Os lenços dos namorados de valença

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Published on February 17, 2014

Author: valenca2013

Source: slideshare.net

OS OLHOS DOS NAMORADOS TÊM UM CERTO NÃO SEI QUÊ QUE SERVE DE SOBRESCRITO Á CARTA QUE SE NÃO LÊ Alíria Filomena Pinto Lopes M ar tins R iba Nobre

Para o meu filho, Paulo César, in memoriam 18-03-1964 - 30-11-2014 Para vós,

Foi a recolha que despertada pela memória da minha avó Rosalina (que, tantas e tão lindas histórias me contou ), me levou a, durante muitos anos, anotar e arquivar estes pequenos e grandes Nadas. Testemunhos ingénuos, puros, lindos que são um Grito de Presença da nossa cultura popular e regional. Saibamos amá-la, conservá-la, fazê-la renascer e reviver. Possamos assim transmiti-la ao “ Futuro “ para que, a par “do saber das Altas Tecnologias “, as saibam estimar. São os sentimentos de pureza, saudade, amores felizes ou não, que rompiam da alma e do coração de quem sabia e queria “ Gostar d' Alguém “. Quero render homenagem ao Passado em memória da Ricardina, da velha Clara; da tia Vitória; à “enciclopédia rural e viva“ de saberes que foi a Dª. Isabel de Mata Sete; à tia Maria Nobre ( a centenária avó do meu marido ) e sobretudo à saudosa Manina. A tantos “ velhotes “ de Gandra, de Cerdal, de Valença, de Subportela que viveram e sentiram aquilo que me transmitiram. A outros e outros. Que descanseis em Paz. Ao Presente: a mim, à minha filha, ao meu genro, ao César, a todos os que gostam destas coisas, a todos que dão vida e expansão a estas tradições, usos e costumes. Aqueles que lutam e trabalham carinhosamente para promover chamadas de atenção e mostras, dando vida a um Passado que já passou mas ainda quer Viver. Parabéns. Não percais o animo. Só as coisas difíceis merecem o “ Louro da Vitória “ as fáceis são “ banais e vulgares “ recheadas de pouco valor e trabalho. Ao Futuro: - Aos meus queridos netos Paulo Manuel e José Miguel ( quando puderes, vós e os vossos amigos, perdei um pouco de tempo e ganhai mais SABER com a “ rudimentar “ cultura dos vossos antepassados. Vereis merece a pena!... ) Aliai o passado ao futuro. Valença – Fevereiro dos Namorados – ano de 2012 Com carinho; Alíria Filomena Pinto Lopes Martins Riba Nobre 2

Os lenços deviam ser assim !... 3

Puros, brancos, levando Amor e deixando Esperança e Saudade. E, eram conhecidos, por: Lenços de Namorados Lenços de pedido Lenços de conversado Lenços de comprometimento Lenços de Amor Foi no Minho que: -tiveram a maior expressão e expansão -mais divulgaram sentimentos; mais espalharam e os espalham, valorizando a valorização e divulgação do património artístico e cultural desta região. De raiz popular, simbologia campestre e amorosa, levavam afecto... Surpreendem-nos, encantam-nos e maravilham-nos com tanta beleza e ingenuidade. Vamos nós também, dar-lhes a Vida que merecem?... Sou a felis brebuleta pouzada no teu ulhar num me deiches de cá sair, o teu curação é o meu lugar! 4 Axi tens meu curasson E a chabe pró abrir Num teinho mais pra te dar Nem tu mais pra me pedir

As quadras – de raiz puramente popular e até pessoal (eram rimas das próprias bordadeiras). São verdadeiros tesouros de saber querer, ingenuidade e franqueza. São lindas! Ditadas pelo coração para o “ seu Bem “ continham, quase sempre “erros ortográficos“. Algumas bem difíceis de “ traduzir “ quantas e quantas jovens eram analfabetas!... Conservemos esses “ lindos defeitos “ porque não são eles que vão “ estragar “ a língua da nossa Terra! Escreviam como diziam ( pronunciavam ) e quantas vezes essas “falas” 1 eram diferentes dumas para outras localidades. 1- falas - termos próprios de cada localidade 5

