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Príncipe dos Lobos: Uma Aventura Dantesca Na Cidade Dos Homens

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Information about Príncipe dos Lobos: Uma Aventura Dantesca Na Cidade Dos Homens
Books

Published on February 18, 2014

Author: RPrego45

Source: slideshare.net

Description

Príncipe dos Lobos é uma fábula baseada nas tragédias diárias estampadas nos jornais, e telejornais. Narra às aventuras de Róbin, um garoto pobre, que vive um pesadelo angustiante em família. Na escola, aprendeu uma dança mágica, que não o impedirá de morar nas ruas e consumir a “pedra encantada”, mas o salvará da morte. Quando conhece uma prostituta chamada Beatriz, que o tira das ruas e do vício, descobriu nas pedras o precioso caminho que o conduz ao lucrativo comércio da “branca de neve”, ao lado de Draco, um traficante e cafetão, vive o sonho de ser o dono do mundo. O autor retira das entranhas da cidade o retrato do homem vazio, e a disputa entre os mercadores, que fazem das tripas um coração feito de sal, que vendem a este homem vazio para ele se preencher. A última questão dessa aventura é: afinal, Róbin terá sorte?
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Rogério Prego 2 Rogério Prego Príncipe dos Lobos Uma Aventura Dantesca Na Cidade Dos Homens

Príncipe dos Lobos 3 Principe dos Lobos Authored by Rogerio Prego Nunes 6.0" x 9.0" (15.24 x 22.86 cm) Black & White on White paper 152 pages ISBN-13: 9781495940040 ISBN-10: 1495940047

Rogério Prego 4 À minha companheira, Pollyanna Rodrigues, esposa amiga, sempre presente e incentivadora. Contribuidora de ricas reflexões e pensamentos. Aos meus pais, Orlando & Milena, pelo apoio e confiança incondicional.

Príncipe dos Lobos 5 “Por um lado, não se sabe nada, e por outro, não se compreende aquilo que se sabe...”. Máximo Gorki, “O Espião”.

Rogério Prego 6 “Felicidade foi se embora E a saudade no meu peito ainda mora E é por isso que eu gosto lá de fora Porque sei que a falsidade não vigora. A minha casa fica lá de traz do mundo Onde eu vou em um segundo quando começo a cantar O pensamento parece uma coisa à toa mas como é que a gente voa quando começa a pensar...” Caetano Veloso, “Felicidade”. ai a luz da lua revelando por contrastes acinzentados um rapaz sentado aos modos e aspecto de um mendigo. Es- corado numa porta de aço, vestindo uma blusa velha de moletom preto com capuz. Segura um pequeno cachimbo na boca e quando risca o isqueiro, lembra que sua mãe o usa para acender a chama do fogão. Sob o efeito da mordaz fumaça nos pulmões, sua memória faz resvalar a imagem da mãe no lacri- mejar dos seus olhos: na cozinha ela canta com sua voz triste enquanto lava as vasilhas. Atrás dela à mesa está o pequeno Ro- binson, – cujos olhos se alongam com pena da mãe. Edileusa só queria estar longe deste deserto árido em que se encontra; laçar um cavalo e ser pior que limpa trilhos correndo na frente do trem, como na letra da caetana música que canta. Mas seu cami- nho é longo e penoso através do deserto. Às vezes Edileusa se pergunta por que lava aquelas vasilhas, se mal tem o que comer? A cozinha parece fornalha de um trem, além de quente, a panela de pressão está no fogo, – o feijão cozinha com mais água do que grãos; e a chaleira apita forte; então ela percebe o filho. – O trem não pode parar! Definitivamente não! C

Príncipe dos Lobos 7 Coloca o restante do pó no coador; ajeita a garrafa; despeja a água quente... Enxuga a frigideira, os ovos fritam e o garoto observa. Leva à mesa o pão murcho que guarda numa vasilha de plástico. As íris dos olhos de Robinson parecem duas jabutica- bas incrustadas em bolinhas de gude branco. – Grandes, e infan- tis. De visão alongada, tocam o rosto de sua mãe. A menina dos olhos parece uma lua cheia no canto de um céu preto; atento as palavras da mãe. – Seu pai dizia que o café foi descoberto na Etiópia, – diz E- dileusa. Quando pastores notaram que seus rebanhos ficavam acordados a noite inteira; depois de comer folhas e frutos do cafezal... O Brasil teve até uma economia chamada café com leite... Edileusa tenta lembrar-se de mais coisas que seu falecido ma- rido dizia, mas é inútil. Para ela o rebanho são os trabalhadores, que ao invés da noite, ficam acordados o dia todo. Edileusa não comerá o ovo no pão, é para o filho, apenas o “chafé” esquenta- rá a barriga magra, até a hora de comer o feijão que tilinta na panela. Pelo menos Robinson tem a merenda da creche. – Que estejam vivos e despertos pra trabalhar, não é isso que o governo fornece pras indústrias & comércio?... Edileusa ia arrumar um lugar para mudar naquela semana, pois já tem dias que o dono da casa bate à porta e ela não tem dinheiro. Seus moveis já são poucos, bem velhos, o que quer dizer mal conservados. Com tantas mudanças só ficavam mais feios. Já estava desempregada há tempos. – Tem coisa pior prum burro de indústria & comércio do que ficar sem carregar carga, que já é tão acostumado?... Numa manhã, Edileusa estava lá no portão de casa. Atendia alguém muito impaciente, Robinson ouviu de longe a voz en- vergonhada da mãe; dizendo:

Rogério Prego 8 – Ô seu Nogueira, fico até envergonhada, mas não há dinhei- ro... – Fico até com dó da senhora; sem marido, sem os filhos que trabalhavam, mas não tenho o que fazer... Não posso fazer cari- dade... Já procurou se pega o bolsa família? A senhora não tem irmãs?... Às vistas de Robinson, seu Nogueira é um senhor alto, de to- po calvo. Sem camisa com tufos de pelo branco amostra, de bermudinha e chinelos. Empunhando com a esquerda viril uma corrente que termina enroscada no pescoço de um pastor ale- mão: de orelhas rijas estranhou a chegada de Robinson. Parali- sado perscrutou o pequeno humanoide. Latiu avançando. Se seu Nogueira não segura, o cão arrancava o nariz de Robinson, que correu com olhos arregalados quase caindo da cara, indo se re- fugiar debaixo do tanque de lavar roupas. – Olha Dona Edileusa, como eu disse não posso fazer carida- de! Infelizmente peço-lhe gentilmente que desocupe o imóvel... – E foi embora, quase arrastando o iracundo cão que latia. Dona Edileusa, fechou o portão, entrou segurando choro forte na gar- ganta pensando: Sou mulher, e vou dar jeito!... – e gritou: Ro- binson larga de ser medroso, menino!... O rapaz aos modos e aspecto de um mendigo, sentado no in- terior de uma manilha, com medo, vestindo moletom preto ve- lho com capuz cobria a cabeça. Via a chuva lá fora, atravessada pela luz fraca da lua, que espiava a terra entre nuvens escuras. Ao redor, uma obra pública já desgastada pelo tempo. Parecia um campo de guerra a muito esquecido; do alto o lugar parecia um esboço medonho do que seria um espaço destinado a pro- gramações culturais, esportivas e de lazer. Mas em sua dignida- de restringida, o rapaz via a água cair do céu, atravessada pela tétrica luz. As marcas do passado revelam de suas reminiscên- cias outros dias de chuva...

Príncipe dos Lobos 9 Quando Edileusa viu mais uma semana passar, como uma imensa máquina locomotiva parando na estação, viu o céu acin- zentado como se intumescido pela densa fumaça da fornalha da máquina. Viu os trilhos que eram minutos, e segundos angusti- antes; viu que além de poeira se esfriavam nas veias. Enfim, o apito anunciava o final de semana retumbando no peito que ar- fava cansado. E imaginou o céu abrindo colorido como o algo- dão doce da infância, mas o céu abriu medonho como as asas de um morcego. Triste! Derramando chuva grossa, parecia chorar em desespero, gritava trovões, cuspia raios! E assim, a preguiça era incomodada quando os pelos da coberta pinicavam a pele, um ronco mugia na barriga murcha, e o filho pequeno com seus olhos de gado magro, sempre procurando algo nos olhos da mãe, – estaria doente? – Teria que levantar! Preparar o café, pegar o pão murcho da vasilha de plástico, e ao menos o café esquenta- ria seu estomago sedicioso. As máquinas de trabalho, as loucas movedoras do progresso humano funcionam assim... E ao final do domingo ouvia-se a segunda-feira chegando, o batuque frenético do ligar da maquina... O apito febril corta as cabeças como se atravessando nuvens em bolinhas, sem cor, triste algodão doce branco, mas era açúcar? Creio que amargo, pois ninguém parecia estar feliz. Parecendo crianças birrentas, estressadas; foram acordadas justamente quando o sono ficou gostoso: como se estivessem voando e, um marginal cortasse suas asas! E a louca emotiva semana iniciou sua mastigação de minutos, segundos e pessoas. Cedinho, entre cinco e seis da manhã despe- ja levas e mais levas de trabalhadores na cidade. Como rebanho marcado fazendo de tudo para sorrir no fim do mês, e conse- guem. Ora!... Essa é a felicidade de comprar as coisas, só não pode é ficar doente ou precisar da Justiça, não é isso que o go- verno oferece pras indústrias & comércio?...

