Religiao e-etica

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Published on February 16, 2014

Author: altemarolme

Source: slideshare.net

2013 CURSO MESTRADO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO [Religião e Ética] “Responsabilidade acontece diante de Deus e por Deus, diante dos seres humanos e pelos seres humanos, sempre é responsabilidade pela causa de Cristo e só assim responsabilidade pela própria vida.” – Dietrich Bonhoeffer. Aluno: Altemar Oliveira Meneses

Sumário Introdução ................................................................................................................................................... 5 Ética e cristianismo na visão de Bonhoeffer .................................................................................................. 6 Kiekergaard e o Equilíbrio entre o Estético e o Ético ................................................................................... 11 Conclusão .................................................................................................................................................. 14 Bibliografia:................................................................................................................................................ 15 4

Introdução Em A Política Como Vocação, Max Weber sustenta a tese de que a ética pode fundamentar-se na convicção ou na responsabilidade. Conceito esse não exclusivo, ou seja, a opção por um não significa necessariamente a ausência do outro. A Ética da Convicção fundamenta-se numa postura prática segundo aquilo que se considera ser o seu dever, o certo. Enquanto que na Ética da Responsabilidade a preocupação gira em torno das consequências dos atos, da prática, das ações. Para Weber, tanto o adepto da Ética da Convicção, quanto o da Ética da Responsabilidade, estão expostos aos seus efeitos. Dos bons fins exaltados pela Ética da Convicção podem resultar os piores resultados, assim como também isso pode acontecer dos meios defendidos pela Ética da Responsabilidade. Veremos neste trabalho a ética sob a ótica religiosa e principalmente a ótica cristã de pensadores como o alemão Dietrich Bonhoeffer e o dinamarquês Søren Kierkegaard. 5

A Ética Religiosa e sua Definição No dicionário a palavra ética é descrita como: “a parte da filosofia que estuda os deveres do homem para com Deus e a sociedade; ciência da moral.” E o ético como: “relativo aos costumes, moral”. Ética nada mais é do que um conjunto de normas que devem ser obedecidas por todas as pessoas que almejam conviver em uma sociedade. Algumas vezes essas normas assumem caráter de lei por meio de sua institucionalização, outras vezes é apenas acatada por meio de um pacto mútuo não institucionalizado entre as pessoas de um mesmo grupo étnico, buscando assim uma melhor convivência coletiva. De um modo geral as religiões não buscam fazer separação entre a esfera ética e a esfera religiosa. Muitas vezes os costumes e as regras já usadas dentro de uma determinada tribo são incorporados dentro da religião que ali surgiu. Sendo essas práticas tão religiosas quanto aos seus ritos sagrados. É nesse momento que a religião aparece quase que como um suporte à ética e a disciplina dentro das tradições das antigas civilizações e tribos. Sem um meio legal punitivo, para repreender aqueles que de alguma forma prejudicavam algo ou alguém dentro dos grupos, tornando assim necessário recorrer às forças divinas que poderiam castigar o infrator. Surge então a união entre ética e religião em praticamente todas as religiões, para poder desenvolver uma sociedade melhor e mais justa para se viver para todos os fieis, que fazendo o bem serão recompensados e fazendo o mal serão castigados. Segundo afirma Jostein Gaarder sobre o assunto “Não há distinção entre ética e religião. A noção do ser humano como uma criação divina implica que ele é responsável perante Deus por tudo o que faz...”. Ética e cristianismo na visão de Bonhoeffer Teólogos e filósofos quase sempre buscaram focalizar o transcendentalismo como o meio de validação da ética. Eles buscam o Graal da lei natural, que envolve princípios independentes de conduta moral isenta à dúvida e à contemporização. Os teólogos cristãos, baseando-se na Suma teológica de Tomás de Aquino geralmente consideram a lei natural como a expressão da vontade de Deus. Os seres humanos, nesse sentido, têm a obrigação de descobrir a lei por raciocínio diligente e integrá-la à rotina de suas vidas diárias. Filósofos seculares de inclinação transcendentalista podem parecer radicalmente diferentes dos teólogos, mas na verdade são bem parecidos, pelo menos no raciocínio moral. Eles tendem a ver a lei natural como um conjunto de princípios tão poderosos que são auto-evidentes para qualquer pessoa racional, qualquer que seja a derradeira origem. Em suma, o transcendentalismo é fundamentalmente o mesmo quer Deus seja ou não invocado. Por exemplo, quando Thomas Jefferson, seguindo John Locke, derivou a doutrina dos direitos naturais da lei natural, estava mais preocupado com o poder dos enunciados transcendentais do que com sua origem divina ou secular. Na Declaração da Independência norte-americana, mesclou os pressupostos secular e religioso em uma sentença transcendentalista, cobrindo assim habilmente 6

