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O jornalismo entrou na minha vida como válvula de escape: entrevista com Gervásio Luz.

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Books

Published on March 3, 2014

Author: viegasdacosta

Source: slideshare.net

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Entrevista concedida por Gervásio Luz a Viegas Fernandes da Costa e Eloísa Cristina Souza em maio de 2013.

Temas principais: memórias sobre o jornalismo em Blumenau, história cultural de Blumenau, memórias sobre a educação em Blumenau.
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“O jornalismo entrou na minha vida como válvula de escape” Entrevista com Gervásio Luz Viegas Fernandes da Costa1 Eloísa Cristina Souza2 INTRODUÇÃO Gervásio Luz é a memória viva da imprensa e da história intelectual do Vale do Itajaí a partir da segunda metade do século XX. Nasceu em 1942, no município de Rio do Sul, mas desde a juventude radicou-se em Blumenau, cidade que conhece intimamente. Incorporou o pseudônimo Tessaleno dos seus primeiros escritos ao nome, uma referência clara da sua pena ferina às rochas da grega Tessalônia. Tanto que há, ainda hoje, quem chame por Tessaleno ao Gervásio. Com breves passagens por Curitiba e pelo Rio de Janeiro (cidade esta que lhe “conformou a alma”, se me permitem a licença poética), Gervásio Luz dedicou sua história ao Magistério (do qual está aposentado), ao Jornalismo e à Literatura. Como professor, lecionou Língua Portuguesa, Oratória e Literatura em colégios importantes de Blumenau, como o Pedro II, o Santo Antônio e o Pontinho Estudantil. No Santo Antônio privou da amizade de Frei Odorico e dirigiu a Academia de Oratória Mont’Alverne. Foi professor de gerações. Na condição de jornalista, escreveu para os principais jornais do Vale do Itajaí, como Ronda, Tribuna, Vanguarda, A Nação, O Estado e Jornal de Santa Catarina, além de inúmeros jornais de menor expressão. Fundou e editou os jornais Opinião, Entrevista e Pommer Zeitung. Nesta entrevista, Gervásio tece um breve inventário da sua história de vida. Suas experiências no magistério, a amizade com Frei Odorico, sua militância no jornalismo e a candidatura ao legislativo blumenauense. Conta fatos curiosos de uma história pouco conhecida de Blumenau, como o empastelamento do jornal Ronda, a imprensa local nos tempos do Regime Militar e os bastidores da notícia na cidade, além de narrar suas memórias a respeito de personagens fundamentais da história intelectual e política blumenauense, como Norton Azambuja, Frei Odorico, Lindolf Bell, Geraldo Luz, Luís Antônio Soares, Martinho Bruning. Muitos são os personagens desfilam nas reminiscências de Gervásio Luz de forma inédita e íntima. A entrevista foi realizada na residência de Gervásio Luz, no bairro Garcia, em dois momentos, durante o mês de maio de 2013. Foi conduzida pelo historiador Viegas Fernandes da Costa, e acompanhada pela estudante de História da Universidade Regional de Blumenau, Eloísa Cristina Souza, responsável pela transcrição primária, para o site de literatura Sarau Eletrônico, mantido pela Biblioteca Universitária da FURB. Na primeira parte da entrevista também esteve presente o historiador Darlan Jevaer Schmitt. ENTREVISTA Para começarmos. gostaria que falasses da tua família. Quem são teus pais, tuas origens? 1 Viegas Fernandes da Costa: Historiador, professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Santa Catarina (IFSC) e mestrando do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade Regional de Blumenau (FURB). 2 Eloísa Cristina Souza: Acadêmica de História da Universidade Regional de Blumenau (FURB).

Meu pai, Ademar Luz, advogado, e minha mãe Elga Thieme Luz. Eram de Itajaí, casaram-se e foram morar em Rio do Sul. Papai formou-se pela Universidade Federal do Paraná, acho que teve certo receio em iniciar a profissão. Chegaram a Rio do Sul em 1941, eu nasci em 1942, 25 de agosto, dia do soldado, do militar. Papai foi nomeado pelo Nereu Ramos delegado, na época se exigia que o delegado fosse advogado. mas que engraçado, o papai foi muito liberal, muito inteligente, foi ele quem me iniciou na literatura quando achou que chegou a idade de eu ler, apontou autores. Cobrava, mas soube dosar. Isso me influenciou, inclusive, como professor, de orientar os alunos em termos de leitura. Bom, o papai citava muito o farmacêutico Guilherme Gemballa... Um dos fundadores da Universidade para o Desenvolvimento do Alto Vale do Itajaí. ... e o Dr. Erwino Gaertner, primeiro médico de Rio do Sul. Era época da guerra, e era aquela perseguição. Não se podia falar alemão. Papai ia tomar o seu café da manhã na rua em que eu nasci, Rua Sete de Setembro, onde tinha o café da Ford. À noite tomava o seu vinhozinho com esses dois amigos que eu mencionei, o médico e o farmacêutico. E o promotor da cidade, que era até casado com uma sobrinha de papai, denunciou o papai como protetor de nazistas. O Guilherme Gemballa e o Dr. Erwino seriam nazistas, e papai, sendo delegado, deveria prendê-los. Então, o Dr. Erwino procurou papai desesperado, “Acho que vou ser preso”. Papai disse, “Não, pega o primeiro ônibus, vai para Curitiba, te apresenta no NPOR3 – papai tinha se formado lá – e podes dar o meu nome, pede uma declaração de cidadania, brasilidade”. Assim fez o médico, chegou lá, apresentou-se ao comandante e falou que realmente era de origem alemã, que era costume falar alemão em casa, mas que ele era brasileiro antes de tudo. O filho chegou até a ser prefeito, era tabelião em Rio do Sul. Erwino voltou, “Ah, o militar começou a pressionar ‘mas o senhor não é mesmo nazista?’ – disse – ‘Ontem ouvi na Hora do Brasil o ministro da guerra – que era o Dutra, depois seria o presidente da República – em uma declaração”. Percebia-se bem que ele estava oscilando, assim como o próprio Getúlio, entre se aliar aos americanos ou então ficar com Hitler e seus seguidores. O comandante já se assustou. Era verdade. Enfim, ele voltou com o título de cidadão brasileiro. Bom, falaste da UNIDAVI, Universidade de Rio do Sul. Fui convidado ao lançamento de um livro de uma amiga de vários anos, Beatriz Pellizzetti, historiadora de Rio do Sul, filha de Ermembergo Pellizzetti, que foi deputado, prefeito de Rio do Sul, nome de praça na minha terra natal. Eu estava assistindo o lançamento do livro, saí para fumar um cigarro na Rua Sete, ao voltar, em uma antessala, mas que dava para o auditório onde ela estava assinando seu livro sobre a colonização italiana – ela é especialista nisso – , vi um senhor de terno, elegante, sentado, com as mãos já mostrando a idade com aquelas manchas próprias. Eu disse “O senhor é daqui?” – tinha cara de jornalista metido. “Não, sou de Curitiba”. O papo teria morrido por aí não fosse eu falar assim, “Eu nasci nessa rua”, ele “Nasceu aqui? Mas quem é você?” “Gervásio Luz, filho do Ademar e da Elguinha! O primeiro tapa na minha bundinha foi o senhor quem deu”. Naquele tempo o médico vinha em casa, meu parto foi feito em casa. Ele chamou um público e contou essa historinha, ele devia a vida dele ao meu pai, se não teria sido preso, o médico. Tudo por uma perseguição política tola, porque houve exagero dos dois lados, os alemães extremados e os brasileiros também, usando de muito abuso na perseguição. Bom, agora voltando na história, antes de falar de Rio do 3 Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva, órgão do Exército Brasileiro que tem o objetivo de formar oficiais para a Reserva. (N. de VFC).

