advertisement

O papel de guillaume apollinaire nas vanguardas europeias

50 %
50 %
advertisement
Information about O papel de guillaume apollinaire nas vanguardas europeias
Education

Published on March 10, 2014

Author: vaniele17

Source: slideshare.net

Description

o papel de guillaume apollinaire nas vanguardas europeias
advertisement

VI Congresso Nacional Associação Portuguesa de Literatura Comparada / X Colóquio de Outono Comemorativo das Vanguardas – Universidade do Minho 2009/2010 1 O papel de Guillaume Apollinaire nas vanguardas europeias Silvana Vieira da Silva (UNESP-FCL-Araraquara, Brasil) As vanguardas, esses movimentos radicais que surgiram nas primeiras décadas do século, alteraram os rumos das artes, principalmente os da pintura e da literatura. Com o Futurismo de Marinetti em 1909, o Expressionismo alemão no ano seguinte, o Cubismo, em 1913, o Dadaísmo, em 1916 e, oito anos mais tarde, o Surrealismo, o mundo conheceu novas atitudes artísticas que tinham como objetivo um maior questionamento dos valores da época e uma revolução em relação à herança cultural recebida até então. Esses movimentos já estavam germinando no Romantismo e no Simbolismo do século anterior. Em 1909, Filippo Tomaso Marinetti, em seu manifesto futurista, divulgado pelo jornal francês Le Figaro, vem preconizar uma total ruptura com a tradição e pregar uma nova estética, movida pela “beleza da velocidade” e por muita energia, à imagem e semelhança da máquina. A violência, retratada pela enaltecida guerra – guerra sola igiene del mondo –, é a pedra de toque de seu manifesto. Assim, minimiza ainda mais o valor do ser humano para a época: para Marinetti, o sofrimento de um homem pode ser comparado a o de uma lâmpada atingida pelo curto-circuito, fazendo que homens e objetos se localizem em um mesmo plano. Para Guillaume Apollinaire (1880-1918), simpatizante do futurismo (mas não de Marinetti), essa afirmação não foi levada muito em conta; reconhece-se que em seus poemas o homem e seus sentimentos são levados em consideração, ainda que sejam os próprios sentimentos do poeta que importem. O que

VI Congresso Nacional Associação Portuguesa de Literatura Comparada / X Colóquio de Outono Comemorativo das Vanguardas – Universidade do Minho 2009/2010 2 Apollinaire conservou do futurismo foi o fascínio pela máquina, pela velocidade e pela tecnologia da época, então em plena efervescência. O fascínio pela guerra une-o também ao movimento de Marinetti, e ambos foram execrados por causa disso. No campo da literatura, mais especificamente, Apollinaire apegou-se ao culto do verso livre, princípio defendido na primeira fase do Futurismo (1905-1909), e às “palavras em liberdade”, objetivo da segunda fase (1909-1914). Em 1913, mais como divertimento do que como verdadeira adesão às idéias de Marinetti, Apollinaire publica L’antitradition futuriste, um “manifesto-síntese”, partidário do movimento futurista. Conforme assinalam Caizergues & Décaudin, nas Oeuvres em prose complètes II, o texto do poeta suscitou apenas algumas reações irônicas ou irritadas por parte da imprensa, e, para infelicidade de Marinetti, não provocou nenhuma grande polêmica. O mentor do movimento futurista queria aproximar a vanguarda italiana da francesa por meio desse texto, mas não teve sucesso... Utilizando diferentes tipos gráficos, com palavras em maiúsculas, negrito, destacadas, Apollinaire faz um tipo de composição caligramática, por assim dizer, sintetizando algumas das idéias centrais do Futurismo, como por exemplo: DY AMISME PLASTIQUE MOTS E LIBERTÉ I VE TIO DES MOTS ou ainda “Imagination sans fils”. Além disso, o poeta elenca vários nomes de escritores em listas distintas, iniciadas pelas palavras “MER . . . . . DE . . . . . aux” e “R O S E aux”, incluindo-se nesta última lista, ao lado de Picasso, Marinetti, Stravinsky e Marcel Duchamp, entre outros. Na lista menos aquinhoada pelo poeta, encontram-se Goethe,