todas as apostas: “Consideramos tais Verdades evidentes por si mesmas, que todos os Homens são criados iguais, são dotados por seu Criador de certos Direitos inalienáveis, entre os quais estão a Vida, a Liberdade e a Busca da Felicidade.” Essa asserção tornou-se a premissa cardeal da religião civil norte-americana, a espada justiceira brandida por Lincoln e Martin Luther King, e perdura como a ética central que une os diferentes povos dos norte americanos. A visão ética de Bonhoeffer Nascido em na cidade de Breslau, na Alemanha, em 4 de fevereiro de 1906, Dietrich Bonhoeffer foi teólogo, pastor luterano e um dos idealizadores e signatários da Declaração de Bremen, quando, em 1934, diversos pastores luteranos e reformados formaram a Bekennende Kirche (Igreja Confessante), rejeitando desafiadoramente o nazismo: “Jesus Cristo, e não homem algum ou o Estado, é o nosso único Salvador”. Nos escritos de Bonhoeffer, podemos identificar o contato com a filosofia de Nietzsche e Wilhelm Dilthey e a sociologia de Max Weber, entre outros autores; além do diálogo com os teólogos Karl Barth, Paul Tillich e Rudolf Bultmann. Seus últimos dois anos foram vividos na Prisão Preventiva do Exército em Tegel, quando, em 9 de abril de 1945, logo após o suicídio de Adolf Hitler e apenas três semanas antes que as tropas aliadas libertassem o campo, foi enforcado em virtude de seu engajamento na resistência antinazista. Entre 1939 e 1943 (quando da sua prisão), Bonhoeffer trabalhou na redação de uma obra sistemática cujo subtítulo seria Ensaio de uma ética cristã. Ela foi publicada postumamente por Behtge com o título de Ética. Ele afirma que a ética não pode ser de princípios ou normas. Seu objetivo não é o conhecimento do bem e do mal, mas da vontade de Deus em vista da ação concreta. Ele objeta a ética dos princípios (abstrata) com a ética que guia os cristãos (concreta). A primeira está desvinculada da realidade, a segunda pergunta sobre o mandamento concreto de Deus “hoje”, “aqui”, “para nós”. Os sete fragmentos de Ética registram a ampliação da “teologia do seguimento” para a temática do mundo secular da seguinte maneira: a) Ética como configuração: O ponto de partida da ética cristã não é um preceito ou norma, mas a reconciliação do mundo com Deus efetivado na pessoa de Jesus Cristo. Assim, questiona ele “Como Cristo toma formato no mundo”? Cristo não é o “Mestre”, mas o “Formador”. A função da ética está na formação, conformação/configuração. Cristo não nos entrega planejamentos éticos ou religiosos, mas conforma a si na Igreja, e na igreja os cristãos, como uma nova humanidade, para que por meio deles aconteça a conformação do mundo a Cristo. b) Dialética de último e penúltimo: A ética não parte de preceitos, mas da palavra da justificação, que é a última palavra em dois sentidos: Como palavra de graça, é insuperável; como ruptura com o passado que a precede. A realidade penúltima é a diversificada realidade do mundo e das coisas que nele existem, a vida do homem e seus valores. A ética concreta articula a relação entre último e penúltimo. Duas soluções inadequadas: O radicalismo, só vê a realidade última, sacrificando a penúltima; O compromisso, que sacrifica o último ao penúltimo. Ele propõe contra a desvalorização do penúltimo a teologia da encarnação, e do último, a da cruz e ressurreição. Assim, ele recupera na ética a noção de “natural” ao propor a continuidade do último e do penúltimo. c) Teoria dos mandatos: A ética palpável não é de princípios e normas, mas da vontade de Deus. A vontade de Deus como mandamento concreto e que alcança a realidade do mundo. O princípio ético proíbe, o mandamento de Deus permite viver como homens diante dele ordenando a liberdade. Não há contraponto entre sagrado e profano, cristão e secular, espiritual e temporal. Como acontece a relação de Cristo com o mundo? 7

