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Pesquisa Semiotica

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Published on February 16, 2014

Author: altemarolme

Source: slideshare.net

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2013 CURSO MESTRADO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO [Semiótica] Aluno: Altemar Oliveira Meneses

Sumário Introdução ....................................................................................................................................................... 5 O que é a Semiótica ......................................................................................................................................... 6 A Semiótica e os modelos de comunicação ..................................................................................................... 9 A Semiótica e a Bíblia .................................................................................................................................... 11 Bibliografia: .................................................................................................................................................... 13 4

Introdução Estudos sobre a religião bem como sobre os textos sagrados, por vezes, não são bem vistos no meio acadêmico científico, em decorrência de um legado racionalista que, de certa forma, fechou os olhos para a importância das religiões como sustentáculos das sociedades. Para os racionalistas, a religião foi entendida como superstição desencadeante de formas de opressão e, por isso, estava fora do escopo das ciências; para os positivistas, foi identificada como ideologia ou falsa consciência, pertencente aos estados metafísicos e teológicos; para os materialistas, era uma forma de alienação, uma espécie de ópio social que emperrava a luta de classes; para a psicanálise, uma ilusão, motor inconsciente que imobilizava o corpo como na histeria, fixava-se na repetição como na neurose obsessiva, impingia o medo da perseguição como na paranoia, e prezava o sofrimento como na melancolia. Entretanto, cada vez mais, observa-se que a questão da religião ou das religiões não pode ficar à margem dos estudos científicos, uma vez que se trata de um fato social inegável, presente nas relações sociais e nas principais crises mundiais. Conforme o filósofo espanhol Trías, “convém, portanto, pegar o touro pelos chifres e não fugir ao processo de comprovação lúcida da magnitude de tal crise”. É necessário que a religião seja compreendida em toda a sua amplitude e complexidade e não seja simplesmente relegada a estudos marginais, sem amparo científico. É sob essa ótica, que o presente estudo propõe-se a analisar textos bíblicos a partir do instrumental teórico da semiótica, a fim de buscar uma explicação interna para o fenômeno social da religião a partir da compreensão dos “jogos linguísticos” das Sagradas Escrituras do Cristianismo. 5

O que é a Semiótica A Semiótica do grego “σημειωτικός” (sēmeiōtikos) - literalmente, "a ótica dos sinais"), é a ciência geral dos signos e da semiose que estuda todos os fenômenos culturais como se fossem sistemas sígnicos, isto é, sistemas de significação. Ambos os termos são derivados da palavra grega σημεῖον (sēmeion), que significa "signo", havendo, desde a antiguidade, uma disciplina médica chamada de "semiologia". Foi usada pela primeira vez em Inglês por Henry Stubbes (1670), em um sentido muito preciso, para indicar o ramo da ciência médica dedicado ao estudo da interpretação de sinais. John Locke usou os termos "semeiotike" e "semeiotics" no livro 4, capítulo 21 do Ensaio acerca do Entendimento Humano (1690). A Semiótica lida com os conceitos, as ideias, estuda como estes mecanismos de significação se processam natural e culturalmente. Ao contrário da linguística, a semiótica não reduz suas pesquisas ao campo verbal, expandindo-o para qualquer sistema de signos – Artes visuais, Música, Fotografia, Cinema, Moda, Gestos, Religião, entre outros. O conhecimento tem um duplo aspecto. Seu ponto de vista semiótico refere-se ao significante, enquanto o epistemológico está conectado ao sentido dos objetos. A origem da semiótica remonta à Grécia Antiga, assim sendo ela é contemporânea do nascimento da filosofia. Porém, mais recentemente é que se expressaram os mestres conhecidos como pais desta disciplina. Em princípios do século XX vieram à luz as pesquisas de Ferdinand de Saussure e C. S. Peirce, é então que este campo do saber ganha sua independência e se torna uma ciência. Os Antigos: Gregos e Estoicos Apesar de a semiótica ser ainda uma ciência muito jovem, a reflexão sobre o signo e a significação é tão antiga quanto o pensamento filosófico. Testemunho dessas investigações é o diálogo platônico Crátilo, que tem precisamente por subtítulo “Sobre a justeza natural dos nomes”, assunto que Sócrates, Hermógenes e Crátilo tratarão de investigar. A questão que aí se coloca aos três personagens é muito simples: as palavras nomeiam as coisas a mercê de um acordo natural com os entes, ou, pelo contrário, a atribuição dos nomes é apenas fruto de uma convenção arbitrária. Hermógenes e Crátilo discutem acerca da equidade e exatidão dos nomes, Crátilo defendendo que estes existem em conformidade com a natureza das coisas; Hermógenes que são resultado de imposição convencional. Sócrates, chamado em pleno debate, vai tentar aclarar a questão. É Hermógenes quem expõe primeiramente a sua tese, que Sócrates começa metodicamente a destruir, obrigando-o a reconhecer que há discursos verdadeiros e falsos, que nomeiam com verdade e com falsidade, e que se tal sucede com os discursos, terá também de suceder com as suas menores partes, as palavras. Hermógenes bem argumenta com a diversidade das línguas, constatando que os gregos das diversas cidades nomeiam de formas diferentes, o mesmo sucedendo com os bárbaros, e que, portanto o nome atribuído à coisa num determinado momento é o seu nome verdadeiro; mas Sócrates habilmente leva-o a concordar que as coisas e as ações possuem certa realidade independente do homem e uma identidade consigo próprias. Ora enunciar é uma espécie de ato, e portanto pode ser praticado de acordo com a sua natureza própria, independentemente de quem nomeia, ou não. Aristóteles no Peri Hermeneias resolve o problema que ocupara Platão no Crátilo, definindo o nome como som vocal que possui uma significação convencional, sem referência ao tempo e do qual nenhuma parte possui significação quando tomada separadamente. Para além de ser claríssimo que 6

