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Linha Direta em Revista - O lixo que não é lixo - outubro/2011

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Information about Linha Direta em Revista - O lixo que não é lixo - outubro/2011
Business & Mgmt

Published on February 16, 2014

Author: wiglianinoticias

Source: slideshare.net

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Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunicações no Estado de São Paulo www.sintetel.org sintetel@sintetel.org.br EM REVISTA OUTUBRO 2011 - 13ª edição - ANO V - TRIMESTRAL DISTRIBUIÇÃO GRATUITA - VENDA PROIBIDA PNBL: A banda se alarga Governo busca popularizar e expandir o acesso à internet de alta velocidade. De um lado, a inclusão digital, de outro, a qualidade da navegação para grandes eventos esportivos ENTREVISTA Secretário de Emprego e Relações de Trabalho do Estado, Davi Zaia fala sobre o trabalho à frente da pasta.

Já retirou o novo Guia de Convênios do Sintetel? O Departamento de Imprensa lançou a sétima edição do livrinho mais procurado pelos associados. Agora você encontra de forma fácil e prática todos os nomes, endereços e telefones para contato dos convênios firmados pela entidade com o intuito de trazer mais benefício e comodidade aos nossos trabalhadores mais fiéis. São academias, escolas de idiomas, despachantes, clínicas de estética, além de uma vasta gama de profissionais especializados nas mais diversas áreas da saúde e beleza. E não é só isso! Se você é associado da região de São José do Rio Preto, Bauru e Ribeirão Preto, agora você conta com o Guia de Convênios do Interior, que está em sua primeira edição. A iniciativa promete facilitar ainda mais o manuseio da publicação e, em breve, deverá ser expandida para as demais regiões. Ainda não retirou o seu exemplar? Solicite agora mesmo junto ao seu representante sindical ou na subsede mais próxima. Aproveite!

ÍNDICE EM REVISTA Entrevista - Do sindicalismo para o governo ........................ 5 O Secretário de Emprego e Relações de Trabalho, Davi Zaia, apresenta o panorama do Estado de São Paulo. 10 Educação - Bullying: agressão não é diversão ...................... 10 “Falta respeito e compaixão com o próximo. Isso é inaceitável”, afirma a psicóloga Maria Tereza Maldonado. 13 Comportamento - Adeus, Barbie ...................................... 13 Crianças amadurecem cada vez mais cedo e trocam os brinquedos tradicionais por equipamentos eletrônicos. Capa - Banda Larga para todos .................................................. 20 A implantação do Plano Nacional de Banda Larga abre oportunidade para a inclusão digital da população de olho na Copa do Mundo e nas Olimpíadas. 20 Saúde - A saúde que depende de planos ............................... 26 O Brasil está muito distante de oferecer serviço de qualidade para sua população, apesar de convênios privados o setor está em crise. Cultura - Cinema para pensar ................................................ 30 26 Filmes menos comerciais passam pelas salas brasileiras gerando reações diversas. Artigos Editorias 4 Editorial 24 Mulher 8 Meio ambiente 28 Notas 16 Tecnologia 33 Passatempo 32 Protocolo do bem - João Guilherme Vargas Netto 34 Gosto de você e Vivi um sonho - Artigo do Leitor 18 Aposentados LINHA DIRETA em revista  3