1) O trabalho e a cultura, criam os valores; 2) O casamento e a família, criam vidas; 3) As autoridades, conservam na ordem as realidades criadas; 4) A Igreja, concretiza a realidade de Cristo em seu ministério. O “evento ético” acontece onde o senhorio de Cristo encontra o homem na realidade do mundo. d) A vida ética como responsabilidade: O enunciado central de Ética é: “ Em Jesus Cristo , a realidade de Deus entrou na realidade do mundo”. É um “sim” ao mundo, pela criação, reconciliação e redenção, que carrega em si o “não” do juízo. Esta “unidade polêmica” – sim e não – permite superar a tensão entre compromisso e radicalismo. A ética cristã não é uma ética vitalista do “sim” e nem de renúncia do “não”, mas ética da responsabilidade, tensão entre “sim e não”. As estruturas da vida responsável tem dois fatores: o vínculo a Deus e ao homem. Este vínculo assume a forma de representação e conformidade com a realidade. A consciência ética cristã não é amarrada por princípios, mas libertada por Cristo para a solidariedade com o outro. A responsabilidade pressupõe a liberdade. Cristianismo arreligioso num mundo tornado adulto Bonhoeffer é um dos pouquíssimos homens que tiveram a ousadia de se envolver politicamente na Alemanha hitlerista, valendo-se dos contatos familiares e da atividade ecumênica. Foi preso em abril de 1943 e executado em abril de 1945. Do cárcere, correspondeu-se com a noiva, os pais e o amigo, Ebehard Bethge. A correspondência com estes últimos foi publicada em 1951, Resistência e submissão. O tema geral da sua reflexão nas cartas de cunho mais teológico é: “Cristo e o mundo tornado adulto”. Desta reflexão derivam dois conceitos: O mundo tornado adulto; Um cristianismo arreligioso. Esse conceito, que deriva de Immanuel Kant e Wilherlm Dilthey, descrevendo o processo histórico que levou o mundo à maturidade. Bonhoeffer aceita a legitimidade do processo, mas seu projeto é conjugar o processo do mundo rumo à autonomia com a fé em Cristo. Diante do mundo adulto, duas posições são inadequadas: O compromisso entre a fé cristã e o mundo moderno, que leva à redução da fé: protestantismo cultural e a teologia liberal; A contraposição que exaspera a tensão até chegar ao radicalismo de uma fé sem história e sem mundo: teologia dialética. Ele se situa além do compromisso e contraposição, no encontro da fé cristã com a nova realidade do mundo adulto. Surge a nova figura do cristianismo a-religioso. Esta nova figura tem dois sentidos: negativo e positivo. O sentido negativo é o fim da religião, o afastamento da religião. Mas que religião? (Esta referida religião comporta três elementos fundamentais: a) Metafísica, concepção de Deus como além do mundo; b) Interioridade/Subjetividade, concepção do homem individualista, desligada do mundo e da história; c) Parcialidade, reivindicação da religião de um espaço para si, setorial. Aqui, Bonhoeffer utiliza a crítica da religião desenvolvida por Barth, num conceito histórico-epocal de religião, onde no aspecto formal o cristianismo a-religioso é pós-metafísico, pósindividualista, pós-burguês e pós-ocidental. O sentido positivo se expressa de uma nova maneira de cristianismo a ser vivido e expresso num mundo adulto, essa nova forma comporta um novo critério hermenêutico, que Bonhoeffer chama de “interpretação não religiosa dos conceitos bíblicos” ou “teológicos” ou, ainda, “interpretação secular”. Bonhoeffer é um teólogo da palavra, como Barth e Bultmann, mas critica a ambos: Barth criou um “positivismo da revelação”, afastando-se do confronto com o mundo e com a história. 8