Rogério Prego 10 ................................................... Não voam nem se pode flutuar! Como sempre, Edileusa deixa o pequeno na creche, etecétera e tal... Revoava em sua cabeça a voz de seu Nogueira: “Já pro- curou se pega o bolsa família? A senhora não tem irmãs?” – “A senhora não tem irmãs?” – Balbuciou entre lábios. Deus do céu dê-me forças! Hoje falo com Jandira! – Mãe! Ainda vou ganhar o suficiente pra dar pra senhora uma vida melhor! – exclamou o pequeno Robinson na porta da creche... tão pequeno. Edileusa tomou-se surpresa, impotente, não encontrou pala- vras. Mulher de triste sina. Perdera o marido e os filhos grandes que trabalhavam. Só lhe restava um peso extra, criança inapta ao trabalho, mas era bom menino, – seria louca em por todas as suas esperanças nele? – queria-lhe bem, isso já era o suficiente para si. Logo vieram encaminhá-lo para o interior da creche, e ela não precisou inventar palavra. Despediram-se de longe com pequenas lágrimas: Robinson decerto, sentindo que sua mãe nunca mais voltaria, livrara-se do peso; enquanto Edileusa de- certo, sentindo que daquele fardo nunca poderia se livrar. “Vocês que fazem parte dessa massa Que passa nos projetos do futuro É duro tanto ter que caminhar E dar muito mais do que receber...” Zé Ramalho, “Admirável Gado Novo”.

Príncipe dos Lobos 11 ois rapazes esquálidos desciam a rua em bairro de traba- lhadores, mesmo ainda cedo, não se via movimento. Um vestido de moletom preto velho, com capuz cobria a cabeça, mãos enfiadas nos bolsos do moletom na altura da barriga. O outro também vestido de moletom, só que bege ca- muflado, mantinha o capuz nas costas, de cabelos castanhos e bochechas murchas. Ambos de bermuda tactel, mas estampas diferentes, e chinelos. Param diante o portão de uma casa, olham em redor, o de moletom bege camuflado fala: – Junta as mãos aí... – Vê se num demora, Marco! – disse o outro dando apoio com as mãos. Marco, do muro sumiu para dentro da casa, o de moletom preto enfiou as mãos no bolso da blusa e olhou em redor, ficou na vigília. Um bom tempo depois, Marco reapareceu no muro. – Psiu... – fez Marco. – Porra véi, demorou! – disse o outro e pegou a sacola grande que Marco trazia, este pulou pra calçada. A sacola estava abar- rotada de coisas, os rapazes riam baixo e sorriam, e se repreen- diam quando o outro fazia um tom mais alto. – O velho ainda tava com grana mocada, pira? Saca só! – Marco mostrou um bolo de dinheiro, o outro fez barulho de ri- sadas na garganta. E se foram subindo a rua. – Seu Aurélio vai te matar quando te pegar! Aurélio, marido de Jandira a irmã mais velha de Edileusa. Baixo e gordinho, de cabelos ralos arrepiados, olhos arregala- dos, sorria e ria como um lunático mostrando os incisivos cen- trais separados e grandes; motivo de piadas, chistes e chacotas D

Rogério Prego 12 na rua e no emprego. Em casa era enérgico e potente em todos os sentidos. Além de Jandira tem em casa um casal de filhos, e um pulguento, – é o que sempre dizia. Petúnia, a filhinha, a princesinha, o dodói. Marco, mais velho que a princesa, e um pouco mais velho que Robinson, é o mau criado, obsceno e per- verso; o capeta em pele de criança. Aurélio passou a mão nas coisas de Edileusa, vendeu o que prestava e tacou no lixo o que não dava pra vender. Enfiou as trouxas da cunhada no porta-malas do Monza GLS ’96; largou a chave da casa com uma vizinha, e chisparam antes de ouvir o arrastar dos chinelos do seu Nogueira, e a respiração molhada do pastor alemão. Aurélio não queria saber e não deixou Edileusa expressar qualquer opinião, ou desejo. Durante a semana levou- a para fazer o cadastro da bolsa família, pegar cesta básica do município, e tudo o que ela tinha direito como mãe pobre, de- sempregada e viúva, e nem quis saber ou deixou Edileusa ex- pressar qualquer opinião, ou desejo. Disse pra mulher Jandira: – Queria uma empregada? Agora tem uma de graça, então desfaz essa cara de bosta! – e soltou uma gargalhada depravada, apertou a bunda da mulher, enquanto Edileusa enrubesceu en- vergonhada num canto com o filho. Depois que Aurélio saiu remedando a própria gargalhada, aproximou da irmã carrancuda. – Se preocupa não, o incômodo será por pouco tempo, irmã! – Por pouco tempo? Do jeito que o Aurélio ta empolgado? – e riu como uma matraca. – Só do município tu arrancou duas cestas básicas pra ele... – e continuou a rir como uma gralha matraqueira. Larga de ser fingida, Edileusa! Foi a primeira a casar, achando superior às irmãs, de mim principalmente, a mais velha encalhada né? Agora, olha aí: viuvinha safada de olho no marido da irmã mais velha! – e continuou a rir como uma gralha matraqueira. – Que isso, Jandira? Deus-me-livre... Misericórdia!...

Príncipe dos Lobos 13 Jandira continuou a rir como uma gralha matraqueira, en- quanto Edileusa enrubesceu envergonhada; retirou-se com o filho para o quartinho de empregada. Cama de campanha forra- da com sapeca-negrim, um armário e suas trouxas. Edileusa sen- tou na cama de campanha desconsolada arfando no peito a tris- teza, e saudade do marido. Robinson permaneceu no canto qua- se escondido atrás do armário. – Sai daí, menino! Ele saiu e veio para perto da mãe: – Mãe! Ainda vou ganhar o suficiente pra dar pra senhora uma vida melhor! – exclamou Robinson. – Eia... Agora só sabe falar isso? E o que vai fazer menino?... – Vou comprar coisas pra vender... e vou ganhar o suficiente pra dar pra senhora uma vida melhor... Foram interrompidos pelo bater violento na porta, e Jandira gritando. – Hei viuvinha passista de escola de samba, tem muito que fazer aqui... – e ria como uma gralha matraqueira. Edileusa levantou, antes de abrir a porta olhou para o filho, tomada de estranheza. – Eu, hein?... “Dinheiro não se acha na rua.” Fique aqui... – abriu a porta e saiu fechando-a atrás de si. Passista de escola de samba?? – É! ...‘tá fazendo regime né, safadinha, querendo ser passista de escola de samba! – disse Jandira à irmã. Edileusa olhou-se surpresa, sabia que era fome, e não regime, mas sentiu-se orgulhosa. Recebeu o cabo do esfregão das mãos da irmã e quase saiu se exibindo, sambando. Mas enfim, enru- besceu envergonhada. Edileusa lavava, passava, limpava, escovava, fazia almoço. Jandira lixava a unha, engordava, e ria como uma gralha matra- queira, e monitorando a irmã: dava ordens e depois inspeciona-

Rogério Prego 14 va. Eram assim todos os dias de Edileusa. Enquanto Robinson passava a maior parte do tempo no quartinho; sentia o cheirinho do almoço repercutir no ronronar de sua barriga; às vezes sua mãe o esquecia. – Coitada, trabalhando muito! Às vezes Marco abria a porta e ficava olhando Robinson e perguntava: – Porque não sai daí? Penso que você é doente... surdo? ...mudo? O que há com você?... retardado? O tempo passou, Robinson cresceu um pouco. A mãe limpa- va, e a faxina envolvia o filho, o rodo, a vassoura, os calos, e os olhos... secos e vazios! Sem valor objetivo na vida padecia entre interrogações amargas e angustiantes. “Já que se morre, nada tem importância, a resignação se torna legítima, e todo empre- endimento se reveste de um caráter provisório, relativo, e é uma loucura empenharmos na vida com tanta paixão”. – Sentia. E via os olhos de Robinson, e como a incomodava aquele olhar de gado doméstico, magro, faminto. – Sua mãe lhe preocupava, era pequeno, e idiota, o que faria? Edileusa deu-lhe um tapa forte, e um beliscão doído no ombro. Robinson com medo, voltou-se para sua vida furtiva, sem chamar a atenção sobre si, viu gotas salgadas pularem dos seus olhos. Não falava com ninguém, e ajudava a mãe cansando- se ao máximo possível para não ter forças para pensamentos, mas mesmo assim eles vinham à noite, em forma de lembrança. “Penso que você é doente... surdo?... mudo? O que há com você?... retardado?” E sentia-se surdo, mudo e, retardado. Aurélio esparramado no sofá, no canto da sala, assistia a sua novela. Jandira mais para o lado da porta que dava para garagem jazia dormindo na cadeira de fio de nylon. Quando chegou Pe- túnia, foi logo sentando ao lado do pai, ele a abraçou com a di- reita acariciando o joelhinho da filha com voz de mimar. Petú- nia: uma boneca segurando outra, a princesinha do papai.