VI Congresso Nacional Associação Portuguesa de Literatura Comparada / X Colóquio de Outono Comemorativo das Vanguardas – Universidade do Minho 2009/2010 3 Shakespeare, Poe, Baudelaire, entre nomes de profissões, cidades, alguns neologismos e adjetivos (Apollinaire, 1991, p. 937-39). Um grande impulso recebido pelas vanguardas vem da aproximação entre pintores e poetas, criando pontos comuns entre as duas artes. Blaise Cendrars escreve La prose du Transsibérien, poema ilustrado pela pintora francesa Sonia Delaunay, que funde as duas artes e batiza esse encontro de forma definitiva. A pintura, que tanto pode reproduzir o real quanto o decompor, imita-o ou distorce-o, em uma tentativa de traduzir as realidades do mundo moderno, do mundo movido à velocidade. Nasce assim o cubismo, celebrado entusiasticamente por Apollinaire, figura decisiva para a consolidação do movimento, e que, nesse momento, publica uma espécie de manifesto no qual o esforço de conjugar destruição e construção é latente, contrariando, de certa forma, o movimento futurista. Poetas e pintores unem-se em prol de uma renovação artística, trocam informações e sensações, apropriam-se e assimilam técnicas uns dos outros; dessa maneira, a pintura e a poesia ligadas a esse movimento teriam a mesma particularidade: uma realidade simultaneamente apresentada de forma fragmentada e sobreposta. Apollinaire tece teorias em torno do movimento; para ele, “jamais se descobrirá a realidade de uma vez por todas. A verdade será sempre nova.” (Ibidem, p. 8) Além disso, insiste na ligação entre poetas e pintores: “Os grandes poetas e os grandes artistas têm como função social renovar incessantemente a aparência que reveste a natureza aos olhos dos homens.” (Ibidem, p. 12) Há especulações sobre as relações entre a composição de “Zone”, poema que inaugura a coletânea apollinariana que tem como título Alcools, e o primeiro contato do poeta com o quadro de Picasso, Les demoiselles d’Avignon, em 1907, o qual o teria surpreendido e desencadeado uma mudança radical em seus versos a partir de então. Assim,

VI Congresso Nacional Associação Portuguesa de Literatura Comparada / X Colóquio de Outono Comemorativo das Vanguardas – Universidade do Minho 2009/2010 4 “Zone” seria o correspondente lingüístico da tela, inaugurando uma nova tendência vanguardista. Na mesma ocasião, Apollinaire inventa os “poemas-conversação”, os “poemas simultâneos” – conceito calcado justamente no cubismo – e, finalmente, os “idéogrammes lyriques”, isto é, os calligrammes. A fragmentação, a colagem “e seus cognatos – montagem, construção, assemblage – estavam exercendo um papel central tanto nas artes verbais quanto nas visuais”, afirma Marjorie Perloff (1993, p. 99). Além destas, os cortes, as superposições e a simultaneidade, que criam novas perspectivas da realidade, são práticas extraídas dos conceitos cubistas, com os quais Apollinaire soube trabalhar principalmente em sua obra poética. Em um segundo momento, após o espanto trazido pela guerra, os ânimos novamente exaltam-se, e as idéias contidas no esprit nouveau são reforçadas e postas em prática, arrebatando jovens poetas como Philippe Soupault, André Breton e Louis Aragon. Um pouco depois, Tristan Tzara entra em cena com seu Dadaísmo. Max Jacob considera o período “le siècle Apollinaire”, o século “éclaté” (In Décaudin & Leuwers, 1996, p. 146). Os “detritos das grandes cidades”, que Apollinaire tão bem soube condensar em “Zone”, os fragmentos do mundo real, são reelaborados, formando figuras que não se ajustam mais, com fendas profundas que a poesia não quer calcificar, mas sim aprofundar. A questão da fragmentação é aqui retomada várias vezes porque envolve outras tensões da lírica moderna, estendida a outras expressões artísticas, bem entendido, como por exemplo o fato de a fantasia decompor e recompor o real, a seu gosto; isso cria um novo mundo muito particular, com espaço e tempo abolidos, tendo também como ponte o simultaneísmo, invertendo a ordem de todas as coisas.

