, e eles esperavam 4 ou 5 mil. Era em Abril de 1980, mas era uma espécie de show de volta às aulas. Era a Cor do Som pós Festival de Montreux, começando a fazer sucesso com “Beleza Pura”, e foi incrível. Um show de rock como nunca se tinha visto por aqui. Muita confusão, gente passando mal, etc. Recentemente descolei uma revista Manchete, com a Bo Derek na capa, que tem umas fotos desse evento. (risos) Era um mar de gente, e me causou um impacto inesquecível. Muita gente, gente em cima das árvores, muita maconha, e nunca tinha visto desse jeito. E 1980 não era ainda uma época boa pra se fazer essas coisas! (risos) Muito doido. Impacto incrível. E nessa época a música já era uma coisa mais “séria” na sua vida... Nessa época já sentia que o caminho era esse. Eu ainda fui fazer engenharia depois, mas já sabia que a música era o meu caminho. Mas em 1980 já curtia bastante, tanto que assistia todos os shows que rolavam, Queen, Police, Van Halen... Já colecionava discos, ia atrás das bandas, autógrafos, esse tipo de coisa. Já ouvia os programas de rádio, como o programa do Kid Vinil na Excelsior AM e FM. Já curtia bastante. Mais ou menos nessa mesma época o Punk começou no Brasil. A força da mensagem, do som e da atitude do Punk de alguma forma abalou suas crenças musicais? Abalou no melhor sentido! Foi uma das coisas mais legais que aconteceram.

Retrospectivamente foi uma das coisas que mais estudei depois. A gente chegou um pouco tarde nessa história do Punk, mas já sabíamos dessa movimentação, pelas revistas e programas de rádio. Na época do Punk foi uma alegria por aqui, começaram a sair algumas coisas em disco, shows, o cruzamento eventual de algumas dessas bandas do Punk com as bandas mais do rock tradicional da época... Lembro de um show incrível: Verminose, Tutti Frutti e Raul Seixas! (risos) Chegamos um pouco tarde no Punk, mas isso teve o lado bom, pois quando essas informações chegaram, elas já vieram com o volume do pós-punk inglês e americano. Isso abriu muito os horizontes. Eu já tinha uma “sacação” de que existiam sons diferentes por aí. Porque tinha Beatles e Elvis, mas também tinha Secos & Molhados, tinha uns rocks italianos, música francesa, etc. E quando veio o Punk, foi o decreto de que o mundão era muito doido de sons, vide a conexão do Punk brasileiro e finlandês. A percepção de que no mundo inteiro tinha gente fazendo som legal veio muito com o Punk. Proliferação de fanzines, selos diferentes, o Punk veio pra abalar no melhor sentido. Mas você colava nos shows de Punk da época? Vi alguma coisa. Cólera, Inocentes, Replicantes no começo... Eu tinha cabelo (risos), cheguei a ser cabeludo, e em alguns momentos isso definia sua situação naquela época. Mas fui muito na Punk Rock (nota do editor: lendária loja da Galeria do Rock, cujo dono era o Fábio, do Olho Seco) comprar discos. E era desse jeito: se estivesse afim de algumas coisas, tinha que encarar. Passou por alguma situação mais tensa na Galeria? Algumas vezes, mas no fim das contas acabei me saindo bem. Isso era meio inevitável. Cansei de ver treta de gangue. Ali mesmo onde cresci, perto do Centro de SP, tinha muita treta. Galera uniformizada, tipo “Warriors”. (risos) O “Warriors” fez um estrago muito grande nesse sentido. No bom e no mal sentido. O Clemente fala isso no documentário Botinada, que ele saiu do cinema e comprou um canivete na mesma hora. “Mad Max” também. Eu fui na pré-estreia do “Mad Max”, e você não sabe como foi a saída do cinema aquele dia... (risos) As pessoas saíram transformadas, e tudo isso contribuía pra época. Também porque era uma época em que você estava muito menos exposto a informação. Um negócio desse era um advento! “Laranja Mecânica” então, quando passou aqui, foi tipo a chegada do anticristo. 