Príncipe dos Lobos 15 Brincando como se a filha fosse a boneca, colocou-a no colo, levantou a saia dela, acariciava com voz de mimar. E ocupado no brincar com o corpo da filha, nem poderia notar, que era Ro- binson diante do portal, impávido no escuro da cozinha, obser- vava as caricias, escutava a voz de mimar de Aurélio, o arfar ressonante de Jandira. De repente a sua frente surgiu Marco, na cozinha a meia luz que vinha da sala, bochechas ligeiramente estufadas, cenho duro, franzido; se olharam. – O que está xeretando? – perguntou cochichando ao primo, que ainda impávido não respondeu. Marco olhou de relance o que Robinson assistia, depois fixou seu olhar no pai dizendo ao primo: – Bem que você poderia me ajudar a matar ele! – Marco vol- tou a fitar Robinson. Você é doente? Penso que você é mudo... Você fica excitado? – Aproximou e deu um tapinha nas partes intimas do primo. – Hei!... – Robinson reagiu. – Psiu... – sussurrou Marco fazendo sinal de silêncio para o primo, e sorriu. Então você fala?... – riu baixinho. Pegou Robinson pelo braço. – Vamos ficar ali no cantinho, só nós dois. Robinson empurrou o primo, mas Marco o segurava forte pe- lo braço, quase cravando as unhas. – Vem, vem!... – fez Marco arrastando Robinson para o canto mais escuro da cozinha. De repente a luz da cozinha foi ligada, Marco soltou Robin- son, era Jandira ainda ressonando, nem notara os meninos, foi direto à geladeira. Robinson correu para o quartinho da mãe Edileusa. Marco ficou fitando os movimentos da mãe Jandira, com ódio nos olhos. As cenas eram repetidas, se repetiam quase diariamente, com acréscimo ou decréscimo de um ato. Quando Aurélio não estava

Rogério Prego 16 acariciando a filha no colo com voz de mimar, estava surrando Marco no colo com voz de fuzilar. – Chora cão!... Chora cão!... – Aurélio gritava, Marco endu- recia as nádegas e o cenho, não chorava e nem pedia ao pai que parasse. Jandira lixava as unhas e ria se divertindo toda, tremeli- cava de prazer. Traseiro esfolado, Marco suspendia as calças e corria para o fundo da casa. E a falta de pai não tem nada que remedeie – o carrasco, esse sim se fazia sempre presente, o que era pai, senão carrasco? Noutros dias era um silêncio absoluto de gente, salvo o som da TV. Edileusa e Robinson ficavam no quartinho de olhos fitos no escuro, na mesma cama de campanha; quatro fracas luzinhas perscrutando o escuro. Remoendo imagens lacrimejadas... O sorriso do marido aparecia nítido, bonito, pura alegria e arte de viver. O resto da imagem lacrimejada pelo tempo deslizava sal- gado marcando vincos no rosto, diluindo-se evanescia. Podia ver os vultos dos filhos mais velhos, se arrumando para o trabalho com o pai, na cozinha tomavam o café, beijavam a mãe gracio- sa. Chegou a trágica noticia que todos estavam mortos. Seu pranto apagava-se lacrimejado, entre sulcos, nos vincos enve- lhecia na memória, embranquecida evanescia. A fraquinha luz que cintilava nos olhos de Robinson, bem que poderia ser o sol de uma remota tarde ou manhã, lembrava- se do pai, não se lembrava dos irmãos nem do rosto do pai. Lembrava-se de seus dedos batucando samba no balcão do bote- co, que talvez ficasse entre sua casa e a padaria. Imitando bateria de escola de samba esperava ansioso o gole da pinga. Nós gros- sos, tendões enérgicos, flexionavam em passos marcando tempo como baqueta, batia o polegar. Imagens lacrimejadas. Mãos ca- lejadas e vincadas de rachaduras, mãos de trabalhador braçal. De pobre lavrador que preparou a terra, para pobre servente que preparou o cimento. Sem saber que ele mesmo era a argamassa,

Príncipe dos Lobos 17 parte da massa de manobra política. Expropriado de sua alcova sonhou em ser o próximo felizardo ganhador da loteria. Aí sim, ele seria rei e, legislador da própria vida. – O pobre garoto que acompanhava o pai seria doutor! Na gaveta ainda estava o enve- lope de plástico, com seus jogos da loteria, sonho que se apagou lacrimejado com ele, entre sulcos e vincos envelhecia na memó- ria, embranquecida evanescia entre fendas de labirinto. E a falta de pai não tem nada que remedeie – aquele que guardava o futu- ro do filho, mesmo que por ventura marionete dos seus sonhos, teria o seu direito de viver em paz, acolhido decerto. A novela escandalosa da TV rompia o silêncio, exemplo mau feito de convivência conjugal e familiar, preenchia os desejos. Por isso os dias eram os mesmos, e as semanas eram as mesmas. Por conseguinte, os meses esvaiam-se, a vida inteira jogada no sofá; naquela coisa chamada vida, Edileusa e Robinson sobrevi- viam. Enquanto os lobos uivavam para lua. Os anos engoliam gente, vomitava indigentes, remexia feridas. Era azul, pois com- posto de ar é muito, muito azul claro. Seu jorro vibrante tira o fôlego do céu pintado durante o nascer e o pôr do sol. Aurélio às vezes chegava frustrado do trabalho. Bêbado e com raiva dos amigos que viviam fazendo de si a piada do dia. Não se contentava com sua bonequinha, ou em espancar o filho, ia pra cima da esposa e surrava-a como um animal endemonia- do, levava-a pro quarto e a estuprava. Jandira invadida pelo de- mônio gemia em transe louco, Aurélio grunhia como um porco, e saciava-se sobre a carne que espancava. Edileusa e Robinson refugiados no quartinho eram quatro brasas no escuro perscrutando a gritaria lá de fora. Robinson escutava as gargalhadas de Marco no fundo da casa. – o que era pai, senão carrasco? No outro dia, Edileusa perguntou. – Até quando vai aguentar isso, minha irmã?...

Rogério Prego 18 – Áh viuvinha perva, então fica ouvindo né, com inveja do pau grande, e pesado do meu marido! Você tem muito que fazer aqui... Olha as roupas sujas! – e ria como uma gralha matraquei- ra enervada de luxúria louca. – Que isso, Jandira? Deus-me-livre... Misericórdia!...

Príncipe dos Lobos 19 lórinha, a irmã mais nova, apareceu num fim de semana com o marido Geraldo. Baixa, cabelos tingidos de loiro com raízes pretas, e biótipo entre a gordura de Jandira e a magreza de Edileusa, de sorriso contido, mas alegre e desen- volta. Aurélio encheu-se de indiretas e brincadeiras para enver- gonhar cunhada e principalmente o concunhado Geraldo, gari como a esposa, não ligava para os abusos de Aurélio. Geraldo é magro, e perto dos demais parecia ser alto. De voz fanha, que tenta disfarçar prendendo o ar na garganta ao falar. Aurélio não gostava das visitas, e fazia de tudo para demonstrar indiretamen- te. Edileusa, só carinhos com a irmã mais nova, o que para Au- rélio não passava de puxa-saquismo. – Por que não vai morar com ela? – Perguntou abruptamente e as irmãs enrubesceram, então completou: – É só ‘pocrizia! – E você deixa, Aurélio? – Perguntou-lhe Jandira rindo, tra- zendo cerveja. – E por que não?! – respondeu irritado. Jandira se calou, e estava feito um minuto de silêncio cons- trangedor. Geraldo tomou um gole da cerveja, e tentou tirar uma nota de suas cordas vocais, para quebrar o silêncio, mas sem argumento engasgou-se prendendo o ar na garganta reproduzin- do apenas um “É” sustenido. Glórinha então, tornando a nota natural, tomou para si um argumento bequadro. – Estamos pensando em trocar nosso carro por outro mais novo. Agora que estou trabalhando na Prefeitura, está muito fácil de abrir crediário, sabe? A melhor coisa que eu fiz foi fazer esse concurso... “É uma profissão digna como outra qualquer. G

