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Livro Brasil Mali Olhares Cruzados

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Information about Livro Brasil Mali Olhares Cruzados
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sul

Published on March 16, 2014

Author: imagemdavida

Source: slideshare.net

Description

Projeto da OSCIP Imagem da Vida - www.imagemdavida.org.br/
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BRASILMALI Olhares Cruzados REGARDS CROISÉS Serra da CapivaraPaís Dogon SÃO RAIMUNDO NONATOSONGHO

4 AMÉRICA DO SUL Brasil Oceano Atlântico Oceano Pacífico Oceano Índico ÁFRICA Mali São Raimundo Nonato SERRA DA CAPIVARA PAÍS DOGON Songho

5 “Cada ancião que morre é uma biblioteca que se queima... A memória das pessoas da minha geração, sobretudo dos povos de tradição oral, que não podiam apoiar-se na escrita, é de uma fidelida- de e de uma precisão prodigiosas. Desde a infância éramos treinados a observar, olhar e escutar com tanta atenção, que todo o aconteci- mento se inscrevia na nossa memória como em cera virgem. Tudo lá estava nos menores detalhes: o cenário, as palavras, os personagens e até as roupas.” AMADOU HAMPÂTÉ BA – escritor maliano “En Afrique, quand un vieillard meurt, c’est une bibliothèque qui brûle. La mémoire des gens de ma génération, et plus généralement des peuples de tradition orale qui ne pouvaient s’appuyer sur l’écrit, est d’une fidélité et d’une précision presque prodigieuses. Dès l’enfance, nous étions entraînés à observer, à regarder, à écouter, si bien que tout évènement s’inscrivait dans notre mémoire comme dans une cire vierge. Tout y était: le décor, les personnages, les paroles, jusqu’à leurs costumes dans les moindres détails.” AMADOU HAMPÂTÉ BA – écrivain malien

SERRA DA CAPIVARA – PIAUÍ – BRASIL

SONGHO – PAÍS DOGON – MALI

8 Vou na mesma paisagem reduzida à sua pedra. A vida veste ainda sua mais dura pele. Só que aqui há mais homens para vencer tanta pedra, para amassar com sangue os ossos duros desta terra. JOÃO CABRAL DE MELO NETO – escritor brasileiro

9 J’avance dans le même paysage réduit à sa pierre. La vie revêt encore sa peau la plus dure. Mais ici il y a davantage d’hommes pour vaincre tant de pierre, Pour broyer avec du sang les durs os de cette terre. JOÃO CABRAL DE MELO NETO – écrivain brésilien

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11 REGARDS CROISÉS EST UN projet capable de nous sensibiliser autant par sa valeur estéthique que par sa nature humaniste, qui encourage le rapprochement entre des peuples distants géographiquement, mais ayant des liens culturels communs. Cette nouvelle édition, qui présente au moyen de textes et d’images l’échange culturel entres enfants de la Serra da Capivara, dans l’État du Piauí, au Brésil, et du village de Songho, au Mali, conserve l’esprit des éditions pré- cédentes. Du point de vue de l’actuelle poli- tique extérieure brésilienne, cette iniciative donne lieu à une grande satisfaction, car le Projet intègre parfaitement l’objectif de ren- forcement du dialogue entre le Brésil et les Gouvernements et sociétés des nations afri- caines et latino-américaines. Les essais photographiques réunis dans cette publication sont le résultat de moments d’in- teractions ludiques et créatives, qui révèlent des similarités entres les cultures des deux pays, déjà visibles dans les jeux d’enfants, et mettent en évidence, une fois de plus, l’importance de la contribution africaine à la formation de l’identité brésilienne. Le Projet Regards Croisés, en offrant aux plus jeunes le contact fructueux avec la diversité, basé sur le respect et le bénéfice réciproques, se joint aux efforts du Gouvernement, et notamment de la diplomatie brésilienne, pour encourager l’élargissement des frontières et la promotion de la diversité culturelle. ANTONIO DE AGUIAR PATRIOTA Ministre des Relations Extérieures du Brésil OLHARES CRUZADOS É UM projeto capaz de nos sensibilizar tanto por seu valor estético como por sua natureza humanista, ao pro- mover a aproximação entre povos distantes geograficamente, mas com laços culturais comuns. Esta nova edição, que apresenta por meio de textos e imagens o intercâmbio cultural entre crianças da Serra da Capivara, no Piauí, e da aldeia Dogon de Songho, no Mali, mantém o espírito das edições anteriores. Do ponto de vista da atual política externa brasileira, isso é motivo de grande satisfação, pois o proje- to se coaduna perfeitamente com o objetivo de fortalecer a interlocução do Brasil com governos e sociedades de nações africanas e latino-americanas. Os ensaios fotográficos inseridos nesta publi- cação são resultado de momentos de inte- ração lúdica e criativa, que revelam seme- lhanças entre as culturas dos dois países, evidentes já nas brincadeiras de infância, e ressaltam, mais uma vez, a importância da contribuição africana para a formação da identidade brasileira. Ao permitir aos mais jovens o contato provei- toso com a diversidade, baseado no respeito e no benefício recíproco, o projeto Olhares Cruzados une-se aos esforços do Governo, e em particular da diplomacia brasileira, para estimular o alargamento de fronteiras e a promoção da diversidade cultural. ANTONIO DE AGUIAR PATRIOTA Ministro das Relações Exteriores do Brasil

12 O QUE SE CONQUISTA ao completar a nona edição do projeto Olhares Cruzados vai além do reconhecimento das raízes negras do Brasil e de nossa aproximação com o Continente Africano. Dirce Carrion e a Imagem da Vida promoveram o intercâmbio cultural de crian- ças inseridas em realidades tão distantes, que as semelhanças entre elas nos fazem refletir sobre o poder da cultura africana em si. Ela foi capaz de preservar-se através do espaço e tempo e de permear a sociedade brasileira de uma forma muito especial. O reconhecimento desse poder enriquece nossa identidade e provoca em nós uma expansão de consciência sobre o universo cultural em que vivemos. No cenário internacional, observou-se nas últimas décadas o crescimento do interesse sobre os laços culturais que ligam o Brasil e a África, tanto por parte dos governos quan- to das sociedades civis. Isso se percebe no aumento de programas de intercâmbio, na expansão de investimento econômico inter- nacional e na abertura de novas embaixadas. A aproximação, no entanto, também mos- tra o quanto ainda temos que aprender uns com os outros. Por isso, hoje é obrigatório o ensino da História Africana e da Cultura Afro- Brasileira nas escolas brasileiras. A Fundação Cultural Palmares é um órgão do Governo Federal do Brasil, vinculado ao Ministério da Cultura, que tem por missão preservar e promover a cultura afro-brasi- leira e que atua desde 1988 combatendo a discriminação racial. Em prol desses obje- tivos, o conhecimento mútuo entre brasi- leiros e africanos é imprescindível. Assim, desejamos construir uma Ponte Cultural ligando o Brasil ao Continente Africano. Por essa Ponte poderão tramitar ideias, línguas, CE QUE NOUS GAGNONS avec l’achèvement de la neuvième édition du projet Regards Croisés va au-delà de la reconnaissance des racines noires du Brésil et de notre rapprochement avec le Continent Africain. Dirce Carrion et Imagem da Vida ont mis en œuvre un échange culturel entre des enfants insérés dans des réalités si distantes, que les similarités entre eux nous font réfléchir à propos du pouvoir de la culture africaine en elle-même. Une culture qui a été capable de se préserver à travers l’espace et le temps, et d’imprégner la société brésilienne d’une manière très spéciale. Reconnaître ce pouvoir enrichit notre identité et provoque un épanchement de notre conscience sur l’univers culturel dans lequel nous vivons. Sur la scène internationale, les dernières décé- nies observèrent la croissance de l’intérêt sur les liens culturels qui unissent le Brésil et l’Afrique, autant de la part des gouvernements que de celle des sociétés civiles. Ceci se remarque à la multiplication des programes d’échanges, à l’accroissement des investissements écono- miques internationaux, ainsi qu’à l’institution de nouvelles ambassades. Cependant, ce rap- prochement nous montre aussi tout ce que nous avons encore à apprendre les uns avec les autres. De la sorte, l’enseignement de l’His- toire Africaine et de la Culture Afro-Brésilienne est désormais obligatoire dans les écoles bré- siliennes. La Fundação Cultural Palmares est une ins- titution du Gouvernement Fédéral du Brésil, sous l’égide du Ministère de la Culture, dont la mission est de préserver et de promouvoir la culture afro-brésilienne, et qui intervient depuis 1988 contre la discrimination raciale. Au regard de ces objectifs, la connaissance mutuelle entre Brésiliens et Africains est indispensable. Ainsi, nous désirons construire un Pont Culturel