52 outroestilo.com.br edição 04 VERãO 2011 Você falou bastante de alguns bairros de São Paulo. Como é sua relação com a cidade? Não sei se existe um típico paulistano, mas sou um deles. Nasci perto da Av. Paulista, morei vinte e tantos anos “walking distance” do centro da cidade, e moro aqui nessa área (Sumaré) há uns 20 anos. No fim das contas a minha São Paulo acaba circunscrita a algumas regiões, até porque a cidade se transformou muito nesses anos. Sou inevitavelmente uma cria daqui. Gosto muito, tenho uma relação boa com a cidade. Com a idade você vai abstraindo algumas coisas, porque isso faz bem para o convívio com a cidade. A cidade é muita doida, então se você não abstrai, enlouquece. Fico 15 dias fora de São Paulo e tenho vontade de voltar. Posso ir pra Floripa ou para o exterior, mas voltar pra casa é uma delícia. Padarias, meu! Padarias! TURN ON THE RADIO Mas como a engenharia aconteceu na sua vida? Pois é, fiz dois anos de engenharia. Fiz colégio tradicional, achava que gostava das “Exatas”, mas você vai meio no embalo, e todo mundo da minha classe do colegial foi pra engenharia... “Vou fazer essa porra também.” (risos) É o que tinha... É, e isso era bem definido mesmo. Ou Engenharia, ou Medicina ou Humanas. Mas teve um divisor de águas muito importante pra mim, que foi o ano de 1984. Em 1983 eu já fiz a minha primeira viagem solo internacional, retribuindo um intercâmbio com um camarada do meu pai. E aí conheci um cara muito influente na minha formação, o Marco Lorenzini. Um italiano doido que estava 25 anos à frente do seu tempo. Pra você ter uma ideia, o primeiro CD que vi na vida foi com ele: nos anos 80 ele já tinha CD em casa! O cara fazia mixagens, conhecia tudo, tinha visto tudo. Então essa primeira viagem foi muito importante, vi os primeiros shows gringos, etc. Mas isso foi numa viagem de rolê. Voltei, parei com a Engenharia e decidi fazer o tal do intercâmbio: aquela desculpa classe média de fazer um curso na Inglaterra. Fui pra ficar dois meses e fiquei um ano. E esse ano de 84 foi definitivo pra decidir o “O Serginho Groisman era meu professor na FAAP, e eu era o ‘chatonildo’ da turma, que fazia os trabalhos com Butthole Surfers, Sonic Youth, lia umas poesias muito loucas... Os caras deviam detestar as coisas que eu fazia.” que iria fazer pra sempre como profissão, e também porque minha onda é essa. No rádio, TV, jornalismo escrito, o que fosse, eu queria estar na galáxia dos sons. E isso aconteceu em 84. Na volta pro Brasil entrei na FAAP, e na metade do curso já comecei a trabalhar em rádio, por conta da conexão com o então professor Serginho Groisman. Ele era meu professor na FAAP, e eu era o “chatonildo” da turma, que fazia os trabalhos com Butthole Surfers, Sonic Youth, lia umas poesias muito loucas... Os caras deviam detestar as coisas que eu fazia. (risos) E foi o Serginho que disse que ia me apresentar ao pessoal da 89FM, pra que eu trabalhasse lá. E eu: “Ah, tá bom, Serginho, beleza...” Mas me chamaram pra ir lá, fiz uma entrevista e comecei a trabalhar em 1987, como estagiário de promoção, e saí como diretor artístico, em meados dos 90. Durante muitos anos fiz o programa Rock Report, mas também fiz muita cobertura de show, entrevistas ao vivo, etc. E eu já tinha a consciência que rádio era uma das coisas que mais me interessavam, principalmente por ter curtido muito rádio no período da minha formação inicial, com o programa do Kid, do Leopoldo Rey. Gostava de ouvir rádio: alguém falando, a vinheta, o som, um universo que sempre me agradou. Como era sua relação com as gravadoras na época da 89FM? Afinal, você era o diretor artístico da rádio... Quando o Junior Camargo, dono da 89, me convidou pra assumir a coordenação artística, era um período em que a rádio estava deixando de ser administrada pelo sistema de rádio JB (Jornal do Brasil). Aí, quando eles pegaram a rádio “de volta”, para tocar integralmente, me chamaram pra ser coordenador. Eu vislumbrava que talvez fosse uma roubada artística para mim, assumir um pepino desses naquele momento, mas ao mesmo tempo era um desafio. E eu mantinha o Rock Report, que era minha manifestação mais artística e autoral. Mas obviamente não foi muito fácil. A relação de rádio com gravadora nunca foi muito boa, né? As gravadoras sempre acharam que as rádios trabalhavam para elas. Ninguém ligava muito pra opinião de rádio e as gravadoras tratavam mal. Então não era o me-