VI Congresso Nacional Associação Portuguesa de Literatura Comparada / X Colóquio de Outono Comemorativo das Vanguardas – Universidade do Minho 2009/2010 5 Metáforas cada vez mais ousadas, que criam ligações antes impensáveis e que tentam transformar esse mundo especial, são criadas, combinações desconcertantes chegam ao ponto de o completamente distinto tornar-se idêntico. A concisão máxima torna- se qualidade de bons versos, causando estranhamento; o “soleil cou coupé” que fecha “Zone” é prova desse efeito. Dessa forma, a realidade desmembrada ou dilacerada pela violência da fantasia jaz na poesia como campo de ruínas. Acima deste encontram-se irrealidades forçadas, mas ruínas e irrealidades encerram o mistério e, por este, os poetas líricos compõem versos. [...] Os poetas estão sós com a linguagem. Mas também só a linguagem pode salvá-los. (Friedrich, 1978, p. 211) Apollinaire, homem à frente do seu tempo e poeta de sentidos aguçados, soube captar todos esses fenômenos e trabalhá-los a serviço da lírica moderna. **** O otimismo relacionado ao final do período do pós-guerra, isto é, pós 1918, traz à tona escritos como L’Esprit nouveau et les poètes, de Guillaume Apollinaire, de 1918, ano da morte do poeta: L’esprit nouveau qui s’annonce prétend avant tout hériter des classiques un solide bon sens, un esprit critique assuré, des vues d’ensemble sur l’univers et dans l’âme humaine, et le sens du devoir qui dépouille les sentiments et en limite ou plutôt en contient les manifestations (Apollinaire 1991: 943). É desse espírito novo e do dadaísmo que surge o surrealismo, em 1924.

VI Congresso Nacional Associação Portuguesa de Literatura Comparada / X Colóquio de Outono Comemorativo das Vanguardas – Universidade do Minho 2009/2010 6 A obra de Guillaume Apollinaire apresenta duas características distintas que se entrelaçam. De um lado, tem-se a presença marcante de poemas neo-simbolistas cujos aspectos narrativos se evidenciam no uso que o poeta faz de diferentes modalidades de fábula. De outro, pode-se notar a produção de composições essencialmente líricas. Porém, em um dado momento, ambas as facetas contidas na poesia apollinariana encontram-se, revelando, assim, uma estreita interrelação entre elas. Percebe-se então que o poeta transita entre o simbolismo morredouro do início do século XX e as técnicas cantadas pelas vanguardas, com equilíbrio e desenvoltura. Seu trabalho poético aponta para criações nas quais lírica e fábula estão intimamente correlacionadas e demonstra um equilíbrio que perpassa toda sua obra. Como outros poetas de sua geração, Guillaume Apollinaire soube aproveitar-se muito bem dos novos fundamentos da teoria da modernidade inaugurada por Charles Baudelaire. Em sua conferência sobre L’Esprit ouveau, o poeta de “Zone” oferece a seus contemporâneos muitos elementos da teoria baudelairiana. Alguns pontos foram conservados, outros, modificados. Inicialmente, Apollinaire anuncia o que pretende: ao contrário da vanguarda estética do começo do século XX, não renega o passado, pois, segundo ele, os clássicos deixam como herança aquele “solide bon sens, un esprit critique assuré, des vues d’ensemble sur l’univers et dans l’âme humaine, et le sens du devoir qui dépouille les sentiments et en limite ou plutôt en contient les manifestations”, como citamos acima (Apollinaire 1991: 943). Um pouco mais adiante, ele exalta ainda a ordem imposta pelos clássicos. Os românticos são igualmente lembrados por Apollinaire: segundo ele, a curiosidade daqueles deve ser considerada. É então após essas explicações preliminares que ele revela seus