Rogério Prego 20 Mas ainda tem gente com muito preconceito, que prefere ganhar menos em outro trabalho”. – Você varre rua? – Perguntou Jandira. – Sim, e foi varrendo a rua na porta da cessonára, quer dizer, como diz mesmo, Geraldo? – Glórinha riu alto. – Concess... – Concessionária isso! – riu. Foi varrendo a calçada da con- cessionária, que eu encantei nesse aí que temos, o vendedor me chamou pra entrar... Nossa, eu nem sabia que varredor de rua podia comprar um carro, mesmo sem experiência profissional. – continuou rindo. Estamos pagando juntos, eu e o Geraldo. Geraldo ficou sem graça, Aurélio riu da cara de Geraldo, mas antes que fizesse uma piada, Geraldo passou na frente. – É... mas agora ‘tou pagando sozinho, né Glória? – Glórinha confirmou com a cabeça. É... a Glórinha ‘tava achando que o que eu tinha era sem jeito, mas ‘tava mesmo, sabe?... – Também fiz crediário pra trocar os móveis, e os eletros de casa... ‘tamo com TV grande de LCD. Trocamos geladeira... E estamos fazendo planos pra trocar de carro por outro mais novo. – Eu acho que podemos fazer as coisas juntos, sabe? – disse Geraldo rubro. Geraldo usa camisa aberta no peito, e jura que ali se encontra um tufo de pelos, que fica cofiando. Mas na verdade tem o peito pelado e franzino. – Sou eu que ‘paga o aluguel, energia, água e essas coisas. – Completou Geraldo, se sentindo menos por baixo. O casal falou de mais feitos em conjunto, mas em conjunto não engrandecia os feitos. Todos começaram achar que Geraldo não dava conta de sustentar a casa, sozinho e precisava da mu- lher. E ainda, que Glórinha estivesse trabalhando de mais por isso.

Príncipe dos Lobos 21 Edileusa achava graça, olhou as horas, e correu para cozinha preparar o almoço. – Eia Geraldo, mas você está frouxo hein. – Disse Jandira. É a mulher que ‘tá fazendo as coisas... Olha aí Aurélio. Aqui é assim não, Glórinha! – Quanto está ganhando, Glórinha? – Aurélio perguntou. – Ué, chega ao final das contas uns R$ 1,200 mil... – E eu recebo mais, ora gente! – disse Geraldo. É que vocês não sabem o que é crescer juntos... Não que estava feio sem a Glória trabalhando. Mas com ela trabalhando só nós dois conse- guimos uns R$ 5 mil, poxa. Fora os meninos que não dão despe- sa, o mais novo mesmo está trabalhando de aprendiz, olha he- in... O mais velho já está se preparando ‘pro próximo concurso da Prefeitura... – Quanto vai custar a nossa piscina, Aurélio? – Perguntou Jandira ao marido. – Minha piscina? – retornou a pergunta, mexia nos dedos do pé, averiguando algo. Todos repararam Aurélio mexer nos dedos, e este sentiu ne- cessidade de se explicar. – Eu estava com umas frieiras entre os dedos, mas nossa ‘ta- va ruim. Agora ‘tá beleza! Ontem no banheiro pedi pra Jandira fazer xixi no meu pé, me falaram disso. E olha só – Aurélio me- xeu com os dedos para todos verem. – Novo em folha! Geraldo chegou a se aproximar pra averiguar, achou interes- sante. Glórinha riu olhando para irmã. – Ora gente, disseram que urina de mulher é ‘bom... – Jandira se explicou irritada ao mesmo tempo envergonhada. – Até o xixi tem serventia, né mesmo? – Disse Geraldo e riu. – Então, só a minha piscina é o salário de vocês. – Aurélio explicou e riu grave. – Humm, piscina? – Disse Glórinha encantada.

Rogério Prego 22 – Piscina... – Geraldo prolongou o encantamento. O senhor ainda está lá na oficina com o Janjão? – Que Janjão?! Aquele ali é um zero, rapaz! Estou na oficina da Vôksí, trabalhando com caminhão grande, entende? Só com a hora extra eu pago o pedreiro e o oreia pra fazer minha piscina! E então, Edileusa? Já ‘tá saindo o almoço?! – Aurélio completou gritando. Aurélio regulava a cerveja, a visita ficava com copo vazio tempão. Jandira abria mais uma garrafa, Aurélio fazia cara feia, fazia piada com a cara da mulher que estava ficando tonta, gri- tava pra Edileusa trazer alguma coisa. Os meninos espiavam, passavam na frente. Petúnia era elogiada daqui e dali, enquanto pai ficava orgulhoso. Robinson deslocado se movimentava pelos cantos, Marco fingia que ia chutá-lo, outra hora que ia socá-lo, e tentando fugir do primo, Robinson esbarrou na mãe, levou um beliscão doído no ombro de lacrimejar os olhos. Marco correu atrás do cachorro. Geraldo cofiava seus pelos imaginários, e Glórinha contava o que queria fazer em sua casa, que tinha visto uma piscina de plástico na promoção, de plástico, mas bem grande, mostrou o tamanho. – Bem grande mesmo! Dizia, e Edi- leusa por fim serviu o almoço. O cachorro gritou no fundo da casa, Jandira gritou de volta que ia esfolar Marco se ele não pa- rasse de atazanar o pobre do cão. Depois de almoçar, Aurélio saiu pra ver TV, e dormiu no sofá, enquanto Jandira foi pra ca- ma. Edileusa ressonava sentada na cadeira, então Geraldo e Gló- rinha viram no relógio imaginário a hora de ir embora. No sábado do final de semana seguinte. Robinson estava de cócoras, próximo ao tanque de lavar roupas, na área de serviço contíguo à cozinha. Quando o cachorro o viu, rosnou mostrando os pequenos dentes, porém tornou-se dócil e veio receber os carinhos de Robinson. Nas primeiras escovadelas de seus dedos

Príncipe dos Lobos 23 no pelo curto do cão, foi surpreendido pelo chutão que Marco deu no meio do cão, que saiu ganindo; – assustado, Robinson caiu para traz sentado, olhando Marco, que ria doentiamente apontando o dedo na sua cara. Mostrando decerto, que este esta- va assustado. Levantava as sobrancelhas e apertava a gargalhada na garganta, quando sua mãe veio da cozinha espavorida dando- lhe socos e tapas na cara e onde mais acertava, Marco foi parar caído perto do muro do corredor que dava pra frente da casa e pros fundos. – Seu moleque! – gritou Jandira, – Quer matar o cachorro?! – e foi atrás do cãozinho esganiçado, e ouviu-se o som carinhoso da voz da mulher. Marco escorou no muro, uma perna esticada, a outra dobrada, cotovelo apoiado no chão, ria segurando a voz rouca na gargan- ta. Com os dedos acariciava os lábios, decerto doíam por causa das pancadas da mãe, mas ria da cara do Robinson, mais assus- tada ainda. Uma voz de menina cortou a loucura da manhã, Ro- binson levantou as vistas e viu a prima Petúnia, segurando a boneca, vestidas iguais, perguntou ao irmão: – O que aconteceu? – Ele chutou o cachorro! – Disse apontando Robinson, e rin- do muito. Antes que Robinson dissesse uma palavra, foi atingindo pela boneca na cabeça, quatro vezes, a mãozinha de plástico da bo- neca cortou-lhe o lábio, Marco caiu na gargalhada socando o chão, e não viu sua mãe voltando com uma vassoura. – Do que está rindo?! – Gritou ela dando vassouradas no me- nino. Marco levantou sob as vassouradas e correu pra rua. Na pas- sagem pra cozinha, Jandira deu vassourada em Robinson, como se o varresse para debaixo da cuba do tanque. Petúnia correu da mãe gritando:

Rogério Prego 24 – Se me tocar conto pro papai!... – Áh sua vadiazinha!... – Gritou Jandira. Naquele sábado, Aurélio trabalhou até tardinha. Quando o papai chegou, a menina correu e contou-lhe que a mãe havia batido nela com a vassoura, mentira é claro, que a mãe tentou dizer ao papai. Não adiantou nada, nesse fim de dia quem aca- bou apanhando feio de cinto foi Jandira. Enquanto Robinson escutava as gargalhadas de Marco no fundo da casa. Agora era Marco quem tremelicava vingado de prazer. Mas dessa vez, Edileusa levantou da cama, deu um tapão e um beliscão em Robinson: – Fica quietinho aqui ‘hein, se sair do quarto quem vai apa- nhar de reiada é você! Ouviu?! – E saiu fechando a porta atrás de si. Robinson ouviu o seu grito lá fora, na sala onde Jandira apanhava de sinto do marido Aurélio. – Para com isso, homem!! Isso não é coisa de Deus... Jandira, com a blusa rasgada, livrou-se do marido e pulou na irmã segurando-a pelos cabelos, dando-lhe joelhadas, puxando os cabelos da outra gritou: – Viuvinha sem vergonha!... Vai morrer com inveja?!... Edileusa assustada apanhava sem reação, pois sua intenção era ajudar a irmã. Aurélio, sem camisa, jogou-se entre as irmãs, separou-as jogando a mulher para traz. Jandira caiu no sofá gri- tando, enquanto Aurélio agarrou a cunhada. – Ah... Cunhadinha! – Aurélio lambeu o rosto de Edileusa, fedia a álcool; e saiu arrastando-a pro quarto. Jandira levantou do sofá e tentou tirar Edileusa das mãos de Aurélio com tapas e pontapés. Aurélio continuava a arrastar Edileusa pro quarto, quando chegou à porta empurrou Jandira para traz novamente. Trancou-se com a cunhada no quarto, esta gritava de desespero, e Jandira de raiva surrava a porta, rosnava como um cão xingando a irmã.

