O Caso Dreyfus

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Published on March 8, 2014

Author: adilsonmottam

Source: slideshare.net

O caso Dreyfus Pródromos HOMERO SENA O ambiente de Paris em 1894 era torvamente hostil aos judeus. Os favoritos da massa anônima, que não raciocina e se deixa sempre arrastar pelos mais audazes, eram Edouard Drumont da Libre Parole, anti-semita enragé, e Henri Rochefort do Intransigeant, uma espécie de d'Artagnan-Aretino, famoso por uma série de duelos, em que fazia da sua destreza de espadachim a ultimaratio do ultraje. A este nem o próprio Clemenceau escapa; noticiara com pormenores que o Tigrese vendera a LordRosebery e fora a Londres receber em mão própria o preço da traição. Drumont iniciara uma campanha pela exclusão dos judeus do exército. Todos os dias a Libre Parole denunciava à inquietação do povo mais sensível do mundo uma nova e tenebrosa maquinação dos judeus, empenhados em cavar a ruína da França. Graças a esse trabalho de infrene demolição, ninguém mais raciocinava: "le Juif, voilà l'ennemi!" A França, desarmada, sentia-se inquieta ante o preparo alemão e a arrogância do Kaiser. As classes de 1891 e 1892 haviam sido dispensadas, o que desfalcava o seu exército de sessenta mil homens. Mercier, ministro da Guerra, era arrastado pela rua da amargura. A imprensa extremista assegurava que a França estava indefesa e que o ouro alemão corria a rodo em Paris, aliciando cúmplices e espiões. Foi nessa atmosfera de desconfianças que estourou como um raio o caso Dreyfus. A Base do Processo Em 24 de setembro de 1894 Mercier, ministro da Guerra, recebeu das mãos do coronel Henry, que ocupava uma posição de destaque no Estado-Maior, uma papeleta de serviço (bordereau) rasgada em quatro pedaços, colados pelas costas, que se dizia encontrada no lixo da embaixada alemã. A contra-espionagem francesa conseguira meter um agente no palácio do conde de Munster. Uma velha francesa, de nome Bastian, conseguira captar as boas graças e a confiança de uma filha do conde, e sob o pretexto de arrumações e limpeza metia o nariz em todos os aposentos da embaixada. Juntava todos os papéis rasgados numa espécie de cartucho e depois os entregava a agentes franceses que, numa seção especial da polícia, os reconstituíam. Tal a versão dada ao general Mercier, pelo coronel Henry, o primeiro que tomou conhecimento do célebre documento, e quem o exibiu já colado e recomposto aos companheiros. Eis o texto do bordereau: "Sem notícias indicando que o Sr. desejava ver-me, mando-lhe contudo, algumas informações interessantes. "1º Uma nota sobre o freio hidráulico do 120 e sobre o modo por que se conduziu esse canhão.

"2º Uma nota sobre as tropas de cobertura (algumas modificações serão trazidas pelo novo plano). "3º Uma nota sobre uma modificação nas formações de artilharia. "4º Uma nota relativa a Madagascar. "5º O projeto do Manual de Tiro da Artilharia de Campanha (14 de março de 1894). "Este último documento é muito difícil de obter e não o posso ter à minha disposição senão por poucos dias. O ministro da Guerra distribuiu-lhe um número certo pelos corpos, que são responsáveis pelo exemplar assim recebido, cada oficial que o retenha devendo entregá-lo logo após as manobras. Se o Sr. quiser tirar o que lhe interessar e restituir-me depois, eu o tomarei. A menos que queira que o mande copiar por extenso e lhe remeta a cópia. Vou partir para as manobras." - E nada mais. A caligrafia dessa papeleta é bem diversa da de Dreyfus. O primeiro perito chamado, Gobert, reconheceu-o. Foi então chamado Bertillon, que, contra a mais palpável das evidências, concluiu pela autoria de Dreyfus. O valor dessa missiva como prova de acusação era nenhum. Um fato bastava para invalidá-la. Dreyfus não tomara parte nas manobras de 1894. Além disso não dispunha de elementos para dar informações sobre o freio hidráulico do 120. Mas era preciso achar um bode expiatório e esse só podia ser um judeu. O major d'Aboville nunca simpatizara com Dreyfus. Era um notório anti-semita. Indigita-o ao coronel Fabre como o criminoso. Du Paty du Clam tem uma idéia genial. Convoca Dreyfus para comparecer ao EstadoMaior, à noite, em traje comum. Aí ditam-lhe uma carta, onde empregam palavras e expressões da papeleta. Emociona-se Dreyfus? Está se traindo. Fica indiferente? Está simulando. Deu-se, não a primeira hipótese, mas cousa parecida. Dreyfus, ante aquele aparato insólito, ante aquele grupo de oficiais hostis que o obrigavam, pela calada da noite, num ambiente soturno, a sentar-se a uma mesa e a escrever um papel, cuja finalidade não conhecia, surpreende-se. Fica atônito e perplexo. Para que todo aquele aparato, toda aquela encenação? Que lhe querem? Acusam-no de alguma cousa? Não é preciso, mas... Surpreendeu-se? Estranhou? Conturbou-se? É um réu confesso. Sai do interrogatório para a prisão, incomunicável. E começa o seu martírio. "Hurler avec les loups" A posição do general Mercier na pasta da Guerra era muito precária. A imprensa extremista tomara-o à sua conta. Não lhe perdoava o licenciamento das classes de 1891 e 1892. Ia agora pô-lo à prova. Se ficasse a seu lado contra o judeu, dar-lhe-iam tréguas. Se contribuísse, mesmo do modo mais leve possível, para que a presa lhe escapasse, não teria quartel. Mercier preferiu hurler avec les loups. Consolidou-se na pasta da Guerra. A Libre Parole e o Intransigeant passaram a endeusá-lo. Mercier tomou a peito o caso. De juiz transformou-se em acusador. Chegou ao extremo de conceder interviews, onde declarava que possuía documentos irrefutáveis da culpabilidade de Dreyfus.