Sul, meu sonho era morar no Rio de Janeiro. Quando terminei o Científico, no Colégio Santo Antônio, eu vim com 12 anos, em 53 eu estava aqui “[em Blumenau]... Vieste sozinho? Não. Papai mudou-se para a Alameda. Até quatro anos atrás eu estava ali. O que aconteceu, em 60? Terminados os estudos no Santo Antônio, eu tinha que me decidir para fazer uma faculdade, e queria fazer direito, o meu pai era advogado. Na verdade eu não tinha certeza. E ainda papai me pressionou, disse “olha a luta que o teu pai desenvolve”. Só que ele queria que eu estudasse em Florianópolis, para estar mais perto da família. Mas eu queria cidade grande, na época a cidade era uma província. “Vou para Curitiba.” Arrependi-me barbaridades, por quê? Porque não gostei do curso, vi que não era a minha praia. Na universidade do Paraná? No Paraná, onde o papai se formou. E aconteceu um episódio muito engraçado, quando eu vi que tinha que fazer o vestibular. Naquele tempo tinha latim, a minha sorte é que eu tinha estudado com Frei Odorico quatro anos de latim no antigo ginásio – hoje é o primeiro grau. No Santo Antônio o científico, mas também o ginasial? O ginasial, e ainda tinha um pré-complementar, tinha que fazer o quinto ano. Em Rio do Sul, onde estudaste? Estudei na escola Paulo Zimmermann e no colégio Dom Bosco, com os Salesianos. Aí fiquei desesperado; “latim”. No científico não tinha latim, e corri a Frei Odorico, que na época tinha sido meu professor. Aquele homem de uma cultura incrível, que me deu aula de oratória, francês, espanhol, português, latim. Ele foi uma grande influência na sua carreira profissional, não? Foi. Sempre declarei que me tornei professor de português por causa dele. Embora não convidado, iniciei o português no colégio Dom Pedro II por descoberta. É aquela história, estava conversando com amigos no Palmital, uma churrascaria famosa, com um grupo de professores do Pedro II, aí disseram “Gervásio, por que não dás aula? Português, falas tão bem”. Fiz curso em Florianópolis, não havia faculdades aqui por perto, só em Florianópolis. Depois fiz curso de aperfeiçoamento, vários. Enfim, passei a lecionar sem ter feito Letras. Aí corri ao Frei Odorico, “Não vai ter tempo para me dar umas aulinhas de Latim?” “Te dou um conselho, meu filho, decora as Catilinárias 4. Lá fui eu, decorei na ponta da língua. E tinha prova oral. Na escrita me virei. Naquele tempo tinha sorteio, um monte de papelotes na mesa, o aluno era chamado, eu pego o meu papelzinho. O professor era Vieira Lins, o inquiridor, Sebastião Vieira Lins, famoso, formado em Curitiba, partido socialista, foi candidato a Deputado, votei nele. Ele abriu as Catilinárias. O nervosismo sumiu totalmente, já fui ao primeiro verso e fiquei nesse primeiro verso. Ele disse, “pode ir embora, dez!”. Frei Odorico é santo. 4 Catilinárias, conjunto de quatro discursos proferidos por Cícero em 63 a.C., nos quais este denuncia o senador romano Lúcio Sérgio Catilina de planejar derrubar o governo republicano. (N. de VFC).

Dois anos de Curitiba bastaram, eu não gostava da cidade, não gostei. Tem uma piada do “Pasquim”, quando encontro um paranaense eu brinco. Curitiba para mim foi uma decepção em dois termos: o frio no clima e no coração das pessoas. Fiz um amigo lá em dois anos. Consideras Curitiba mais inóspita do que Blumenau? Acho que sim. Mudei depois. E o frio mesmo! A temperatura era de matar. Saía à noite com dor no peito, e eu detesto frio. Consultei papai, “Papai, quero ir para o Rio de Janeiro”. Tinhas quantos anos nessa época, Gervásio? Vinte e poucos anos. O Rio foi a minha realização. Mas voltando a Curitiba, passei quinze anos me recusando a ver a cidade, embora tenha parentes lá, tios maravilhosos. Na revisão que fiz – uma visita – vi que é uma cidade muito bonita, merece o título de Cidade Sorriso, muito moderna. Mas o Rio foi a minha realização. No primeiro dia já me senti carioca. Tem uma frase que eu vi atribuída ao Vinícius de Moraes, depois já vi atribuída ao Millôr Fernandes, depois ao Nelson Rodrigues, não importa o autor, que é de uma verdade incrível: “Ser carioca é um estado de espírito”. Meu sonho mesmo era viver lá para sempre. Mas no comecinho de 64, estava chegando a revolução, o golpe, eu era considerado de esquerda, esquerda festiva, Bossa Nova. Veio a notícia, começo de 64. Um general do exército, meu tio Donato, veio me comunicar que papai estava doente, estava com câncer em fase terminal, questão de meses. Tu não sabias de nada? Não sabia de nada, foi um choque. Aí me mandei para cá. Ele viveu semanas, um mês. Eu digo que ele morreu dias antes de desiludir-se fortemente com o golpe militar. Ficaste quanto tempo no Rio de Janeiro? Dois anos e meio. E ali também estudaste Direito? Não, eu comecei e abandonei de novo. Ocupaste teu tempo por lá em quê? Tinhas alguma profissão? Trabalhei no Banco Inco5, fui bancário, uma triste experiência. Profissão horrorosa. Por quê, Gervásio? Você lida com dinheiro, sem dinheiro, ganhando pouco. Trabalhava no Banco Inco e morava na Zona Sul. Para mim Rio de Janeiro era na Zona sul, na Copacabana, Ipanema, Leblon. No Centro eu ia para trabalhar no Banco de Indústria e Comércio de Santa Catarina. Como é que eu consegui esse emprego? Papai era muito amigo de 5 Banco Indústria e Comércio de Santa Catarina (INCO). Fundado em 1935 no Vale do Itajaí, foi adquirido em 1968 pelo Banco Brasileiro de Descontos (BRADESCO). (N. de VFC).

itajaienses, amigo de diretores do banco, os Miranda Lins. Nunca esqueço que, certo dia, saí para tomar um café, fazer um lanche, em um boteco que tinha em frente ao banco. De repente vejo aquela figura, terno branco contrastando com a negrura da pele; Ataulfo Alves, o compositor. Vê-lo me proporcionou muitas visões, passar pelo Bon Gourmet em Copacabana, ver Vinícius na calçada, Tom Jobim, Carlinhos Lyra e a Nara Leão. E tu não chegaste para conversar com eles? Não. Era muito tímido, aliás, não tinha dinheiro nem para o show. Era o show dos quatro, show famoso. Eu parei, fiquei encarando tanto que a “Narinha” olhou para mim e deu o maior sorriso do mundo, mas era muito tímido naquela época, nem sabia que iria ser jornalista, porque seria mais afoito. Então o Rio de Janeiro, para mim, foi muita praia. Mas engraçado que eu dei uma de carioca ao pé da letra. Lá em casa foi assim: papai se programou de três em três anos. Eu nasci em 42, três anos depois nasceu a minha irmã Maria Júlia, mora aqui no Bela Vista, 48 nasceu Maria Lígia que mora em Florianópolis. E o Geraldo Luz? Geraldo é primo. A Maria Júlia, minha irmã, apareceu no Rio de Janeiro, na excursão do Pedro II, ainda quando o Joaquim Floriani era o diretor. Fui convidado, aí que fui conhecer o Pão de Açúcar e o Corcovado, levado por essas circunstâncias. Se não, se eu tivesse saído do Rio, saído inesperadamente, aliás, sairia de lá sem conhecer os dois cartões postais. O que me encantava no meu reduto era a Zona Sul, zona da boemia. Saí do Rio muito sentido. Nunca mais voltaste a morar lá? Não. Voltei depois para fazer um curso. Essa história é engraçadíssima! Com a Maria Ribeiro, professora, e a professora Gilka Ewald, mãe de dois alunos meus, Marco Ewald e o Eduardo. Quando eu morava na Alameda, fui a uma pizzaria que hoje não existe mais, esqueci o nome agora, Napolitana, se não me engano. Esses dois ex-alunos meus, um é advogado e o outro é médico, quando me viram, eles estavam tocando, trouxeram até um CD, começaram a tocar Bossa Nova, Vinícius de Moraes principalmente, em minha homenagem. Bom, aí nós fomos para essa faculdade, era lá em Jacarepaguá, eu fiquei em Copacabana, a Gilka e a Maria em Ipanema, sacolejando o ônibus em uma viagem que não acabava mais. Eu fui entusiasmado com o curso, que tinha uma palestra com Mário Lago. Eu era fã do Mário Lago como compositor, como escritor. Cheguei lá, isso nos primeiros dias, o Mário Lago não pôde vir, estava doente. Colocaram um atorzinho da Globo que mal estava começando, não sabia nem falar, prometeram a presença de um gramático famoso, Cegalla ou o Bechara, e também apareceu uma figura da qual eu nunca tinha ouvido falar. Dei uma de CDF, quis fazer o curso até o final. Mas em uma das voltas, terceiro dia eu acho, “Gervásio, nós vamos parar aqui no Centro, tomar um chopinho, porque nós queremos conversar contigo”. Eu digo, “então vamos ao Amarelinho, famoso, em frente ao Teatro Municipal, tem mesas na calçada”. E lá disseram, “vamos abandonar esse curso?” Eu “Vamos, vamos para a faculdade de Ipanema, pronto!” Estivemos inclusive onde hoje é Rua Vinícius de Moraes, chamavase Montenegro, da garota de Ipanema. Tenho fotos da garota de Ipanema, tenho a letra da música, a partitura está na parede. Foi onde o Tom e o Vinícius viram passar a Helô