Príncipe dos Lobos 25 Robinson no quartinho escutara tudo, chorando, em desespe- ro tentou abrir a porta, mas descobriu que a mãe havia trancado. Ouvia as gargalhadas de Marco no fundo da casa, e o outro co- mo um animal endemoniado grunhindo como um porco. O ani- mal se cevava sobre a carne que espancava. Edileusa, invadida pelo demônio, parecia gemer em transe entre pavor e prazer. Robinson lembrou-se do tapão, do beliscão e recomendação da mãe, e se escondeu atrás do armário com medo dos lobos. Jandira chorava. Urrando surrava a porta, e xingava a irmã. Os gritos e gemidos se misturavam na cabeça de Robinson, até que achou em si, um canto escuro e silencioso. De repente esta- va na cozinha da velha casa, onde morava com a mãe Edileusa. Uma sombra perto da pia fazia movimentos de lavar pratos, e à sua esquerda, o cão de seu Nogueira, de orelhas empinadas pa- recia um lobo parado olhando Robinson. A porta do quarto a- briu, Robinson viu sua mãe nua e machucada entrar, fechou a porta atrás de si, e o escuro tragou os sons e qualquer coisa que pudesse identificar o sábado. No domingo, perto do meio-dia, Glórinha e Geraldo aparece- ram. Jandira e Aurélio estavam na garagem. Jandira lixava as unhas do pé de Aurélio, e Geraldo encontrou-se num estranha- mento, ao mesmo tempo inveja. Glórinha reparou nos hemato- mas da irmã, e marcas de unhadas no cunhado que estava sem camisa. Jandira passou os olhos em Glórinha e Geraldo, mas voltou sua atenção aos pés do marido, serviço que realizava com toda cerimônia, e dedicação. – Vieram filar a boia? – Perguntou rindo Aurélio. – Nada, uma visitinha. – Redarguiu Geraldo, também sorrin- do, e nem reparou em hematomas ou marcas de unhadas. – Êh vidão hein, quem dera eu... – Tornou.

Rogério Prego 26 – Isso não está pra gari, rapaz! – Aurélio riu como um bur- guês. Risada com escarninho intento. Geraldo riu envergonhado por sua posição social, enquanto a esposa passou na frente, preocupada: – E Edileusa?... – Ora, fazendo o almoço! – respondeu rispidamente Jandira, sem olhar no rosto da irmã. – O que ela estaria fazendo? – Licença! – disse Glórinha constrangida e foi entrando, indo logo no caminho para cozinha. Geraldo ficou parado lá na entrada da garagem admirando o casal em sua toalete, enquanto cofiava seus pelos imaginários do peito. Não sabia por que, mas achava aquela cena bonita por demais. – Coisa de gente que tem dinheiro! Passou pela sua ca- beça. Glórinha encontrou Edileusa na cozinha preparando o frango para por no forno. Com hematomas no rosto e braços, parecia um zumbi, se assustou quando viu Glórinha. Baixou a cabeça e disfarçou-se com um sorriso que só poderia transmitir constran- gimento. – Ah, minha irmã. Eu imaginei mesmo que você viria! ...Que bom! – O que aconteceu, Edileusa? Edileusa disse qualquer coisa inaudível, e continuou sua tare- fa de cabeça baixa, evitando olhar para irmã mais nova. – Você, e Jandira com hematomas, Aurélio com ‘ranhões no peito, no rosto... O que está ‘contecendo nessa casa? Fale pelo amor de Deus! – Vocês são muito invejosas! – Disse em voz alta Jandira en- trando na cozinha. – Isso sim! In-ve-jo-sas! Só porque casaram primeiro do que eu, a irmã mais velha encalhada né!

Príncipe dos Lobos 27 – Calma Jandira... – Antes que Edileusa terminasse a frase, Jandira lhe deu um tapa na cara. – Cala a boca! Ainda tem coragem de me dar ordens?... De- pois de se atracar com meu marido ontem!? Glórinha arregalou os olhos. Jandira continuou. – É...! maninha. Essa viuvinha perva atracou no meu marido ontem. Edileusa encolheu-se no canto e começou a chorar. – Não...! eu quis te ajudar... mas ele me arrastou pro quarto e.... – disse chorando, e não conseguiu terminar engasgada. Glórinha arregalou ainda mais os olhos e entendeu tudo: – DEUS DO CÉU!! MISERICÓRDIA DEUS PAI!!! Os meninos apareceram assustados, e Jandira ficou vermelha como uma pimenta, tinindo de raiva. – Hei...! – exclamou virulenta. Quem você acha que é pra gri- tar dentro da minha casa, lixeira! Já disse...! são invejosas sim, meu marido pode ser baixo mas tem um pinto enorme e pesado, pergunta pr’essa safada aqui...! – e apontou pra Edileusa que estava em prantos. Indignada Glórinha urrou: – Misericórdia! Essa mulher é doida! Essa mulher é doida!!... Glórinha puxou Edileusa pelo braço, enquanto Jandira ainda falava em voz alta os dotes descomunais do marido, insistia que eram invejosas por isso. No caminho para o quartinho de Edi- leusa, Glórinha agarrou Robinson pelos cabelos, escorregou rápido a mão pelo rosto do menino, arranhando-o com as unhas, segurou-o pela nuca e arrastou mãe e filho para o quartinho e saiu pegando suas coisas e enfiando nas sacolas, armando trou- xas. Jandira atrás xingando, e enxotando as irmãs, e Glórinha gritando pelo marido. – Geraldo! Geraldo! Geraldo...! – e depois urrava: Misericór- dia! Essa mulher é doida! Essa mulher é doida...!!!

Rogério Prego 28 – Seu marido nem deve dar conta de levantar uma lata de li- xo... O outro coitado, já virou pó no caixão... – Jandira ria como uma gralha matraqueira. Geraldo apareceu com os olhos arregalados: – O que foi mulher, que escândalo é esse na casa dos ou- tros...? O que seu Aurélio e dona Jandira vão pensar...? Jandira riu ainda mais alto. – O que foi mulher...?! – Geraldo indagava Glórinha, com o- lhos ainda mais assustados. – Seu Aurélio ‘tava me mostrando onde vão fazer a piscina, os ‘peão já até demarcaram... . – Vamos levá-los pra nossa casa agora! – gritou Glórinha e Geraldo não objetou, saiu arrastando as trouxas e sacolas, en- quanto Glórinha arrastava mãe e filho como se fossem bonecas sem expressão. Aurélio ajudou Geraldo a enfiar as coisas no porta-malas do Gol “bola”, vermelho do casal, enquanto Glórinha batia a porta do carro, Edileusa e Robinson estavam no banco de traz como bonecas inanimadas. – No final do mês a piscina já deve estar cheia d’água! – dis- se Aurélio para Geraldo. – Entra logo nesse carro, Geraldo! E vamos embora...! – Or- denou Glórinha. – Liga ‘pra isso não, seu Aurélio. É coisa de mulher, logo e- las se acertam. No final a família sempre permanece unida! – E quem disse que eu ligo pra isso, rapaz?! – tornou Aurélio. Geraldo desconversou desconsertado, e sem estranhar entrou no carro e partiram. No banco de trás Edileusa sentia o balançar do carro, escorreu uma lágrima de seus olhos. Robinson em choque escorou a cabeça no ombro da mãe.