Simbologia de “ Alguns Motivos “ usados nos lenços dos Namorados Pombos - Paz, calma Chaves - Fechar e/ou abrir os corações Corações - Amor Pássaros - Sorte, alegria Leões - Força, poder Cães - Fidelidade Pavões - Beleza, brio, vaidade Sol - Dia Lua - Noite Cruzes -Fé Brasões – Valor, nobreza Coroas -Realeza Árvores -Fortaleza e segurança Rosas - ( fremusura / formosura ) Flores – Beleza natural, a “força da terra” Festões e florões – Mimos, carícias Ancoras – Segurança Pares – Homem / mulher – dançar passear acompanhar 6

Lenços dos Namorados Eram bordados em tecido branco ( linho do mais fino ou “merine” ( tecido de algodão). No linho, por causa da sua textura mais fáceis de elaborar. Em algodão, (as fibras mais comprimidas) apresentavam mais dificuldade. Acontecia – muitas vezes – recorrerem ao 2º material dado o muito apreço e grande “poder aplicativo”do linho. Além disso, o linho era de fabrico caseiro e, haviam suportado “mil e um” trabalhos para o conseguirem. Fazia parte integral e indispensável de toda a casa -rica ou pobre – que se “preze 2”. Figurava em todo o “bragal” 3 doméstico. Havia 3 “colidades” de modelos, no apresentar dos lenços. A – rematados a baínha “cozida” e singela; B – rematados a entremeio e renda “condizente 4” (os de moça rica); C – de morgada ou fidalga ( os mais ricos e de mais difícil elaboração). Os (A e B) eram do mesmo tecido; com os mesmos motivos e cores, com os desenhos tradicionais em maior ou menor abundância. Os tons de linhas eram o vermelho e preto. Bordados (os mais antigos – no Alto Minho – a ponto cruz). Os das morgadas ou fidalgas – em “organdi”, ou “tule”, de tons muito claros (branco, rosado, azulado) e bordados só com uma variedade de linha (geralmente branca). Eram quase “uma sofisticada arte”. Bastante diferentes das do “pobo”. A parte central era apenas preenchida pela inicial do nome da autora e/ou da pessoa a quem se destinava. Havia uma atenção e cuidado sem limites no “afermosar 4” a “letra” a parte que mais “sobressaía”. Muitas vezes o A também significava Amor. Isolada, em destaque, havia que “a enfeitar”. Eram variados os modelos. O da Casa das Lameiras é “emoldurado” por 4 triângulos com base, voltada para o interior, onde a 2- Preze – que tenha cuidado com o que tem e porque o tem 3 - Bragal – enxoval caseiro 4 - Condizente – sem desvios, iguais ou muito parecidos 5 - Afermosar um trabalho – torná-lo o mais bonito e artístico que pudermos 7

bordadeira aplicou todo o “seu engenho e arte” (artísticos e maravilhosos exemplares do que se podia fazer apenas com uma agulha, uma linha e o desvelho de se “fazer bem, bonito e com coração”. Havia ainda outros – mais da região de Braga – na zona mais Sul do Minho. Usavam e usam – pois estão em grande expansão – (bordados com profusão de tons sempre bastante garridos). Os motivos são quase os mesmos – flores, pássaros, corações e sem esquecer nunca as “preciosas quadras”. Versos que são tão genuínos, como puros e até de sinceridade invulgares. Atualmente há uma linha de bordadeiras ou “apaixonadas por esta arte “ - muitas, na Ribeira Lima – que aplicam os “antigos” motivos em “artigos” de decoração para os lares modernos: são os quadros que ficam para lembrar: nascimentos, batizados, casamentos, favores e “graças devidas”. São conhecidos como “marcos” por “falarem” dum acontecimento importante. São, muitos comercializados. Uns oferecidos a quem se estima ou quer homenagear. Outros a quem se quer mostrar gratidão por “algo de diferente” que se recebeu. Mimoseiam-se professores, familiares, autoridades, padres, familiares ausentes, amigos especiais, médicos a quem se deve muito, etc. Os primeiros (os dos namorados) – mais típicos e antigos – eram uma mensagem de Amor (do coração). Estes, os marcos, são de “estima e gratidão”. Todos eles vertentes do mesmo Amor. Aplicam-se em almofadões, almofadas, naperons, toalhas, quadros e tantos outros artigos para o lar. Bordam-se em peças de roupa: - blusas, camisas, vestidos, bolsas e carteirinhas, cintos, echarpes, xailes, toalhas de todo e qualquer tamanho, nos lencinhos que se ofertam como “lembrança de noivos, bodas de prata e...até ouro”.Surgiram em peças de louça. São as nossas flores, os nossos pássaros, os nossos animais, os nossos corações, a levar para o “Mundo” aquilo que outros nos deixaram, que alguns estimam e promovem, mas que urge não deixar morrer. Afinal são a cultura da Cultura do nosso Povo, da nossa gente. 8