o universo da significação ultrapassa o das palavras, tese tão segura acerca da convencionalidade radica na teoria aristotélica da linguagem, exposta também no Peri Hermeneias. O signo linguístico, uma categoria restrita no universo mais vasto das coisas que significam, é símbolo dos estados de alma, estados esses que por sua vez são imagens das coisas. Estas últimas são iguais a si próprias, da mesma forma que os estados de alma de que as palavras são signos são, também, idênticos em objeto de variações face aos outros dois polos fixos da significação de todos os homens. Só a palavra, escrita ou vocalizada, é objeto de variações face aos outros dois polos fixos da significação. Mas é aos estóicos que cabe, sem margem para dúvidas, o mérito de terem criado a teoria da significação mais elaborada da antiguidade. Consideram signo o objeto que põe em relação três entidades: um significante ou som, um significado ou lekton, que é uma entidade imaterial, e o objeto que é uma realidade exterior referida pelo signo. O lekton é, segundo Todorov, não um conceito, mas a capacidade de um significante evocar um objeto. Por isso os bárbaros “ouvem o som e vêem o homem, mas ignoram o lekton, ou seja, o próprio fator de esse som evocar esse objeto. O lekton é a capacidade de o primeiro elemento designar o terceiro”. Os estóicos distinguem ainda os lekta completos, as proposições, dos incompletos, as palavras. Além do signo direto, teremos símbolos, ou signos indiretos quando um lekton evoca outro lekton, e estes tanto podem ser linguísticos (relação entre duas proposições) como não linguísticos (sucessão de dois acontecimentos). No século II Galeno vai originar outra tradição no estudo dos sinais ou sintomas, a da semiótica médica, disciplina ainda hoje em uso nalguns currículos universitários, sob o nome de semiologia clínica. Médico famoso em Pérgamo, e mais tarde em Roma, constitui a fonte mais importante para conhecer as escolas médicas da antiguidade, pois embora afirmando não pertencer a nenhuma, apresenta com notável clareza nos seus tratados o estado dos debates entre “empíricos”, “dogmáticos” e “metódicos”. Sendo difícil situá-lo numa das escolas, é certo que aceita como sua a divisão da medicina em três grandes ramos: a semiótica, a terapêutica e a higiene. à arte do médico são fundamentais as operações semióticas, que atuam por observação e rememoração, porque o signo deve ser interpretado por aquele que pode atribuir-lhe significado. De resto, o mesmo sucede na terapêutica. Pela gramática dos sinais se pode decidir da adequabilidade de uma terapia, alguns tratamentos, em geral eficazes, não convindo de forma alguma a crianças, velhos, ou pacientes muito debilitados. Os Medievais: Agostinho, Bacon, Hispano, Fonseca e Joao de S. Tomás Agostinho passará para a história como o autor da mais bem arranjada síntese do saber do mundo antigo e, no campo da semiótica, como o impulsionador de uma tendência – o alegorismo – alicerce da mundividência do homem medieval pelo menos até ao século XVII. É certo que Agostinho é exclusivamente movido por um interesse religioso, mas este o leva a tocar os mais diversificados campos do saber humano, incluindo a filosofia da linguagem, razões que levaram Todorov a defender, e com razão, ser ele o primeiro autor a apresentar uma verdadeira teoria semiótica. Embora com aflorações em muitos outros escritos, as obras mais importantes para conhecer a sua teoria da linguagem são De Magistro e Da Doctrina Christiana. 7