Para Bonhoeffer a primeira tarefa de uma Ética Cristã é mudar a orientação observada na ética, no sentido de ter como objetivo final a opção por refletir sobre a noção de bem e mal. Para ele um dos problemas que envolvem o discernimento ético, e, portanto, seu desenvolvimento, está no fato de que na desunião com Deus, o homem torna-se o centro do qual parte essa noção da escolha entre bem e mal. Toda decisão ética é uma situação de conflito. Citando como exemplo a figura neotestamentária do Fariseu como um tipo deste conflito vivido pela humanidade, diz ele: cada momento da vida se torna uma situação de conflito em que deve escolher entre o bem e o mal. Contrapondo-se a essa atitude, Bonhoeffer apresenta o exemplo de Jesus: A liberdade de Jesus não é a escolha arbitrária de uma entre incontáveis possibilidades; antes consiste justamente na completa simplicidade de sua ação, para a qual nunca existem várias opções, conflitos alternativas, mas sempre uma coisa só. Bonhoeffer reconhece que não é tão fácil tomar decisões responsáveis. E muito menos é fácil reconhecer a vontade de Deus diante dos conflitos éticos que se apresentam no cotidiano. Em sua caminhada ética, o cristão precisa levar em conta pelo menos duas questões éticas importantes. Ele precisa abrir mão de todo o seu direito próprio e de toda autojustificação, além de ter que abrir mão de ser o juiz do outro. É necessário, portanto, que ele confie plenamente em Jesus com uma obediência responsável e num caminho de corresponsabilidade com os outros homens: “Jesus se importa com aquele que sofre por uma causa justa, mesmo que não seja exatamente a confissão de seu nome; integra-os em sua proteção, em sua responsabilidade e em sua reivindicação” Tratando de Ética como formação, Bonhoeffer faz uma distinção entre o teórico da Ética e a própria realidade. Para ele o desinteresse por este assunto não está na escassez ou esvaziamento do tema, mas seu enrijecimento e teorização diante de uma grande quantidade de questões éticas existentes. Os tempos atuais não comportam, como no passado, a ética como uma questão teórica. A realidade é completamente diferente: Pior do que a má ação é ser mau. Um mentiroso dizer a verdade é pior do que um amante da verdade mentir. Um misantropo praticar o amor fraterno é pior do que um filantropo sucumbir uma vez ao ódio. A mentira ainda é melhor do que a verdade na boca do mentiroso, e o ódio é melhor do que a ação do amor fraterno do misantropo. Que o mal aparece sob a máscara da luz, da caridade, da fidelidade, da renovação, do historicamente necessário, do socialmente justo, é prova cabal de sua mais profunda maldade para quem percebe as coisas com singeleza. Esse tipo de quadro, segundo Bonhoeffer, cega o teórico da ética. Conceitos preconcebidos não são óculos adequados para a leitura da realidade. De uma maneira bem peculiar ele traça um perfil dos teóricos da ética, e um quadro geral da ética como teoria:  Razoáveis: aqueles que bem intencionados acham poder solucionar os conflitos éticos com um pouco de razão;  Fanáticos: Aqueles que acreditam poder enfrentar o mal com a pureza de vontade e de princípios. O fanático erra o alvo;  Conscientes: Confiantes apenas na consciência como fonte e suporte de toda decisão ética. No final contentam-se em ter uma consciência salva em lugar de uma consciência limpa;  Cumpridores do dever: A ordem a cumprir é a coisa mais certa. A responsabilidade pela ordem é de quem a deu, não de quem a executa;  Dono da liberdade: Aquele que tem como alvo a ação correta, independentemente do que possa acontecer. Esse pode sofrer o prejuízo por não saber discernir mais qual a ação correta. 9