Bai lenço, felis buando Nas azas dum paçarinho Vai mustrar a todo o Mundo Cumo era o nosso Minho. Esboço de um estudo sobre “Lenços dos namorados” - (arte popular) integrado no Curso de História d'Arte, que frequentei em Braga 1954/1956 9

Como se bordam os Lenços Geralmente obedeciam a certas regras. Eram “quadrados” e com vários tamanhos mas nunca muito pequenos. Não eram lenços de “bouço ou de assuar” 1. Na parte central bordava-se o jardim (para chamar a atenção). Podia ser um canteiro de flores – sempre com as flores voltadas para o exterior. Até uma quadra especial! No seu “meio – pombas, chaves, corações, monogramas, datas e coroas reais, sobretudo motivos campestres. Rematavam com uma silba ou silbeira 2 para fechar o Amor e que este não se escapasse! Entre o “jardim” e o “remate”, “semeavam-se” - a gosto – os motivos de que mais se gostava e até outra quadra e outra. Como se usavam e quando se “exibiam” Os homens usavam-nos ao pescoço para limpar o suor nas “festas”, romarias, bailaricos, serões especiais e sobretudo para demonstrar “as suas amadas como continuavam” firmes e “interessados”. Havia também os “tabaqueiros” em tecido de cor muito escura e garrida, (estes com motivos regionais), que serviam para o mesmo fim e também para limpar o nariz. Eram estampados. Também podiam ser oferecidos pelas “cridas (queridas)” mas teriam que lhes dar em troca uma moeda de baixo valor. Se assim não fizessem havia separação. Com o lenço se dizia adeus!..Estes exemplares eram comprados nas feiras e mercados e usados diariamente durante as fainas laborais – agrícolas ou não. Não eram de labor manual nem com quadras. As mulheres, ostentavam-nos orgulhosamente em: Paradas, desfiles, procissões, para protegerem as velas de “mordoma”. 6 - Bouço (bolso). Assuar (limpar o nariz). 7 - Silva ou silveira – planta brava que produzia as chamadas “amoras bravas” e crescia muito. 10

Nos “cestos” de ofertas ou “ofertar”. Em bailes e bailaricos, à cinta, “metidos” no cós da saia!. 11

A- Uma “figurante” com traje de noiva e, adornado o ramo com um “tradicional”lenço. O “ourado” cortejo também exibe os seus “amores”. E este “amoroso” par? Trajo de “meia senhora”, com sombrinha de renda e saco-substituído hoje pela carteira – e um lindo “Lenço dos Namorados”, metido no cós da saia sob a “casaca”. 12

Uma linda minhota “revivendo suas bisavós e avós” exibindo o traje de noiva. Na mão o “bouquet” ou ramo abraçado por um simpático lenço dos namorados. Assim, a tradição não morre. Aprendemos a recordá-la! Este simpático “casal” revive também a tradição. Ele “mostra” a camisa bordada com motivos dos “Lenços dos Namorados” nos punhos e “peitilho”. Ela, usa blusa branca de linho, com manga bordada “com saber e arte minhotos” em tom de azul cinza. 13