No diálogo De Magistro começa por estabelecer o estatuto do signo: as palavras são sinais das coisas; nem todos os sinais são palavras; e não podem ser sinais coisas que nada significam. O problema, aqui em disputa, é gnosiológico: podem as realidades ensinar-se por meio de sinais? Agostinho conclui que não. Em primeiro lugar, porque o sinal é sempre inferior à coisa significada (exceto em termos axiológicos); depois, porque os sinais são apreendidos pela consideração das realidades, e não o contrário. “Com efeito, quando me é dado um sinal, se ele me encontra ignorante da coisa de que é sinal, nada me pode ensinar; e se me encontrar sabedor, que aprendo eu por meio do sinal? .. Mais se aprende o sinal por meio da realidade conhecida do que a própria realidade por um sinal dado... uma vez conhecida a realidade mesma que se significa, é que nós aprendemos a força das palavras, isto é, a significação escondida no som; bem ao contrário de percebermos essa realidade por meio de tal significação”. No mestre, sendo um texto de cunho religioso e marcado por uma negatividade ou pessimismo semiológico, vemos já surgir a dimensão comunicativa dos processos de significação, que será retomada com maior fôlego em Da Doctrina. Este, sem dúvida o texto mais importante, é um tratado de hermenêutica que visa estabelecer regras para entender e interpretar as Sagradas Escrituras, e é composto por quatro livros, dos quais o II é exclusivamente dedicado aos signos. Agostinho acaba a fazer semiótica por via das suas preocupações teológicas. A Roger Bacon (1214-1293) atribui-se o primeiro tratado especificamente dedicado aos signos, De Signis, onde elabora uma classificação de todos os tipos de signo, e aparece pela primeira vez a significação considerada no seu carácter extensional, dirigida a res extra animam. O debate medieval sobre a suppositio e a significação passa por Abelardo, Alberto Magno, Guilherme de Shyreswood, Duns Escoto, Ockham, João Buridan e outros lógicos deste período. Mas passa também pelos escolásticos portugueses que do século XII ao Renascimento investigaram com assinalável sucesso rigorosamente os mesmos temas. Pedro Hispano (1220-1277, Papa João XXI) lógico e médico de renome, ficou famoso com as Summulae Logicales, onde considera as diferentes classes de signos, a significação e a suppositio. Petrus Hispanus ficou famoso por este seu tratado de lógica – onde esboça a teoria da significação e aborda a suppositio – que foi o manual seguido na maioria das escolas e universidades até ao século XVI, e de tal forma popular que contou com 260 edições no período compreendido entre 1474 e 1630. Signo verbal é aí definido como “vox significativa ad placitum”, a qual “ad voluntatem instituentis aliquid representat”, distinguindo-se assim da “vox non-significativa que auditui nihil representat, ut buba”, e ainda dos signos naturais, como os gemidos ou o ladrar de um cão. As unidades significativas podem depois ser simples (nomes e verbos) ou compostas (oração e proposição). O significado é a representação de uma coisa por meio de um som vocal convencional; de forma que o signo verbal resulta formado por um som vocal significante, e uma representação ou significado. 8