lhor dos ambientes para um cara como eu. Para as próprias pessoas de gravadora deve ter sido um choque não muito bom quando eu assumi a coordenação da 89. “Esse aí não é dos nossos”, sabe? Por isso que ninguém nunca, em nenhum momento, chegou pra mim e de fato apresentou a mala (seja de que cor for a mala) pra fazer isso ou aquilo. Além disso, a 89 naquela época passava por uma crise existencial... Já estávamos nos anos 90, tinha muita coisa de som rolando, já tinha acontecido o Nirvana, os sons alternativos, as gravadoras correndo atrás de coisas novas, aqui também já tinha um cenário, e a rádio estava muito parada nesse sentido artístico. Eu tentei dar uma dose de frescor, digamos assim. Trazer coisas novas, trazer de volta bandas pra tocar na rádio, etc. Tentei impor, de algum jeito, a minha ideologia. E obviamente não era fácil, porque tinha o lado empresarial, eles queriam que faturasse mais... Você sofreu muito com isso? Sofri um pouco, mas encarei como parte do negócio. Tinham estatísticas de que a rádio ia muito bem na minha administração, mas também tinham números publicitários e de receita que talvez apontassem o contrário. Mas tudo certo. Não me arrependo do que tentei fazer ali dentro, acho que era um modelo bacana pro tipo de rádio que era a 89 no período. Depois de mim entrou o Luis Augusto, que foi o coordenador que talvez tenha imposto o maior sucesso, porque alguns anos depois a rádio foi pras cabeças, vide a transformação dela hoje em dia. Era business. E teve uma coisa que foi muito indicativa do que iria acontecer: logo quando eu assumi, numa conversa corporativa, surgiu o exemplo de que a 89 tinha que ser como a Jovem Pan. No sentido empresarial da parada. Mas me diverti muito. Rádio é a minha onda e eu tenho um bom acesso na 89, quando lanço livro os caras me chamam lá, e tá tudo certo. É business, cada um toca o seu como quiser. E a sua fase acabou sendo a mais legal, da suposta rixa 89 e 97... Super rixa entre as rádios, treta de promoção, etc. Antes da 89, eu fui pedir emprego na 97 em Santo André (SP). MTV Antes da MTV você já tinha feito TV? Não. Eu fui parar na MTV por conta de uma conexão da rádio, uma pessoa que tinha trabalhado comigo na 89 me indicou pra trocar uma ideia na MTV. Fui lá, troquei ideia e comecei a trabalhar no depto de programação. Fiquei um ano na programação, inclusive fazendo programação de programas que viria a apresentar depois. Fazia programação do Lado B e do Clássicos. Depois disso passei pro depto de relações artísticas, trampei com a Anna Butler, e já nesse segundo ano comecei a apresentar algumas coisas. E foi meio por acaso: o Thunderbird estava numa daquelas fases críticas, e ele não ia gravar os programas, dava uns perdidos. E numa dessas o Titi (Civita), um dos chefes lá, falou daquele jeito dele: “Massa, vai lá e apresenta essa merda”. Era o programa Rock Blocks. Foi na boa, eu tinha experiência com microfone por causa do rádio, não me senti oprimido pela câmera, foi natural e agradou. E depois de um tempo passei a apresentar o Lado B e o Clássicos. Mas de fato começou assim, graças ao Thunder... Além dele me dar o apelido de Reverendo, também me abriu esse caminho. O Lado B foi um programa que fez história e marcou uma geração. Qual é o seu sentimento em relação ao Lado B? Cara, eu adoro o Lado B. Ponto. O Lado B teve 4 apresentadores, o Thunder, eu, a Soninha e o Kid, mas de alguma maneira muita gente identifica o programa à minha pessoa. Isso é uma ficha que foi caindo aos poucos. É a coisa da missão, que foi o pessoal do Urge Overkill que falou pra mim, quando eles estiveram aqui no Hollywood Rock. No final da balada eles me deram uma medalha de ouro do Urge Overkill. Eles disseram que sempre que viajavam, davam umas medalhas pra galera legal que estava “na missão”. E fui percebendo