Editorial O brasileiro quer se comunicar Olá, caros leitores! Chegamos à nossa última edição deste ano, mas com uma boa matéria de capa que envolve um dos assuntos muito discutidos na sociedade e que afeta diretamente a nossa categoria: a banda larga. Nós, da direção do Sintetel, somos a favor da democratização da inAlmir Munhoz * formação e isso só se dá por meio da comunicação em grande escala. Ainda mais que o Brasil será sede de dois grandes eventos internacionais nos próximos anos. Falo da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016. Entendemos que tem que haver investimentos na expansão das redes, em novas tecnologias e em qualificação e requalificação dos trabalhadores para que possamos ampliar nossa comunicação. DIRETORIA DO SINTETEL Presidente: Almir Munhoz Vice-Presidente: Gilberto Rodrigues Dourado Diretoria Executiva: Cristiane do Nascimento, Fábio Oliveira da Silva, José Carlos Guicho e Marcos Milanez Rodrigues. Diretores Secretários: Alcides Marin Salles, Ana Maria da Silva, Aurea Meire Barrence, Germar Pereira da Silva, José Clarismunde de Oliveira Aguiar, Maria Edna Medeiros e Welton José de Araújo. Diretores Regionais: Elísio Rodrigues de Sousa, Eudes José Marques, Jorge Luiz Xavier, José Roberto da Silva, Ismar José Antonio, Genivaldo Aparecido Barrichello e Mauro Cava de Britto. Jurídico: Humberto Viviani juridico@sintetel.org.br OSLT: Paulo Rodrigues oslt@sintetel.org.br Recursos Humanos: Sergio Roberto rh@sintetel.org.br COORDENAÇÃO EDITORIAL Diretor Responsável: Almir Munhoz Para que tudo isso aconteça, certamente serão contratadas novas empresas e novos serviços serão terceirizados. Pensando nisso tudo foi que nós assinamos, representados pela Fenattel, um protocolo de ações conjuntas com a Febratel (Federação Brasileira das Empresas de Telecomunicações) ante a questão da terceirização e precarização das relações trabalhistas no setor de Telecom no Brasil. O documento, assinado em 30 de setembro de 2011, estabelece marcos comuns éticos, sociais e profissionais capazes de preservar as relações de trabalho e sindicais contra os efeitos nocivos dessas práticas – que podem levar à deterioração social dos contratos trabalhistas. A formalização deste protocolo é uma ação concreta que adotamos para combater a terceirização e a precarização do trabalho. Boa leitura! * Almir Munhoz é presidente do Sintetel. Cartas Você pode enviar as suas sugestões, opiniões e comentários para a redação de Linha Direta em Revista. Basta encaminhar um e-mail para sintetel.imprensa@gmail.com, ligar para (11) 3351-8892 ou mandar uma carta para o seguinte endereço: Rua Bento Freitas, 64 – Vila Buarque - CEP: 01220-000 - São Paulo - SP. A/C do Depto. de Comunicação. 4  LINHA DIRETA em revista Jornalista Responsável: Marco Tirelli MTb 23.187 Revisão Geral: Amanda Santoro MTb 53.062 Redação: Amanda Santoro, Emilio Franco Jr. (MTb 63.311), Marco Tirelli Estagiária: Renata Sueiro Diagramação: Agência Uni (www.agenciauni.com) Fotos: F.F. Fotografia Colaboradores: João Guilherme Vargas Netto, Paulo Rodrigues e Theodora Venckus Impressão: Gráfica Unisind Ltda. (www.unisind.com.br) Distribuição: Sintetel Tiragem: 10.000 exemplares Periodicidade: Quadrimestral Linha Direta em Revista é uma publicação do Sindicado dos Trabalhadores em Telecomunicações no Estado de São Paulo | Rua Bento Freitas, 64 Vila Buarque | 01220-000 | São Paulo SP | 11 3351-8899 www.sintetel.org | sintetel@sintetel.org.br SUBSEDES ABC: (11) 4123-8975 sintetel_abc@uol.com.br Bauru: (14) 3231-1616 sintetel_bru@uol.com.br Campinas: (19) 3236-1080 subtel.cas@terra.com.br R.Preto: (16) 3610-3015 subribeirao@sintetel.org.br Santos: (13) 3225-2422 subsede.santos@terra.com.br S.J.Rio Preto: (17) 3232-5560 sindicato.sp@terra.com.br V. Paraíba: (12) 3939-1620 sintetel_sjc@uol.com.br O Sintetel é filiado à Fenattel (Federação Nacional dos Trabalhadores em Telecomunicações), à UNI (Rede Sindical Internacional) e à Força Sindical. Os artigos publicados nesta revista expressam exclusivamente a opinião de seus autores.