 Virtuoso: O que pratica o bem dentro de suas forças. Aquele que preserva sua irrepreensibilidade particular da maculação por ação responsável no mundo às custas de auto-ilusão. Diante de tudo isso, qual a postura ética que Bonhoeffer propõe? Conjugar simplicidade e inteligência é sua resposta. Para ele, algumas características são necessárias dentro dessa visão: Não ter o coração indeciso; Não estar amarrado por princípios, mas comprometido pelo amor a Deus. Aquele que vê a realidade como ela é e por fim, aquele que olha todas as coisas com profundidade: percepção da realidade não é a mesma coisa que conhecemos dos processos exteriores, mas o vislumbrar da essência das coisas.37 É preciso também obter as melhores informações dos acontecimentos, sem contudo se tornar dependentes delas. E finalmente aquele que tem a consciência de que não se pode acudir a realidade com os mais puros princípios e nem com a melhor das vontades.38 Segundo Bonhoeffer, tomar decisões éticas implica em conhecer alguns valores do mundo. Entre esses, como exemplo, o sucesso como parâmetro e justificação de todas as coisas. Desta perspectiva os atos decidem e não as idéias ou opiniões. Segundo Robertson, quando Bonhoeffer falava em agir responsavelmente do ponto de vista ético, pressupunha abrir mão de todos os esforços por estabelecer normas quanto aos desafios que se apresentam na realidade. Tentar estabelecer qualquer princípio de validade universal e considerá-lo apto para ser aplicado em todas as questões éticas era como tentar afugentar um pássaro em seu vôo. Mal e bem só existem em relação a ações realizadas. Qualquer esforço que o homem faça em viver sua vida como se estivesse só, já dizia Bonhoeffer, é uma negação de sua responsabilidade. Clifford Green, em sua análise sobre pensamento de Bonhoeffer, opta pela expressão: Ética da Resistência. A ação responsável é também chamada de liberdade responsável. O ser humano responsável oferece sua vida como resposta à questão e chamada de Deus. Bonhoeffer não via somente a necessidade de chamar a Igreja a uma ação responsável apenas enquanto representante eclesiástica, ele próprio se envolvia, através dos movimentos ecumênicos, em articular a participação desta igreja nas ações e compromisso frente aos conflitos éticos de seu tempo. Beatriz Melano observou isso muito bem, quando de início Bonhoeffer começa a perceber aonde vai levar o regime nazista que está se implantando em relação a posições raciais. Sua postura responsável é um chamamento também à Igreja atual para assumir uma postura diferente da que, na literatura, assumira Don Quixote, de uma luta a partir de referenciais da fantasia para a dura realidade da vida. A chamada à Igreja é portanto uma chamada aos indivíduos que a compõem, cuja lealdade maior não está circunscrita e nem confinada à realidade local e nem subserviente a qualquer obediência irresponsável e cega, mas a Deus e sua causa: o ser humano glorificando-o. As idéias de Bonhoeffer são válidas como testemunho. Na verdade podemos percebê-las como uma crítica ao legalismo, ao casuísmo. Poderíamos definir a Ética de Bonhoeffer como uma ética religiosa, mística, Cristocêntrica. Sua Ética também poderia ser definida como uma ética para o tempo de crise, de incertezas. Sob a perspectiva teórica, quando saímos do tempo de crise, encontramos uma série de problemas justamente pela falta de uma elaboração teórica e até de elementos que nos ajudem a tomar uma decisão. É possível também partindo das idéias de Bonhoeffer, tomar decisões precipitadas ou puramente emocionais. É claro que essa possibilidade esteja em aberto para um leitor mais crítico, devido ao caráter inacabado da Obra de Bonhoeffer. Mesmo considerando todos esses limites, não podemos deixar de valorizar a proposta ética de Bonhoeffer como uma tentativa de equilibrar discurso e prática, decisão e responsabilidade. 10