O “meu” lenço da “Manina” 1 Lenço de Namorados da minha avó. Foi ela quem mais me motivou para estes temas. Era, de moça lavradeira rica e prendada. Está velhinho. Tem mais de 100 anos! “Lenço rico” por causa do seu remate em entremeio e bordado a “dezer”. É anterior a 1900. Foi executado por R.P. conforme se lê no “jardim”. Este, de forma quadrada é envolto em sebe que exibe flores para o lado exterior. No interior vemos as pombas da Paz, com a chave para fechar o Amor dos 2 corações que exibe (Ele e Ela). Lateralmente as iniciais R.P. de Rosalina Pinto. Encimado pela Coroa Real – (é do tempo da realeza) – que quase une as asas das “rusticas” pombas que esvoaçam desejando Paz áquele Amor. Junto à aplicação do entre-meio bordou uma “sirva ou silveira” 9 que abrange os 4 lados do lenço. Eram a cadeia que fechava de vez a mensagem amorosa. A quadra que exibe, não era “brejeira” 3 mas “séria e de respeito” 11 e dizia assim: Este Lensu Te Ufreso Limpa Teu Rosto Um a Preda das Amigas Não cauza Desgosto Os restantes motivos foram “semeados” ao “acalha” e não sob uma forma rígida. Eram flores, jarras, corações e os “cães” com sua “fidelidade”. Nos 4 cantos bordou ramalhetes iguais 2 a 2, assentando em estilizados “festões” brotando duma “lira”, que desejava alegria e “satisfação”. Para se conservar, transformei-o em decorativo quadro. Houve que o iluminar para que a luz desse mais força ao “debotado” vermelho com que fora feito. Como era de “merine” (algodão fino branco) e está “delido” em alguns sítios) colocou-se entre duas laminas de vidro 8 - Ver imagem pag. 15 9 -A planta que crescia nos campos – valados e produzia as “amoras bravas”. Tinha muitos picos (espinhos) e vedava com eficácia. Era sebe quase impossível de transpor. 10 - Brejeira – com “maldade”. (beijinhos e abraços)!.. 11 - Séria e de respeito – como mensagem de amor sim, mas...com as devidas cautelas 14

(anti-reflexo) encaixilhou-se e...vamos guardá-lo quase como presença da sua autora. Essa senhora – a mais culta analfabeta que conheci – que sabia de tudo que quis saber e fazer mais e melhor durante toda a sua vida. Sabia saber, sabia ensinar e despertar o interesse dos outros para as realidades da vida que tanto amava. Nasceu em Gandra – Valença aos 25 de Maio de 1881. Viveu muitos anos em Lisboa e faleceu aos 17 de Fevereiro de 1951 em Mondim de Baixo-Gandra. Está sepultada em jazigo-capela na mesma freguesia. Este lenço foi acompanhado pela foto, vestida à moda antiga, quando fez 18 anos e que sempre esteve junto do mesmo. É que-para ter uso – punha-se como “pano de mesinha de cabeceira1 e a foto em cima”. Era a “joia da Coroa” do meu avô. A sua “Linita”. O lenço da Manina A foto que o acompanhou 15

Lenços de Morgadas ou Fidalgas Também uma variedade dos lenços de namorar ou noivar e que pertenciam a uma classe social mais abastada e notável. São muito raros. Geralmente feitos em organdi ou tule, cuidadosa e primorosamente bordados, exibiam motivos de difícil execução. Eram de arte manual mas, com uma “arte e saber” que nem toda a gente podia ou sabia executar. Alguns feitos em mosteiros ou conventos. O centro, exibia uma inicial - “a letra” - do nome de quem o bordava ou a quem era destinado – homem ou mulher. Ladeado por “grelhas ou grades” de difícil e artístico cunho. Rematados por finas rendas ou debruns valorizados com aplicações para lhes dar mais relevo. Muitas vezes eram transformadas em “almofadões” e adornavam camas, cadeirões ou banquinhas de “alcova”. Lenço da Casa da Lameira 13 Este lindíssimo Lenço de “Namorada” ou Noiva fidalga, pensa-se que, pertenceu a Ana Azevedo de Araújo e Gama. Faleceu em 1897, em Cerdal – Valença. Filha de João de Azevedo Araújo e Gama que viveu em Cerdal – Valença (1808-1894). Este o Morgado da Quinta da Lameira, foi também pai do Dr. Manuel de Azevedo Araújo e Gama – lente da Universidade de Coimbra. Teve bastantes filhos. Estão todos sepultados no cemitério paroquial de Cerdal, bem como outros familiares em sepultura/jazigo próprios. Como este exemplar apresenta um notável estado de conservação e, para que não se detiorasse, foi emoldurado recentemente tendo-se tido um cuidado especial nesse trabalho. Haveria que o aplicar em “fundo” e “moldura” de sabor antigos, com tons muito sóbrios, claros e lisos, para não se correr o risco de gerar contrastes fortes, que ofuscassem e prejudicassem a “suave e delicada” beleza do exemplar. 13 - Ver imagem pag. 19 16