Príncipe dos Lobos 29 casa de Glórinha e Geraldo, em setor afastado do epi- centro citadino, tinha telhas Eternit. Fincada num lote grande cercada por muro sem reboco, de tijolos amarelo avermelhado à mostra. O mofo parecia levantar-se da terra esca- lando o pé do muro. Uma parte do lote, coberta por grama alta, e plantas tipo praga, tendo na frente uma mangueira alta, de folhas grossas e verdes escuro. O carro atravessou o portão azul desbo- tado, de duas folhas arreganhadas para sua passagem. Os pneus do carro rolaram na entrada de piso de cimento cru que se esten- dia até uma mureta, que parecia continuação do cimento cru, este ainda formava uma rampa na entrada pra varanda cercada pela mureta. O carro fica na entrada de cimento, descoberto. Isso justifica o desbotado no teto do Gol vermelho. Na varanda sombreada tinha cadeiras de fio de nylon, de on- de levantou um rapaz aparentando uns 14/15 anos, que veio ao encontro dos que chegavam. O rapaz veio acompanhado por um cachorro de pelagem branca lustrosa malhada de preto, com uma “mascara” marrom em torno dos olhos, despreguiçou fazendo charme e atingiu Glórinha e os demais que desciam do carro, com seu olhar manso. Robinson reparou que o cão não parecia um lobo e também parecia ter a barriguinha satisfeita, e bem alimentada. Pequeno, porém maior que o cachorro da casa da tia Jandira. Geraldo abriu o porta-malas, e o rapaz foi até ele depois de cumprimentar a tia Edileusa com um lustroso: BENÇA TIA! – Ajuda aqui, Cláudio! E você também, Robisô! – Disse Ge- raldo. Robinson já estava acompanhando a mãe e a tia para o interi- or da casa. Assustou-se com seu nome mal falado na boca de A

Rogério Prego 30 Geraldo, mas voltou pra pegar as sacolas, enquanto Cláudio se agarrou à trouxa. Quando subia a rampa seguindo Cláudio, viu um rapagão surgir vindo do interior da casa, aparentava uns 17/18 anos. Sem camisa, de bermuda e chinelos coçava o peito. – Ué, voltaram rápido!? – Disse o rapagão, numa confusão de notas agudas e graves. Mãe e filho juntos ficaram sentados no sofá de capa alaranja- do desbotado, aliás, na sala a TV grande de LCD, o DVD, e o microssystem destoavam chamando a atenção nos móveis des- botados e desgastados. Mãe e filho estavam cercados por Glóri- nha, Geraldo e os seus dois filhos. O silêncio junto com o olhar de Robinson percorreu a sala. Edileusa permaneceu de cabeça baixa o tempo todo. – Será que é uma nova vida? Ora, quem sabe, não é isso que o seio familiar sempre promete? A família é uma associação de ordem natural, e religiosa, e essa se parecia com um lar: Geraldo é mo- desto, porém confiante e trabalhador, seus filhos seguem o mesmo caminho, assim como Glórinha, que mostrava um sorri- so encorajador à irmã. Até seu pesinho extra, parecia confortá- vel, com aqueles olhos de gado magro investigando a casa, com medo de que um lobo surgisse de um canto e pulasse nele, mesmo assim parecia estar confortável, mesmo assim! O que viria depois? Ora, dias e noites, semanas e meses... minutos, horas... a vida. No dia seguinte, os rapazes sumiram cedinho para escola, Geraldo e Glórinha para o trabalho. Edileusa admirou a irmã no alto de sua vassoura, enquanto lhe dava as recomendações da casa, hora da chegada dos filhos, que não se preocupasse. Glóri- nha estava com cabelos bem amarrados para trás, de bandana dobrada e amarrada em torno da testa, uma enorme pochete na cintura, o uniforme e tudo o mais, o motivo da admiração de Edileusa. A irmã mais nova parecia algo bonito de se ver, saindo

Príncipe dos Lobos 31 para trabalhar com o marido. Lembrou-se de tempos perdidos e fugidios. Ressentiu-se por achar graça do casal, em outra ocasi- ão. Pois, a casa da irmã mais velha ainda era um emaranhado de sentimentos opressores que se enroscavam e escavavam abismo sem fundo em sua alma, e por fim queria tampar a boca desse abismo. – Era vida nova! Dizia para si. Robinson foi acordado pelo cascudo da mãe. Edileusa disse que é feio dormir até tarde na casa dos outros. Na casa dos ou- tros? Mas não era um lar? – Robinson sentiu-se nesse questio- namento. Por volta do meio-dia, os dois filhos de Glórinha vol- taram da escola. César o mais velho passou a mão na inchada e foi capinar, Edileusa surpreendida ficou admirando o sobrinho, e vendo Cláudio agarrado nos livros da escola, ficou mais encan- tada com aquele lar. Quando deram duas horas, Cláudio saiu pro trabalho de aprendiz. Enquanto César agarrou-se numa barra de ferro que tinha chumbado com cimento latas de tinta nas extre- midades. Preparava-se para o concurso da prefeitura, que além de prova escrita e exame médico, os garis precisavam provar vigor físico. Queria trabalhar de coletor no caminhão equipado com prensa. É trabalho pesado! – César dizia para tia Edileusa, numa confusão de notas agudas e graves, em ritmo frenético. Mais tarde, empilhou um monte de entulhos no carrinho de mão e correu pra lá e pra cá, em zigue-zague, em linha reta. Or- ganizou os pedaços de telhas, canos, cabos de vassoura, tran- queira toda escorada no muro. No final da tarde, Geraldo e Glórinha voltaram do trabalho. Edileusa quis correr pra fazer a janta, se desculpando pela folga. Mas Glórinha riu, disse que não precisava que sempre trazia marmitas pra cada um. Geraldo elogiou César, notando o mato capinado e ensacado. Logo chegou Cláudio, e a família se reu- niu para jantar.

Rogério Prego 32 – Ué! – Glórinha exclamou, vendo que faltou uma marmita pro Robinson. – Eia, preocupa não, irmã. Eu como pouco, divido com ele! – Edileusa replicou, quase cantando em tom de alegria. – Eia, dá até gosto de ver essa família! – Edileusa ainda em tom de alegria disse em voz alta, vendo todos sentados com suas respectivas marmitas. Glórinha e Geraldo sorriram orgulhosos. Depois que terminaram a janta, veio a barulheira de amassar marmitas. Ranger de cadeiras sendo organizadas em torno da mesa. Edileusa e Robinson saiam do caminho de um, do outro. Deslocados foram parar na varanda. Glórinha, marido e filhos revezaram no banheiro, lavaram a boca e afins. Por fim, Geraldo sentou na sua cadeira de balanço na varanda, abriu a camisa e cofiou seus pelos imaginários: – Esse Governo atual é muito bom, dona Edileusa! Não pre- cisamos viver de caridade dos outros. Temos o que é por direito nosso. Entende essas coisas? Uma vez me disseram que carida- de e solidariedade são coisas diferentes, e acredito que seja! Ora, pense: caridade é quando alguém rico te dá um troco no natal, enquanto solidariedade é quando alguém igual a você empresta uma ferramenta pra você trabalhar. Mas num adianta de nada se você num tem o que comer em casa, vai ter força? E outra, e se o imposto está caro... Entende? – Por isso quero ser solidário com a senhora, dona Edileusa! Conheço gente que trabalha para uma empresa terceirizada que presta serviços pra Prefeitura. E podem arrumar um emprego! E olha, tem uma vaga, o que acha? Edileusa surpreende-se, não estava conseguindo acompanhar o que o cunhado falava e raciocinar ao mesmo tempo, mas en- tendeu o final e exclamou. – Eia, mas eu não sei fazer nada!

Príncipe dos Lobos 33 – É pra faxina..., e que mulher não sabe fazer alguma coisa, hein? – Geraldo disse e riu com Edileusa. Robinson deslocado andava pra lá e pra cá, até que veio se escorar na mãe. Edileusa afastou o filho: – Eia, o que o seu tio vai pensar?! Que não consegue se sus- tentar nas próprias pernas...?! – Quantos anos têm? – Geraldo perguntou para Robinson. Robinson disse coisa ininteligível balançando a cabeça, dan- do a entender que não sabia. Edileusa supôs umas datas, ano tal, por fim confirmou o ano de nascimento do menino com muita certeza. Geraldo balbuciou números, e contou os dedos. – Já ‘tá beirando os 11 anos! Está passado da hora de fre- quentar escola. Vou pedir pro César ver isso, numa hora que tiver disponível. Menino em casa num presta não..., dona Edi- leusa! Estando na escola num dá despesas em casa! Em casa fica comendo, estraga as coisas... . Quando é pequeno é uma distra- ção boa, depois vão crescendo e desandam a comer demais. Graças a Deus, os meus já estão grandes e trabalhando! – Eu vi! Coisa bonita de se ver, seu Geraldo! – Disse e vol- tou-se para Robinson em tom zangado: Vai vendo isso, peste! – VAI COMEÇAR A NOVELA PAI! – César gritou da sala. Geraldo pulou da cadeira de balanço e correu pra sala. A semana escorria pelos dias, pontuada pelos minutos, e no final cada dia parecia com o outro. A rodinha do carrinho de mão chiou todas as tardes, até que veio o dia da prova, e César não decepcionou ninguém. A comemoração foi festa em casa. Edileusa começou a trabalhar e voltava feliz. César conseguiu vaga na escola para Robinson, e começou a trabalhar no noturno como queria: pegar o lixo deixado nas portas das casas e comér- cio e jogar no caminhão equipado com prensa.