A Semiótica e os modelos de comunicação Os compêndios e os manuais de semiótica falam em signos e pouco em sinais. A razão de ser é que signo é hoje um termo técnico e sinal um termo mais vasto, menos preciso. Signo é um termo erudito, provindo diretamente do latim, que não sofreu os percalços de uma utilização intensiva como o termo sinal e que por isso não foi enriquecido com termos dele derivados e que representam um contributo extremamente importante ao estudo semiótico. Vejam-se os termos sinaleiro, sinalização, sinalizar, assinalar, sinalizado e assinalado. O termo signo impôs-se na semiótica. Por outro lado, o termo “sinal” tem vindo a ganhar dentro da semiótica outro sentido que não o tradicional em português. Esse sentido “técnico” é o de um estímulo elétrico ou magnético que passa por um canal físico. De qualquer modo, partindo da análise dos sinais que em português se chamam sinais entramos num vasto campo de estudo a que se dá o nome de semiótica. Nenhuma ciência nasce feita, antes se desenvolve a partir de uma interrogação inicial sobre o como e o porquê de determinados fenômenos, e com a semiótica ocorre o mesmo. A análise feita sobre os sinais serviu para abrir o campo em que se constrói a ciência da semiótica. O lugar da semiótica dentro das ciências da comunicação depende do que se entende por comunicação. A comunicação é hoje um vastíssimo campo de investigação, das engenharias à sociologia e psicologia, pelo que as perspectivas em que se estuda podem variar significativamente. É certo que toda a comunicação se faz através de sinais e que esse fato constitui o bastante para estudar os sinais, sobre o que são, que tipos de sinais existem, como funcionam, que assinalam, com que significado, como significam, de que modo são utilizados. Contudo, o estudo dos sinais tanto pode ocupar um lugar central como um lugar periférico no estudo da comunicação. Tal como na arquitetura em que o estudo dos materiais, embora indispensável, não faz propriamente parte da arquitetura, assim também em determinadas abordagens da comunicação o estudo dos sinais não faz parte dos estudos de comunicação em sentido restrito. Daqui que seja fundamental considerar, ainda que brevemente, os principais sentidos de comunicação. Nos estudos de comunicação distinguem-se duas grandes correntes de investigação, uma que entende a comunicação, sobretudo como um fluxo de informação, e outra que entende a comunicação como uma “produção e troca de sentido”. A primeira corrente é a escola processual da comunicação e a segunda é a escola semiótica. A ideia de que a comunicação é uma transmissão de mensagens surge na obra pioneira de Shannon e Weaver, A Teoria Matemática da Informação de 1949. O modelo de comunicação que apresentam é assaz conhecido: uma fonte que passa a informação a um transmissor que a coloca num canal (mais ou menos sujeito a ruído) que a leva a um receptor que a passa a um destinatário. É um modelo linear de comunicação, simples, mas extraordinariamente eficiente na detecção e resolução dos problemas técnicos da comunicação. Contudo, Shannon e Weaver reivindicam que o seu modelo não se limita aos problemas técnicos da comunicação, mas também se aplica aos problemas semânticos e aos problemas pragmáticos da comunicação. Efetivamente, distinguem três níveis no processo comunicativo: o nível técnico, relativo ao rigor da transmissão dos sinais; o nível 9

semântico, relativo à precisão com que os signos transmitidos convêm ao significado desejado; e o nível da eficácia, relativo à eficácia com que o significado da mensagem afeta da maneira desejada a conduta do destinatário. Elaborado durante a Segunda Guerra Mundial nos laboratórios da Bell Company, o modelo comunicacional de Shannon e Weaver é assumidamente uma extensão de um modelo de engenharia de telecomunicações. A teoria matemática da comunicação visa a precisão e a eficiência do fluxo informativo. A partir desse objetivo primeiro, desenvolveu conceitos cruciais para os estudos de comunicação, nomeadamente conceitos tão importantes como quantidade de informação, quantidade mínima de informação (o célebre bit), redundância, ruído, transmissor, receptor, canal. A Fenomenologia O estudo da semiótica de Peirce envolve, para a sua compreensão, a imersão do pesquisador no campo da filosofia. A semiótica ou lógica é parte de seu edifício filosófico, estando intrinsecamente ligada à maneira de ver, discriminar e interpretar os fenômenos. Estes últimos, objetos da fenomenologia, resumem-se no que aparece a uma consciência, ou seja, consistem no material de nossa experiência cotidiana, totalmente ao alcance de qualquer indivíduo. Com efeito, o fenomenólogo não necessita de ferramentas especiais para acessar os fenômenos, bastando abrir os olhos para o que preenche sua consciência. Essa vivência nos brindará com três modos de encarar os fenômenos, denominados por Peirce, de primeiridade, secundidade e terceiridade, as três categorias, nas quais se reduzem todos os fenômenos vivenciados por cada um de nós. Assim, a primeira categoria está no modo de ver do artista, que se deleita ao permitir que o fenômeno preencha sua consciência, num ato de apenas olhar, sem discriminar ou comparar (CP5.44). A primeiridade revela-se no caráter imediato do fenômeno; na qualidade de sentimento, a qual é tomada como um estado total, sem que faça referência a qualquer suporte ou substrato. É, segundo Peirce, um modo poético de ver. A secundidade, ao contrário da primeira categoria, está na reação, no aspecto dual da experiência fenomênica (CP-1.324). É a qualidade daquele objeto ou a reação de dois objetos concretos. Consiste no modo próprio da existência, cuja característica principal é a reação, o conflito, a resistência. Categoria da ação mútua, é singular, hic et nunc, e, por isso, independente de qualquer mediação (CP-7.532, 538; 1.322). Por fim, a terceira categoria é característica da mediação (CP-1.528), da consciência sintética, do sentido de aprendizagem, do pensamento, da consciência de um processo e da previsão (CP-1.377, 381; 7.536; 1.26). Sua falta impossibilitaria a consciência de apreender o fenômeno enquanto mediador dos dois modos anteriores, reduzindo a vivência à mera reação imediata. Com ela, a representação do fenômeno torna-se possível (CP-5.66, 144 e 105 É, pois, a categoria à qual pertence o signo, a tríade que espelha em si os três modos do fenômeno). 10