Outra reprodução dum lenço “fino”. Este em “tule” Descrição do Lenço: Lenço de Tule de Vila Verde Origem: Vila Verde Local onde foi encontrado: Centro Educação Familiar de Vila Verde História: foi bordado com o véu de um fato regional de noiva. Dimensões: 100x100 Material Utilizado: tule de algodão, linhas de bordar de cor branca Pontos: ponto de alinhavo, fantasia, recorte Transcrição das Escritas: não tem Bordadeira: Maria de Almeida 17

Marco assinalando o aniversário de casamento de uma ex-aluna e grande amiga. Está aplicado num “quadro” com banda em vermelho baço e moldura negra. Pertence à Graça e ao Diogo Faria. 18

O Lenço da Morgada da lameira 19

O Lenço da Tércinha Propriedade de Dª Natércia de Jesus Pinto Lopes Martins Figueiredo. Foi professora em Paredes de Coura, onde constituiu família e onde reside. Herdou-o da Casa de Mondim de Baixo – Gandra – Valença onde nasceu aos 12/01/1945. Deve ter pertencido à Bísavó- Rosa Florinda da Enes. “Aventamos” duas hipóteses sobre a época em que foi feito. Seria ainda como noiva ou “conversada” de José António Pinto ou já como sua mulher? Em qualquer dos casos é muito antigo (no quarto deste casal há – na casa mais antiga como remate do tecto uma elucidativa data) – (em relevo, um rectangulo trabalhado que tem, num dos lados menores, J: 14 A. P. do outro lado 1904. Ao centro artistica pequena rosacea). Esta era a data da reconstrução. Na descrição dos “motivos” que adornam o “jardim” deste lenço, explicarei o que me fez surgir a dúvida sobre a sua execução. Rematado nos 4 lados, por uma curiosa cadeia de 5 frisos brancos, finos, paralelos e com um pouco de “sabor” a “barra”; 3 desses frisos, são evidentes, os 2 restantes cosidos sob a baínha que também esconde os “cruzamentos” dos mesmos nos cantos do lenço. Foi bordado num lenço branco (não em tecido “solto”), dos de trazer ao pescoço no caso de ser homem – ou na algibeira da mulher). Foi executado pelo lado do avesso. Usaram “minucioso e perfeitissimo” ponto de cadeira em tons muito claros (apenas branco e amarelo suave e um pouco torrado). Como seria possível, meu Deus, tal perfeição “alumiadas pela luz frouxa das candeias de azeite”? Os “labores” eram, quase todos realizados ao “serão” pois de dia havia mil e um trabalhos que não davam descanso. No jardim central há 5 chaves (3 amarelas e 2 brancas). A presença destas é que faz surgir a hipótese de ter sido feito já como casada – seria que estes símbolos se referiam (como noutros casos) ao nascimento de crianças? Este casal teve 5 filhos – 3 rapazes (serão lembrados nas 3 chaves amareladas?). As 2 raparigas (serão as chaves brancas?) Os filhos 14 - Foi – talvez posteriormente “embaínhado” e cosido à máquina. Na altura da “obra” primitiva seria quase impossível fazê-lo. Seria talvez para lhe dar mais consistência? Foi rematado por pequena espiguilha branca. 20