13 artes, esportes e todas as demais manifes- tações culturais que enriquecem e dão sen- tido às nossas vidas. Ao realizar cada edição do projeto Olhares Cruzados e ao fomentar o intercâmbio sobre o Atlântico, a Imagem da Vida celebra a for- ça da cultura africana e coloca mais uma pedra na construção de nossa Ponte Cultural. A Fundação Cultural Palmares parabeniza este lindo trabalho e agradece a todos os envolvidos. ELOI FERREIRA DE ARAUJO Presidente da Fundação Cultural Palmares reliant le Brésil au Continent Africain. Grâce à ce pont, circuleront idées, langues, arts, sports, et toutes autres manifestations culturelles qui enrichissent et donnent un sens à nos vies. À chaque nouvelle édition du projet Regards Croisés, et à travers la mise en œuvre des échanges d’un côté à l’autre de l’Atlantique, Imagem da Vida célèbre la force de la culture africaine, et apporte une pierre supplémentaire à la construction de notre Pont Culturel. La Fundação Cultural Palmares félicite cette œuvre remarquable et remercie toutes les personnes concernées. ELOI FERREIRA DE ARAUJO Presidente da Fundação Cultural Palmares

14 SONGHO... ESTÁ IMPRESSA na memória com a cor dos pergaminhos que amarelam no tempo. Pó, pedra e areia na aridez do Sahel são espelhos que refletem o sol iluminando as vozes das crianças. A alegria se abre em cada sorriso enquanto o olhar persegue os movi- mentos congelando os instantes, recortados do cenário. Moldando o barro elas vão dando forma a sua história, agitando os pincéis extraem das tintas as cores ausentes no Sahel. Uma tranquilidade plena me envolve. Contemplando-as tenho a certeza de muito mais ter aprendido com as crianças do que as ensinado. Os dias escorrem lentamente, sempre iguais, as manhãs de um azul inten- so dão lugar às tardes de um calor escaldan- te que vai derretendo as sombras das mon- tanhas, alongando-as até tocar o horizonte, curvando o dia no encontro com a noite... tempo de relógios sem ponteiros, que no silêncio guardam a memória dos homens. Serra da Capivara... impressa nas paredes de pedra a história resiste nos desenhos daqueles que as faziam de abrigo milhares de anos antes do primeiro europeu pisar em solo americano. Hoje as crianças ao revi- sitarem as grutas reinventam sua ances- tralidade nas cenas gravadas nas rochas de arenito. Apropriadas do seu passado a imaginação risca o espaço, simplifica as dis- tâncias, atravessa o oceano para adivinhar o lado de lá. A curiosidade aguçada pelo conteúdo dos saquinhos de pano de Songho que navegam de um lado para outro na mesma paisagem, levando e trazendo palavras, mensagens, sementes, pedras e tudo aquilo que repre- sente esses dois lados do mundo separados SONGHO... EST IMPRIMÉE dans notre mémoire, de la couleur des parchemins qui jaunissent avec le temps. Poussière, pierre et sable dans l’aridité du Sahel, sont autant de miroirs reflétant le soleil qui illumine les voix des enfants. Le bonheur s’épanche dans chaque sourire tandis que le regard suit les mouvements, immobilisant les instants, retranchés du décor. En modelant l’argile, ils façonnent leur his- toire, en agitant leurs pinceaux, ils extraient des pots de peinture les couleurs absentes du Sahel. Une immense tranquillité m’enveloppe. En les contemplant, j’ai la certitude d’avoir beaucoup plus appris avec les enfants qu’ils n’ont appris avec moi. Les jours s’écoulent lentement, tou- jours les mêmes, les matins d’un bleu intense cédant la place aux après-midis torrides qui font couler les ombres des montagnes, les allongeant jusqu’à ce qu’elles touchent l’ho- rizon, courbant le jour à la rencontre de la nuit... un temps de montres sans aiguilles, qui, dans le silence, gardent la mémoire des hommes. Serra da Capivara... imprimée sur les parois de pierre, l’histoire résiste sur les dessins de ceux qui en faisaient leur refuge des milliers d’années avant que le premier Européen ne mette le pied sur le sol américain. Aujourd’hui, quand ils visitent les grottes, les enfants réin- ventent leur ancestralité à partir des scènes gravées sur les roches d’arénite. S’appropriant leur passé, leur imagination esquisse l’espace, simplifie les distances, traverse l’océan pour deviner l’autre côté. La curiosité aiguisée par le contenu des pochettes en tissus de Songho qui naviguent d’un côté à l’autre à travers les mêmes pay-

15 no mapa, que se reconhecem agora na troca de olhares. Identificando semelhanças e percebendo diferenças dos seus universos tão distantes e tão próximos. Se nós adultos fôssemos humildes o suficien- te para ouvir as vozes das crianças, e con- tinuássemos a perceber o mundo da forma como elas o veem, reaprenderíamos o que é realmente essencial e verdadeiro. DIRCE CARRION sages, emmenant et rapportant paroles, mes- sages, graines, pierres, tout ce qui repésente ces deux côtés du monde, séparés sur la carte, qui se reconnaissent dorénavant dans l’échange de regards. Identifiant les ressem- blances et ressentant les différences de leurs univers si distants et si proches. Si nous, adultes, étions suffisamment humbles pour écouter les voix des enfants et conti- nuions à percevoir le monde de la manière dont ils le voient, nous réapprendrions ce qui est réellement essentiel et véritable. DIRCE CARRION