Pinheiro, a famosa garota de Ipanema, onde fizeram a música. Saí com o coração partido. Jurei que não iria voltar mais. Mas se eu tenho mágoa? Não tenho, porque Blumenau é a minha paixão. Dizem, “Gervásio, você não é Riosulense?” Eu digo, “não, nasci lá, não tenho nada contra a minha cidade. Tive uma infância maravilhosa, peguei o tempo da estrada de ferro, mas a cidade que me possibilitou a realização como professor, jornalista, depois escritor, foi Blumenau”. Então eu amo essa cidade de paixão. Aquela história de acharem que eu sou do Rio, por quê? Talvez eu tenha voltado com trejeitos de carioca. O que aconteceu é que estávamos em plena ditadura e eu colecionei o Pasquim do primeiro ao último. A enchente levou. O que aconteceu: eu dava aula no colégio em que estudei. Aluno de português não quer saber dessa matéria. Não posso começar de uma maneira muito austera. Então entrava na aula com o Pasquim embaixo do braço, sentava na mesa, lia o melhor texto, o mais engraçado. Tentava puxar meus alunos com humor, que eu acho que é a melhor forma de expressão. Acho que ninguém resiste a uma boa piada bem contada. Mostrava uma charge que desse para mostrar em um colégio de padre, embora nunca tivesse sofrido nenhuma censura. Eu tinha proteção do Frei Odorico. O que aconteceu? Naquele ano eu peguei uma terceira série de ginásio, hoje é a sétima. Um garoto perguntou, “professor, o senhor nasceu no Rio?” Pensei, vou dar uma aula de comunicação maravilhosa, “Nasci sim”, e continuei a aula. No recreio eles vieram, “Professor, é legal ser carioca?” “Quem disse que eu sou carioca? Não sou carioca.” “Mas o senhor disse que era do Rio de Janeiro.” “A pergunta de vocês foi incompleta, problema de comunicação. Se vocês tivessem me perguntado: professor, o senhor é do Rio de Janeiro, nasceu no Rio de Janeiro? Eu teria dito que não. Nasci em Rio do Sul, cidadezinha de rio também, Serra acima”. Disseste que teu pai te influenciou, primeiramente com a leitura dos clássicos. O que lias? Quais os textos que primeiro te encantaram? Papai era muito esperto, se ele tivesse me dado um José de Alencar, hoje eu não gostaria de literatura. Ele começou com Humberto de Campos, tinha a coleção toda, um cronista não muito famoso, mas grande escritor. Ele tem um humor... tem um livro, “Brasil Anedótico”, e aquilo me encantou. Foi o que eu procurei fazer com os meus alunos. Pegava um Stanislaw Ponte Preta, um Millôr Fernandes, eles adoravam! Eles, “professor, como é o nome desse livro?”. Depois eu seguia com Alencar, Machado de Assis, os modernistas principalmente, mas eles já aceitavam, tinham criado gosto pela leitura. Quando deixei o magistério, achei que iria sentir muito, mas não senti não. As turmas mudaram. Creio que fui um dos últimos alunos teus. Em que ano largaste o magistério? Eu abandonei, digamos assim, em 92. Faltando um tempinho, um ano talvez, para me aposentar totalmente. Em 92. O que te levou a abandonar tão intempestivamente o magistério, Gervásio? Eu estava farto do comportamento dos jovens. Sempre fui muito liberal, de não precisar chamar de “Professor Gervásio”, “pode chamar de Gervásio. Agora, quero respeito, o professor respeita vocês”. Pensei que tivesse encerrado a carreira em 92, quando me aposentei. Em 2004 resolvi dar umas aulas particulares. Bolei um anunciozinho, que saiu no jornal de Gaspar, O Metas. Eu colaborava com o jornal desde 2002. Estou há 12

anos no jornal Metas, semanalmente escrevo lá. Escrevia as quatro semanas, até que a Sociedade de Escritores pediu um espaço, e eu cedi. A quarta semana deixo que eles escrevam e ocupem o meu espaço na boa. Bolei aqueles cartazes do curso de oratória e imprimi. Resolvi botar pelo menos um no mural de cada prédio, são três prédios no colégio Pedro II, onde eu havia lecionado, também me aposentado por lá. Aí fui à diretora, a Regina Ingletto, mãe da Bianca que trabalha na RBS. A Regina, mulher muito bonita, inteligente, disse, “não vai botar anúncio nenhum”. E eu, “Vais me recusar a propaganda?” “Você não vai dar aula particular, você vai lecionar oratória”. Não sabia que tinha oratória, que era obrigatório no segundo grau. Encheu-me de turmas de manhã, de tarde e de noite, ano de 2004. Adorei! Dei-me muito bem com as turmas da manhã, as turmas da tarde, mas à noite era uma bandidada. Eu estava dando aula para uma das turmas, e de repente um cidadão se levanta, sandália de dedo, mal vestido, pegou o celular e começou a falar. Eu digo, “o que é isso, meu Deus do céu?” A essa altura já tinha percebido que eles levavam bebida alcoólica pro fundo da classe. Lembra daquele filme, “Ao mestre com carinho”6? Aí eu disse, “vou ser cinematográfico, encerrar a minha carreira aqui, à noite, e é agora”. Eu, “Gente, atenção, imaginem que o professor de vocês de oratória fosse um diretor de cinema e estivesse filmando essa sala. O que eu faria a partir de agora? Mandaria a câmera fotografar este ângulo aqui, daria atenção só para vocês.” Apontei para o marginal e disse, “onde esse marginal está, me desacatando, seria ignorado. O filme acaba aqui. A partir de amanhã não dou mais aula à noite”. Estava cheio de gente querendo essas aulas, acho que foi o Alfredo Scottini quem me substituiu. Mas continuei muito bem com as turmas da tarde e da manhã. Por que eu não prossegui dando aulas de oratória? A minha decepção, não com os alunos, com o estado do colégio, as paredes caindo, o teto, portas sem maçaneta, vidros quebrados, por incrível que pareça até papel higiênico eu tive que levar, não tinha papel higiênico nos banheiros. Estava abandonado, um caos, “eu não vou ficar aqui. Quero guardar uma imagem do Pedro II dos bons tempos aqui que eu havia lecionado”. Então foi só este breve retorno. Além do Santo Antônio e do Pedro II, chegaste a lecionar em outras escolas? Bastante. No Pontinho Estudantil... Sempre Língua Portuguesa, Oratória? Principalmente Língua Portuguesa, comunicação, aí surgiu a Teoria da Comunicação, dava para aproveitar e dar umas dicas de oratória. Mas o Colégio do Vale do Itajaí, O Pontinho, se expandiu. Tinha tanto aluno que foi alugando salas em colégios estaduais. Então lecionei no João Widemann, na Itoupava Norte, no Santos Dummont. Dei aulas no colégio dos Barbieri. Existia o colégio Dr. Blumenau, lá no Centro, na rua Curt Hering, onde dei aulas de português. Dei aulas em outros cursos também, principalmente os preparatórios para vestibular. Foi um episódio muito engraçado. Eu estava em Florianópolis, passeando, que é a minha segunda terra. Tirando o Rio de Janeiro, que está muito longe, me sinto muito bem em Florianópolis. Açorianos, eu tenho sangue português. Sempre digo que tenho sangue alemão da parte da minha mãe, mas predomina no meu proceder, no meu sentir, o Luz de Portugal. 6 “Ao mestre com carinho.” (Reino Unido, 1967). Direção e roteiro de James Clavell. (N. de VFC).