foram o António José o Manuel Joaquim e Bento José. A 1ª filha foi a Florinda Rosa – a mais jovem foi a avó da Dª Natércia nascida a 25 de Maio de 1881. Exibe ainda “singelo” brasão, encimado pelo desenho duma “custódia” que remata por pequenina cruz. À volta, 2 ramos de flores, entrelaçados na base rematando junto aos corações (2- Ele e Ela) que são salpicados com pétalas brancas muito pequeninas. Nos 4 cantos exteriores, 4 ramalhetes todos desiguais. Entre estes, os versos da “Mensagem de Amor” - bordados a ponto de cruz – que assim “reza”. Amor és meu jura mento De te Amar Qon Lialdade Até Urtimo mumento Filha – Natércia de Jesus Pinto Lopes Martins Figueiredo Mãe – Alaíde das Dores Pinto L. Martins Avó – Rosalina Pinto Lopes Bisavó – Rosa Florinda Enes O lenço da Tércinha (feito pela bisavó) 21

O Lenço prá Elisabete O desenho executado a vermelho, em ponto cruz, foi bordado pela mãe. Foi copiado à lupa e desenhado em papel quadriculado pelo original (lenço da Manina). A “recuperação” dos motivos levou cerca de 2 meses pela sua complexidade, minúcia e fraca visibilidade. Havia que o fazer lentamente para lhe não roubar “fidelidade”. Quis fazê-lo o mais corretamente possivel. Bordados em linho industrial foram elaborados 2 exemplares. Um para a filha. Outro para a médica que tratava tão sábia e carinhosamente seu filho Paulo César. Para a querida Drª. Luisa Viterbo- IPO, Porto. Os dois eram iguais. Diferiam apenas na mensagem que transmitiam. Um dizia assim: Bai Lenço felis Buando Lubar amor e gratidão O lugar dus “Bos Amigos” É dentro do Curação 15 O outro: Bai lenço feliz Buando De Valença a Ribeirão Leba deseijus de saúde E amor no Coração 16 15 - Dr.ª Luisa Viterbo 16 - Da Beta 22

Fez-se também um “Marco” (quadro de carinho e amor) para o meu filho Paulo César, oferecer aos amigos queridos do Piso 10 (IPO – Porto) onde esteve internado. Bai lensu felis buando Nas azas du passarinho Bai lubar ó “Piso 10” A gratidão do Paulinho 23

Algumas quadras de Lenços dos Namorados E “rezavam” assim Bai 17 Amor Felis buando No vico 18 dum passarinho Bai amodo 19 e cum caurma 20 Num bás cair nu caminho A Também esta quadra podia terminar com: A – Num te percas no caminho ou A – Bé se num cais no caminho ou Tem coidado Amorzinho A jura que nós trucamos Birou fonte d'alegria Feluresceu, deu reventus Temos tanto Amor na Bida Estas coizas du Amor Estas sinas do Amor Som coizas cum tanta forsa Que ninguém save mudar 17 - recolha efetuada em Gandra – Subportela, Cerdal e D. Isabel (Mata Sete – Valença) 18 - vico (e ou também azas) 19 - amodo (devagar) 20 - caurma (com calma – tranquilo) 24

Meu Amor precura ser Peçoa hunesta e pura O gado de boua rês Tem sempre grande precura Meu Amor, precura ser Um home d'embregadura Animal do boa rês Tem sempre grande precura Garda todo este Amor Num olhes á fremusora Sentimentos são da aurma 21 A belesa pouco dura Toma lá este lensinho Bordadinho a presseito Leba dentro grande Amor Mete-o dentro do teu peito As augas do rio corrím Depressinha para o mar Meu curasson pra ti corre Num o queiras despresar Bai, lensu, felis depreça bai le dezer que le quero Tras me resposta das boas Que m'asseita assim ispero 21 - São da aurma - alma 25

Este lensinho de Gandra Ingauzinho òs de Cerdal Significam grandes amores Falam d'amores sem igual Asseita, meu Bem, asseita Este amor sem condissões Seremos munto felizes Oube os nossos curações Este lensu leba Amor Mesturado com Çaudade Asseita a minha franqueza De quem te quer cum Berdade Este lensu, leba Amor Meu Amor, não digas Não Se não me queres asseitar Rebentas me o curassão Este lensu branco a Buar Iscrito cum tanto ferbor Leba nas letras bordadas Carinho, Pas e Amor À tua sinta 22 meu Bem Pendura este lensu bordado Leba-te, porque lo pessu, O Amor do teu Amado 22 - na cinta da saia-cós 26