BRASIL Parque Nacional da Serra da Capivara – Piauí

MALI Ségou – Região Ségou

18 BRASIL Comunidade quilombola Lagoa das Emas – Piauí

19 MALI Sangha e Falésia de Bandiagara – País Dogon

20 BRASIL Parque Nacional da Serra da Capivara – Piauí

21 MALI Ségou – Região Ségou e Djenné – Região de Mopti

22 BRASIL São Raimundo Nonato – Piauí

23 MALI Siby – Região Koulikoro, Songho – País Dogon e Djenné – Região de Mopti

24 BRASIL São Lourenço do Piauí – Piauí

25 MALI Djenné – Região de Mopti e Bandiagara – País Dogon

26 BRASIL Comunidade quilombola Lagoa das Emas – Piauí

27 MALI Songho e Kori Kori – País Dogon, Siby – Região Koulikoro e Djenné – Região de Mopti

28 BRASIL Comunidade quilombola Lagoa das Emas – Piauí

29 MALI Aldeia de Songho – País Dogon

30 BRASIL Pedra Furada no Parque Nacional da Serra da Capivara – Piauí

31 MALI Falésia de Bandiagara – País Dogon, Siby – Região Koulikoro e Djenné – Região de Mopti

32 CRONOLOGIA DO PROJETO O livro e o documentário Brasil Mali Olhares Cruzados viabilizado pela Fundação Cultural Palmares em 2011, é uma iniciativa da OSCIP Imagem da Vida, que teve início em janeiro de 2007, com recursos próprios e o apoio de pessoas que se engajaram no projeto como voluntárias. A decisão de estabelecer uma troca de olha- res entre a Serra da Capivara e o País Dogon se deu pela identidade visual que remete às mesmas paisagens, já a escolha da aldeia de Songho deveu-se ao fato de tanto aqui quan- to lá as paredes de pedra serem testemunho da ocupação humana, sua história, hábitos e tradições. Em fevereiro de 2007 fomos introduzidos na aldeia de Songho por Denise Barros, antro- póloga e terapeuta ocupacional que tem realizado estudos na região desde a década de 1990. Naquele primeiro contato, apresen- tamos o projeto Olhares Cruzados, falamos sobre o Brasil, a Serra da Capivara, sobre a ideia de aproximar esses dois lados do Atlântico, e iniciamos o trabalho com um gru- po de crianças da escola local, com o apoio de M. Kimbassa Dolo – seu diretor. Debruçados sobre os livros e as fotos eles foram se reco- nhecendo na mesma paisagem, e, para se apresentarem às crianças do Piauí fizeram desenhos e costuraram saquinhos com o algodão tecido na própria aldeia. Dentro deles colocaram pedrinhas, sementes, paus, e tudo aquilo que neles coubesse e pudesse mostrar como é o seu cotidiano. Em dezembro de 2007 viajamos para a Serra da Capivara, e entregamos os saquinhos das crianças de Songho para as de São Raimundo Nonato que, curiosas, os vasculharam e os devolveram recheados de presentes que CHRONOLOGIE DU PROJET Le livre et le documentaire vidéo Brésil-Mali Regards Croisés, réalisés par la Fundação Cultural Palmares en 2011, est une initiative de l’OSCIP Imagem da Vida qui a été entre- prise en janvier 2007 grâce à des ressources de l’institution et à l’appui de personnes qui se sont engagées bénévolement dans le projet. La décision d’établir un échange de regards entre la Serra da Capivara et le pays Dogon relève de l’identité visuelle, des mêmes pay- sages. En revanche, le choix du village de Songho s’est fait en raison des parois de pierre qui, ici comme là-bas, sont les témoins de l’occupation humaine, de son histoire, de ses habitudes, de ses traditions. En février 2007, nous avons été introduits dans le village de Songho par Denise Barros, anthropologue et thérapeute occupationnelle, qui effectue des études dans la région depuis les années 1990. Au cours de ce premier contact, nous avons présenté le Projet Regards Croisés, nous avont raconté le Brésil et la Serra da Capivara, et nous avons discuté avec la com- munauté à propos de l’intention de rapprocher ces deux côtés de l’Atlantique. L’idée a été bien reçue, et grâce à l’appui de M. Dolo, le directeur de l’école locale, nous avons entamé les travaux avec un groupe d’élèves. Penchés sur les livres et les photos, les enfants de Songho se sont reconnus dans le même paysage et, pour se présenter aux enfants de Piauí, ils ont fait des dessins et ont cousu des pochettes dans du cot- ton tissé au village, les remplissant de cailloux, graines, bouts de bois, tout ce qui rentrait dedans et qui pouvait illustrer leur quotidien. En décembre 2007, nous sommes allés à la Serra da Capivara pour mettre en place le Projet avec un groupe d’enfants du Projeto ProArte Fundham. Nous avons remis les pochettes en

33 pudessem traduzir o seu entorno. O grupo participou de oficinas de fotografia, desenho e produção de maquetes, aí captaram imagens e reproduziram suas casas para mostrar às crianças de Songho como é a vida deste lado do Atlântico. Com a bagagem recheada de objetos e ima- gens das crianças da Serra da Capivara, retornamos a Mali no mês de janeiro de 2008, levando conosco as fotografias, reproduções das casas, cartas e saquinhos. Por sua vez as crianças dogon participaram de oficinas e rea- tissu des enfants de Songho à ceux de São Raimundo Nonato. Curieux, ils ont examiné leur contenu et les ont rendus, remplies d’objets représentant leur propre environnement. Le groupe a participé à des ateliers de photogra- phie, de dessin et de confection de maquettes. Ils ont enregistré des images et représenté leurs maisons pour montrer à leurs frères de Songho comment était la vie de ce côté de l’Atlantique. Les objets et les photographies des enfants de la Serra da Capivara dans nos bagages, nous sommes retournés au Mali en 2008, vers la fin

34 lizaram atividades semelhantes às da Serra da Capivara. Felizes, esvaziaram os saqui- nhos de pano para mais uma vez enchê-los com fragmentos que pudessem materializar para as crianças brasileiras o seu coidiano. Fotografaram livremente, e, com o mesmo barro do qual são feitas suas casas, moldaram miniaturas delas. A ideia era que o livro e o documentário em vídeo fossem produzidos ainda em 2008, mas isso não se concretizou, e para não interrom- per o contato retornamos a São Raimundo Nonato no mês de novembro do mesmo ano para apresentar os resultados das oficinas realizadas na aldeia de Songho. Novamente foram entregues os saquinhos, que mais uma vez foram esvaziados e recheados de objetos e mensagens para refazer a viagem a Songho. Transcorridos mais de três anos do último contato estabelecido entre as crianças de Songho e de São Raimundo Nonato, em 2011, conseguimos o apoio da Fundação Cutural Palmares para finalizar o projeto, avaliamos então que não seria justo furtar às crianças que tinham participado a oportunidade da releitura sobre a experiência vivida com o pro- jeto, pois sabemos que na passagem da infân- cia para a adolescência a vida é repleta de descobertas, mudanças físicas e psicológicas. Conscientes de que nessa fase da vida três anos representam uma eternidade, decidimos que antes de finalizar o livro seria necessário voltar a Songho e à Serra da Capivara para que as crianças da época, hoje jovens adul- tos, tivessem a oportunidade de revisitar o intercâmbio, e que o livro que vão receber seja atual e não apenas a lembrança de uma experiência vivida por elas no passado. Retornamos à aldeia de Songho em abril de 2011, levando na bagagem as cartas e os du mois de janvier. À leur tour, les enfants du village de Songho ont participé à des ateliers dans lesquels ils ont réalisé des activités sem- blables. Ils ont reçu les pochettes en tissu avec joie, les ont vidées pour les remplir à nouveau et les renvoyer au Brésil. Parcourant les che- mins de leur village, ils ont fait des photos à leur guise. Ils ont aussi modelé des miniatures de leurs maisons avec la même argile dont sont bâtis leurs propres foyers. Notre intention était que le livre et le docu- mentaire vidéo soient réalisés encore en 2008, ce qui ne s’est pas concrétisé. Afin de ne pas interrompre le contact entre les enfants brési- liens et maliens, nous sommes revenus à São Raimundo Nonato au mois de novembre de la même année, pour rapporter les albums de photographies à leurs auteurs, présenter les résultats des ateliers mis en œuvre à Songho et, une fois de plus, remettre les pochettes, qui furent vidées et remplies de nouveaux objets destinés aux enfants dogons. Ce ne fut qu’en 2011 que furent obtenues les ressources pour la finalisation du Projet – soit plus de trois ans après le dernier contact avec les enfants de Songho – et nous avons estimé qu’il serait judicieux d’offrir aux enfants parti- cipants une opportunité de relecture des modi- fications vécues au cours de cette période, car nous savons bien que le passage de l’enfance à l’adolescence est chargé de découvertes et de transformations physiques et phychologiques. Nous sommes donc repartis à Songho en avril, et à la Serra da Capivara en mai 2011, pour que les enfants d’alors, désormais de jeunes adultes, puissent renouveler l’échange, et que le livre réalisé accompagne les transformations survenues dans leur processus de croissance. Dans nos bagages, les lettres et les cadeaux dans les pochettes déjà salies par le temps et