54 outroestilo.com.br edição 04 Verão 2011 “Tem a clássica história de que a Xuxa assistia Lado B! Tomara que seja verdade! Eu vejo a Xuxa ouvindo Buffalo Tom...” com o tempo que o Lado B era uma missão. Era uma extensão das coisas que já fazia no rádio, do que faço em casa com os camaradas... Muito mais do que a “cagação de regra”, ou o “sabe tudo”, era o prazer de compartilhar, aprender, discutir, trocar ideia. Fui percebendo com o tempo que o Lado B marcou de maneira importante muita gente. Pra mim é um super orgulho. Às vezes encontro com pessoas nos shows que me dizem: “Metade da minha coleção é por sua culpa”. Pô, tomara que metade seja legal (risos). O programa era também uma missão interna, fomos virando quase uma guerrilha lá dentro, qualquer coisa era “Lado B”. Lado B pode. Nós passamos aquele clipe do Nine Inch Nails, que tinha uma máquina destruindo o pau do cara, e nenhuma MTV passou esse clipe... Dead Kennedys, com “MTV Get Off The Air”, nenhuma MTV do mundo passou isso! E era uma época, começo dos anos 90, que tinha um interesse crescente por essas cenas mais diferentes. Tanto dos gringos quanto abrir portas pro cenário nacional, porque foi o período do Juntatribo, Abril Pro Rock, BHRIF, Fugazi, etc. De fato era uma missão. E o mais incrível é que tem muita gente que tem Lado B gravado em VHS! Tem a clássica história de que a Xuxa assistia Lado B (risos)! Tomara que seja verdade! O cara que me contou era brother e trabalhava de fato com a Xuxa, trabalhou muitos anos com ela. E eu vejo a Xuxa ouvindo Buffalo Tom (risos)... Na época, hoje deve ouvir umas coisas mais modernas (risos). Como funcionava a programação do Lado B? Basicamente era o Daniel Benevides e eu. O Benevides foi o maior parceiro que tive lá, de baladas legais, de programas, etc. Se não me engano, ele foi o diretor que ficou mais tempo no Lado B. Tentávamos ampliar o leque o máximo possível, desde Joy Division até as novidades de Seattle, e eventualmente bandas de fora do eixo, banda alemã, banda francesa... Mostrávamos novidades, e também aproveitávamos o material da MTV gringa. O Lado B deles, chamado 120 Minutes, estava embaladíssimo, era muito bom, tinha um monte de session no estúdio, e tínhamos acesso livre a esse material. E é isso, foi o que foi. Quem viu, viu; quem não viu, não viu. Perdeu. (risos) Outra marca que você deixou na MTV foram as entrevistas... Mas nunca quis ser o cara único das entrevistas lá. Mesmo no período em que fazia a maioria, sempre brigava para que outras pessoas fizessem também. Primeiro porque é saudável para o canal, é bom pra formação das pessoas. Só vai aprender fazendo, né? Vai ter um “branco” no meio de uma entrevista e como vai se preparar pra isso? Tendo um branco numa entrevista. E você viveu situações complicadas em entrevistas, do tipo de entrevistar um ídolo e ficar inseguro? Isso é inevitável. Eu entrevistei o Zappa, né? (risos) Mas, por exemplo, quando entrevistei os Stones, vendo depois a entrevista com o Keith Richards, percebi que estava meio nervoso. Na hora nem percebi, só vendo depois mesmo. É inevitável cruzar com essas figuras, e é inevitável se decepcionar com algumas delas. Eu fiz muita entrevista no