O processo Dreyfus, por uma aberração de todos os preceitos da razão que permite a defesa ampla do acusado, correu em segredo de justiça. A imprensa inglesa insurgiu-se contra essa violação daquilo que para a livre Inglaterra representa a mais elementar das garantias individuais. Rui por sua vez pergunta: "Onde está o corpo de delito? Onde a prova que liga este ao acusado? Quem viu os autos do processo?" Era inútil porém falar à França a voz da razão. Duvidar da culpabilidade de Dreyfus era um crime. Francês que o fizesse passaria logo por vendido ao ouro alemão. A imprensa jacobina velava. Seus artigos são modelos de pressão pelo terror. Um dia a Libre Parole noticiava que tinham querido comprar o voto de um juiz por um milhão. No outro que a alta fiança judia resolvera fazer uma caixa de recursos ilimitados para salvar o criminoso. Apresentava o caso como um prélio em que, de um lado estava a honra da França e do outro o ouro judeu. "Como hesitar entre a palavra dos bravos oficiais do nosso exército, educados no culto da honra, e a dos miseráveis que tudo vendem?" perguntava um deles. Era sob uma atmosfera dessas, sob uma pressão moral dessa força que um pugilo de homens honestos, mas já inclinados à severidade pela pressão da opinião pública, ia julgar o caso Dreyfus. O resultado não podia ser outro. O inocente foi condenado. É indubitável que a campanha contra Dreyfus só tomou as proporções gigantescas que tomou pelo fato dele ser judeu. O exército francês, (como aliás todo grande exército) não se pudera eximir de contar nas suas fileiras traidores e espiões. Bem pouco antes, em outubro de 1890, o tenente Jean Bonnet fora condenado a cinco anos de prisão por entregar quotidianamente a uma potência estrangeira, de quem recebia uma mesada, documentos relativos à defesa nacional. E os jornais de Paris silenciaram... O que se deu com o tenente Jean Bonnet deu-se também com o capitão Guillot, que traiu durante longos anos. Preso e condenado, abafaram-lhe o crime sob o silêncio. Nenhum dos dois era judeu... Não é meu intuito acompanhar passo a passo o processo Dreyfus, que se arrastou por longos anos antes que justiça fosse feita. Quero apenas frisar que o primeiro articulado, que lhe sumariou as falhas e previu profeticamente a inocência do acusado foi o de Rui Barbosa. Aos 7 de janeiro de 1895 (data da sua Carta de Inglaterra), talvez que só a voz de Demange, seu advogado constituído nos autos, se tivesse ouvido em seu favor. Mas apenas nos incidentes processuais. Rui precedeu pois aos Bernard Lazare, aos ScheurerKestner, aos Zolas, às grandes consciências que, para honra da França e da espécie humana, arrancaram o condenado da Ilha do Diabo aos seus verdugos. Não descreverei o processo Dreyfus, as inúmeras vicissitudes por que passou, a energia sobre-humana de Lucie Dreyfus, a nobreza do exército francês, encarnada no major Picquart, resistindo a todos os ódios e preconceitos. Descobriu-se finalmente o autor do bordereau, o verdadeiro traidor - o major Esterhazy. A França não hesitou em desprezar as últimas veleidades do ódio de raça e reabilitou integralmente a vítima do maior erro judiciário do século. Restituiu-lhe o uniforme e as insígnias no mesmo local onde fora celebrada a trágica cerimônia da degradação. Não entrarei em pormenores. Cabe-me apenas lembrar que o Brasil foi o precursor dessa vitória da Justiça. Haverá quem o conteste? O pagamento de Dreyfus