ENTREVISTA Do sindicalismo para o governo O Secretário de Emprego e Relações de Trabalho, Davi Zaia, apresenta o panorama do Estado de São Paulo Marco Tirelli Filósofo formado pela PUC de Campinas e funcionário de carreira do extinto Banco Nossa Caixa, Davi Zaia luta há mais de 30 anos no movimento sindical, sobretudo por melhores condições de vida e de trabalho. Em 15 de março de 2007, aos 51 anos de idade, assumiu na Assembleia Legislativa de São Paulo o mandato de deputado estadual pelo PPS. Reeleito em 2010, hoje está licenciado para exercer o cargo de Secretário de Emprego e Relações do Trabalho do Estado de São Paulo, que exerce desde janeiro de 2011. Linha Direta em Revista foi ouvir a opinião do sindicalista que hoje desempenha uma importante função no governo paulista. Sua escolha, acredita, é o reconhecimento da importância de o movimento sindical participar de questões de interesse do Estado e da população e disse, ainda, que o governador Geraldo Alckmin quer diálogo com as centrais sindicais. aqui estão instalados parques tecnológicos de excelente nível, indústrias de ponta e com o atual ritmo da economia temos uma série de desafios a serem enfrentados no âmbito do emprego e das relações de trabalho. LDR: De que forma o Banco do Povo Paulista auxilia no crescimento do Estado? DZ: O Banco do Povo Paulista (BPP), desde a sua criação em 1998, já realizou mais de 243 mil operações de crédito, em parcerias com as prefeituras municipais, estimulando e Linha Direta em Revista: Quais os desafios em assumir a Secretaria de Emprego e Relações de Trabalho de um Estado tão importante como São Paulo? Davi Zaia: Os desafios são muitos levando em consideração a dimensão do Estado, sua importância econômica, o grau de tecnologia alcançado. São Paulo é responsável por aproximadamente 45% das vagas de trabalho geradas no País, “São Paulo é responsável por cerca de 45% das vagas de trabalho geradas no País” LINHA DIRETA em revista  5

ENTREVISTA apoiando os empreendedores formais e informais do nosso Estado. O montante de recursos emprestados até o momento é de R$ 774 milhões. São investimentos em atividades microeconômicas que vêm transformando a vida de pequenos empreendedores que pouco acesso possuem às linhas de crédito tradicionais. Como resultado, nós incorporamos milhares de pessoas que não tinham essa oportunidade para crescer e se desenvolver. Estamos ampliando a cada ano os recursos disponíveis para empréstimos, sendo que em 2011, contamos com R$ 120 milhões para estimular a nossa economia por meio do microcrédito. LDR: No plano de ação da Secretaria existe algum projeto que vise exclusivamente a geração de empregos? DZ: O Governo do Estado tem uma preocupação especial com essa questão e mantém para esse fim o Investe São Paulo, criado especialmente para atrair e apoiar as empresas que desejam se instalar no Estado de São Paulo, no sentido de movimentar a economia, gerar renda, mais empregos e inovação tecnológica. O programa facilita a interlocução dos investidores com os órgãos públicos do estado, com as demais instituições públicas nos níveis federal e municipal, identifica áreas para investimento, disponibiliza informações estratégicas sobre as melhores condições para investir, apoia os municípios em suas políticas de atração de empresas, recepciona missões de investidores estrangeiros, entre outros serviços. A Secretaria do Emprego e Relações do Trabalho também desenvolve um conjunto de políticas visando melhorar o acesso do trabalhador ao mercado de trabalho, como o Programa de Qualificação Profissional (PEQ), o Time do Emprego e O Emprega São Paulo. Tais programas ajudam as pessoas a encontrar o emprego que necessitam. Temos ainda o Banco do Povo Paulista que, como já mencionamos, ajuda a gerar emprego e renda para a população. 6  LINHA DIRETA em revista “Foram criados em torno de 617 mil novos postos formais de trabalho no Estado” LDR: Como se encontra a situação real de emprego formal em São Paulo? DZ: Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego, foram criados aproximadamente 617 mil novos postos formais de trabalho no Estado de São Paulo, no período de abril de 2010 a abril de 2011, com crescimento médio de 11% no salário real dos admitidos, passando de R$ 913 em abril de 2010 para R$ 1.013 em abril do ano seguinte. Análises dos dados nos indicam que os setores de serviços e comércio são responsáveis por 70% das vagas criadas. Podemos resumir a situação do emprego formal nos últimos 12 meses da seguinte maneira: expressiva criação de novos postos de trabalho e aumento significativo do salário médio real dos admitidos. LDR: O Programa Estadual de Qualificação Profissional tem trazido bons resultados? “O governo do Estado tem disponível R$ 140 milhões para programas de qualificação profissional” DZ: Os resultados têm sido bastante positivos, pois o governo estadual procura identificar quais são as reais demandas pelas profissões que estão sendo mais requisitadas nas diferentes regiões do Estado. Isso porque trabalhamos com as comissões municipais de emprego, que são constituídas pelo poder público municipal, empresas e trabalhadores. Também estamos criando parcerias com diferentes setores da sociedade. O governo do Estado tem disponível este ano R$ 140 milhões para programas de qualificação profissional. Mas independente dos recursos, o que importa é como eles serão empregados. Dessa forma, temos procurado maximizar o que dispomos de recursos focando os investimentos nas principais necessidades. LDR: Pelo fato de ter sido sindicalista, acredita que esta experiência ajude-o a ver a atuação da Secretaria de outra forma? DZ: De uma maneira geral, a secretaria sempre esteve muito próxima dos sindicatos e do mundo do trabalho e o fato de ter uma vida praticamente toda dedicada aos sindicatos me ajuda a ter uma compreensão mais ampla das necessidades de diferentes setores. A prática sindical me ensinou a resolver situações de impasse pela via da negociação, do diálogo, a praticar o exercício da democracia. Assim é mais fácil encontrar soluções que atendam aos interesses do Estado e da população. LDR: A sua nomeação tem algum significado político? DZ: O governo reconhece que é importante que o movimento sindical participe das questões que dizem respeito aos interesses do Estado e da população. Quando assumimos, os secretários de Estado receberam como recomendação do governador Geraldo Alckmin que deveriam continuar desenvolvendo os programas de governo, sem interrupções. A mim, particularmente, ele pediu que fizesse um convite especial aos dirigentes