VI Congresso Nacional Associação Portuguesa de Literatura Comparada / X Colóquio de Outono Comemorativo das Vanguardas – Universidade do Minho 2009/2010 7 verdadeiros objetivos: “Explorer la vérité, la chercher, aussi bien dans le domaine ethnique, par exemple, que dans celui de l’imagination, voilà les principaux caractères de cet esprit nouveau.” (Apollinaire 1991: 943). A imaginação é uma palavra-chave na obra teórica de Baudelaire e também na de Apollinaire. Para ele, ela produz la sensation du neuf, é la reine des facultés que transforma o universo visível segundo suas próprias leis. Graças à imaginação, a natureza será transformada: é o triunfo do artificial, a paisagem torna-se orgânica. O poeta das “Correspondances” considera a cidade hedionda, plena de uma beleza artificial. Os cidadãos sentem angústia diante do anonimato. Não se pode mais reconhecer as pessoas nas ruas. Elas são apenas passantes anônimos, fragmentos de uma multidão que se entedia e que vive em uma cidade cheia de máquinas, esses êtres formidables com os quais l’homme est familiarisé, segundo Apollinaire, completamente maravilhado com elas, sobretudo após ter visto seu crânio radiografado. Esse novo universo estará presente nos poemas de Apollinaire e esse impulso tecnológico será creditado pelo poeta à imaginação. Sua composição mais célebre, “Zone”, é recheada de temas trazidos por essa “fièvre apollinairienne du nouveau”: os automóveis, “les hangars de Port-Aviation”, “les prospectus les catalogues les affiches” que o próprio poeta considera poesia, os jornais, o avião, os aviadores, “la volante machine” (Apollinaire 1994: 39-40) estão todos misturados e rodeados por um ritmo tão frenético quanto sua época. Segundo Antoine Compagnon, em Les cinq paradoxes de la modernité, “la ville, le peuple, le quotidien, qui forment la matière des Fleurs du Mal et du Spleen de Paris, deviennent poétiques, mais moins pour eux-mêmes qu’au nom d’un projet qui les nie et extrait d’eux de quoi renouveler le grand art, par l’imagination qui les traverse de correspondances” (Compagnon 1990: 32. Grifo nosso). Para Baudelaire, essas correspondências estão intimamente ligadas a sua nova

VI Congresso Nacional Associação Portuguesa de Literatura Comparada / X Colóquio de Outono Comemorativo das Vanguardas – Universidade do Minho 2009/2010 8 maneira de ver o mundo, onde tudo deve corresponder a tudo: os elementos da natureza, várias sensações, as emoções, as idéias, as formas... Pode-se dizer que Baudelaire, seguindo esses conceitos, os aplicará em sua poesia mesclando-os aos temas que a modernidade traz, já que ele os transformou em motivos poéticos conhecidos por todos. Para Apollinaire, essas relações, essas correspondências se manifestam no jogo que o poeta faz com o passado e o presente. Esse traço aparece em dois níveis diferentes: um , entre o passado pessoal do poeta e seu próprio presente; outro, entre o passado da própria humanidade e o presente pertencente a todos. Em seus poemas, Apollinaire oferece ao leitor vários exemplos desse artifício. Em “Zone”, por exemplo, esse duplo passado que está mesclado ao presente tanto pode ser a antigüidade greco-romana quanto a própria infância do poeta: “Voilà la jeune rue et tu n’es encore qu’un petit enfant/ Ta mère ne t’habille que de bleu et de blanc” (Apollinaire 1994: 40) e os automóveis passeiam em plena harmonia e correspondência. Em alguns poemas de seu ciclo renano, que correspondem a uma renovação estética e que “semblent retrouver, par-delà le Symbolisme finissant, l’esprit des premiers poètes symbolistes et s’apparentent par certains aspects aux compositions baudelairiennes et verlainiennes”, pode-se notar a presença de uma coreespondência entre “la nature et l’homme qui participent de la même émotion” (Bégué & Lartigue 1973: 34). Eis mais um ponto de contato entre Baudelaire et Apollinaire. Baudelaire não aprova a destruição da ilusão da realidade. Pelo contrário, com Apollinaire, a partir da mudança do conceito de beleza que essas transformações trouxeram, a literatura será submetida a um novo ponto de vista. A desconstrução da realidade, promovida também pela imaginação, engendrará um novo mundo que recusará a trivialidade cotidiana. É preciso decompor e reconstruir; como se se “colasse” um novo