rádio, tanto por telefone quanto ao vivo, correria, traduz ao mesmo tempo, então perdi alguns pudores em relação aos artistas. Não tenho nenhum problema de levar disco pra autografar, pedir pra tirar foto, nunca vi problema nisso. Mas têm situações e situações... O Mick Jagger, por exemplo, não dei nem a mão. Eles fazem um esquema que você fica a uns dois metros dele, não dá pra dar a mão. Ele não gosta de dar a mão pra muita gente em seguida... Em compensação o Keith Richards me abraçou como se me conhecesse há vinte anos. Eu nunca tive muito deslumbre, digamos assim, mas ao mesmo tempo curti de montão cruzar várias pessoas. Ontem, por exemplo, fui dar um alô pro Jeff Beck e achei bem legal. Qual sua opinião sobre a MTV atualmente, com cada vez menos clipes e muitos programas de comportamento? Isso já vinha acontecendo há algum tempo... Essas mudanças fazem parte do modus operandi da MTV. Ela muda. Mas de uns anos pra cá, com o advento da Internet, o Youtube, a MTV perdeu um pouco o passo, né? Ficou um pouco pra trás numa coisa fundamental que é o M de Música. O mundão de música tá bombando, e o universo musical da MTV ficou muito restrito. Agora, a opção por programas mais de comédia ou auditório é um jeito de encarar o mercado. É uma logomarca que tem outros compromissos (publicitários e empresariais). É muito complexo. Tem várias coisas que eles fazem direito, como a parte de gráficos, mas artisticamente (pra mim) fala menos. Decididamente estou em outra sintonia. O mundo dos bons sons não é o que passa na MTV. Eles podem até passar alguma coisa que acontece nesse mundão, mas o mundão dos sons é muito mais divertido... Passam lá pelas quatro da manhã... Pois é, eles tentam resgatar esse lance de clipes. Tem coisas legais, como o Lab MTV. Tem uns “O Mick Jagger, por exemplo, não dei nem a mão. Eles fazem um esquema que você fica a uns dois metros dele, não dá pra dar a mão. Ele não gosta de dar a mão pra muita gente em seguida... Em compensação o Keith Richards me abraçou como se me conhecesse há vinte anos.” Lab que são o Lado B inteirinho! (risos) A programação é igualzinha! Mas eu acho uma pena, ao mesmo tempo, pois eles têm a força da marca pra explorar vários caminhos. Tipo, eu entrevistei os Stones, o U2, mas essas entrevistas foram viabilizadas por causa da força da marca. Por exemplo, nessa dia dos Stones, o Zeca (Camargo) também foi pelo Fantástico, e ele só entrevistou dois Stones. Só

“Na Internet – mais do que em qualquer lugar – tento cruzar bastante as informações. Você pega muito vacilo. Se por um lado é tudo mais fácil, por outro lado tem esses perigos. São novos problemas dos tempos em que a gente vive.” a MTV entrevistou os quatro. E teve outro detalhe dessa entrevista: nenhum entrevistador ficava junto dos caras, tinham que fazer os contra-planos. Voltava seis horas depois pra fazer as perguntas sozinho pra câmera. Mas eu disse que pra gente não adiantava. “Pô, mesmo sofá, né?”, falei pra empresária. E ela deixou. Fui o último a fazer, e na hora do Keith Richards ela mudou o cenário inteiro, mudou toda iluminação, pra que eu sentasse no mesmo sofá do cara e ficasse no mesmo plano, no mesmo quadro. E essas coisas têm a ver com a marca. Numa entrevista de oito minutos com o Mick Jagger, ele não está falando com você, mas sim com o M grandão no seu microfone. Por que você decidiu sair da MTV? É meio clichê, mas senti que estava completando um ciclo. Meu contrato acabava na semana em que fazia 12 anos de casa. Eu tinha feito o Jornal da MTV durante um ano, gostava de fazer o Jornal, mas ao mesmo tempo tinha uma situação meio conflitante, editorialmente falando. E também estava me sentindo um pouco sozinho, aquela guerrilha que existiu ao longo dos anos foi diminuindo. Estava quase sem interlocutores lá dentro. E achei que se fizesse mais um ano de Jornal, talvez fosse me aborrecer. Como não queria estressar com ninguém, e estava afim de fazer meu livro, eu pensei “vou pegar meu boné e vou nessa”. Eu que pedi pra sair, mas não teve nenhuma crise. 