ENTREVISTA das centrais sindicais para um encontro no Palácio dos Bandeirantes, a fim de iniciar um diálogo com o governo. Essa foi uma das suas primeiras ações, o que demonstra o seu interesse em construir uma relação positiva com os sindicatos. A partir daí, iniciamos um canal permanente de diálogo, que continua aberto e ativo. LDR: Quais áreas da economia paulista necessitam de maior qualificação da mão de obra? DZ: O setor de comércio e serviços é o que mais demanda cursos de qualificação profissional, seguido pela indústria e a construção civil. Em muitos casos, a pessoa já sai empregada dos nossos cursos profissionalizantes, graças à parceria que mantemos com as empresas e à identificação que fazemos dos setores onde há mais oportunidades de emprego nos municípios. LDR: Com relação aos imigrantes ilegais (sobretudo coreanos, peruanos e bolivianos), a Secretaria está fazendo algo para que eles se tornem parte da mão de obra legal em São Paulo? DZ: Os estados não têm competência constitucional para resolver essa questão porque a solução depende do governo federal, que tem a responsabilidade pelo controle da entrada de imigrantes e por sua legalização no País. “A prática sindical me ensinou a resolver situações de impasse pela via da negociação” Ministério do Trabalho e Emprego? DZ: Nós mantemos 237 Postos de Atendimento ao Trabalhador (PAT) no Estado de São Paulo, 13 deles na capital, 29 na Região Metropolitana, 161 no Interior do estado, 18 no Vale do Paraíba e nove no litoral paulista. Em convênio com o Ministério do Trabalho, nós distribuímos perto de 80 mil carteiras de trabalho por mês. Também intermediamos o serviço de solicitação do seguro desemprego. Além desses serviços, no PAT a pessoa também pode se inscrever nos programas da Secretaria do Trabalho, como o Emprega São Paulo, que faz intermediação de mão de obra, Programa Estadual de Qualificação Profissional (PEQ) e no Programa de Apoio à Pes- soa com Deficiência (PADEF). Desde 2000, as unidades do PAT já atenderam a cerca de 11 milhões de pessoas. LDR: Como funciona a relação de intermediação da Secretaria, se por um lado ela tem que ouvir os trabalhadores e por outro lado também tem que ouvir os empresários? DZ: Questões como empregabilidade, qualificação profissional e empreendedorismo passam necessariamente pela participação de todos os segmentos da sociedade civil. Não há contradição, antes, é uma necessidade a participação tanto do mundo do trabalho quanto o do capital. O governo precisa da parceria desses setores e ela tem funcionado muito bem como indicam os trabalhos da Comissão Estadual de Emprego, que tem em sua composição a participação do poder público, assim como dos trabalhadores e dos empregadores. Essa composição é reproduzida nas comissões municipais de trabalho e tem alcançado resultados bastante satisfatórios. A parceria com as prefeituras também é muito importante, como se pode constatar em programas como o Banco do Povo Paulista e no funcionamento dos Postos de Atendimento ao Trabalho (PAT). LDR: Há dois anos não existia quantidade de fiscais do trabalho necessários para atender toda a demanda do Estado. Hoje essa situação mudou? DZ: Essa competência é do Ministério do Trabalho, o que não exclui a secretaria de acionar os canais competentes, quando constatar alguma irregularidade. Mas por estar impedida de fiscalizar, a Secretaria não dispõe de fiscais entre os seus quadros de servidores. LDR: Existe algum trabalho em conjunto da Secretaria Estadual com o LINHA DIRETA em revista  7