Ai quem diga meu Amor Dar lensus é separação Mais eu sei qu'assim não é Nas coisas do curação Este lensu, vranco e puro A bermeilho burdadinho Bai luvar, ó meu Amor Um avrassu e um beijinho O vermeilho é cor de sangue O negro cor da paixão Burdei açim este lensu Pr'ofresser ó meu João Meu Amor. Tem. Confiança Na. Promeça, Que te Fis Brebemente. Hei-de . Ser. Tua. Chegando. Um Dia Feliz. Este lensu te ofressu Cum amor e gratidão O teu lugar, meu Amigo É dentro do coração Meu Amor bai pró Brasil Eu tamem bou no bapor Gardada no coração Daquele qu'é meu Amor Este lensu eu Vurdei Cum todo o meu Ferbor Coloca-o ao pescosso Pra seres o meu Amor 27

Num sei se terás outros lensus Dados por outro Amor Mas cum tanto centimento Num o terás, não sinhor... Amor, asseita este lensu Vurdado com pombas mansas Lebam-te amor e pas E Bentura no que aucansas 23 Nossa Sinhora deu um lensu De respeito ó Bom Jesus Eu cumpro igual centimento No carinho qu'aqui pus Tu és rico, eu sou povre Pouco tenho pra te dar Mesmo assim bordei-te um lenço Que te pessu, bás uzar! Este lensu te ufressu Num digas que eu to dei Porque num tenho dinheiro E pensam qu'eu o tirei 24 23 - naquilo que se pretendia 24 - tirei - roubei 28

Sou felis borboleta pousada no teu olhar Não me deiches de cá sair, o teu curação é o meu lugar Este lençu tem quatro enfeites e esta quadra para te fazer saber O meu curação tem quatro cantos todos te chamão e querem prender 25 Desenhos da autora de 1955 29

E virão mais e mais Vamos descobri-las!... Pra Valença, eu vurdei Um lensinho case nobo Em cada ponta um suspiro E no meio...eu te adoro A siuva com seu areo No caminho prende a roupa Assim tu me prendeste a mim Com uma forsa de ...louca Valença aventurosa Amores do meu curaçon Cheia de velhas muralhas Faz biber a tradição O setru nasceu pró Rei E a crooa pró coroar Tudo nasce cum destino eu nassi “Pra t'amar” Bai Amor, feliz buando Nas asas do corassão Bai beijar esta Valença Cheiinha de tradição Toma lá esta lemvrança E um raminho de flores Se puderes leba-os a Valença Pra rebiber belhus Amores 30

O rio mai las muralhas iternos apaichonados Desserto, tamem trucaram Um lensu de namorados Valença e o rio Minho Iternos apaixonados Grabaram o seu grande Amor Num lensu de namorados Já num teinho curaçon Que mu tirarum du peito Onde eu tinha o coração Nasçeu – mum amor prufeito 31

Uns lenços tinham quadras, outros ...mensagens que falavam de Amor!... Ás vezes a “Quadra” era substituída por um pensamento ou apenas mensagem como a do escritor minhoto “Camilo Castelo Branco” que está escrita neste exemplar e diz: “A rosa lá a lh'a deixei... Terei eu na terra quem... Uma flor me dê também!?...” Ou esta, com raízes em Camões e que dizia: Na Terra Amei-te e Tu... Alma Minha gentil Tão cedo partiste! No céu, recebe, este lenço de Amor. Envolvia um “bouquet” colocado na sepultura do seu Amor. 32

Ás vezes os Amores não corriam bem! (Davam pró torto!...) Meu amor, manda-mo lensu O lensu que te bordei!... Puzeste-me um “par de cornos” Num o negues. Eu bem sei O lensu que tu me destes Era fraco e rasgou se O Amor que tu me tinhas Era pouco e...acabouce O lensu que to me destes Nem u dei nem o predi Deitei-o da ponte abaixo Tamém te deitaba a ti Havia muitos “namorados” que iam para o Brasil e “Américas” e na volta traziam anéis para as suas queridas. Mas, também acontecia haver “arrufos” e zangas. O aneu que tu me destes Nem o dei nem o bendi Deitei-o da ponte abaixo Tamem te deitava a ti O aneu que tu mandastes Era de bidro, cubrou-se 26 O Amor qu'ele trazia Era pouco. Acabou-se 26 - partiu-se; quebrou-se 33