O que poderias falar do Frei Odorico? Sabemos que Frei Odorico foi uma personalidade não só religiosa, mas também intelectual na cidade, marcando gerações. Tiveste uma convivência próxima com ele; qual perfil traçarias do Frei Odorico? Frei Odorico foi o meu segundo pai, não pela proteção que me deu, mas pela cultura que transmitiu e pelo que eu pude assimilar. A cultura dele era infinita, sem exageros. Quem, aliás, me convidou para lecionar no Santo Antônio, foi ele. Eu já tinha alguns anos no Pedro II, encontro ele na Rua Sete por acaso, e ele, “Gervásio, não queres dar aula no Santo Antônio? A professora de português do científico, primeiro e segundo anos, Marina Wollstein, irmã do Rivadávia, vai casar e deixar o magistério. Mas tu vais com uma condição.” “Qual é a chantagem, Frei Odorico?” “É a seguinte: foste sócio fundador da Academia de Mont'Alverne em 1959...” Ele queria que eu fosse diretor da Academia. Ele já estava meio cansado, viajava às vezes, adorava Florianópolis, a terra dele era Santo Amaro da Imperatriz, perto de Florianópolis, mas estava sempre presente. Eu nunca me considerei diretor da Academia, considerava-me um subdiretor. Ele era intocável. Durante todo tempo em que lecionei no Santo Antônio, dirigi a Academia de Mont'Alverne, que ele fundou em 1959. Não esqueço, convocou as turmas do científico para um encontro, e era feriado, dia 13, dia de Santo Antônio. Fomos sem saber o que era, e no salão nobre do colégio foi fundada a Academia de Frei Francisco de Mont'Alverne. Por que esse nome? Quem foi Frei Francisco de Mont'Alverne? O Odorico justificou. Era um frade franciscano, o maior orador sacro do império que, já cego, mas ainda muito lúcido, atendeu a um pedido de D. Pedro II e fez uma oração, oficiou uma missa a pedido do Imperador. A Academia principiou e hoje está com 54 anos – aí que sinto o peso da idade. Nunca esqueço as minhas duas atuações Lembro até do terno, a cor que usava. Os rapazes tinham que usar terno, gravata, e as moças trajes sociais. Tanto que a academia ficou conhecida na cidade, porque as quartas à tarde tinha essa sessão, e era aquele desfilar pela Rua Quinze de jovens bem vestidos. “É dia de academia”, o povo já dizia. Meu primeiro discurso foi sobre Humberto de Campos, era mais pesquisa. Como aluno, Gervásio? Como aluno. Tive a impressão que eu tremia que nem vara verde, o sangue fervia dentro das veias. Digo, “sou um bambu, meu Deus do céu, estou para lá e para cá”., Estava de verde ainda por cima”. Fui elogiadíssimo! O Frei disse, “calma, o nervosismo era psicológico”. Eu me senti melhor para o retorno. Era uma antecipação do futuro jornalista sem eu saber. Critiquei e abordei uma polêmica aqui em Blumenau, entre um jornalista do Jornal A Nação, Frederico Allende, um senhor de idade que escrevia bem, com um português correto, e um jornalista meio desvairado, chamava-se Israel Costa, que tinha um jornal chamado O Combate. Ele era tão querido! Qual deles? Esse Israel Costa, entre aspas. Querido é uma ironia?

É que ele se candidatou a vereador, isso é a coisa mais típica de açoriano, brasileiro. Pegaram um burro e fizeram um desfile com o burro pela Rua Quinze, “Vote em mim, Israel”. Foi a própria população que fez? Alguma facção. Tu lembras em que época foi isso? Final da década de 50. Foi o teu segundo discurso... “A polêmica” era o título. Então eu mostrava a minha decepção com o desnível da polêmica. Um homem com mais categoria no jornal diário, vi aquele jornalista enxovalhado. Frei Odorico ainda... Bom, eu morei no Rio, em Curitiba, e visitava muito Frei Odorico, quando podia. Depois, como professor, dava aula de manhã, sempre digo isso, durante trinta anos trabalhei nos três turnos, mas não era ganância, era necessidade, porque escolhi duas profissões que não dão dinheiro, mas realizam pessoalmente, o magistério e o jornalismo. Eu dava aulas de manhã no Santo Antônio e à tarde trabalhava em jornal, O Estado, o Santa, e à noite dava aulas no Pedro II. Às vezes eu estava saindo quinze para meio-dia, terminava as aulas no colégio Santo Antônio, vinha o bedel Batista, “O Frei Odorico tem um assunto contigo, importantíssimo.” Eu, “meu Deus do céu, o que será?”. Eu tinha jornal à uma e meia, ou aula, dependendo da época. Bom, vamos dar uma passada por lá. Na Academia está tudo bem, não tem sessão solene, sempre se festejava no dia do aniversário dele ou no meu aniversário, depois em comum acordo acabamos com aquelas homenagens, só dia 13, dia da fundação, era uma sessão solene. Cheguei lá com o Frei Odorico, “o que a Elguinha preparou hoje para ti?” Mamãe Elga. Ele a chamou de Elguinha mais por afetividade, conhecia ligeiramente. Eu disse, “acho que é uma feijoada”. Aí ele levantava, atrás da mesa e da cadeira dele a estante cheia de livros, a biblioteca fabulosa, retirava Os Sertões, volume grande, Euclides da Cunha, e lá estava o Underberg escondidinho. “Não vais sofrer nada com a feijoada.” E tomava um cálice... Outra feita, dependendo do prato, era uma coisa mais leve. Então hoje é diferente, foi lá no Larousse, pegou um volume daquele tamanho do dicionário, tirou duas garrafas. Era um uísque estrangeiro, não lembro se era Johnny Walker e uma cachacinha de Luiz Alves que tinha sido dada por um aluno que era produtor. “Diz, o que tu preferes?” Claro que por vontade preferia um uísque estrangeiro, mas optei pela cachaça porque sabia que ele gostava da caninha, para agradar. Ele era assim, uma personalidade incrível. Um dia entrei na sala dele, e disse assim, “Frei Odorico, vi um bloquinho de rifa, o senhor comprou tudo isso?” “Nenhum bilhete! Uma aluna veio aqui pedir que eu comprasse, é que eu não olhei na hora. Disse, passe depois, que eu estava ocupado, estava preparando uma prova, mas vou dizer para a moça. Nenhum bilhete!” “Por que, Frei Odorico?” “Olha o que está escrito ali: ‘contribuição expontânea’. Espontânea com X! Vem do latim Sponte, é com S, em português espontânea tem que ser com S”! Então ele tem umas passagens hilariantes. Qual a maior contribuição da Academia de Mont’Alverne?

Na verdade, depois que deixei de dar aulas, quando encontro e esbarro com ex-aluno, ex-aluna, que não vejo há anos, eles não perguntam pelo colégio, mas “como vai a academia, está viva ainda?”. Interessante é que eles tinham pavor na época. Sabe o que é discursar em público? Não é fácil para qualquer um, treme-se feito vara verde. Mas passado aquele episódio, o retorno que o aluno tem, seu crescimento, estimulado pela crítica dos colegas, pelos elogios, ou mesmo algum reparo a sua fala, a sua postura, veem aquela experiência refletida na vida profissional, um político, advogado, ou qualquer outro profissional que tenha que falar em público. Hoje em dia é difícil escapar de falar em público. Aí o agradecimento vem. A academia marcou a cidade, eu me arrisco dizer que não há similar no Brasil. Não há nenhuma academia de colégio secundário que tenha perdurado por tanto tempo. Tanto que ela refletiu e outras escolas tentaram fazer academias, mas de curta duração, não foram longe. Como o jornalismo entra na tua vida? O jornalismo entrou na minha vida como válvula de escape. Já disse que tinha voltado do Rio de Janeiro, forçado não é a palavra. Tinha um grande amor pelo meu pai, mas a morte dele foi de me ferir e me fez obrigar a ficar aqui. Por que te obrigou a ficar aqui? Minha mãe ficou sozinha, já com duas irmãs, elas eram jovens. E o jornalismo? No Rio de Janeiro, já em Curitiba, eu era apaixonado por jornais. Acho que isso já estava prenunciando um futuro professor e um futuro jornalista. No Rio de Janeiro, o Jornal do Brasil era a minha paixão, que hoje infelizmente não está mais impresso. Peguei o tempo da Última Hora, Samuel Wainer, uma época de bons cronistas, Antônio Maria, que é o meu cronista predileto. Ele é mais conhecido como compositor popular, “Manhã de Carnaval”, pernambucano e virou carioca. Tenho uns pontos de identificação com o Antônio Maria nesse sentido. Apaixonar-se pelo Rio de Janeiro não sendo de lá. Ele pernambucano e eu catarina. Também nunca ter pensado em lançar livro. Paixão era o jornal, e ele só foi impresso, digamos assim, os textos dele, as crônicas, depois da sua morte. A família estava em dificuldades financeiras, e o Vinicius de Moraes, Ivan Lessa, Paulo Francis, José Aparecido de Oliveira (que foi Ministro da Educação do Jânio Quadros) organizaram um livro chamado “O Jornal de Antônio Maria”, que era o nome da coluna dele nos Associados. Escolheram as melhores crônicas, e assim que eu soube, ganhei o livro, não sabia que tinha saído. Depois foi uma estudante de jornalismo, lançou “Com vocês Antônio Maria”. Na base, no fundo no fundo, a maioria dos textos está no “Jornal de Antônio Maria”. Eu mandava para as minhas irmãs, recortava. Por exemplo, no Última Hora você abria uma página e era só cronistas, o Stanislaw Ponte Preta, em cima, ladeado por gente de primeira. Que também foi uma influência para ti, o Sérgio Porto... Sim, foi uma influência muito grande na base do humor. Maravilhoso ele. Dizem que o crítico de literatura é o escritor frustrado. O Stanislaw escrevia muito sobre música e malhava o mau gosto imperante, mas ele foi uma exceção. Assinou aquele fabuloso “Samba do Crioulo Doido”. É um primor de humorismo! Ali ele mistura a história toda.