56 outroestilo.com.br edição 04 VErãO 2011 INDO NESSA Qual conselho daria pra uma revista impressa hoje? Eu adoro revista, mas não sei se tenho tantos conselhos pra dar... Acho que aqueles clichês continuam valendo, de acreditar no que está fazendo. Eu acredito na parada da missão. Sem querer parecer pedante, tem uma coisa que o Bono Vox me falou uma vez... (risos) Eu precisava lançar essa! (risos) Enfim, eu entrevistei o U2 algumas vezes, e fiz uma camaradagem com ele. Numa dessas, no Morumbi, depois daquele primeiro show no Brasil, eu o entrevistei e ele estava emocionadíssimo. A entrevista terminou, mas ele voltou, virou pra mim e disse “We’re wearing the same shoes” (algo como “estamos na mesma sintonia”). E essa frase virou um mote pra mim, como “Kick Out The Jams” ou “Shut Up’N Play Yer Guitar”. Mas enfim, não tenho tantos conselhos assim. Espero que quem esteja fazendo revistas, continue fazendo, porque gosto muito de consumir revista. Como você lida com a exposição? Afinal você é um rosto conhecido... Cara, isso é muito doido, e também é uma ficha que foi caindo aos poucos. No começo não tinha nem a dimensão da coisa, e uma das coisas que me chocaram foi uma vez que estava numa loja e o Angeli (cartunista) veio falar comigo. “Massari, sou seu

fã”. Fiquei arrasado, mas positivamente. E aí, durante um tempo, comecei a abstrair, pois achava que isso ocorria mais no universo da galera do rock. Mas é muito doido quando pessoas de outros universos te reconhecem, mas tenho uma ótima relação com isso. É quase sempre muito saudável e divertido. E como boa parte tem a ver com esse lance de som, é sempre muito fraternal, com lembranças curiosas. Mas é meio bizarro quando uns atores da Globo vem falar comigo. “Como assim? Como você pode ter visto o Lado B?” E não é menosprezando meu trabalho, mas sim por achar que são sintonias que não se cruzam. Tem uma outra coisa bizarra: algumas pessoas conhecidas acham que você os conhece. Sei lá, uma vez cruzei o Luís Fernando Guimarães (ator), nunca tinha visto na vida, e ele “Ô Massari, querido”. (risos) É divertido, mas ao mesmo tempo estranho. É uma camaradagem estabelecida num plano estranho, “você é da TV, eu também sou da TV, então a gente se conhece”. (risos) Tem um outro episódio que também revela um pouco dessas coisas: teve um VMB que eu fiquei fazendo backstage, entrevistando as personalidades, e foi bizarro, entrevistei todo mundo e mais alguns. E aí veio o Amaury Jr. Na verdade eu não vi isso acontecendo, mas me disseram depois que o assessor dele falou “Aí Amaury, esse é o Massari, o reverendo, faz o Lado B na MTV”, enfim, passou um briefing rápido. E na hora que ele passou pelo corredor, lançou “Massari querido”, me beijou, abraçou, “Quanto tempo!” (risos) E o ápice dessas histórias aconteceu durante uma gravação de Lado B. Tínhamos um código no estúdio, pra avisar se alguém ia entrar no estúdio. Eu estava ali gravando, e de repente abre a porta, sem avisar. Já estávamos preparados pra reclamar, e quando vimos era o Roberto Civita e o Paulo Maluf. O “Big Bob” estava mostrando as instalações pro Maluf. Aí o Maluf vira pra mim [imita a voz do político]: “Massari, como vai o Lado B?” Ele cumprimentou um por um, tapinha na cara, “tá recebendo bem? Tá tudo tranquilo?” Depois que ele saiu, estávamos cagando de rir. Aí o Maluf cruzou a Astrid no corredor: “Astrid, uma pena que a Whitney Houston caiu no Top 10” (risos) Ele sabia de tudo, sabia o nome de todo mundo, batia no rosto de um por um... Inacreditável! Você tem mania de arrumação? As pessoas acham que sou paranóico com arrumação e que detesto emprestar coisas. A vantagem de acharem que detesto emprestar é que ninguém pede. Eu admito que meu apto tem alguma coisa de