VI Congresso Nacional Associação Portuguesa de Literatura Comparada / X Colóquio de Outono Comemorativo das Vanguardas – Universidade do Minho 2009/2010 9 universo. Tudo torna-se poético, mesmo se essas experiências sejam, algumas vezes, “pouco líricas”. O que é importante é a busca da verdade, da novidade que esse novo mundo oferece. Assim, Apollinaire pratica a técnica da colagem, prática propagada entre os artistas plásticos e adaptada à poesia. Essa prática torna-se, de certa maneira, uma montagem, e há aqui um outro tipo de correspondência: a correspondência entre as artes. Essa atitude do poeta revela a necessidade que ele tem de compreender “le sens d’une réalité intérieure plus profonde et plus secrète, qui serait née du contraste des matériaux employés directement comme des choses juxtaposées aux éléments lyriques.” (Gino Severini, apud Perloff 1993: 98. É o autor quem sublinha). Do lado do leitor, a montagem é um verdadeiro desafio, porque é necessário ler os sinais e decodificar os símbolos, tomar os traços desordenados e colocá-los em uma sequência mais organizada. Eis a ordem clássica que regressa... Esse artificialismo atingirá também as próprias formas tipográficas. Em Baudelaire, esse aspecto não será desenvolvido; por outro lado, em Apollinaire haverá os célebres calligrammes. Segundo ele, essas audácias são apenas “lyrisme visuel”, em uma busca pessoal para “aboutir à des nouvelles expressions parfaitement légitimes”. Por meio dos caligramas, Apollinaire busca uma outra forma de correspondência, empregando aí as palavras como um instrumento de expressão poética, porém, utilizando-as como se elas pertencessem ao universo plástico e não lingüístico. Ele desloca a linguagem de seu próprio universo para tentar atingir a verdade proposta no início de sua conferência sobre L’Esprit ouveau. Contudo, segundo o poeta, “cette synthèse des arts, qui s’est consommée de notre temps, ne doit pas dégénérer en une confusion. C’est-à-dire qu’il serait sinon dangereux du moins absurde, par exemple, de réduire la poésie à une sorte d’harmonie imitative qui n’aurait même pas pour excuse d’être exacte.” (Apollinaire 1990: 946-47).

VI Congresso Nacional Associação Portuguesa de Literatura Comparada / X Colóquio de Outono Comemorativo das Vanguardas – Universidade do Minho 2009/2010 10 Através da busca de novas formas de expressão para escapar dos lugares-comuns, o poeta desempenha o papel do descobridor que, por causa de sua curiosidade, chega a lugares insólitos. Esse gênero de manifestação também é exaltada por Apollinaire: é preciso, antes de mais nada, explorar, buscar a verdade no domínio da imaginação, mesmo se essas experências literárias são, algumas vezes, “arriscadas”, já que o lirismo é apenas un domaine de l’esprit nouveau dans la poésie d’aujourd’hui, qui se contente souvent de recherches, d’investigations, sans se préoccuper de leur donner de signification lyrique. Ce sont des matériaux qu’amasse le poète, qu’amasse l’esprit nouveau, et ces matériaux formeront un fond de vérité dont la simplicité, la modestie ne doit point rebuter, car les conséquences, les résultats peuvent être de grandes, de bien grandes choses. (Apollinaire 1990: 948). Todos esses conceitos estão intrinsicamente ligados e vão refletir diretamente na relação entre a arte e a vida. Aqui, pode-se notar um outro ponto de contato entre Baudelaire e Apollinaire: ambos misturam sua vida a sua obra. É, segundo Compagnon, “l’attachement de la tradition moderne à la rédemption par l’art, censé racheter la vie et l’expérience” (Compagnon 1990: 64). Baudelaire é o representante capital do dândi, é sua própria encarnação. Para ele, o dândi “doit aspirer à être sublime sans interruption”. Apollinaire, por sua vez, vive como um dândi, mas um pouco às avessas: o que ele não mostra em seu físico, transparece em atitude, em expressão. Essa expressão revela-se na composição de Alcools. Essa coletânea foi composta como um itinerário sentimental das viagens e dos amores de Apollinaire, o que demonstra uma estreita relação entre a vida e a obra do poeta. É perigoso seguir uma seqüência cronológica, mas pode-se notar aí alguns “ciclos”. Há poemas de inspiração simbolista, outros de inspiração renana, ciclos que