Cometeu uma pós-modernidade no samba. Isso aí! Bom, eu mandava aqueles recortes. Já em Curitiba lia muito os jornais. Qualquer cidadezinha do Vale, onde eu fosse, a primeira coisa que eu procurava era o jornal da cidade, para ter uma visão da coisa. Acompanhei essa evolução do jornal, daquela forma tradicional. Por exemplo, na cidade em que nasci, Rio do Sul, tem um jornal que até hoje em dia vive, o Nova Era. O meu nascimento deu na capa, imagina! Isso nos dias de hoje não tem sentido. Contei no jornal Expressão Universitária, a convite da Magali Moser, este episódio do Nova Era, um jornal grande, standard na época, hoje tabloide. E a capa e contracapa era batizado, aniversário, velório, bodas. O papai muito gozador, muito irônico, inticava com o diretor do jornal, Pedro Paulo Cunha. Quando ele saía e encontrava com Pedro Paulo, dizia “Pedro Paulo, me fizeste perder o dia de ontem” “Como?” “Fiquei sem trabalhar, só lendo o Nova Era.” O que não abalava a amizade. Bom, cheguei a Blumenau no comecinho de 64, aí surgiu aquela fofoca que eu teria fugido da militância política. Tinha essa fofoca? Por quê? A fama que eu tinha de esquerda, e eu nunca fui, como eu disse. Nunca fui pró-militar. Também nunca foste filiado a partidos de esquerda? Não, nunca fui filiado. Por que, então, a fama? Não sei, talvez pelas declarações contra os militares. Não contra os militares, mas contra o que eu considerei um golpe. Nessa época, ainda não escrevias em jornal? Pois aí é que está a história... Fiquei frustrado, papai faleceu, o que vou fazer em Blumenau? Bateu aquela saudade do Rio de Janeiro, do teatro, dos bons filmes clássicos, praia, aí surgiu a ideia. Mas foi um episódio, o por quê fui parar em jornal e como. Comecei a sair, passaram-se os meses de luto, jovem, vinte e poucos anos, e a mamãe viúva, cheguei uma noite um pouquinho tarde. Ela estava aos prantos, preocupadíssima, que tinha ouvido no rádio – na época era rádio Alvorada, que hoje não existe mais – uma notícia assim, “foi atropelado um jovem na esquina da Sete...” Naquele trajeto que eu fazia da Rua Quinze para a Alameda, e não deram o nome do jovem. Ela ligou para rádio e não tinham dados. Não se dá uma notícia assim sem fundamento, ou se dá completa com algum dado. Aquilo me motivou, mas como é que eu iria começar? Tinha um jornal na minha rua, na Alameda Rio Branco, em um prédio de tijolinho à vista que ficava ao lado do prédio dos correios, em frente ao Cine Bush, chamado Ronda, do Nagib Barbieri, um gasparense que tinha um temperamento solto, agressivo, mas uma pessoa maravilhosa, e o jornal dele criticava Deus e todo o mundo. Mas por incrível que pareça, num estilo altíssimo. Por quê? Porque o redator chefe se chamava Paulo Jacques, carioca, casou-se com uma paranaense e veio morar em Blumenau. Era o redator chefe, tinha um estilo lapidar, a fofoca, o menor incidente ele transformava em notícia em uma linguagem muito elegante. Depois ele se transferiu

para o jornal A Nação, com o fechamento da Ronda, e assinou por muitos anos uma coluna chamada Bunker. Estava gozando da cidade, ali do esconderijo tipo nazista. Ele criticava os políticos com muita elegância, e o Paulo influenciou também. Resolvi mandar aquele artigo, a timidez ainda estava imperando. Um artigo? Um artigo criticando a rádio. Falando do mau jornalismo. Não lembro agora do título que dei. Aí, eu todo entusiasmado, cheguei para a mamãe e disse, “Oh, mãe, vou estrear em jornal” “Em qual jornal você vai escrever?” (risos) “Ronda” “Pasquim!” – pasquim no mal sentido. “De jeito nenhum!” Eu não podia assinar, a única forma de enganá-la era botar um pseudônimo. Qual pseudônimo vou criar? Ou fico nos nomes mais comuns, José de Souza, João da Silva, ou vou por algo mais estrambótico. Lembrei de um amigo meu, no Rio, que tinha o nome de Tessaleno. Então saiu. A coluna era assinada, por incentivo do jornal. Saiu em cima, até bem exagerado, alto e grande, “Tessaleno”. Gervásio não aparecia. Ou seja, viraste colunista a partir da primeira matéria? Já me transformaram em colunista. Bom, e esse jornal, Ronda, apesar de ter uma seção chamada Ronda Militar na capa, noticiário sobre o 23º BI, foi empastelado pelo quartel, e criticando, inclusive, os comunistas. Fala sobre isso, então. Como aconteceu esse empastelamento? O empastelamento foi o seguinte, coisa bem provinciana. O jornal criticou um engenheiro do DER7, que tinha pretensão política, e esse engenheiro era irmão do coronel, gente importante. O coronel pediu a cabeça, não interessa se estava perseguindo comunista, se tinha uma coluna elogiando os militares, era empastelado, fechado. A redação foi destruída? Foi só fechada. E as mesmas máquinas de escrever e de composição... peguei essas três espécies de impressão. A Ronda e a Vanguarda eram ainda tipo por tipo. Pegava um A da letra A na caixinha e colocava na caixinha, parafusava. Depois veio a linha direta, que é a linotipo. Depois o offset, peguei os três tipos. Comecei com o mais antigo, mais primário, mais difícil, digamos assim. O Nagib não se conformou e lançou o jornal Vanguarda, que durou bastante tempo, com o mesmo diretor, com o mesmo editorchefe, Paulo Jacques. Era um jornal de coragem. Por exemplo, uma manchete assim: “Ingo Hering é visto entregando cheque ao PTB”. Tinha anúncio da Companhia Hering, ele nem queria saber, o Nagib. O fato tinha acontecido, o Ingo Hering era da UDN, queria apoio do PTB, que era aliado do PSD, então, teria entregue esse cheque, foi flagrado ali na Rua Quinze. No mesmo dia o Ingo, com aquele sotaque peculiar, “Seu Nagib, a partir da hoje, anúncio Hering cancelado” “Eu já esperava!”. Nesse tempo que eu estava escrevendo para os jornais, já estava dando aulas. Para dizer que não fui vítima de perseguição injusta, vai entrar em cena agora no meu depoimento o famoso 7 Departamento de Estradas de Rodagem (DER). (N. de VFC).

Coronel Brandão. Eu estava uma noite com o jornalista Norton Azambuja e outros amigos... Tinhas amizade com Norton Azambuja? Foi amizade fundamental. A morte dele me abalou bastante. Nós tivemos um jornal juntos, Entrevista. Aqui em Blumenau? Em Blumenau. Nós estávamos jantando em um restaurante Chinês, famoso, sempre está cheio, na frente da Flamingo8. Levantei para ir ao banheiro, e o Brandão estava na outra mesa, tomando o seu uísque, ele gostava muito de whisky, não fazia mal nenhum. No que fui passar, ele botou a perna para eu tropeçar, mas pulei. Ainda assinavas como Tessaleno nessa época? Acho que não, mas eles já tinham a minha ficha. Só ouvi ele dizer, “muito inteligente, pena que seja comunista”. E eu, “Barbaridade!” Senti que de repente ele mudou. Nunca me ameaçou de prisão, nada. É que ele descobriu que os dois filhos, a menina e o menino, eram meus alunos no Colégio Santo Antônio. Tu escreves no Vanguarda nessa época? Já estava no A Nação. Já tinha saído do Vanguarda. Estava no jornal A Nação, coluna diária. Um dia, era aniversário de uma jornalista já falecida, Ula Weiss, famosa Ula. Ela me convidou para o aniversário dela no clube Olímpico, Alameda Rio Branco, onde eu morava. No que eu entro, esbarro com o Brandão já meio alto, tinha tomado uns whisky a mais, que me abraçou e disse assim, “Gervásio, queria pedir perdão pra ti, porque eu fui a favor do golpe, mas secretamente era João Goulart”. Dei um empurrão e disse, “Por favor, mentira não!”. Nem entrei na festa. Mas depois nos tornamos amigos. Gostava muito de cão também, “cachorreiro” como eu. Quando ele morreu, nos dávamos bem. Escrevias sobre o que, Gervásio? Comecei praticamente com crônicas, falei do rádio, da notícia ruim. O meu segundo artigo que repercutiu muito. Eu era fã da Bossa Nova e tinha assistido a um show no Rio de Janeiro do Luiz Henrique da Rosa, um compositor de Florianópolis, chegou a gravar nos Estados Unidos, foi namorado da Liza Minnelli, trouxe a Liza Minnelli para o carnaval de Florianópolis. Um boa pinta, bom compositor, mas ele gravou o samba que era do Zininho9, chama-se “Se amor é Isso”. Ele gravou e tirou o nome do Zininho, assinou sozinho, e aquilo é apropriação indébita. Fiz um carnaval em cima disso. Logo depois, uma semana depois, a Neide Maria Rosa, uma cantora de Florianópolis, cantava muito Luiz Henrique, veio com o Zininho dar um show aqui, em uma boate no Grande Hotel Blumenau. E os conheci. Eles ficaram chocados, “Você teve coragem? Não é verdade, esse samba não é do Zininho? Não é seu, Zininho?” “É, sabe como é”, mas 8 9 Tradicional casa comercial de Blumenau, especializada em roupa de cama, mesa e banho. (N. de VFC). Cláudio Alvim Barbosa, compositor popularmente conhecido por Zininho. (N. de VFC).