A Semiótica e a Bíblia A Bíblia é um compêndio de diversos textos, dispostos em duas partes, denominadas testamentos, escritos por autores diversos, em épocas diferentes, utilizada como guia de conduta religiosa dos mais variados segmentos. A seleção dos textos que fazem parte do seu cânon também foi realizada em diversas etapas,. Além disso, se considerarmos a data aproximada de seus primeiros escritos, por volta de 1500 a.C., até os últimos, que datam do século primeiro da era cristã, teremos um extenso período no qual a história das civilizações ia sendo construída, entre guerras, conquistas e impérios dominadores. A primeira parte do que hoje conhecemos como a Bíblia é chamada de Antigo Testamento e, a segunda, Novo Testamento, cada qual composto por livros. As religiões cristãs adotam-na integralmente, mas há algumas divergências quanto à formação do cânon. Alguns escritos que fazem parte das edições católicas não aparecem nas publicações protestantes sendo considerados apócrifos, que quer dizer, escondidos. O Antigo Testamento também é utilizado no judaísmo e está dividido em três partes: a Torah, que coincide com o Pentateuco bíblico, ou seja, os cinco primeiros livros do Antigo Testamento; o Nebhim, que corresponde aos livros históricos e proféticos; e o Kethubim, que arrola os livros poéticos e alguns históricos. Pensando dessa maneira, poderíamos concluir que se trata de um emaranhado de ideias confusas e contraditórias, sem coesão entre suas partes, cuja coerência estaria grandemente comprometida em virtude de toda essa disparidade. Ou então, poderíamos aderir à ideia que, durante muito tempo, tentou-se difundir de que sua compreensão é demasiadamente complicada e que achar um sentido para esses textos é tarefa tão árdua, que somente pessoas ditas especiais, as quais se autodenominavam sábias e iluminadas, escolhidas para esse propósito, poderiam executar. Se junta a toda essa suposta confusão, o uso que, no decorrer da história, tem sido feito desses textos sagrados, com intenções de dominação e manipulação por parte de algumas instituições que tentam se aproveitar dessa aparente dificuldade para atribuírem aos textos bíblicos o significado que lhes convém. Paralelamente a essa posição que podemos identificar no senso comum, vários estudos a respeito da interpretação da Bíblia têm sido desenvolvidos bem como diferentes métodos de análise têm sido sugeridos e utilizados no meio acadêmico que tem a Bíblia como objeto de estudo. Entre os modelos mais utilizados temos a hermenêutica e a exegese. Para o modelo hermenêutico, conforme Bruns (1997: 667), importa “elucidar as condições nas quais a compreensão desses textos ocorreu”. As técnicas de exegese correspondem, por sua vez, à utilização de conhecimentos de outros domínios e contribuição de outras competências para interpretar os textos bíblicos. Para nós, interpretar quer dizer extrair significado e a semiótica oferece uma metodologia que nos permite chegar a esse significado traçando o percurso gerativo do sentido do texto, ou seja, o desvendar o caminho percorrido dentro do próprio texto, com elementos intratextuais, que perfazem o trajeto de construção da significação. Nesse sentido, a semiótica tem sido um instrumental analítico muito utilizado na compreensão dos textos bíblicos. Desde o seu surgimento, no último quarto do século passado, com os estudos de Greimas, na França, grupos de estudiosos da Bíblia têm se valido desse modelo para suas pesquisas. O primeiro deles foi o GROUPE D’ENTREVERNES, de Lyon, na década de 1970, que publicou dois volumes com análises de narrativas bíblicas à luz da semiótica.. Também há o Centre d’Analyse du Discourse Religieux (CADIR), da Faculté de Théologie de Lyon, cujo periódico trimestral Semiotique et Bible circula desde 1975, com estudos de textos bíblicos, elementos de iniciação à leitura semiótica e reflexões teológicas e teóricas. 11