VI Congresso Nacional Associação Portuguesa de Literatura Comparada / X Colóquio de Outono Comemorativo das Vanguardas – Universidade do Minho 2009/2010 11 correspondem às grandes paixões de sua vida – o ciclo de Annie, o ciclo de Marie... Como a produção dessa coletânea corresponde a um período de produção poética de catorze anos, quase três quarto de sua carreira, esse aspecto deve ser considerado. De “Zone”, o poema inaugural de Alcools, a “Vendémiaire”, aquele que o fecha, há uma evolução sentimental que vai de um pessimismo inicial até um pensamento otimista, o que não corresponde exatamente às fases de sua vida, mas pode-se ainda encontrar nessa aparente “desordem”, uma ordem quase cubista, isto é, fragmentária, semelhante a seu próprio trabalho de montagem que o aproximou das artes plásticas e, conseqüentemente, das colagens de Picasso e de Braque. Assim, pode-se aprovar a teoria de Claude Bégué, que afirma que a coletânea “a pour origine un principe cubiste de composition, c’est-à-dire l’abandon d’une perspective unique pour une ordonnance rigoureuse autant que fragmentée, qui privilégie la multiplicité de points de vue (les différents poèmes) présentés simultanément” (Bégué & Lartigue 1973: 19); e com essa essa atitude, o leitor é forçado a descobrir as leis que regem a experiência temporal do poeta e seu espaço “avant d’en établir le sens” (Ph. Renaud, apud Bégué & Lartigue 1973: 19). Essa postura por parte do poeta, forçando o leitor a realizar esse percurso sinuoso provocará surpresas, a grande novidade da época quando se fala de literatura e, conseqüentemente, de poesia. Apollinaire, nas últimas linhas de L’Esprit ouveau, emprega a palavra, fazendo a ligação entre a essência de sua teoria, sua época e o termo: “L’esprit nouveau est celui du temps même où nous vivons. Un temps fertile en surprises. Les poètes veulent dompter la prophétie, cette ardente cavale que l’on n’a jamais maîtrisée.” (Apollinaire 1991: 954). Para ele, a surpresa é “le grand ressort du nouveau”. Como aqui já foi assinalado, o próprio poeta está assombrado e surpreso com as máquinas e com o ritmo de sua época. Dessa forma, o poeta, considerado um criador e um inventor, vai

VI Congresso Nacional Associação Portuguesa de Literatura Comparada / X Colóquio de Outono Comemorativo das Vanguardas – Universidade do Minho 2009/2010 12 desenvolver técnicas para provocar a surpresa. Baudelaire utilizará esse recurso através dos contrastes das palavras, aproximando-as de palavras inesperadas. Apollinaire irá, por sua vez, produzir aproximações inesperadas. Essas aproximações se dão tanto no nível das palavras, como no nível dos versos isolados ou ainda de um poema inteiro, e resultam em novas montagens. Já é espantoso imaginar a torre Eiffel desempenhando o papel de uma pastora cujo rebanho é composto de pontes... No fundo, o que Apollinaire busca é sua própria identidade como poeta e parte em busca do mundo através de seu Esprit ouveau. Ele termina sua conferência dizendo: “Mais attendez, les prodiges parleront d’eux-mêmes et l’esprit nouveau, qui gonfle de vie l’univers, se manifestera formidablement dans les lettres, dans les arts et dans toutes les choses que l’on connaisse.” (Apollinaire 1991: 954) ODE À FÁBULA MODERNA: "ZONE" O longo poema inaugural de Alcools, "Zone" (156 versos), alvo de inúmeros estudos, é considerado, ao mesmo tempo, um comentário do fazer poético e um poema lírico, que abre a coletânea com uma proclamação: "A la fin tu es las de ce monde ancien". Lembra Lecherbonnier (1983, p . l l ) que para Apollinaire, defensor de Marinetti e do futurismo, o esplendor do mundo enriqueceu- se com uma "beleza nova". Paris é o cenário central do poema. A Torre Eiffel, naquele momento símbolo de uma nova era, transforma-se em pastora das pontes que balem na manhã. Os automóveis, hangares de porta-aviões, datilógrafas, sirenes, ônibus, "Ia grâce de cette rue industrielle", o gás, aeroplanos, máquinas em geral misturam-se freneticamente no delírio do poeta, que "viaja" em seus versos até Marselha, Coblence, Praga, Roma e Amsterdã, entre outras cidades.