arrumação, mas é muito relativo. Minhas arrumações são para minha organização – ou desorganização – pessoal. Tem coisas arrumadas de fato, mas você também vai encontrar desarrumações estratégicas. E nessa altura do campeonato já confundo o que é filme com o que é disco, com livro. É meu jeito de construir as coisas e minhas visões de mundo. Já teve banda? Nunca tive banda. Mas também nunca fui músico frustrado. Percebi cedo que se me dedicasse e estudasse algum instrumento eu tocaria alguma coisa, bem ou mal. Tem cara que senta no piano e sai alguma coisa, tem cara que pega o violão e consegue tocar, por conta de alguma habilidade natural, e sempre soube que não era esse cara. Mas também percebi cedo que minha onda era mais essa do “ jornalismo rock”, como eu falava na época da 89. Pense numa pessoa que não conhece nada sobre cinema italiano: quais os 3 filmes fundamentais para iniciar alguém no assunto? Um Fellini, pode ser “Amarcord”. Um western do Sergio Leone, “The Good, The Bad and The Ugly”, com o velho Clint Eastwood. E um Dario Argento, “Suspiria”, pra acabar com o medo de ver “filme de medo”. Essas perguntas são muito cruéis, depois vou sempre lembrar de outro filme... (risos) Ainda falando sobre a Itália, mas agora indo pra música: o que você achou desse projeto do Mike Patton, o Mondo Cane? Achei divertido. Têm uns caras que podem fazer essas coisas, é o Mike Patton é decididamente um deles. Até porque esse lance dele com a Itália não é nenhuma novidade, ele já fez a coisa com os filmes, etc. Cara, eu tenho um projeto de fazer uma parada de sons italianos um dia. Tipo um Mondo Cane... de fazer alguma coisa com músicas italianas, umas versões, mas por enquanto vai ficar só no projeto... Acho que no mundo inteiro as pessoas pensam na música italiana como aquela coisa romântica, meio chata, vai na Hebe, novela, né? Pô, e não é nada disso, tem uma tradição fudida de sons, desde os anos 60, com muitas bandas psicodélicas e as progressivas (algumas porcarias, mas muita banda boa), e dos anos 90 pra cá tem muita coisa boa! Eles têm uma cena riquíssima de sons, mas restrita à Itália, dificilmente alguém faz sucesso fora. É uma pena, porque tem muita coisa boa. Tem inclusive uma banda nova, de uma área meio comunista, chamada Offlaga Disco Pax, que tem uma música que o personagem principal é o Lula. O líder da banda tem uma tradição do partido comunista, enfim... Mas o Lula sindicalista ou o Lula presidente? Então, ele fala do presidente, mas acho que lembrando do sindicalista. (risos) A música tem a ver com um adesivo do Lula no carro dele, que é roubado, algo assim. Esse cara praticamente narra as músicas. Muito bom o som. E essa do Lula é impagável! E nesse projeto você cantaria? Esse projeto obviamente é uma piração. Mas não acho de todo estranho não... Têm uns amigos que apoiariam... Mas não sei se tenho essa onda de banda não... Eu não acho ruim esses registros de Spoken Word, tenho bastante coisa em CD. Discos do William Burroughs, do Allen Ginsberg, disco de transmissão de rádio, disco de áudio-documentário, essas coisas me interessam como formato para ser explorado. Porque você pode explorar uma coisa de voz, de leitura, aí você trabalha, sobrepõe, mistura. E livro? Algum projeto novo? Projeto de livro eu estou sempre fazendo. Adoro mexer no grande livro de projeto de livro. É uma coisa abstrata, acho que tudo pode virar livro. Tenho alguns engatilhados, mas nada muito resolvido. E o programa Poploaded, que você fazia com o Lúcio Ribeiro... Fizemos o Poploaded por três anos. Quando o contrato acabou, estávamos na correria, eu já estava embaladão com o meu programa ETC., na Oi FM, o Lúcio estava de mudança da Folha pro Estado, e decidimos não renovar. Mas o Poploaded, pra mim, foi quase uma volta ao universo radiofônico, ainda que de um outro jeito. Mas do