Kiekergaard e o Equilíbrio entre o Estético e o Ético O conjunto da obra multiforme de Soren Kierkegaard pode ser resumido partindo da seguinte interrogação: o que significa para o homem existir como indivíduo singular? Essa é a retomada kierkegaardiana da questão socrática da consciência de si, que é renovada em função de uma nova referência, ao tornar-se cristão. Como é possível pensar a subjetividade de maneira rigorosa, após Kant e Hegel, levando em conta a existência individual? O propósito de Kierkegaard, ao tematizar a dualidade existente entre o indivíduo e a sociedade, é reconstruir um pensamento da existência como diferença, mas também como identidade. O aprofundamento na intimidade, à medida que o indivíduo é capaz de voltar-se a si mesmo, não escapa ao hermetismo da relação com alguma coisa exterior. Nesse sentido, a negatividade, que está presente tanto no exterior como no interior, produz e mantém uma relação de reciprocidade entre o indivíduo singular e o mundo exterior, transformando a dialética de ambos no aqui e no agora da história. É notório que tratar da existência do indivíduo singular é colocar em questão a capacidade mediadora da ética, enquanto esfera de passagem do singular ao geral, necessariamente ligada às demais esferas da existência. Nesse sentido, o pensamento kierkegaardiano, conhecido como filosofia da dualidade e da disjunção, pode ser caracterizado como filosofia da síntese, à medida que a interioridade do indivíduo singular e a exterioridade do mundo alcançam o seu termo na ética. A singularidade do indivíduo existente é o lugar decisivo onde ocorre a reflexão e a interação da interioridade e da exterioridade existencial. Para Kierkegaard, a ética é apenas uma das etapas no caminho da vida, mas, nela, precede, sobretudo, o ato individual da decisão. É nesse exato momento da reflexão, que surge o paradoxo: como a ética, enquanto disciplina normatizadora da sociedade, encontra o seu princípio no indivíduo? O enfoque da discussão não é mais o da ética enquanto generalidade, mas sim a natureza das escolhas individuais. Se a escolha é essencialmente subjetiva, deve, pois, portar um elemento de generalidade para transcender a particularidade de cada um, constituindo-se como lei. Por outro lado, a escolha individual não pode fundamentar a ética, dado que esta pressupõe certas condições, por exemplo, trazer junto a si a possibilidade da relação com o geral. Uma outra possibilidade é pensar a vida ética como efeito de uma escolha individual, em que o indivíduo é convocado a decidir entre dois ou mais bens. A solução, inicialmente indicada por Kierkegaard, aponta a síntese entre a generalidade da lei e a singularidade da norma, ambas colocadas em movimento pelo indivíduo singular e portador do universal. Esse dilema é abordado pelo Juiz Wilhelm: “Meu dilema [Enten-Eller] não significa, no entanto a escolha entre o bem e o mal; designa a escolha pela qual alguém excluiu ou escolheu o bem ou o mal. Trata-se aqui de saber sob quais categorias alguém quer considerar toda a vida e viver o si-mesmo [selvleve]. É bem verdade que, em escolhendo o bem e o mal, alguém escolhe bem, mas isso não aparece de imediato; a estética não é o mal, mas a indiferença, por isso eu disse que a ética constitui a escolha. Não se trata, portanto, de escolher entre querer [ville] o bem ou o mal, mas de escolher o querer [ville], aí o bem e o mal se acham colocados. (KIERKEGAARD,1970, p. 154).” Kierkegaard chama atenção para o fato de que não se trata de uma decisão entre o bem ou o mal, mas é a possibilidade de escolher que impele a vontade do indivíduo, levando-o a optar por uma dessas duas instâncias. Ao contrário de uma simetria, Kierkegaard aponta a dissimetria da ética, 11