35 presentes dentro dos saquinhos já encardidos pelo tempo e manuseio. Entretanto, mesmo tendo chegado com considerável atraso não causaram o menor impacto, foram recebidos com alegria pelos jovens destinatários das trocas interatlânticas. Em Songho, os meninos e meninas que inicia- ram o projeto já estavam vivendo um outro momento de suas vidas, muitos dos garotos já tinham trocado a sua aldeia pela capital, Bamako. Alguns para estudar, outros na busca de oportunidades de emprego. Das 49 crianças que entre 2007 e 2008 participaram do projeto Olhares Cruzados, conseguimos localizar menos da metade, parte em Songho, parte em Bamako. A surpresa do reencontro com o passado iluminou o rosto de muitos deles, hoje já distantes das imagens congela- das nas fotografias. No retorno de Mali para São Raimundo Nonato convidamos Sumailá Karembe para vir ao Brasil. Foi o primeiro dogon de Songho que pôde reconhecer neste outro lado do Atlântico as paisagens e plantas que reme- tem à sua aldeia. A vocação turística e arque- ológica da região da Serra da Capivara, vem trazendo à população um relativo desenvolvi- mento, o que faz com que o êxodo não seja tão expressivo como no restante do estado do Piauí. Em São Raimundo Nonato fomos recebidos pelas crianças que participaram do projeto, e que, mesmo estando no final da adolescência, demonstram uma alegria infantil com a possibilidade da retomada do contato, que, muito provavelmente, não será feito através dos saquinhos que foram e vol- taram tantas vezes, mas provavelmente pela internet que, superando a resistência das culturas tradicionais, atravessa muito mais rapidamente o Atlântico. les manipulations. Malgré leur retard considé- rable, les présents furent reçus avec enthou- siasme par les destinataires des échanges transatlantiques. La plupart des garçons et des filles qui avaient participé au Projet en 2007 étaient à un autre stade de leur vie. Plusieurs garçons avaient quitté leur village pour Bamako, la capitale. Les uns pour y faire des études, les autres à la recherche de travail. Du groupe de 49 enfants qui ont pris part au Projet Regards Croisés, nous n’avons réussi à en localiser que moins de la moitié, une partie à Songho, l’autre à Bamako. La surprise de la rencontre avec le passé illumina le visage de beaucoup d’entre eux, aujourd’hui bien éloignés des images figées sur les photographies. Pour mettre en œuvre l’échange de regards, nous avons invité à la Serra da Capivara Sumaila Karembe –le premier Dogon de Songho à retrouver de cet autre côté de l’At- lantique les paysages et les plantes qui rapel- lent son village. La vocation touristique et archéologique le la région de la Serra da Capivara offre un déve- loppement relatif à la population locale, multi- pliant les opportunités de travail local, ce qui fait que l’exode populationnel n’est pas aussi significatif que dans le reste de l’État de Piauí. Nous avons été en mesure de réunir à São Raimundo Nonato la plupart des participants du Projet, qui ont accueilli leur invité avec joie. La reprise du contact a rouvert la possi- bilité de l’échange, qui, certainement, ne se poursuivra pas à travers les pochettes en tissu qui ont tant voyagé, mais grâce aux possibi- lités offertes par les nouvelles technologies qui, surmontant la résistance des cultures traditionnelles, traversent l’Atlantique bien plus rapidement.

36 VIAGEM A SONGHO, FEVEREIRO DE 2007 VOYAGE À SONGHO, FÉVRIER 2007

37 VIAGEM A SONGHO, JANEIRO DE 2008 VOYAGE À SONGHO, JANVIER 2007

38 OFICINA DE FOTOGRAFIA EM SÃO RAIMUNDO NONATO, DEZEMBRO DE 2007 ATELIER DE PHOTOGRAPHIE À SÃO RAIMUNDO NONATO, DÉCEMBRE 2007

39 OFICINA DE FOTOGRAFIA EM SONGHO, JANEIRO DE 2008 ATELIER DE PHOTOGRAPHIE À SONGHO, JANVIER 2008

40 OFICINA DE MAQUETE EM SÃO RAIMUNDO NONATO, DEZEMBRO DE 2007 ATELIER DE MODÈLE À SÃO RAIMUNDO NONATO, DÉCEMBRE 2007

41 OFICINA DE MAQUETE EM SONGHO, JANEIRO DE 2008 ATELIER DE MODÈLE À SONGHO, JANVIER 2008

42 RETORNO A SÃO RAIMUNDO NONATO, NOVEMBRO DE 2008 RETOUR À SÃO RAIMUNDO NONATO, NOVEMBRE 2008

43 RETORNO A SONGHO, ABRIL DE 2011 RETOUR À SONGHO, AVRIL 2011

44 REENCONTRO EM SONGHO E BAMAKO, ABRIL DE 2011 RENCONTRE À SONGHO ET BAMAKO, AVRIL 2011

45 FOTOS ESCOLHIDAS PELAS CRIANÇAS NO REENCONTRO PHOTOS CHOISIES PAR LES ENFANTS OU AU COURS DE LA RENCONTRE

46 RETORNO A SERRA DA CAPIVARA, MAIO DE 2011 RETOUR À SERRA DA CAPIVARA, MAI 2011

47 REENCONTRO NA SERRA DA CAPIVARA, MAIO DE 2011 RENCONTRE À SERRA DA CAPIVARA, MAI 2011

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49 O PROJETO OLHARES CRUZADOS E O PERTENCIMENTO HUMANO O humano, para se tornar humano, busca per- tencimento. Encontramo-nos e nos perdemos no outro, com o outro, pelo outro, e até contra o outro. E isso ocorre de diferentes formas, em diferentes culturas e em diferentes luga- res. Inventamos identidades, nos recriarmos, nos apropriamos de culturas e, somente nelas, existimos. Porém, a vida é dinâmica e não cabe em uma única cultura, assim como nenhum processo educativo dá conta das possibilidades de recriação de si e do mundo. Quando vivemos em pequenos grupos, a res- ponsabilização pela educação que dá senso de pertencimento aos infantes tende a ser com- partilhada entre os membros da comunidade. Todos se conhecem e há maior controle social sobre a vida de cada um. A individuação é sin- gularizada com certa predominância de interes- ses coletivos. O que não acontece nos centros urbanos, onde os modos de vida e de perten- cimento se complexificam. Diminui o controle social sobre a vida de cada pessoa, e a respon- sabilização pela educação das crianças passa a ser mais difusa. A escola surge neste cenário como o espaço artificial institucionalizado com o papel de dar às crianças condições de se apro- priarem de conhecimentos e se reconhecerem em ambiências distintas, empoderando-as para a (re)criação de si e do mundo. Neste contexto, possibilitar o entrecruzamen- to de olhares entre estudantes da Serra da Capivara, no interior do nordeste brasileiro, e da Vila de Songho, no interior do Mali, é oferecer outras imagens que possam ajudar as comunidades a se olharem e mirarem seus processos educativos. O pertencimento à aldeia também passa pelo reconhecimento do diverso. Não é por acaso que a etimologia LE PROJET REGARDS CROISÉS L’APPARTENANCE HUMAINE L’humain, pour devenir humain, recherche l’appartenance. Nous nous retrouvons et nous nous perdons dans l’autre, avec l’autre, voire contre l’autre. Et ceci se déroule de différentes manières, en différentes cultures et en diffé- rents lieux. Nous inventons des identités, nous nous recréons, nous nous approprions des cultures et, uniquement en elles, nous existons. Cependant, la vie est dynamique et ne relève pas d’une seule culture, de même qu’aucun processus éducatif ne peut se charger des pos- sibilités de recréation de soi et du monde. Quand nous vivons en petits groupes, la res- ponsabilité de l’éducation, qui apporte un sens d’appartenance aux enfants, tend à être parta- gée entre les membres de la communauté. Tous se connaissent et il existe un plus grand contrôle social sur la vie de chacun. L’individuation est singularisée avec une certaine prédominance d’interêts collectifs, contrairement aux centres urbains où les modes de vie et d’appartenance sont bien plus complexes. Le contrôle social sur la vie de chaque personne se relâche, et la res- ponsabilité de l’éducation des enfants devient plus diffuse. L’école apparaît dans cette scène comme l’espace artificiel institutionnalisé ayant le rôle d’apporter aux enfants des moyens pour qu’ils s’approprient des connaissances et se reconnaissent dans des environnements distincts, les renforçant pour la (re)création de soi et du monde. Dans ce contexte, permettre l’entrecroisement de regards entre des étudiants de la Serra da Capivara, dans la région Nord-Est du Brésil, et du village de Songho, au Mali, c’est offrir d’autres images qui puissent aider les com- munautés à se regarder et contempler leurs processus éducatifs. L’appartenance au village