De acordo com Greimas e Courtés, o percurso gerativo do sentido é composto por duas macroestruturas: estruturas discursivas e estruturas semionarrativas, sendo que as estruturas discursivas são consideradas as menos profundas ou mais superficiais, e as estruturas semionarrativas, por sua vez, dividem-se em dois patamares, um nível narrativo ou superficial e outro profundo. Cada um desses patamares (o narrativo profundo, o narrativo superficial e o discursivo) que constituem o percurso gerativo do sentido está dividido em uma sintaxe e uma semântica. Vale salientar que as adjetivações profundo e superficial não comportam, dentro da teoria semiótica, nenhum juízo de valor como se o profundo fosse mais importante que o superficial; mas indicam que a significação está articulada em camadas, em uma rede interdependente, em que os níveis ora especificam ora são especificados. Fiorin também apresenta essa mesma divisão para análise, bipartida em estruturas semionarrativas e estruturas discursivas, cada uma delas com um componente sintático e um componente semântico. Para Fiorin, a sintaxe dos diferentes níveis do percurso gerativo é de ordem relacional, mas com um caráter conceitual. Portanto, a distinção entre a sintaxe e a semântica, em uma análise semiótica: “(...) não decorre do fato de que uma seja significativa e a outra não, mas de que a sintaxe é mais autônoma do que a semântica, na medida em que uma mesma relação sintática pode receber uma variedade imensa de investimentos semânticos.” (Fiorin, 2001: 18). Bertrand simplifica a estratificação estrutural hierarquizada de Greimas, apresentando a seguinte divisão para análise: uma estrutura discursiva, que comporta as isotopias figurativas e isotopias temáticas; uma estrutura semionarrativa, que engloba o esquema narrativo, a sintaxe actancial e as estruturas modais; e uma estrutura profunda, que dá conta da semântica e da sintaxe elementar e do quadrado semiótico. A descrição desse processo de construção do significado é feita a partir da análise sêmica ou estudo dos semas, por meio da reprodução das significações percebidas como efeito de sentido. Os semas podem ser nucleares ou contextuais (classemas). Os semas nucleares são traços que definem uma figura, com um núcleo sêmico estável. Os classemas são traços sêmicos que aparecem nas figuras contextualizadas. Essa análise sêmica permite identificar as isotopias figurativas, que formam um plano comum, tornando possível a coerência do texto, por meio da permanência dos traços mínimos ou iteração dos semas. As isotopias figurativas remetem às isotopia temáticas, que são abstratas e axiológicas. A figuratividade se estende, portanto, do icônico ao abstrato, por meio de manifestações graduais que definem a densidade sêmica. Conforme Bertrand (Ibidem, p. 213), “a tematização consiste em dotar uma seqüência figurativa de significações mais abstratas”. Finalmente, a análise sêmica resulta na estruturação e articulação do quadrado semiótico, que possibilita, por meio de um modelo lógico, representar a rede de relações do texto e visualizar sua significação, por meio de um jogo de diferenças e oposições, desvendando os micro-universos semânticos a partir da categorização de valores. 12

Bibliografia: António Fidalgo Anabela Gradim, Manual de Semiótica CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento interpretado versículo por versículo: dicionário A/L. 2ª ed. São Paulo: Hagnos, 2001, v. 6. BERTRAND, D. Caminhos da semiótica literária. Tradução do Grupo CASA, sob a coordenação de Ivã Carlos Lopes. Bauru: EDUSC, 2003. Umberto Eco, Tratado Geral de Semiótica, Editora Perspectiva, São Paulo, 1991 Sites: http://www.bocc.ubi.pt/pag/fidalgo-antonio-manual-semiotica-2005.pdf http://pt.wikipedia.org/wiki/semiotica 13

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