ponto de vista da realização era muito parecido com o rádio. Foi bom, pois estava muito na pilha de fazer rádio de novo. Nos últimos anos tenho sentido um bom momento para atividades radiofônicas, tenho pesquisado muita coisa de fora, e tem muita coisa rolando. E aqui também. A Oi tá fazendo um bom trabalho, bons programas, e tem sempre iniciativas isoladas por aí, como programas legais em Brasília, etc. Está felizão na Oi FM? Fico feliz, fico feliz. Rádio é minha praia, me divirto muito fazendo. Meu programa, o ETC., está com dois anos, e nunca toquei tanta coisa diferente quanto agora: desde Zappa e as esquisitices dos anos 60 até bandas japonesas, bandas da Croácia, Dinamarca, umas bandas esquisitas brasileiras, enfim. Fizemos a cobertura do SWU ao vivo, 12 horas por dia, entrevistamos o Mars Volta... Isso não tem preço, é divertidíssimo! E pelo rádio, né? A galera chegando em Itu e falando: “tava ouvindo no carro você falando com o cara do Yo La Tengo”. E claro que a rádio também tem seu contraponto digital, o cara nos EUA pode ouvir, teve banda americana que mandou música pra gente tocar, etc. Fazer rádio de novo, com cara de rádio old school, é bacana! Eu, quando posso, ouço no radinho de pilha. Gosto de ouvir rádio: escuto jogo, ouço CBN, acho divertido.

Quem fez seu perfil no Wikipédia? Putz, não faço a menor ideia. Vi uma vez, mas faz muito tempo que não vejo. Tá ruim? (risos) As informações básicas estão certinhas... É mesmo? (risos) Mas não fui eu que fiz não. A coisa mais louca que vi outro dia foi um blog “Estação Islândia”... O cara enlouqueceu. O cara pegou meu livro, colocou trechos do livro, tudo com créditos pra mim, só que aí ele colocou uns links para baixar todos os discos que estão no livro. Trampo insano! Meu, ninguém acha esses discos, até hoje têm uns que nem eu tenho! O cara colocou todos os discos lá! E ainda tem mais coisa, porque ele continuou, com bandas novas. É um brasileiro, mas não sei quem é. Ainda vou dar um “alô” pra ele. Meu, tem uma banda clássica islandesa, o Purrkur Pillnikk, que ele tem uns discos lá no blog que eu não tenho! Já baixei umas paradas lá... “Fui percebendo com o tempo que o Lado B era uma missão. Era uma extensão das coisas que já fazia no rádio, do que faço em casa com os camaradas... Muito mais do que a ‘cagação de regra’, ou o ‘sabe tudo’, era o prazer de compartilhar, aprender, discutir.” Você confia no Wikipédia? Ah, mais ou menos. Dou umas olhadas de vez em quando, mas na Internet – mais do que em qualquer lugar – eu tento cruzar bastante as informações. Você pega muito vacilo. Por exemplo, quando estava fazendo o livro do Zappa, não dava pra confiar nem no site dele pra saber os anos de lançamento dos discos. Em cada lugar uma informação dissonante. Se por um lado é tudo mais fácil com a Internet, por outro lado tem esses perigos. Mesmo a Last.fm dá umas comidas de bola... São novos problemas dos tempos em que a gente vive. Com a Internet temos que ter bons filtros. E se for algo importante, é legal cruzar as informações. 58 outroestilo.com.br edição 04 Verão 2011 3 bandas que você nunca imaginava ver no Brasil... Hallogallo, tocou aqui semana passada, foi lindo demais; Diamanda Galás, aquela cantora doida, jamais pensei que fosse vê-la, e vi aqui no Brasil; e não esperava ver no Brasil o Sigur Rós na época em que veio. O contrário: 3 bandas que você pensa “Como é possível que ainda não trouxeram essa banda pra cá”... Pô, o Grinderman, apesar do Nick Cave já ter vindo, mas demorou pra trazer de volta com o Grinderman que é mais enxuto; queria ver alguma banda japonesa, tipo Acid Mothers Temple, Boredoms, Boris, qualquer uma dessas bandas japonesas insanas eu adoraria ver por aqui; e também gostaria muito de ver uma banda que entrevistei recent

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