Rogério Prego 34 – É trabalho pesado! – César dizia com emoção em tom gra- ve sem desafinar. Trabalho madrugada afora... E ainda faço cur- sinho pré-vestibular pela manhã... – E dorme como uma pedra até as 18hrs. Depois pula da ca- ma, engole qualquer coisa e corre pra não perder a partida do caminhão equipado com prensa. – Cláudio completou orgulhoso com o irmão. César tem como inspiração o tio Geovane, irmão mais novo de Geraldo que encontrou no trabalho duro de gari, a oportuni- dade para ter uma vida melhor: – Trabalhando num período e estudando em outro, consegui ser aprovado no vestibular para Educação Musical. Recentemen- te consegui ser transferido para uma função administrativa para poder estudar. – “É motivo de alegria ver um irmão crescendo na vida. A ordem lá em casa sempre foi lutar por aquilo que queríamos”. – explicou Gerson, o irmão do meio de Geraldo e Geovane. Era um domingo quando os irmãos de Geraldo apareceram para celebrar a conquista do sobrinho César. Geovane de cabe- los bem curtos, e colados na cabeça trazia um violão preto a tira colo, acompanhado de namorada bonita e muito paparicada por Glórinha. Gerson justificou a falta da mulher, que estava estu- dando muito. Sentou-se ao lado de Edileusa. – Você também trabalha com Geraldo? – Edileusa perguntou. – Sim, somos a turma do Gary! – Gerson respondeu e riu, E- dileusa acompanhou o riso sem entender. – Com meu salário eu invisto na educação da minha mulher, que estuda contabilidade. – Gerson continuou. O nosso sonho, meu e da Regiane, é ter mais conforto, para nós e os nossos fi- lhos. Temos um casal, e um rapa de taxo! O pessoal do serviço estranha sabe? Acha que a Regiane po- de me dar um pé na bunda, mas depois que a conhecem, sabe

Príncipe dos Lobos 35 que ela não é dessas. É muito esforçada! Além do quê: temos filhos que amamos muito. Geovane tocou todo tipo de música naquela tarde. E mesmo a cerveja não sendo regulada, como na casa de Jandira e Aurélio, ninguém ficou bêbado para dar vexame. Comeram bastante car- ne assada. Divertiram-se muito, cada um contando uma história engraçada, outra de fundo moral que todos paravam para pensar, outras de cálculo que dava nó na cabeça de Edileusa. Robinson observava, às vezes de longe, outras vezes bem de perto, mas não entendia. Os primos eram maiores que Marco, nenhum fica- va fingindo que ia lhe bater. Pelo contrário, César te incomoda- va oferecendo refrigerante e carne. Não entendia aquilo. Na casa não tinha lugar pra se esconder, sempre César o achava em al- gum lugar e vinha oferecer alguma coisa pra comer, ou chamá- lo pra ver algum programa na TV, que era muito grande e dei- xava os olhos de Robinson doendo. Na escola era diferente, ninguém o via, senão quando a pro- fessora lhe fazia alguma pergunta e não sabia responder, então a classe toda ria e fazia troça dele. A professora reclamava que ele era desatento, e às vezes que ele não tinha jeito. No recreio fica- va isolado, um dia reconheceu Marco vindo em sua direção, e fugiu dele, e em todas as ocasiões que via o primo fugia. Mas um dia, uma turma se reuniu para bater em Robinson, e foi o primo Marco que o tirou da surra. O que não resolveu, pois quando chegou ao lar apanhou da mãe Edileusa, levando surra dupla: por ter arranjado briga no pátio, e pelo recado da profes- sora que insistia para ver Edileusa. Robinson tornou-se “o caso perdido”, tirava notas baixas, mas nunca eram suficientes para reprová-lo. E Edileusa nunca tinha tempo para atender os reca- dos da escola que chegavam. A Instituição escolar caía como uma armadura enclausurado- ra de movimentos e, sentimentos sobre Robinson. Parecia refor-

Rogério Prego 36 çar sua vontade de fuga. Imaginava-se socando a professora, mas tinha medo de fazê-lo. Pois, achava que era uma falha sua. Nem César, muito menos o inexpressivo Cláudio, eram assim. – Robinson pensava: isso era coisa de Marco que não presta! E sentia muita dor de cabeça, as letras eram miúdas, a lousa ainda maior que a televisão, bem velha, com manchas de pichação, talvez por isso não conseguisse despertar em si vontade de com- preender aquilo. Às vezes a professora parecia um pastor ale- mão. Robinson tinha medo de encontrar Marco no recreio. Um dia acabou fazendo xixi na calça, lembrou-se do tio Aurélio, e de seus dedos, por conseguinte do sangue vermelho de sua mãe, – chorou! Foi liberado mais cedo nesse dia. Mais um recado enviado, mais uma surra dupla por ter feito xixi, e a outra por mais um recado. Edileusa pelo contrário, chegava muito feliz, falando bem do seu ambiente de trabalho, e às vezes até arriscava contar algu- mas bobagens cabeludas que escutava por lá, e todos riam. Esta- va cheia de solidariedades com o cunhado, ajudava nas despesas da casa, até ajudou a irmã a trocar de carro por um mais novo. Só estou retribuindo, – dizia quase cantando em tom feliz e jovi- al. Estava adorando a nova vida, única coisa que chateava o dia era o filho sem jeito, “o caso perdido”. Robinson não reconhecia para si um lugar nessa nova vida. Até o tanque desse tal lar guardava coisas super bem organiza- das, não dava pra se esconder ali. No quarto puseram um beliche que Robinson dividia com Cláudio ocupando a cama de baixo. O guarda roupas colado na parede, cheio de coisas, como no tanque organizado, não oferecia esconderijo. Além do quê, seu corpo crescia e não correspondia ao que pensava de si. Na esco- la, as garotas faziam-lhe lembrar das caricias de Aurélio com Petúnia, – um dia vomitou. E acordou com febre no outro.

Príncipe dos Lobos 37 – Zzzzshaahh... – Fazia Robinson na cama de baixo do beli- che. Cláudio ouviu ainda deitado na cama de cima, desceu e per- cebeu que o primo passava mal. Chamou a tia Edileusa e os pais, que vieram ver Robinson. Cláudio sentou-se na cama do irmão, que fica ao lado do beliche. O sol ainda dormia, aguar- dava hora para acordar. Edileusa ficou sem jeito, tinha que ir trabalhar, passou a mão no rosto, repreendia Robinson. Glórinha foi fazer café, enquanto Geraldo deu solução apaziguadora, di- zendo que não era culpa do menino. – Cláudio, ajuda seu primo a trocar de roupa!... Deixo a se- nhora com o garoto no atendimento da Prefeitura, é o jeito. – Disse para Edileusa: É só você pegar atestado de acompanhante com o médico, que não tem problema no emprego, dona Edileu- sa. – Ah, mas hoje é aniversário da Elaine... – Edileusa lamentou entre seus botões. A recepção do Centro de Atendimento à Saúde da Prefeitura estava cheia e barulhenta. As pessoas reclamavam; doentes e acompanhantes. Quando um homem revoltou-se junto às recep- cionistas, muito alterado tonteou, a recepcionista ameaçou cha- mar o Guarda. O nervo, e angustia piorou o quadro do homem, que acabou despencando no chão em cima de sua mochila. A recepcionista gritou pelo Guarda, que veio pedir para o homem levantar-se e voltar para seu lugar, tentou levantá-lo pela camisa, o homem debateu-se, o Guarda deu um chute de leve nas pernas do homem. O homem vomitou. O Guarda saiu. Voltou usando luvas cirúrgicas e máscara, pegou o homem pelos braços e saiu o arrastando. Fraco, o homem se debate, mas é arrastado pelos corredores até deixá-lo jogado numa sala. “Ele foi tratado como um porco”, alguém disse. Outro gritou para que as pessoas reagissem, mas ninguém tomou uma atitude, muito

Rogério Prego 38 menos ele. Assistiam a barbárie, através de suas ilhas individu- ais de febres, de dores. Edileusa esticava-se toda para ver o que estava acontecendo lá na frente. A paciência desaparece... Eram generalizadas as reclamações por melhoria, se queixam do pés- simo atendimento: da dificuldade de marcar consulta médica, da falta de especialistas e das longas horas de espera. “Estou há três meses tentando me consultar com um ginecologista e não consi- go. Faltam especialistas”, diz uma moça atrás de Edileusa. “Já cheguei há esperar cinco horas para ser atendida”, completou outra moça. “Tudo aumenta de preço. Enquanto isso, os homens tornam-se mais baratos”, um homem carrancudo disse irado. Angustiada, Edileusa não teve outra saída, senão esperar cer- ca de três horas e meia para ser atendida, para ouvir a médica mandá-la levar o filho para casa, porque segundo ela, Robinson estava bem. Robinson olhou na mesa da médica, vazia, não ti- nha pirulitos. Ganhou uma injeção na bunda, e uma cartela de comprimidos.