Dreyfus era um homem frio, retraído, tímido e taciturno. Esses traços de caráter, isolando-o de amigos no exército, devem ter contribuído para a situação de abandono em que se viu entre os seus camaradas, que o tomavam por orgulhoso e egoísta. Rui não chegou a conhecê-lo pessoalmente. Está porém que os bons atos têm muitas vezes a sua recompensa na Terra. Passaram-se anos. O galé da Ilha do Diabo, absolvido e reintegrado no exército francês, estava em 1907 na Suíça recuperando a saúde perdida no presídio. Conversando com um diplomata português, representante de seu país na Conferência da Paz em Haia, disse-lhe que sabia que Rui Barbosa fora "o seu primeiro defensor" e mostrou desejos de conhecê-lo. Rui nunca reivindicara esse título. Considerava a sua intervenção, quase ignorada no cenário da luta, sem vantagem prática para Dreyfus. Habituado a tudo renunciar, se se deu ao trabalho de cotejar a data da sua Carta com a das outras defesas, nunca lhe reivindicou a antecedência. Contudo na Inglaterra, aparecia de longe em longe a menção do fato. A Tribuna de Londres a 6 de junho de 1907, referindo-se ao embaixador do Brasil em Haia, comentou: "o homem que dizem ter sido o primeiro defensor de Dreyfus". Era eu secretário da Conferência de Haia e estava contrariadíssimo com a campanha de William T. Stead, no seu jornal Le Courrier de la Conférence contra o nosso embaixador. Tanto mais quanto aquele, a maior força da opinião no seu tempo, distinguindo-me com uma intimidade notória, deixava-me numa posição constrangida, atacando ao chefe da minha embaixada. Procurava eu por todos os meios desfazer no espírito do meu grande amigo as prevenções contra este. Mas sem resultado. Os elementos que trabalhavam contra o representante do Brasil gozavam na época, junto a William T. Stead, de um largo prestígio, cimentado por longos anos de convivência. Só um concurso quase milagroso de evidências poderia desfazer-lhe as alicantinas. Stead passava quase todas as manhãs pelo meu apartamento em Kettingstraat, 31 para almoçarmos juntos no restaurante Van der Pijl, que era perto. Certo dia terminávamos o almoço. Sentados a uma mesa próxima o marquês de Soveral, o conde de Selir, e o ministro Alberto d'Oliveira, os três representantes de Portugal. Eu lhe mostrara a referência da Tribune a que ele fez restrições corteses mas convictas. Súbito passou-me pela cabeça uma idéia salvadora: "E se eu desse a Stead a prova provada de que o próprio Dreyfus está de acordo com a Tribune?" Dirigi-me a Alberto d'Oliveira, o diplomata português que conversara com Dreyfus em Lausanne, e invoquei-lhe o testemunho, que o atual ministro do Exterior de Portugal com a habitual serenidade, deu com todos os pormenores e deixou consignada para a história no seu livro PombosCorreios. Sim! O próprio Dreyfus considerava Rui o seu primeiro advogado. Stead era uma alma de escol, em que vibrava todo o idealismo irlandês. Tinha a religião da lealdade. Não me disse que se dava por convencido. Mas convencido ficou e com remorsos das suas injustiças. Volveu para seus informantes a prevenção com que olhara Rui a quem começou a votar a maior simpatia. Procurei e consegui aproximá-los embora, a princípio, achasse da parte de Rui, melindrado com o homem que pretendera alcunhá-lo de Dr. Verbosa, uma grande relutância. Daí em diante o diretor da Review of Reviews começou a encará-lo com isenção e imparcialidade, terminando por declará-lo o maior vulto da conferência.

Foi assim que, sem o conhecer, Dreyfus pagou a sua dívida para com Rui Barbosa. Fragmento de Uma voz contra a injustiça: Rui Barbosa e o caso Dreyfus. Rio de Janeiro, Fundação Casa de Rui Barbosa, 1987, pp. 18-23. Homero Sena é autor de A república das letras. 3a.ed., Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1996.

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