50 da palavra “respeito” vem do latim respecta- re, ou seja, “re-olhar”. Só respeitamos a nós mesmos e aos outros se conseguimos olhar para as realidades de uma maneira ainda não vista. Muitas vezes, desejamos ser iguais pelo direito de sermos diferentes. Outras tantas, queremos ser diferentes para alcançar o senso de igualdade. Existem inúmeras semelhanças geográficas e similitudes culturais em ambos os lugares. Contudo, imensas diferenças tam- bém nos fazem pensar. De maneira especial, há uma diferença que nos chama muita atenção. Um jovem de Songho (que, assim como os chefes da aldeia, não des- gruda de seu celular em tempo algum) pode nos levar até inscrições rupestres milenares e explicar suas simbologias. Não porque ele tenha aprendido isso na escola, mas porque ainda são importantíssimos os rituais de ini- ciação de cultura tradicional, os quais, entre outras coisas, também ajudam a contornar desenhos semelhantes, no esforço numinoso de oferecer pertencimento aos seus jovens. Enquanto isso, não há mais grupos indígenas no estado do Piauí. Há, no entanto, um esfor- ço intelectual de antropólogos engajados que tentam levantar hipóteses sobre o que signifi- cavam as inscrições rupestres que existem na Serra da Capivara, compartilhando tais conhe- cimentos, por meio da educação formal, aos jovens habitantes de São Raimundo Nonato. Não há dúvidas de que o projeto Olhares Cruzados amplia referenciais de olhares que possibilitam novas formas de pertencimento. Porém, ao conversarmos com os jovens de São Raimundo e de Songho que participaram do projeto, algumas perguntas mexem com nossa alma: que tipo de pertencimento é ofe- recido aos estudantes por meio dos processos educativos formais? Que africanidades são passe aussi par la reconnaissance du divers. Ce n’est pas par hasard que le mot “respect” provient du latin respectare, c’est-à-dire, re- regarder. Nous ne respectons nous-mêmes et autrui que si nous parvenons à regarder les réalités d’une manière non encore vue. Souvent, nous désirons être égaux pour le droit d’être différents. D’autres fois, nous voulons être différents pour atteindre le sens d’égalité. D’innombrables ressemblances géo- graphiques et similarités culturelles existent des deux côtés. Néanmoins, d’immenses diffé- rences font aussi réfléchir. D’une manière spéciale, il y a une différence qui nous attire beaucoup l’attention. Un jeune homme de Songho (qui, comme les chefs du vil- lage, ne lâche pas une seconde son téléphonne portable) nous a conduit jusqu’aux inscriptions rupestres millénaires, et nous a expliqué leur symbolisme. Non pas parce qu’il l’avait appris à l’école, mais parce qu’au cours des cérémo- nies rituelles de circoncision, les peintures sont renouvelées par les jeunes garçons. En effet, les rites d’initiation de la culture traditionnelle sont encore très importants, dans l’effort numi- neux d’offrir une appartenance à ses jeunes. En revanche, il n’y a plus de groupes indigènes dans l’État de Piauí. Il y a, toutefois, un effort intellectuel d’anthropologues engagés, qui se sont attachés à soulever des hypothèses sur la signification des inscriptions rupestres de la Serra da Capivara, partageant leurs connais- sances, à travers l’éducation formelle, avec les jeunes habitants de São Raimundo Nonato. Il n’y a pas de doute que le Projet Regards Croisés élargit les référentiels de regards qui permettent de nouvelles formes d’apparte- nance. Mais au cours des conversations avec les jeunes de São Raimundo Nonato et de Songho qui ont participé au Projet, certaines questions

51 nous ont touché l’âme. Quel type d’apparte- nance est offert aux étudiants par les processus d’éducation formelle? Quelles africanités sont partagées et (re)crées quand on s’aperçoit que “l’Afrique” ne se trouve pas dans un continent, mais dans la reconaissance identitaire qui s’ac- complit à travers les relations humaines tout au long de l’histoire? Comment reconnaître des appartenances communautaires et globales en même temps? Comment des notions d’apparte- nances culturelles, qui impliquent des relations hiérarchiques rigides, coexistent et s’opposent à des générations immergées dans un monde chaque fois plus mondialisé, connectif et simul- tané? Et, surtout, comment pouvons-nous nous reconnaître dans tous ces mondes qui tiennent dans ce que nous appellons “monde”? PR. DR. ALEXSANDRO DOS SANTOS MACHADO Professeur de psychologie de l'Université Fédérale du Vale do São Francisco (UNIVASF) compartilhadas e (re) criadas ao perceber que a “África” não está em um continente, mas no reconhecimento identitário que ocorre por meio das relações humanas ao longo da história? Como reconhecer pertencimentos comunitários e globais ao mesmo tempo? Como noções de pertencimentos culturais que pressupõem rela- ções hierárquicas rígidas coexistem e conflitu- am com gerações imersas em um mundo cada vez mais globalizado, conectivo e simultâneo? E, sobretudo, como podemos nos reconhecer nesses tantos mundos que cabem dentro disso que chamamos de “mundo”? PROF. DR. ALEXSANDRO MACHADO Psicólogo, professor da UNIVASF (Universidade Vale do São Francisco)

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BRASIL

54 A ARTE QUE NOS UNE – OLHARES CRUZADOS ENTRE SERRA DA CAPIVARA E O POVO DOGON O Parque Nacional Serra da Capivara hoje é uma realidade, modelo de preservação de sítios arqueológicos repleto de arte pintada e gravada nas paredes de seus abrigos de rocha. E, por meio da pesquisa, da infraes- trutura e das ações sociais que a FUMDHAM, Fundação Museu do Homem Americano, com o apoio de instituições governamentais e pri- vadas, nacionais e internacionais e a comuni- dade local, construímos dia a dia, condições melhores para a natureza, a cultura, a nossa gente. Nossa equipe é interdisciplinar e, com a preo- cupação de proteger os patrimônios cultural e natural da região sudeste do Estado do Piauí, realizamos atividades de pesquisa, manejo e desenvolvimento regional desde os anos 70. Iniciamos em 2000 um trabalho pedagógi- co centrado em arte-educação, em horá- rios extracurriculares, chamado PRÓ-ARTE FUMDHAM. Juntos, educandos, educadores, voluntários, patrocinadores, funcionários e comunidade, formamos um time que se forti- fica a cada ação. Nossa intenção é assegurar o direito de integridade e dignidade para as comunidades da região. Estamos conseguindo criar momentos de crescimento, socialização e conhecimento e, alguns deles já são agentes multiplicadores em seus bairros e povoados. E estão fora das drogas, do alcoolismo e da prostituição infantil, comum e devastadora não só nesta região. Lutamos para manter essas atividades e contamos com o apoio dos que acreditam, como nós, que somente com educação pública de qualidade, ao alcance de todos, mudamos um país, promovendo, realmente, a igualdade social. L’ART QUI NOUS UNIT – REGARDS CROISÉS ENTRE LA SERRA DA CAPIVARA ET LE PEUPLE DOGON Le Parc National Serra da Capivara est aujourd’hui une réalité, un modèle de pré- servation de sites archéologiques débordant d’œuvres d’art peintes et gravées sur les parois des abris sous la roche. Et, grâce aux recherches, à l’infrastructure et aux actions sociales menées par la FUMDHAM, Fundação Museu do Homem Americano, comptant avec l’appui d’institutions gouvernementales et pri- vées, nationales et internationales, ainsi que de la communauté locale, nous avons créé, jour après jour, des meilleures conditions pour la nature, la culture, pour nos gens. Notre équipe étant interdisciplinaire et, dans le souci de protéger le patrimoine culturel et naturel de la région Sud-Est de l’État de Piauí, nous avons réalisé des activités de recherche, d’exploitation et de développement régional depuis les années 70. Nous avons inauguré en 2000 un programme pédagogique extra-curriculaire d’art-éducation, appelé PRÓ-ARTE FUMDHAM. Tous ensemble, élèves, enseignants, bénévoles, parrains, fonc- tionnaires, communauté, nous formons une équipe qui se renforce à chaque action. Notre intention est d’assurer aux communautés de la région le droit à l’intégrité et à la dignité. Nous sommes parvenus à créer des moments de croissance, de socialisation et de savoir. Des actions qui ont fructifié, se multipliant dans d’autres quartiers et d’autres villages. Éloignant drogues, alcoolisme et prostitution infantile, fléaux communs et dévastateurs, présents aussi dans cette région. Nous luttons pour maintenir ces activités et comptons sur l’appui de ceux qui croient, comme nous, que ce n’est qu’à travers une éducation publique de