Havia também certas “exigências” do querido que “maressiam respostas” nem sempre muito “meiguinhas”!... O meu Amor quer que eu tenha juízo e capacidade tenha ele que é mais ve lho Eu sou de menor idade!... Meu Amor, num me precures Pro coizinhas qu'eu cá sei! Mandame aquele lensinho O lençu qu'eu te burdei 27 27 - Quando os “namorados” se zangavam havia que devolver as prendas, mesmo as cartas trocadas entre si e sobretudo os lenços 34

Recolha de alguns Modelos de lenços (em ponto Cruz) Transcrição das escritas Exterior AM ORH ADE NA OS A AMI SAD EACE BAR CUA ND OES TAPO MBA BOA (Amor, há-de a nossa amizade acabar quando esta pomba voar) Interior OT EULADOSATISFEITA PASSOANO UTEIUDIA SOTUES U M E U E NCANT OAM I NHADOCE.ALEGRIA (Ao teu lado satisfeita / passo a noite e o dia/ só tu és o meu encanto/ a minha doce alegria) ANNO 1911 AMOR 35

Transcrição das escritas E INHORDAM INHA AL.O A . M .R.NHIOR AEI . STPMTS ARM (Só tu es u meu entanto a / minha doce alegria ot/ Eu lado satisfeita passa a / noute e o dia em p.) Transcrição das escritas Exterior: Adeus crabo Adeus flor Adeus anjo Adeus amor Interior: Maria das Sinco Xagas de Jesus 36

Transcrição das escritas Interior: VAILENÇO AVENTUTOSO AS MAOS DO MEU DOCE BEM EU CA FICO SUSPIRANDO POR NÃO PODER IR TAMBÉM Exterior: SOU AMANTE SEI DE QUEM SEREI MAIS SE FOR POSSIVEL POIS SÓ TEU SEREI MEU BEM SOU AFAVEL SOU SENSIVEL Material Utilizado: pano de cambraia de linho, linhas de bordar de cor vermelha e preta, lantejoulas Transcrição das escritas A ROSAPE LO UMANOEL ISTA SE EMPRE SUSPIRAR (A Rosa pelo Manuel está sempre a suspirar) 37

Transcrição das escritas q UATRAPONTAS TEM OL ENCOqUATRORAMOSFL LORIDOSLANO MEIO ADEACH ARNOSSOCORACOESU. (Quatro pontas tem o lenço / quatro ramos floridos/lá no meio há-de achar/ nossos corações u. (unidos)) Transcrição das escritas ABRE.ULENÇO.I.BERAS qUATRO.R.AMOS.FELOR.IDOS NO MEIU.DELE.BER.AS NO.S.SO.qURACOIS.UNIDOS (Abre o lenço e verás / quatro ramos floridos/no meio dele verás/nossos corações unidos) 38

Transcrição das escritas A.M. Transcrição das escritas Assim como neste lenço Os fios unidos estão Assim esteja minha alma Unida ao teu coração 1912 39

Transcrição das escritas Exterior: NSADJ AMURJ JRMELE NBRA Interior: AMIZADE.LEB RE.DEROSA.PAR ENTABORLIDA ANU.d19010 Transcrição das escritas Exterior: Adeus crabo Adeus flor Adeus anjo Adeus amor Interior: Maria das sinco Xagas de Jesus 40

Transcrição das escritas IAVAILENÇODAMINHAMAO. VAICORRERAFREG UESIA VAIDAREMFORMACOES DA MINHASABEDOR (Vai lenço da minha mão/Vai correr a freguesia/ Vai dar a informação/Da minha sabedoria) 1918 Transcrição das escritas ...para lisboa te mandei Um jencinho quasi novo Em cada ponta seu suspiro no meio dos ais que eu morro... 41

Transcrição das escritas MEU AMOR TEM CONFIANCO NA PROMECA QUE TE FIS BREBEMENTE HEIDE SER TUA CHEGANDO UM DIA FELIS 42

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