onde o indivíduo é confrontado com a lei (generalidade) e a norma (singularidade). O bem e o mal não possuem sentido absoluto, sendo, pois, determinados negativamente na esfera ética, dado que a escolha primordial do indivíduo não está entre escolher o bem ou o mal, mas, sobretudo, em escolher. Decidir por escolher algo já é a escolha acertada. Nesse ato singular de escolha, instaura-se a ética ascendente, determinando o modo de vida do indivíduo: o modo de vida na esfera ética. Viver eticamente não significa, para Kierkegaard, ato de escolha ou eleição, ao contrário, escolher o querer é o ato de autoafirmação. Tal ato da vontade põe em movimento o destino do indivíduo singular e da história, perpassado pelo modo de vida ético. A possibilidade de escolher o “querer escolher” difere do ato de escolher algo em detrimento de outro, pois transforma a escolha individual em algo único e singular: poder escolher. Daí surge outra questão que deve ser respondida: como a ordem ética determina o homem ou como o homem atinge a esfera da ética? No fundo, a escolha original de si é o amor a si mesmo, pois a escolha primordial é pura e pode ser comparada com o primeiro amor ou o amor verdadeiro. Escolher a si mesmo não leva o indivíduo a tornar-se outro, mas reafirma a sua individualidade, a sua subjetividade singular e ética, a sua capacidade de escolher. O tornar-se si mesmo é o resultado de uma constante atualização, sendo executada como ato de constante repetição. O indivíduo singular faz a passagem do mesmo ao mesmo 3 através do movimento dialético e gradual, do possível ao real, Para o indivíduo, o início da vida ética não coincide somente com a escolha do querer, mas também com a escolha de si mesmo. Essa é a crítica endereçada pelo Juiz Wilhelm, pseudônimo ético por excelência, aos místicos, acusando-os de fuga do mundo concreto. Fugir não significa escolher-se a si mesmo ou afirmar a sua singularidade, a fuga do místico é uma escolha abstrata, que não o leva à responsabilidade de tornar-se si mesmo. Como visto, Kierkegaard equipara a escolha pessoal ao dever ético. Daí, o pseudônimo Climacus, no Post-scriptum, retomar a expressão do Juiz Wilhelm quando este afirma que a distinção entre o modo de vida ético e o estético é, principalmente, que a ética exige de “... todo homem o dever de se manifestar claramente aos olhos de todos.” (KIERKEGAARD, 1977, 235). É sabido que a ética se debate com a fundamentação entre escolher o modo de vida singular (norma) ou o modo de vida geral (lei). Em Kierkegaard, esse problema torna-se mais agudo, dado que a única realidade é a existência do indivíduo singular. Então, podem as ações individuais ser condicionadas por um critério que lhes seja exterior? O confronto que se estabelece entre a vida ética, que tem por fi m a realização do indivíduo na interioridade, exige por si mesmo referir-se a um princípio geral. A síntese, ao menos em termos especulativos, deve levar em conta a generalidade e a normatividade na escolha primordial do indivíduo. Ou seja, o que está em questão, agora, é a ligação entre o indivíduo, o dever e a sociedade. Para compreender a existência individual, a vida ética tem função diretriz. A doutrina kierkegaardiana da ética apresenta a escolha originária como princípio da vida singular e geral, contudo há certa primazia da decisão sobre a generalidade e as normas. Igualmente, por um movimento circular, a primazia se inverte, à medida que a decisão primeira é a repetição daquilo que o indivíduo singular tem de universal e que transcende a sua particularidade. A decisão do indivíduo singular não é normativa, no sentido de que as normas por ele engendradas são atualizações da normatividade inscrita em todo o homem. Por isso, a sua decisão é o meio e o princípio da normatividade. A vida ética é a síntese, síntese que se expressa de diversos modos: na decisão e na norma, no particular e no geral, no individual e no social, na moralidade e nos costumes. Se todas essas questões acentuam a dualidade, ainda assim permanecem distintas, não se repetindo através de uma dualidade exacerbada. Do ponto de vista da ética, é precisamente, na síntese, que a situação concreta e particular do indivíduo singular fixa a decisão através do querer. No entanto,esta decisão não seria ética se efetuasse a abertura pela generalidade e pelos costumes apenas através da espécie. 12

Os fundamentos de uma ética da existência pressupõem a exceção. Tal ética não descura que, na vida ética, o indivíduo com sua liberdade e sua finitude seja sempre o foco da discussão. Kierkegaard busca fundamentar uma ética prática, centrada no indivíduo enquanto ser singular, capaz de fazer a síntese entre a lei da generalidade e a norma da singularidade em seu existir através da exceção. Soli Deo Gloria 13