55 Tivemos a oportunidade de nos miscigenar, trocar olhares entre crianças e jovens de dois continentes, África e América, ligados desde a Pangéia, passando pela Pré-história, chegando aos dias de hoje com o projeto Olhares Cruzados. As fotos, os depoimentos e, principalmente, a emoção de cada um, foram únicas, o que vemos e o que lemos fazem parte da memória, das nossas origens culturais transatlânticas que nos faz refletir sobre nossos papéis neste passado-futuro. Como podemos proporcionar um mundo melhor oferecendo oportunidades iguais a todos, sem discriminação? PROFA. DRA. NIÉDE GUIDON Antropóloga, presidente da Fundação do Homem Americano qualité à la portée de tous que nous changeons un pays, engendrant une réelle égalité sociale. Nous avons eu l’occasion de nous mêler, d’échanger des regards, entre enfants et jeunes de deux continents, l’Afrique et l’Amérique, unis depuis la Pangée, passant par la préhistoire, jusqu’à nos jours, grâce au Projet Regards Croisés. Les photos, les histoires et, surtout, l’émotion de chacun, furent uniques. Ce que nous voyons, ce que nous lisons fait partie de la mémoire, de nos origines transatlantiques, nous faisant réfléchir sur nos rôles dans ce passé-futur. Comment pouvons-nous assurer un monde meilleur qui puisse offrir les mêmes opportunités à tous, sans discrimination? PR. DR. NIÉDE GUIDON Anthropologue, Présidente de la Fundação do Homem Americano

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57 MUITO ANTIGAMENTE, mais de 100 milhões de anos atrás, na época do Gondwana a massa continental austral era uma só e havia continuidade entre a África equatorial e América do Sul. Ligadas estavam, fruto de uma mesma história geológica, como ainda hoje se assemelham as rochas que susten- tam a terra e o homem de ambos os lados do Atlântico. Após, lentamente, afastaram-se, as rochas, as pedras, a terra que dela descendem guardam a memória dessa antiga fraterni- dade. Espécies de diferentes tipos povoaram ambientes que iam se diferenciando, pelo cli- ma, pela influencia das correntes marinhas, pelos ventos. O homem veio, só depois, quando a diversi- dade estava tão arraigada que nem sequer era imaginável a existência do além-mar. Os primeiros hominídeos da mais antiga pré- história africana, que datam de pelo menos dois milhões de anos, foram à busca de outras terras, eles e provavelmente os bichos que os rastreavam. Ásia e Europa, a segun- da nada mais que um pequeno apêndice da primeira, hospedaram a rápida evolução de muitas espécies diferentes de humanidade. Todas com antigas origens africanas, e mui- tas com as novas mudanças apareceram na Eurásia; porém a África nunca parou: conti- nuou produzindo diversidade física e cultural, evolução, criatividade biológica e social. E a América restou um paraíso sem o perigo- so enfeite da presença humana. Quando o povoamento já estava bem desenvolvido nas costas do Pacifico, em toda a África isso já ocorria há tempos. Alguns povos – poucos e várias vezes – estiveram em busca da última grande terra que faltava: a América, que per- maneceu desabitada até há cerca de 100.000 IL Y A TRÈS LONGTEMPS, plus de 100 millions d’années auparavant, à l’époque du Gondwana, la masse continentale australe n’était qu’une, et l’Afrique Équatoriale était reliée à l’Amérique du Sud. Deux continents unis, fruits d’une même histoire géologique, de même qu’encore aujourd’hui se ressemblent les roches qui ont soutenu la terre et l’homme des deux côtés de l’Atlantique. Ensuite, lentement, se séparèrent les roches, les pierres, la terre, qui gardent la mémoire de cette ancienne fraternité. Des espèces de diffé- rents types peuplèrent les environements, qui, petit à petit, se distinguèrent par le climat, par l’influence des courants maritimes, par les vents. L’homme n’est venu qu’après, alors que la diversité était tellement ancrée que rien ne laissait concevoir l’existence de l’outre-mer. Les premiers hominidés de la plus ancienne préhistoire africaine, qui datent d’au moins deux millions d’années, sont partis en quête d’autres terres, de même que, probablement, les animaux qui suivaient leurs traces. L’Asie et l’Europe, la seconde pas plus grande qu’un petit appendice de la première, ont accueilli l’évolution rapide de nombre d’espèces diffé- rentes d’humanité. Tout en conservant leurs anciennes origines africaines, beaucoup d’entre elles apparurent en Eurasie dénotant les nou- veaux changements. Mais l’Afrique ne s’est jamais arrêtée, produisant toujours diversité physique et culturelle, évolution, créativité bio- logique et sociale. Et l’Amérique est demeurée à l’état de paradis, sans le bijou dangereux de la présence humaine. Lorsque le peuple- ment était déjà bien établi le long des côtes du Pacifique, – il l’était depuis longtemps dans toute l’Afrique –, quelques uns, en petit nombre et à plusieurs reprises, sont partis à la recher- che de la dernière grande terre qu’il manquait, l’Amérique, qui est demeurée inhabitée jusqu’à

58 anos; não sabemos, e talvez não seja relevan- te, de onde e como chegaram à América, mas sabemos que acontecia antes da primeira, ter- rível, chegada: dos navios europeus. Os ame- ríndios eram povos que sabiam viver e lidar com pedras: para cortar, moer, bater, caçar. Os restos minerais são a única herança desses tempos que reconhecemos na terra vermelha da caatinga e do sahel. É o esqueleto fossiliza- do do comportamento; se não fosse por eles, seixos quebrados, lasquinhas perdidas dentro de grutas e tocas, nada poderíamos imaginar sobre os verdadeiros descobridores dessas terras americanas; nada poderíamos dizer da vida deles e nada teríamos para construir uma história sincera e durável. Quartzo, arenito, silex, de ambos os lados do Atlântico são os testemunhos calados e mais fiéis da ridícula pretensão europeia da descoberta da América. Milhares de anos de sabedoria sustentaram a vida do homem em regiões com água rara e preciosa, com vege- tação espinhosa, e talvez essa resistência tenha fomentando uma criatividade artística, vestígios gravados do passado do homem nas pedras. Hoje, nos últimos séculos, as crianças brin- cam nos abrigos escavados nos mesmos arenitos avermelhados, respiram da mesma poeira e desejam os mesmos sonhos. Quando ouço os pássaros da caatinga e rasteio o chão ressecado, sinto-me antigo e feliz, sinto que minha vida individual pode ser maravilhosa- mente perdida entre as pedras, para delas adquirir nobreza e tranquilidade. O olhar se cruza com o silêncio. PROF. DR. FABIO PARENTI Arqueólogo, diretor do Istituto Italiano di Paleontologia Umana il y a environ 100 000 ans. Nous ne savons pas, et cela n’a peut-être pas d’importance, d’où et comment sont-ils arrivés en Amérique, mais nous savons que cela s’est passé avant la première, et terrible, arrivée des navires euro- péens. Les Amérindiens étaient des peuples qui savaient vivre et se servir de pierres pour cou- per, moudre, battre et chasser. Les vestiges minéraux sont les seuls témoins de ces temps que nous reconnaissons dans la terre rouge de la caatinga et du Sahel. C’est le squelette fossilisé du comportement. Si ce n’était par ces cailloux cassés, ces petits débris perdus dans les grottes et les tanières, nous ne pourrions rien imaginer sur les vrais découvreurs de ces terres américaines. Nous ne pourrions rien dire au sujet de leur vie et nous n’aurions rien pour construire une histoire sincère et durable. Quartz, arénite, silex, des deux côtés de l’Atlantique sont des témoignages silencieux et plus fidèles que la ridicule prétention euro- péenne de la découverte de l’Amérique. Des milliers d’annés de savoir ont assuré la vie de l’homme dans des régions où l’eau était rare et précieuse, la végétation épineuse, et il se peut que cette endurance ait éveillé une créativité artistique, des vestiges du passé de l’homme gravés sur les pierres. Aujourd’hui, ces derniers siècles, les enfants jouent dans les abris creusés dans les mêmes arénites rougeâtres, respirent la même pous- sière et désirent les mêmes rêves. Quand j’écoute les oiseaux de la caatinga, quand je scrute le sol désséché, je me sens ancien et heureux, je sens que ma vie individuelle peut se perdre merveilleusement entre les pierres, pour en acquérir la noblesse et la tranquilité. Le regard se croise en silence. PR. DR. FABIO PARENTI Archéologue, Directeur de l'Instituto Italiano di Paleontologia Umana