gostando do Luiz Henrique está bom. Perguntaste sobre o que eu escrevia... Virei colunista, com notas pequenas. Em qual jornal tu viras colunista? Colunista foi no A Nação. Então vejamos, só para entender: começas como colaborador do Ronda. Em que momento assumes como profissional? É no Ronda mesmo, ou no Vanguarda? Aí é que está. É até bom relembrar isso daí. Na Nação também era só colaboradorcolunista, até que no ano de 1970 veio o convite para ser diretor da sucursal do Jornal Estado em Blumenau. Era um jornal que dominava o estado, assim como o Santa, que nasceu com essa pretensão de ser um jornal estadual, e hoje é um jornal regional. O único estadual mesmo é o Diário Catarinense. Fiquei dez anos lá, e foi aí que tive carteira registrada. Depois foi essa passagem pelo Santa. Engraçado, trabalhando dez anos no jornal O Estado, eu não sabia o que era uma redação, nunca tinha trabalhado em redação, escrevia à distância. Peguei a época da máquina de escrever, o telex, não havia computador. No Santa fui editor do Lazer, cinco anos. Ficaste dez anos no Estado. Quem te fez o convite para trabalhar? Como surgiu esse convite? O diretor da sucursal era o Lauro Lara, meu vizinho, pai do Denis. E não sei, ele não estava dando conta ou algo assim. Acho que o convite veio de Florianópolis, o diretor superintendente, Marcílio Medeiros Filho, que foi cronista e depois abandonou, hoje advogado. Marcílio foi meu colega de bancos escolares, aqui no Santo Antônio. Acho que veio de lá, merece até um agradecimento se alguém me indicou aqui. No Estado eras diretor e também escrevias? Eu fazia de tudo, e dando aulas, imagina, tinha que mandar diariamente notícias, assinaturas, e arranjar comercial. E não me davam repórter, não me davam nada. Estavas sozinho aqui? Sozinho. Nos primeiros tempos, não dá para dizer em anos, até que o jornal foi crescendo, aumentando, viram que valia a pena investir em Blumenau. Então, o que aconteceu? Surgiram os repórteres. Até citei naquele artigo que escrevi para o Jornal Expressão Universitária. Então passou por ali o Celso Jânio Moskorz, que também é médico em Indaial, o Newton Janke, que foi jornalista depois no Santa, trabalhou na Caixa Econômica Federal, foi juiz federal, hoje é juiz eleitoral, se não me engano. Ele está trabalhando na administração no Napoleão Bernardes. E todos bons de pena. Eu dava as coordenadas, dava a pauta, corrigia os textos, dava certa liberdade, mas todos abandonaram o jornalismo. E tinha esquecido uma personagem, eu era funcionário ainda, o Santa comemorou não sei quantos anos de vida, 33, e tinha uma festa lá na Rua Bahia. Assim que cheguei, estava na porta o Nelson Sirotsky, que me disse, “O Marcelo Rech começou com o Gervásio” “E agora?” Nem me lembrava. Marcelo Rech é hoje

diretor executivo de redação do grupo RBS10. “Ele quer te rever, Gervásio, está andando por aí”. Marcelo recordou que tinha terminado o científico, o pai dele era comandante do 23º BI11, e ele tinha sido meu aluno. Formou-se no científico, passou em jornalismo na PUC de Porto Alegre e foi me procurar aqui na redação, “Professor, só vou iniciar daqui há tantos meses, passei na segunda turma, o senhor não me dá uma chance como repórter?”. Isso no Santa? Não, no Estado. Então, se ele não me lembrasse, eu teria esquecido desse episódio, uma passagem muito rápida. Dentro do jornalismo também sempre fui incentivador da charge. Nos anos que escrevia no Santa, década de 80, estava dando aula no colégio, Santo Antônio e Pedro II, via um aluno esconder um papel, disse “O que está fazendo?” “Ah, é um desenho.” “Mas que beleza, posso levar para publicar na minha coluna?”. E alguns deles se tornaram bons chargistas. Em que momento vais para o Santa? No Santa, na década de 80, fui colaborador semanal. Sais do Estado para seres colaborar do Santa? Do Estado saí em 80, e no correr de 80-90 tive uma passagem como colunista no Santa. Perto dos anos 90 fui editor. Funcionário contratado, com a carteira assinada, contratado para ser editor do Lazer. Mas saí quando o grupo gaúcho comprou. Saí por vontade própria. Não me dei bem com o editor chefe, chamado Nelson Ferrão, gaúcho, que me levou a ter trauma do computador. Os gaúchos chegaram e colocaram o computador. Nesse livro da “Da Olivetti à Internet”, conto essa passagem. Tem uma professora gaúcha, muito bonita, chamada Jane, jornalista, que nos deu as técnicas para iniciarmos nossa atividade quando foram instalados os computadores. Acontece que eu tinha, além de editar as cinco páginas do Lazer, uma coluna diária e ficava naquela aula pavorosa, já com aversão daquela geringonça. Aquela máquina queria mandar em mim. De repente eu sumia, ia lá para um quartinho, uma sala, máquina de escrever, batendo a minha coluna. Aí a Jane me surpreendeu “O que você está fazendo aí?” “Estou batendo a minha coluna.” “Fazemos o seguinte, ao invés de fazer os exercícios que os outros fazem, faz a sua coluna lá”. Fui obrigado a me adaptar. A te renderes ao computador. É, a uma lata de sardinha que quer mandar em mim. Agora eu gostaria de contar um episódio engraçado. Eu me indispus com esse redator-chefe, ele queria tudo ao mesmo tempo, queria que fizesse em dois dias o jornal da semana inteira. Pedi demissão, pois a Jane foi duas vezes lá em casa pedir que eu voltasse. Mas não. Então, admirei-me quando em 2004 eles me convidaram para ser cronista semanal. Trabalhei muito bem lá. A parte engraçada que eu nunca contei, estou louco para escrever, mas ela é minha amiga. Por enquanto não dá para contar. Não dá para contar em jornal. Eu descia a 10 Rede Brasil Sul (RBS), grupo do setor de comunicações. Abrange mídia televisiva, impressa, radiofônica, além de outros negócios. Retransmissora da Rede Globo de Televisão para os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. (N. de VFC). 11 23º Batalhão de Infantaria. Quartel do Exército Brasileiro localizado no bairro Garcia, em Blumenau. (N. de VFC).