Príncipe dos Lobos 39 oltou para escola quase uma semana depois. Na entrada achou uma moeda. Quando saiu para o recreio desem- brulhou o pirulito, que comprara com a moeda achada. E saiu no pátio, exibindo a haste branca. Notou que os colegas de escola corriam para uma parte do pátio, correu também em direção da muvuca, acreditando que fosse briga, mas soava de lá musica hip-hop. Esgueirou-se entre os colegas até chegar à fren- te e ver o grupo de hip-hop fazendo seus malabares dançantes. Cruzando pernas, se jogavam no chão rodopiando, tudo no ritmo da batida hip-hop que vinha de um aparelho de som. Um rapaz esfregava os dedos no vinil. Todos usando roupas características do movimento. Robinson se encantou à primeira vista, viu um deles imitando robô no ritmo break dance. Os colegas em volta tentavam imitar. Do robô, o rapaz chacoalhou-se todo no ritmo da batida, – imitando Robinson passando mal, decerto. Robin- son riu, e tentou imitar. Rolou até Michael Jackson remixado, cheio de squashes. O moonwalk fez Robinson se apaixonar por definitivo. Quando a apresentação foi encerrada, e repercutiu no pátio a última batida de hip-hop, a professora de Ed. Física a- nunciou que as notas daquele semestre seriam baseadas no de- sempenho dos alunos nas aulas de hip-hop ministrado pelo líder do grupo, sob sua supervisão. Os alunos foram ao delírio. Ro- binson estranhou o ar raspando sua garganta e formando sílabas em sua boca. Não teve pra ninguém. Robinson acompanhava todos os pas- sos e trejeitos ensinados pelo líder do grupo hip-hop, que visita- va a escola. Acompanhava sem ouvir vozes, só a batida e os squashes. Não parava enquanto outros eram ensinados. Parecia comunicar-se com a vida como portador da própria energia. Su- V

Rogério Prego 40 as pulsões subjetivas estavam postas no ritmo, nas coreografias. Com sua mente em ligação direta com corpo, a semana foi de muito top rock, foot work, e os freezes e power moves. Moinho de vento: os giros tendo a cabeça como apoio. Dominou tudo, mas gostava mesmo do top rock e os freezes. Pediu várias vezes música do Michael Jackson, o “professor” atendia sempre, pois via que Robinson estava dominando o moonwalk. O semestre como moinho de vento foi de muito top rock, foot work, freezes, Power moves. E MOONWALK!... Robinson foi com 10 em Ed. Física, porém ameaçado pelos números, raízes, letras e alelos... As demais notas eram vermelhas. Quando o grupo de hip-hop se despediu, Robinson quase chorou em público. E ficou sentido porque o tanque de lavar roupas no lar não oferecia refúgio. Sentiu que a partir daquele momento, voltaria a ser um idiota retardado, surdo e mudo. – Afinal, era isso que as autoridades competentes, em sua vida como um todo, fazia-lhe sentir. Despreparado para o exercício da cidadania, que essas mesmas autoridades diziam ser inerentes à pessoa: não se via no direito de contestar critérios avaliativos, sem se quer conhecer as instâncias escolares superiores. – O que faria?... Descobriu maneira de cabular aula, se escondendo no banheiro na hora do recreio; quando a aula retornava: Robinson ficava treinando no banheiro o top rock, os freezes e o moon- walk! Mas logo foi descoberto pelo Guarda que guardava a es- cola. No sábado pela manhã houve a despedida oficial, quando co- nheceu Marcelo. Um rapaz de estatura mediana, na mesma faixa etária de César, porém aparentando mais velho. Os cabelos bem pretos brilhavam penteados à lá John Travolta nos Embalos de Sábado à Noite, uma mexa caia sobre a testa, e Marcelo falava balançando essa mexa especial. Robinson tinha executado seu top rock, os freezes e encerrou com moonwalk.

Príncipe dos Lobos 41 – Véio, tu manda hein... – disse Marcelo. Robinson gesticulou um obrigado com pouca voz. – Meu nome é Marcelo, e o seu? Robinson gesticulou seu nome com pouca voz. – Robson?! – Marcelo perguntou. – RÓBIN-ssom! – RÓBIN! Vou te chamar de Róbin!... Como o companheiro do Batman... E aí, como ele você quer vingar os pais com muito tripsrropssx...?? – Marcelo falou e riu imitando os freezes de Robinson. Um dos integrantes do grupo de hip-hop veio e puxou Marce- lo abraçando-o pelo pescoço. Falou no ouvido dele, Robinson entendeu que o B. Boy repreendia Marcelo, e que fosse embora; que iria “sujar” para eles; pediu compreensão. Marcelo disse que compreendia, na moral; também falando no ouvido do B. Boy: que os respeitava, e concordava em ir embora. Ambos tensos foram diplomáticos; e não chamaram atenção. – Falousss... Róbin!... Massa te conhecer. – Marcelo falou e foi embora. Quando Robinson foi embora para o lar, viu numa esquina Marcelo com Marco. Marcelo encostado num carro parecia estar brigando com Marco. Marcelo deu um tapa na cara de Marco, Robinson abaixou a cabeça assustado e acelerou os passos. Qua- se correu para virar outra esquina e, torceu para não ser visto por nenhum dos dois, e não foi. Chegou são e salvo em casa. Só faltava ganhar uma surra, mas como a mãe Edileusa saberia dis- so? – respirou aliviado. Robinson viu Marcelo outras vezes, mas sempre abaixava a cabeça e acelerava os passos. Uma vez viu a PM revistando o carro de Marcelo. Robinson sempre abaixava a cabeça e acele- rava os passos.

Rogério Prego 42 Não era só o Robinson que ia mal com as notas. A escola também ia de mal a pior, com notas vermelhas na secretaria do Estado. Um colega de outra sala agrediu um dos professores, chamaram a PM. Robinson pensou que fosse Marco, mas não era. A escola estava toda pichada, o Guarda pegou o pichador, mas depois foi repreendido à noite pelos comparsas do pichador. Estudava mais de 200 alunos ali. Às vezes de manhã a dire- ção encontrava sala com carteiras quebradas, pichação em pare- des e lousas. Sofria ação de vândalos sempre. Estes Roubavam TV, computadores, reatores, fios, as lâmpadas e até a escada. E por isso às vezes não tinha aula. Os professores reclamavam do salário, das agressões tanto de alunos quanto do Estado, alguns eram taxados de subversivos, transferidos, ou sumidos... E por tudo isso numa manhã declarou-se greve! ESTAMOS EM GREVE!

Príncipe dos Lobos 43 “Nós estamos parados no tempo Não sabemos para onde correr Estamos todos separados Nessa luta para sobreviver. Chegou a hora de tudo mudar Os submundos ão de se acabar Vidas existem para trocar E a natureza para perpetuar...[...] Solte seu grito no ar E sentirás que tudo vai mudar Chegou a hora de tudo mudar Os submundos ão de se acabar!...” A Chave do Sol, “Ímpeto”. O Professor não quer ser mais um dispositivo alienador. Ora!... A Televisão já não cumpre este papel?... ‘Então o Professor de- ve ser o “oreia” que prepara a argamassa do poder?!... Os Pro- fessores não querem se calar, para eles chegou a hora de se jun- tar e gritar. E não terão medo do que enfrentar, pois não deixam se levar!... Um minuto além!... Então num minuto além se en- contram! .............................................. Tudo aumenta de preço. Enquanto isso, os homens tornam-se mais baratos! A confusão é geral. Alguns se desentendem com outro, não concordam com frases terminadas com Lênin. Que o comunis- mo matou muita gente, que o muro de Berlin caiu! A manifesta- ção foi parar nas ruas, nos terminais e estações. Foram para câ- mara, carregando cartazes bem escritos, panfletos. Foram para assembleia... Policiais militares cercam, reprimem, e por fim

Rogério Prego 44 dispersam os professores civis com spray de pimenta, cassetetes e muita força bruta. Assim, como num passe de mágica, lideran- ças foram compradas, por isso revoltaram-se com o próprio sin- dicato: desfiliação em massa. Ocuparam a câmara, mais uma vez policiais militares cercam, reprimem, e por fim dispersam os professores civis com spray de pimenta, cassetetes e muita força bruta. Essa violência militar desnecessária, na rua ganha seu ápice e, só faz dar mais força: indignados, os manifestantes ficaram ainda mais revoltados contra o Estado. Receberam apoio da #frente contra o aumento da passagem de ônibus. Então, os po- liciais agiram de forma ainda mais truculenta. Com aparato de guerra de sítio. Parecia que o Estado havia declarado guerra con- tra o próprio povo, ou pelo menos contra uma parcela deste, – que

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