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61 Fotos das crianças de São Raimundo Nonato P H O T O S D E S E N F A N T S D E S Ã O R A I M U N D O N O N A T O A L I C Y A B A R R O S A M A N D A B A S T O S A N A K A R I N A D A S I L V A B R U N O H E N R I Q U E B R U N O P A E S L A N D I M C L A U D I A A M A N D A C O S M E P E R E I R A E M A N O E L A D E J E S U S E M A N U E L T O M A Z F L Á V I A S O A R E S D O N A S C I M E N T O G U I L I A N A M I L H O M E S D E A B R E U G U S T A V O G O M E S I N G R I D E M A R I A J A R D E L W A L T E R K Á T I A V A L É R I A K A Y O Y U R I D A S I L V A L A R I S S A D E N E G R E I R O S L U C A S B R E N O L U C A S F E R R E I R A M A N U E L V E N T U R A N E T O M A T E U S D E S O U S A M A T H I A S D I A S M I C A E L A R A Ú J O N I L V A N P A E S R A I A N E R I B E I R O R E N A T O D E S O U Z A R I C A R D O A L V E S R I C H A R D G O M E S R O S E L Y D E N E G R E I R O S T I A G O M A C E D O W I L L A N E R I B E I R O

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73 SONGO DE TODOS NÓS Entre quatro grandes rochedos vemos surgir uma paisagem de cor bege, marrom, ocre e cinza, são tons recobertos pelo dourado do sol intenso. No período das águas a terra permanece forrada pelo verde do milhete, o principal cereal da agricultura dogon e por parcelas espalhadas aqui e ali dos jardins de cebola e hortaliças. Mas, há que lembrar as árvores como os baobás, as tamarineiras, as palmeiras e as acácias, compondo os espaços dos animais – sobretudo, carneiros e burros – e das pessoas. Eis Songo! Assongê! Assongê! Benvido, ben- vido ouvirá o viajante ou o recém chegado a esta vila da República do Mali. Vivem em Songho (ou Songo) perto de duas mil pessoas das famílias Yanogê, Karambê, Degogá, Gindo e Seibá. Mas há também, alguns membros de outras unidades fami- liares dogon como Bannu, Tapili, Arama, Kassogê, Tembeli, Kelepili e uma família de pastores fula, os Bari. Lá habitam, igualmen- te, dois ferreiros de uma mesma unidade familiar. Recentemente alguns agentes do Estado, como professores e enfermeiros, vieram com suas famílias integrar-se aos moradores. Eles são originários de diferentes áreas dogon ou de outras regiões do Mali. A população está divida em quatro bairros prin- cipais que compõem o povoado: amiru tondó (bairro do chefe); tondó bilanga; Ing&duló tondó e tanga tondó. Suas casas e celeiros, construídos com materiais locais, estão per- feitamente mimetizados à paisagem. Há no bojo de sua diversidade, uma forte identidade coletiva constituída incessante- mente na história e no processo da cons- trução da convivência. As decisões mais SONGHO EST À NOUS TOUS Entre quatre grands rochers, nous voyons surgir un paysage aux couleurs beige, mar- ron, ocre et gris, dont les nuances sont recou- vertes par le doré du soleil intense. Pendant la période des pluies, la terre est tapissée de mil, la principale céréale de l’agriculture dogon, et de parcelles dispersées çà et là de carrés d’oi- gnons et de légumes. Mais il faut aussi parler des arbres, comme les baobabs, les dattiers, les palmiers et les acacias, qui composent les territoires des animaux – moutons et ânes, notamment – et des personnes. Voici Songho! Assongé! Assongé! Bienvenue, bienvenue, entendra le voyageur ou le nouvel arrivant dans ce village de la République du Mali. À Songho (ou Songo) vivent près de deux mille personnes des familles Yanogué, Karembé, Dégoga, Guindo et Seiba. Mais aussi quelques membres d’autres familles dogon, comme les Banou, Tapily, Arama, Kassogué, Tembely, Kelepily et une famille de bergers fula, les Bari. Y habitent également deux forgerons d’une même unité familiale. Récemment, des agents de l’État, des professeurs et un infirmier, sont venus avec leurs familles s’intégrer aux résidents. Ils sont originaires de différentes régions Dogon ou d’autres provinces du Mali. La population se partage en quatre quartiers principaux qui composent le village: Amiltondo (quartier du chef), Tondobilanga, Indjedolila et Tangoutondo. Leurs maisons et leurs granges, construites à l’aide de matériaux locaux, se fondent parfaitement dans le paysage. Il y a, dans le sein de sa diversité, une forte identité collective qui s’est construite continuel- lement au cours de l’histoire et du processus de la construction de la vie en commun. Les décisions les plus importantes sont prises après

74 importantes são tomadas em meio a muitos debates, discussões e negociações entre as diferentes famílias e os diferentes grupos de idade. Songo Dere wo Dere, significa que Songo não é de uma só pessoa nem perten- ce a uma só família, Songo pertence a todos nós, dizem seus habitantes. Palavra e comunicação formam elementos sociais vitais, elas são tecidas em diferentes línguas: a própria do local é denominada por eles ejege domu. No entanto, os habitantes falam igualmente outros idiomas, como o fulfude dos pastores Fula, o bamanan dos Bambara, que é a principal forma de expres- são oral na capital. A população de Songo domina, ainda, diversos falares dogon. Mesmo sendo língua oficial, o francês é utilizado por poucas pessoas, ainda que seja o idioma usado na escola e que seja conhecido por alguns entre aqueles que viveram na Costa do Marfim. Por constituir uma localidade de população muçulmana, outra língua de refe- rência é o árabe, pois o Alcorão – que deve ser memorizado e recitado – é ensinado pelos marabus presentes nos diferentes bairros. maints débats, discussions et négociations entre les différentes familles et les différents groupes d’âge. Songo Dere wo Dere, signifie que Songho n’est pas à une seule personne ni n’appartient à une seule famille. Songho appar- tient à nous tous, disent ses habitants. Parole et communication sont les éléments sociaux vitaux, tissés en différentes langues: celle propre au local est appelée par eux ejege dom. Cependant, les habitants parlent d’autres langues, comme le fulfude des ber- gers Fula, ou le bambara, qui est la principale forme d’expression orale dans la capitale. La population de Songho domine encore plusieurs parlers Dogon. Très peu de personnes parlent le français, langue officielle, bien que ce soit la langue d’enseignement dans les écoles et qu’elle soit connue de ceux qui ont vécu en Côte d’Ivoire. La population étant musulmane, l’arabe est une autre langue de référence, car le Coran – qui doit être appris par cœur et récité – est enseigné par les marabouts des différents quartiers. La terre est la source vitale de l’organisation de la société. Selon les règles locales, elle est