colina do Santo Antônio, em cinco dias de aula, eu voltava para a casa pela Rua Sete, mas naquele dia desci pela Quinze, não sei por que, encontro o Aurélio Sada. Ele escrevia sobre Esportes no Jornal A Nação, já é falecido, figura maravilhosa, trocadilhista de primeira. Um dia estou na esquina da Floriano com a Curt Hering com ele, conversando. De repente vem o alfaiate, sobrenome era Machado, Alcides Machado, abanou para o Alcides, o Alcides se aproximou, “Gervásio, conheces o alfaiate que faz ternos à Machado?” - e quando ele me irritava, chamava-o de “ossada”, “ossada, para! Ossada”. Trocadilho é uma forma meio grosseira de humor, mas às vezes funciona. E o Sadinha disse, “Gervásio, mas tu hein, como editor de Lazer, que fora que tu deste”. Eu digo, “Que fora?” “Vem ler o Santa de hoje!” “O que houve?” “A Neusinha era cronista social, ela ressuscitou o Leonardo da Vinci”. Digo “Isso não é possível. Não tenho culpa nenhuma, e sabe por quê? Assim que assumi a Neusinha não admitiu que eu fizesse a revisão da página dela”. Ela era toda poderosa, para mim uma página a menos, melhor, menos serviço. E realmente, quando cheguei à tarde no escritório, estava lá, no painel do jornalista “A Santa milagreira, Neusa ressuscita Leonardo da Vinci”. A Basf, eu tinha recebido o convite e tinha noticiado, resolveu fazer uma exposição itinerante pelo país das obras e dos projetos das máquinas e criações do Leonardo da Vinci, tudo em ferro, algo assim. Mas a Neusinha, que não permitia revisão, foi um grande erro dela, começou “O famoso escultor Leonardo da Vinci, pensador, está convidando para a exposição de suas obras”. Um dia tenho que registrar isso. Por falar em bate-papo, em entrevista ainda dentro da linha do jornalismo, quando sou convidado a dar uma palestra, nos tempos de Rio de Janeiro, Fernando Sabino conta que foi convidado para falar sobre a poesia, dar uma palestra, conferência sobre a poesia dos primórdios. Primeiros poemas brasileiros, passando por todas as escolas literárias até os dias de hoje. Passou meses estudando, fazendo pesquisa, era para as alunas daquele famoso Sacré-Coeur de Marie, colégio de meninas grã-finas, a elite. Bom, o que aconteceu? Falou, depois deixou livre, esperando uma pergunta inteligente. Primeiro dedinho que se levantou de uma menininha da alta sociedade carioca “É verdade, senhor Sabino, que quem escreve a coluna do Ibrahim Sued é o Henrique Pongetti?” Eu imaginava dar uma aula aqui falando sobre escritores e depois alguém me perguntar, “É verdade que quem escrever a coluna da Neusinha Manzke é fulano de tal?”. Não dá. Por falar nisso, conheci bastante o Beto Stodieck, irreverente, escreveu no Santa. O terreno dele era Florianópolis, ele chamava a Neusinha de “Neusa Luz Manzkenada”, Mas que nada, um trocadinho infame que por escrito ele registrava. Não no Santa, lá em Florianópolis, ele esteve no jornal do Beto. Colaborei com ele também. Então, quando sou convidado para uma palestra, uma conferência, digo “Gente, bate-papo. Vocês podem me interromper a qualquer momento, mas, por favor”, aquela palavra ficou na minha cabeça, dar uma palestra e depois ter que engolir uma pergunta besta dessas. Na década de 90, quando começo a conhecer o teu trabalho, sempre te via em uma série de jornais que eu chamaria de “alternativos”. Lembro que tinha o jornal do Pedro II, O Canal Novo, comentavas, escrevias. Tinha o Hora Ilustrada. O jornal do Carlos de Freitas. Sim, e depois em Gaspar. Também disseste que tiveste teus próprios jornais, não é verdade? Então, primeiramente, como surge essa ideia de criares os teus jornais? Por que a necessidade de teres teu próprio jornal?

Pois é, foi um ano depois de eu ter estreado na imprensa aqui, em jornais pequenos, eu criaria o Jornal Opinião. Um poeta que queria aparecer, Alroino Baltazar Eble, morava naquele castelo, eu chamo de castelo, em frente à Furb, em frente ao Giassi, onde foi o restaurante Gruta Azul, que também já se foi. E o Alroino quis criar esse jornal, que teve dois números. O Opinião? É. Era um jornal moderninho, a diagramação totalmente diferente. A gente bolava os anúncios. Quando o Rubens Heusi deu para nós o anúncio da Óptica Heusi, nunca esqueço, coloquei um verso antes “Fotografei você na minha Rolleiflex. Revelou-se a sua enorme ingratidão” – Newton Mendonça, o letrista. Só tentei fazer um anúncio com a famosa Casa Royal, que era só aquele Standard, só a marca. Bolei um citando jornalistas, Nagel Milton de Melo, Aurélio Sada, João Vieira – o Mano Jango – , que não dirigiam, mas se precisassem comprar um carro, seria na Royal. Foi desaprovado, cortaram o anúncio, não tinha espírito inovador nem criativo. Sei que por falta de comerciais morreu ali, na casca, o Opinião. Depois fiquei com a fama de criador de jornal de bairro, de mesa de bar. Aí nasceu o Entrevista. O Entrevista é de que ano? Ah, o Entrevista foi na década de 80, 85. Metade da década de 80. A coleção toda está no Arquivo Histórico. O Entrevista foi um jornal bem inovador, bem doido. É influência do Pasquim, claro. A Vera Fischer veio a Blumenau trazer uma peça, a minha frustração era não ter dado aula para ela, era fã. A primeira vez que ela veio a Blumenau com uma peça, acho que era a “Negócios de Estado”. Ela deu uma coletiva no salão nobre da prefeitura. Estava belíssima, loura, no sofá, com jornalistas de tudo que é tipo de comunicação. Terminou, o pessoal foi embora. Eu disse “Vera, quero uma entrevista com você, sou seu fã número um”. Ela “Por que não aproveitou”. “Não quero perguntas de outros, meu jornal chama-se Entrevista e você, a partir de agora, é a musa do jornal.” Primeira pergunta, com o gravadorzinho, eu disse “Vera, tenho duas frustrações em relação a você. Primeira, detestei o teu filme de estreia, Sinal Vermelho, saí na metade”, ela ficou assim (expressa confusão) “Mas por quê?”, “Eu sou alemão, apesar de descendência portuguesa, tenho a pele clara. Fui a Florianópolis, estava na praia da Joaquina, tomei um sol exagerado, mas fui assistir ao teu filme, Sinal Vermelho. E o cinema não tinha ar condicionado, um dia de verão, eu cheio de bolhas, tive que sair do cinema.” “Mas tu não presta”; e “A segunda tu teres fugido das minhas mãos. Dei aulas no Pedro II, mas não tive o privilégio de dar aulas para ti”. Enfim, gostei dela, fui ver a peça. Entrevistei o Taiguara, políticos daqui, o único que fugiu da minha entrevista foi o Horácio Braun. Marquei entrevista com ele. Tinhas boas relações com o Horácio? Nos dávamos relativamente bem. Não era aquela amizade, mas acho que ele foi ‘endeusado’ demais, tenho coragem de dizer isso. Era um bom humorista, bom cartunista, o lado humano dele é que cativou as pessoas.

E o Entrevista, era apenas entrevista? A entrevista era o miolo do jornal, mas tinha seções diversas, colunas diversas e muito picantes. Picantes? Tanto que o refrão era “O Pasquinzinho do Vale”. Seguimos aquela linha de “inticar” com todo mundo. É um reflexo da história do Nagib com o Ingo Hering. Um dos nossos patrocinadores era a Rádio Alvorada, se não me engano, na época era do Paulo Gouvêa da Costa. Não sei que assunto nós abordamos que o Paulo não gostou e cortou o Entrevista, cortou apoio do anúncio. Aí não tivemos dúvida “Entrevista desgosta Paulo Gouvêa da Costa”. - FIM DA 1ª PARTE A entrevista foi interrompida neste ponto, e prosseguiu uma semana após, na residência do entrevistado. - INÍCIO DA 2ª PARTE Poderias falar um pouco mais sobre os jornais que editaste? Como surgiu o editor? Comecei, como disse, em 64, como colunista. Tornei-me, em 70, colunista de vários jornais aqui, pequenos. Trabalhei na Ronda, Vanguarda, Tribuna, que era do Germano Beduschi, um semanário do PTB12, mas eu escrevia sobre o que eu queria. A Nação, onde fui colunista diário. Até que, com o Jornal Estado, aprendi a fazer matérias mais diversificadas e, como eu diria, cheguei a fazer reportagem. Adorava entrevista, o meu segundo jornal chamou-se Entrevista. Adorava fazer entrevistas com artistas plásticos, escritores, fosse quem fosse, políticos. Então foi na década de 70 que ampliei meus horizontes como jornalista, atuando praticamente em todas as áreas, e graças a Deus, como já citei, tive bons repórteres no jornal Estado. Considerava abacaxi terrenos em que eu não sentia firme. Por exemplo, esportes nunca foi meu forte, tinha quem o fizesse. E um episódio engraçadíssimo, o Jornal Estado me telefonou, no tempo que a comunicação era por telefone, usava-se o Telex. Havia um jogo do Avaí, se eu não me engano, de Florianópolis, com um clube de Rio do Sul, agora não me ocorre o nome. E fui designado para cobrir o jogo. Não entendia patavinas. Naquela época não sabia o que era um pênalti, imagina a minha situação. (risos) E lá fui eu de ônibus, com o meu fotógrafo, que era o Guido Heuer, hoje famoso. Quantos anos o Guido tinha nessa época? O Guido não estava com 20 anos ainda. Era repórter e bancou o fotógrafo naquele dia. Interessante, com todo o nosso amadorismo e de ônibus, o único gol que houve, e não me lembro se foi do Avaí, ou do clube de Rio do sul, quem conseguiu a foto foi o Guido. Pudemos estampar no Jornal Estado. O Santa, com todo aquele aparato, carro próprio, o fotógrafo não conseguiu a foto do gol. Daí o meu drama, como narrar aquele 12 Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Fundado em 1945 tendo à frente Getúlio Vargas, foi extinto em 1965 pelo Ato Institucional nº 2. Refundado em 1980 pela sobrinha de Getúlio Vargas, Ivete Vargas. (N. de VFC).