VI Congresso Nacional Associação Portuguesa de Literatura Comparada / X Colóquio de Outono Comemorativo das Vanguardas – Universidade do Minho 2009/2010 13 Essa pequena amostra de elementos citadinos em apenas um poema anuncia a poesia da máquina e da cidade moderna, e eles servirão também à formulação de L'esprit nouveau et les poètes, frutos da surpresa do autor diante de toda essa evolução e da variedade de novas "atrações" que tem o homem do início do século XX. Neste poema, Apollinaire leva ao extremo a fragmentação e a simultaneidade: J'aime la grâce de cette rue industrielle Située à Paris entre la me Aumont-Thiéville et 1'avenue des Temes D 'Afrique arrivent les ibis les flamants les marabouts Et d'Amérique vient le petit colibri De Chine sont venus les pihis longs et souples ... Maintenant, tu marches dans Paris tout seul parmi la foule Entourée des flammes ferventes otre-Dame m'a regardé à Chartres Le sang de votre Sacré-Coeur m'a inondé à Montmartre Maintenant tu es au bord de la Méditerranée Tu es dans le jardin d'une auberge aux environs de Prague Te voici à Marseille au milieu des pastèques Te voici à Coblence à 1'hôtel du Géant Te voici à Rome assis sous un néflier du Japon Te voici à Amsterdam avec une jeune fille que tu trouves belle et qui est laide Tu es à Paris chez le juge d'instruction ... Tu as fait de douloureux et de joyeux voyages (Apollinaire, 1994, p.40-2)

VI Congresso Nacional Associação Portuguesa de Literatura Comparada / X Colóquio de Outono Comemorativo das Vanguardas – Universidade do Minho 2009/2010 14 Nessa seqüência fragmentada, observam-se ao mesmo tempo a simultaneidade e a desconstrução, a decomposição do espaçocidade, uma visão cubista e futurista, uma das características da lírica contemporânea. Na verdade, todos os espaços que aparecem nomeados em "Zone" nada mais são do que a tradução de um "cenário simultâneo de um único evento exterior e interior" (Friedrich, 1978, p.203). Mesmo se os momentos líricos ocupam um espaço considerável no poema, ainda assim podem ser encontradas nele características fabulares, de narrativa, quando, por exemplo, o poeta compara a Torre Eiffel a uma pastora, ou quando vê em Paris rodarem "Des troupeaux d'autobus mugissants près de toi" (Apollinaire, 1994, p.41). O poema remete a fatos da vida do poeta, como o rompimento com Marie Laurencin e a prisão equivocada à qual Apollinaire foi submetido. Traços modernos compõem essa nova lírica, como a ambigüidade, o jogo entre o je e o tu que designam alternadamente o poeta, épocas diferentes justapostas. Esses expedientes dão ao poema uma visão a distância do eu poético, que narra, do presente, os fatos vividos no passado. A fabulação também surge desse jogo: o poeta, em uma manhã, andando pela cidade de Paris, apresenta o que vê e faz associações com o pensamento, com a memória, que misturam ao presente fatos e momentos vividos em outros momentos e em outros locais. Desse modo, o que se tem é uma narrativa interior, que contrasta com a exterior e com ela se entrelaça. O que há de diferente nesse novo tipo de fabulação é o forte traço de modernidade desse procedimento, isto é, a fábula é reconstituída costurando-se os fragmentos, gerando então uma espécie de narração interior, tão entrecortada quanto a própria memória. Além disso, corroborando o primeiro verso de "Zone" - "A la fin tu es las de ce monde ancien" -, Apollinaire dá nova roupagem aos mitos antigos, mesclando-os a mitos