75 héréditaire et peut être cédée, mais non ven- due. Elle est divisée à partir d’un point imagi- naire qui sépare le village entre deux groupes, les maîtres de la terre, les Yanogué, au sud, et les Karembé, au nord. L’économie provient le l’agriculture – qui est la principale activité –, de l’élevage (principalement caprins et ovins), du tissage, du tourisme et des migrations sai- sonnières. Le tissage est une activité importante caracté- risée par la coopération du processus de tra- vail: les femmes filent le coton les les hommes le tissent. Une activité qui est surtout réalisée durant les périodes de sécheresse, et très importante pour ceux qui ne se déplacent pas vers les villes ou la récolte du riz. Outre les espaces domestiques, il existe dans chaque quartier au moins un local collectif réservé aux tisseurs. Beaucoup d’entre eux exposent et vendent leurs produits ainsi que d’autres objets artisanaux aux touristes. Songho est entrée dans les routes touristiques grâce aux peintures rupestres de l’une de ses grottes. Ces peintures sont rénovées lors des rites de circoncision, qui font partie du processus d’initiation des petits garçons à la vie adulte. Entre les mois de décembre et de février principalement, les touristes parcourent un itinéraire fixé par la population qui inclut la mosquée principale, le jawa-bain (espace de la parole et du repos des plus vieux) du quartier du chef, une des places de tissage, différents points de vente d’objets d’artisanat ainsi que la grotte où se trouvent les peintures rituelles. Les visiteurs qui décident de passer la nuit au village peuvent descendre dans une auberge montée et gérée communautairement. Tous les trois ans, un groupe est choisi, comprenant au moins un représentant de chaque quartier et des différentes familles. A terra é a fonte vital da organização da socie- dade. Ela é hereditária, pode ser cedida, mas não vendida segundo os preceitos locais. Está dividida com base em um ponto imaginário que separa o povoado entre dois grupos que são os mestres da terra, os Yanogê, ao sul, e os Karambê, ao norte. A economia advém da agricultura – que é a principal atividade – da criação de animais (caprinos e bovinos, sobretudo), da tecelagem, do turismo e da migração sazonal. A tecelagem é atividade importante caracteri- zada pela cooperação do processo de trabalho em que às mulheres cabe a fabricação do fio de algodão e aos homens a produção do teci- do. É durante a seca que é mais regularmente praticada, sendo de grande importância para aqueles que não se deslocam para as cidades ou para a colheita do arroz. Além dos espa- ços domésticos, existe em cada bairro pelo menos uma área coletiva reservada aos tece- lões. Muitos expõem e vendem seus produtos e outros artesanatos aos turistas. Songo entrou na rota do turismo pelas pin- turas rupestres em uma de suas cavernas. Essas pinturas são renovadas durante os rituais de circuncisão, parte do processo de iniciação dos meninos na vida adulta. Entre os meses de dezembro e fevereiro principal- mente, os turistas percorrem um itinerário fixado pela população que inclui a mesquita principal, a jawa-bain (espaço da palavra e do repouso dos mais velhos) do bairro do che- fe, uma das praças de tecelagem, diferentes pontos de venda de artesanato e a gruta na qual se observam as pinturas rituais. Aqueles visitantes que resolvem passar a noite podem se hospedar num albergue criado e gerido comunitariamente. A cada três anos um gru- po é escolhido, contando com pelo menos

76 uma pessoa de cada bairro que representa, também, as diferentes famílias. Apesar dos esforços e do dinamismo local, um grande número de pessoas, homens e mulhe- res de diferentes idades, deslocam-se para Bamako entre outubro e abril, especialmente. A falta de chuva tem criado dificuldades para a produção dos cereais necessários à alimen- tação de todos. Há, então, um vai-e-vem constante, o que favorece a aceleração das mudanças na sociedade. Pertencentes a uma cultura de tradição que valoriza o coletivo, várias associações foram criadas no povoado por iniciativa de pessoas diferentes. Uma delas é a Associação Songo Dere wo Dere que desenvolve projetos com apoio brasileiro. Entre suas atividades desta- cam-se aquelas destinadas aos jovens como as oficinas de imagem e as iniciativas volta- das ao apoio de pessoas sem rede social, à educação, à cultura e à tecelagem. Olhares Cruzados Songho-Serra da Capivara foi realizado em duas fases e em dois anos diferentes no que se refere ao processo afri- cano. Todavia, o projeto inscreveu-se em relações que vêm sendo tecidas desde 1994. Foi favorecido, ainda, pela abertura das famí- lias, o interesse das crianças e jovens, pelo apoio de membros da Associação Songo Dere wo Dere e pelo diretor da escola. Lugar de atmosfera sugestiva, Songo sur- preende e seduz o visitante com sua lumino- sidade avermelhada e as formas marcantes dos rochedos que desenham seu contorno. O ritmo do chamado para as cinco orações, saandi, integra a experiência cotidiana dos habitantes e de quem ali chegar. PROFA. DRA. DENISE BARROS Antropóloga e Terapeuta Ocupacional – USP Malgré les efforts et le dynamisme local, un grand nombre de personnes, hommes et femmes de différentes tranches d’âge, se déplacent vers Bamako, surtout entre les mois d’octobre et d’avril. Le manque de pluie engendre des difficultés pour la production des céréales nécessaires à l’alimentation de tous. Il y a donc un constant va-et-vient, ce qui favorise l’accélération des changements dans la société. Appartenant à une culture qui valorise le col- lectif, plusieurs associations ont été créées au village d’après différentes iniciatives. L’une d’elles est l’Association Songo Dere Wo Dere qui développe des programmes avec l’appui brésilien. Parmi ses activités se détachent les activités consacrées aux jeunes, comme les ateliers d’images, ainsi que les initiatives diri- gées vers le soutien de personnes sans réseau social, l’éducation, la culture et le tissage. Le Projet Regards Croisés Songho-Serra da Capivara a été réalisé en deux phases et au cours de deux années differentes pour le processus africain. Cependant, le Projet s’est inscrit dans le contexte des relations qui se sont tissées depuis 1994. Il a été favorisé, en outre, par l’ouverture des familles, l’interêt des enfants et des jeunes, par l’appui de membres de l’Association Songo Dere Wo Dere et par le directeur de l’école. Local d’atmosphère suggestive, Songho sur- prend et séduit le visiteur par sa luminosité rougeâtre et les formes marquantes de ses rochers qui en dessinent le contour. Le rythme des appels à la prière, saandi, intègre l’expé- rience quotidienne de ses habitants, et de tout autre qui y viendra. PR. DR. DENISE BARROS Anthropologue et Thérapeute Occupationnelle – Universidade de São Paulo – USP

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78 LES ENFANTS, ENTRE FORCE ET FRAGILITÉ DANS LA SOCIÉTÉ DOGON Le magnifique travail entrepris par Dirce Carrion dans le cadre de Olhares Cruzados reflète bien les enjeux et les contradictions qui peuvent exister au sein des communautés enfantines en pays dogon. Si l’avenir de la société dogon en particulier et malienne en général repose sur leurs épaules, force est de reconnaître que leurs conditions de vie leur permettent de développer de formidables capacités d’endurance et d’adaptation. La situation géographique et climatique peu- vent en partie expliquer ces conditions sin- gulières d’éducation mais n’oublions pas de rappeler la place privilégiée occupée par les enfants en pays dogon. Liens généalogiques par excellence, ils sont dénommés en fonction de la place particulière occupée au sein de la fratrie, ou encore en fonction d’événements remarquables survenus au sein du clan ou de la société en général. Dès le sevrage terminé, vers trois ans, ils se voient souvent responsabiliser pour s’occuper des plus jeunes ou pour veiller au bon déroulement de la vie domestique. La scolarisation des enfants vers 7 ou 8 ans permet aux plus jeunes de rester au village, sous la surveillance de leurs grands-parents rarement inactifs. C’est ainsi qu’il est fréquent de rencontrer, dans les ruelles désertées du quartier, des petites filles et des garçonnets jouant, avec les cailloux, la terre et tous objets hétéroclites laissés par les visiteurs de passage. Ils forment des communautés régies par les règles de la classe d’âge et chacun sait rapidement les droits et les responsabilités qui lui incombent. Si l’organisation de la société traditionnelle offrait une autorité respectée et entretenue AS CRIANÇAS, ENTRE FORÇA E FRAGILIDADE NA SOCIEDADE DOGON O magnífico trabalho empreendido por Dirce Carrion no âmbito do projeto Olhares Cruzados reflete bem os interesses e as contradições que podem existir no seio das comunidades infantis em Dogon. Se o futuro da sociedade dogon em particular e maliana em geral recai sobre seus ombros, devemos reconhecer que suas condições de vida per- mitem que desenvolvam formidáveis capaci- dades de resistência e de adaptação. A situação geo

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