futebol, não entendia nada, nunca gostei. Concordava com o Millôr Fernandes que dizia, “A solução para o jogo de futebol é uma bola para cada jogador e pronto, acabava a briga”. Cheguei lá, aquela arquibancada, e vi o Bolinha, Carlos Eduardo Mendonça, que na época era radialista em Rio do Sul, foi vereador, foi cassado. Pensei em chegar a ele e pedir instruções, dicas de como narrar o jogo. Depois fiz uma coisa que seria e foi antiética. O juiz era o Gilberto Nahas, comentarista esportivo do Jornal Estado, onde eu trabalhava. Eu disse, “Nem preciso prestar atenção nesse jogo, que não entendo patavinas, vou voltar com o Nahas”. E na viagem ele me descrevendo... Um juiz descrevendo, sendo parcial, mas não interessa, cumpri a minha missão. Fotografia já estava garantida. Na viagem fui anotando. Então cheguei a Blumenau em cima da hora, era a edição de segunda, nunca esqueço, meu ponto era o Cine Bar, dos intelectuais, Geraldo Luz, Valdir Floriani e outros. Por telefone transmiti o jogo. Nunca mais aceitei esporte, eu já tinha os repórteres que gostavam de esporte. Foi um episódio engraçado, digamos assim, tem que contar a verdade. Sem querer, eu fui antiético. Ora, ouvir a versão do juiz, o juiz é parcial, enfim, cumpri a missão. Economia também nunca foi o meu forte, e Social nem pensar! Passei aqueles 10 anos no Estado. Foi ali que aprendi a fazer reportagem, porque os repórteres do Estado, em Florianópolis, frequentavam a redação. O Dr. Aderbal Ramos da Silva, ex-governador, foi dono do jornal. Pagava para eles passarem uma temporada no Rio de janeiro aprendendo a técnica da reportagem, imagina, no Jornal do Brasil. Eles transmitiam os materiais que recebiam. Tanto que eu não me esqueço, pediram-me também uma matéria sobre o carnaval em Blumenau, que não existe. Falei do “não-carnaval” de Blumenau. E aqui não funcionavam aqueles versos do sambista, “Foi sambar até calar o último pandeiro”, não tinha. Depois disso tentaram ressuscitar, naquela época não tinha nada, salãozinho ou outro. Evidentemente comprava o Jornal do Brasil, de repente eu olho, cobertura do carnaval de Santa Catarina, o meu artigo ali. Sinal que eu tinha um texto razoável. Sem mudar uma linha. Não me deram crédito, mas isso não importa, foi o Marcílio Medeiros filho, que era diretor superintendente e correspondente do JB aqui em Santa Catarina, mas nunca comentei, fiquei feliz com o texto no Jornal do Brasil. Bom, vou falar de episódios, umas historinhas. Pediste dos meus ex-jornais. Eu estreei em 64, mas não foi ideia minha não, foi um amigo, Alroíno Baltazar Eble. Ele tem um livro chamado “Ameno abrigo”, existe aí nas bibliotecas, até na Furb deve ter. Era um poeta iniciante e queria se projetar, então fizemos um jornal bem doido, diagramação ousada para a época, bem original, diferente, mas durou só dois números, falta de apoio financeiro. Anunciamos o terceiro com a colaboração do Alceu Longo, Mário Jango, João Vieira, que era cronista diário da Nação, sua coluna “Espiando a Maré”, e o jornal número três morreu. Era mensal ou semanal? Era mensal. Pela metade dos anos 80, surgiu a ideia do Jornal Entrevista, e eu era amigo, quase irmão do Norton Azambuja. Não lembro se o Norton já estava no Santa, sei que o Norton queria estudar medicina, mas acabou no jornalismo. Ele admirava muito meu trabalho. Tornamo-nos sócios e lançamos o Jornal Entrevista, que durou uns 20 números. Mensal também? Mensal. Deu uma parada e voltou anos depois, quando o Pedrinho Cascaes foi candidato a prefeito e eu a vereador no PTB, imagina, empurrado pelo Norton. Eu nunca pensava em ser candidato. Gostava de escrever sobre política, mas eu político?

Nunca! Tanto que não fiz campanha, confiei nos meus alunos, só de me verem naqueles segundinhos, não pedia voto. Fizeste quantos votos? Fiz 126 votos. Coincidiu que naquele ano tinha morrido o Norton, não vou dizer que parei no hospital, mas quase. Foi uma desilusão total, na verdade. Depois nunca mais. Mas para quem não fez campanha, foram votos de amigos. Nós e os vereadores do PTB fizemos mais votos que o candidato a prefeito, Pedrinho fez mil votos. Não elegeu ninguém do PTB. Aí o Entrevista morreu. Por que morreu? Talvez por falta de suporte financeiro, por mais que a gente insistisse. Quando me aposentei em 92, o que eu pensei? Vou lançar o meu terceiro jornal. Mas Blumenau estava apinhada de pequenos jornais. Tempo do Renato Vianna prefeito. Eu sei que eles financiavam jornais, cada bairro tinha o seu jornal. O PMDB13 financiava? PMDB, Assessoria de Comunicação. Bom, o que vou fazer? Vou lançar em uma cidade que não tenha, aqui perto. Indaial tinha, Timbó tinha, Pomerode, por incrível que pareça, não tinha jornal. Procurei um ex-aluno meu, Valdemiro Pedrini, dono de indústrias grandes, para ele dar apenas um pontapé inicial. Segui aquela orientação do Pasquim, que nós já tínhamos feito no Entrevista, um expediente maior para o próprio jornal. Para lançar o Jornal de Pomerode, para agradar aquela cidade considerada a mais Alemã do Brasil, fomos de alemão, Pommer Zeitung, e embaixo, Jornal de Pomerode. Comigo na direção, eu era chefe de redação e tinha coluna. Peguei muitos colaboradores de Pomerode. Foi uma aventura, porque resolvi lançar esse jornal – o Norton já não vivia, morreu em 88, foi começo dos anos 90. Uma cidade como Pomerode não ter jornal, não admitia! Mas eu não conhecia quase ninguém por lá, um ou outro ex-aluno. Então o que aconteceu? Sai o jornal de Pomerode com 80% de anúncios de Blumenau, e 20% de Pomerode, depois inverteu a coisa. Publicava tudo que era coisa de ex-aluno, dono de borracharia, dono de pizzaria, livraria, todo mundo apoiou o Jornal de Pomerode, o Pommer Zeitung. Mas acabei me desinteressando um pouco e o jornal foi assaltado, digamos assim, tomaram-me o jornal. A minha cronista social, ex-aluna, tomou conta do jornal. Ameacei processar, ela foi na minha casa chorando. Até hoje existe, mas totalmente diferente. Qual era a proposta do Pommer Zeitung? Era um jornal para divulgar a cidade e focalizar aspectos, pessoas que mereciam destaque. Então, a maioria falava alemão, e eu não sabia patavinas, o Ingo Penz traduzia para mim. Entrevistamos o seu Egon Tiedt. Quem chegava a Pomerode, ele tinha uma 13 Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), fundado em 1980. Sucedeu ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB), partido de oposição consentida durante o regime ditatorial brasileiro. Renato de Mello Vianna foi uma das principais lideranças do PMDB no Vale do Itajaí nas décadas de 1980 e 1990. Eleito Prefeito de Blumenau em 1977 e 1993 e Deputado Federal em 1983, 1987, 1991 e 1999, exercendo ainda o cargo de Vice-Reitor da Universidade Regional de Blumenau no período 19741976. (N. de VFC).

loja de antiguidades, hoje é o museu dele, na frente daquela cervejaria lá de Pomerode. Não foi fácil conseguir anúncio. Fui na farmácia do Alan, que tinha sido meu aluno, e consegui. Entrevistei um velho carroceiro que há 40 anos vinha lá do morro com a sua carrocinha, levando leite, e Ingo, fotógrafo de primeira, imagina as fotos que ele tirava. Então o Jornal de Pomerode era um “fotaço”, com a cidade, o entrevistado, o carroceiro, era muito bonito o jornal. Era quinzenal ou mensal? Mensal. E durou quanto tempo nas tuas mãos? Durou meio ano comigo, eu acho. E aí vem um episódio engraçado, o diretor comercial era o Nelson Lamin, mas não tinha sorte, por quê? Moreno demais para o gosto. Notava-se

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