VI Congresso Nacional Associação Portuguesa de Literatura Comparada / X Colóquio de Outono Comemorativo das Vanguardas – Universidade do Minho 2009/2010 15 modernos. É evidente que os mitos modernos têm sua origem na mitologia antiga, e sua origem é de extrema importância. Mircea Eliade (1978, p.228-9) assinala que cartazes rasgados, telas em branco, vazias, queimadas, objetos de arte insólitos possuem uma significação de origem mítica, e Apollinaire soube ver essa relação e usá-la em seus poemas. Esse procedimento resgata o passado e, ao mesmo tempo, reveste o presente com novas características, como se registra nos seguintes versos: La religion seule est restée toute neuve la religion Est restée simple comme les hangars de Port-Aviation Cest le Christ qui monte au ciel mieux que les aviateurs Il detient le record du monde pour la hauteur Icare Enoch Elie Apollonius de Thyane Flottent autour du premier aéroplane (Apollinaire, 1994, p.39-40) Essas insólitas aproximações culminam quase no final do poema, momento em que Apollinaire compara o Cristo aos fetiches da Oceania e da Guiné, criando um sincretismo interessante: Tu marches vers Auteuil tu veux aller chez toi à pied Dormir parmi tes fétiches d'Océanie et de Guinée Ils sont des Christ d'une forme et d'une autre croyance Ce sont les Christ inférieurs des obscures espérances (ibidem, p.44) Assim, é relevante dizer que, em "Zone", considerado um poema-símbolo da modernidade - e não é sem razão que ele abre a coletânea mais importante de Apollinaire -, traços de narratividade, de fabulação, aparecem igualmente e condensam as idéias vanguardistas do início do século XX.

VI Congresso Nacional Associação Portuguesa de Literatura Comparada / X Colóquio de Outono Comemorativo das Vanguardas – Universidade do Minho 2009/2010 16 Gostaria de assinalar aqui também que no dia seguinte à apresentação desta comunicação, foram lembrados os 90 anos da morte de Apollinaire, em 09 de novembro. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS APOLLINAIRE, G. OEuvres en Prose Complètes II. Éd. de P. Caizergues et M. Décaudin. Paris, Gallimard, 1991 (Coll. Bibliothèque de la Pléiade). APOLLINAIRE, G. OEuvres Poétiques. Éd. de M. Adéma et M. Décaudin. Paris, Gallimard, 1994 (Coll. Bibliothèque de la Pléiade). BAUDELAIRE, C. Curiosités esthétiques, L'Art romantique et autres Oeuvres critiques. Paris: Garnier Frères, 1962. BEGUÉ, C. M. & LARTIGUE, P. Alcools – Apollinaire. Paris, Hatier, 1973 (Col. Profil d’une OEuvre, 25). COMPAGNON, A. Les Cinq Paradoxes de la Modernité. Paris, Seuil, 1990. ELIADE, M. Aspects du mythe. Paris: Gallimard, 1978. (Idées, 32). FRIEDRICH, H. Estrutura da lírica moderna: da metade do século XIX a meados do século XX. Trad. M. M. Curioni. São Paulo: Duas Cidades, 1978. (Problemas atuais e suas fontes, 3). PERLOFF, M. O Momento Futurista; avant-grade, avant-guerre, e a linguagem da ruptura. São Paulo, Edusp, 1993 (Col. Texto & Arte, 4).

Add a comment

Related presentations

Related pages

O papel de Guillaume Apollinaire nas vanguardas europeias

VI Congresso Nacional Associação Portuguesa de Literatura Comparada / X Colóquio de Outono Comemorativo das Vanguardas – Universidade do Minho 2009/2010
Read more

Vanguardas Européias - v-europeias.blogspot.com

Nas artes plásticas, o artista ... com o manifesto-síntese de Guillaume Apollinaire, ... das três vanguardas européias anteriores: o ...
Read more

Vanguardas europeias - Cláudio Balbino - Google Sites

Vanguardas europeias. ... Vanguardas artísticas que surgiram no continente europeu nas primeiras décadas do ... Guillaume Apollinaire, A Gravata e o ...
Read more

As vanguardas europeias - Documents

As Vanguardas Europeias Apresentação sobre Vanguardas Europeias. 3° Ano do Ensino Médio Vanguardas europeias Vanguardas europeias Vanguardas ...
Read more

Vanguardas europeias - Documents

Vanguardas europeias 1. vanguardas europeias 2. As vanguardas europeias foram manifestações artístico-literárias surgidas na Europa, nas duas ...
Read more

Cubismo - Mundo Educação

... Vanguardas europeias ... o Cubismo é retratado com maior ênfase nas ... com o manifesto-síntese de Guillaume Apollinaire, ...
Read more

As Vanguardas Européias

O expoente é o francês Guillaume Apollinaire ... inserido no contexto das vanguardas que viriam a definir o ... o surrealismo enfatiza o papel do ...
Read more

As Vanguardas Européias: Junho 2010

As Vanguardas Européias. ... O resultado são palavras soltas, ... O expoente é o francês Guillaume Apollinaire ...
Read more