Conclusão Para compreendermos a visão de ética desses dois pensadores cristãos em primeiro lugar, é necessário reconhecer que toda a reflexão bonhoefferiana é em sua essência cristológica, sofrendo adaptações até a elaboração final de “Cristo como ser para os outros” pelo forte apelo ético gerado, sobretudo, a partir da Segunda Guerra. Bonhoeffer acreditava não haver melhor maneira de ser cristão que não fosse pelo testemunho da própria vida. Para tanto, inicia a sua obra ética, que apesar de fragmentária e incompleta, nos permite a visualização de uma renovação da vida cristã, numa época em que as bases do cristianismo correm o risco de se perderem. A fundamentação cristológica da ética proposta por Bonhoeffer não pode ser entendida separada da dialética entre último e penúltimo, por garantir o encontro íntimo de Cristo com o mundo. Já a estrutura de responsabilidade aparece proferida com a teoria dos mandatos, por onde o comprometimento ético é implantado na realidade cotidiana. Assim, sua “ética cristológica” mostra a relevância de viver no mundo como “ser para os outros” na busca do ανθρωπος τελειος “ánthropos téleios”. A marca da sua ética cristã está na identificação com Cristo, principalmente em seu sofrimento. Essa identificação torna-se totalmente plausível numa época que conhece de perto a realidade do sofrimento. Por isso, a preocupação pastoral com as implicações éticas, principalmente na complexa relação entre Igreja e mundo, Igreja que deveria viver sua responsabilidade diante da guerra. Por outro lado a teoria kierkegaardiana da ética apresenta a escolha originária como princípio da vida individual e geral, contudo há certa prioridade da decisão sobre a generalidade e as normas. Igualmente, por um movimento circular, a prioridade se inverte, à medida que a decisão primeira é a repetição daquilo que o indivíduo singular tem de universal e que transcende a sua particularidade. A decisão do indivíduo singular não é normativa, no sentido de que as normas por ele concebidas são atualizações da normatividade inscrita em todo o homem. Por isso, a sua decisão é o meio e o princípio da normatividade. A vida ética é a epítome, epítome que se expressa de diversas maneiras: na decisão e na norma, no particular e no geral, no individual e no social, na moralidade e nos costumes. Se todas essas questões acentuam a dualidade, ainda assim permanecem distintas, não se repetindo através de uma dualidade acentuada. Do ponto de vista da ética, é justamente, no epítome, que a situação concreta e particular do indivíduo singular fixa a decisão através do querer. No entanto, esta decisão não seria ética se efetuasse a abertura pela generalidade e pelos costumes apenas através da espécie. Os fundamentos de uma ética da existência pressupõem a exceção. Tal ética não negligencia que, na vida ética, o indivíduo com sua liberdade e sua finitude seja sempre o foco da discussão. Kierkegaard busca fundamentar uma ética prática, centrada no indivíduo enquanto ser singular, capaz de fazer a síntese entre a lei da generalidade e a norma da singularidade em seu existir através da exceção. 14

Bibliografia: BONHOEFFER, Dietrich. Ética. São Leopoldo (RS):Sinodal,2001. GAARDER; Jostein. HELLERN; Victor. NOTAKER; Henry: “O livro das religiões” São Paulo Companhia das letras 2005. AMORA, Antonio Soares. Minidicionário da Língua Portuguesa 19° edição. Ed. Saraiva. A Ética da Responsabilidade em Bonhoeffer: O desafio de encarar as demandas éticas do mundo moderno. UIPIRANGI FRANKLIN DA SILVA CÂMARA. Material apostilado do autor MONDIN, B. Os Grandes Teólogos do Século Vinte. GIBELLINI, Rosino (Org.). A Teologia do Século XX. São Paulo: Loyola, 1998. ROBERTSON,E.H.Dietrich Bonhoeffer_introuccion a su pensamiento teologico. Barcelona(ESP): Editorial Mundo Hispanico,1975. GIBELLINI,Rosino. A teologia do século XX. São Paulo: Ed. Loyola,1998. O conceito de angústia. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2010. Sites: http://www.paginadowill.com/2010/06/etica-e-religiao.html http://www.recantodasletras.com.br/redacoes/3427313 http://nagraca.blogspot.com.br/2009/06/graca-barata-e-graca-preciosa.html http://teologiahoje.blog.com/2009/01/08/a-vida-e-a-obra-de-dietrich-bonhoeffer/ 15

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Ética na religião Nathan Monteiro. Subscribe Subscribed Unsubscribe 13 13. Loading... Loading... Working... Add to. Want to watch this again ...
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