MEIO AMBIENTE Lixo que não é lixo Debate sobre a reciclagem de produtos eletroeletrônicos ganha importância Emilio Franco Jr. Reciclar o lixo faz cada vez mais parte do dia a dia dos brasileiros. Muitos condomínios já possuem coleta seletiva de materiais, retirados uma vez por semana por caminhões destinados exclusivamente para essa finalidade. Com tantas campanhas educativas ao longo dos anos, a consciência da importância de se reaproveitar materiais como plástico, papel e metal passou a ser realidade, mas ainda são poucos, se considerada a totalidade da população, os que assumiram o compromisso de separar adequadamente aquilo que não serve mais para o uso doméstico. O caso das latinhas de alumínio parece ser a única exceção positiva, já que, mesmo destinadas de forma errada pelos consumidores, acabam sendo reaproveitadas em 100% graças ao trabalho dos coletores de material reciclável, que futucam as lixeiras em busca do objeto. Mas, se existe esse bom cenário, também há outro, no qual muita coisa ainda precisa ser feita, mesmo com a existência de legislações de abrangência federal e estadual. É o caso dos resíduos eletrônicos, que ainda são destinados de forma incorreta após serem descartados pelos usuários. A Lei promulgada no estado de São Paulo em 2006 ainda engatinha pela falta de consenso entre poder público e indústria, que discor8  LINHA DIRETA em revista dam de pontos fundamentais da norma. Em ampla discussão realizada ao longo dos anos, e que parece estar próxima do fim com as ordens do governador Geraldo Alckmin (PSDB) para que haja entendimento com o setor produtivo, ao invés de uma imposição do poder público, muitas questões polêmicas foram levantadas. Primeiramente, é preciso esclarecer o que são os resíduos eletroeletrônicos. Essa definição abrange produtos eletrônicos geridos a eletricidade com limite de voltagem determinada. Isso engloba aparelhagem distinta: geladeira, fogão, celular, notebooks, ferro de passar, entre outros. A grande questão é como dar o devido fim a objetos de descarte esporádico e, em algumas situações, de transporte complicado, como no caso dos eletrodomésticos da linha branca. Pensando nisso, tanto as legislações estadual quanto a nacional, ambas relatadas pelo deputado Arnaldo Jardim (PPS/SP), determinaram a obrigação da logística reversa. Como o nome sugere, a ideia é que o próprio produtor, responsável por botar a mercadoria no mercado, fique incumbido de retirála após a utilização. A indústria, por sua vez, contesta essa norma, por achar que ela é injusta ao colocar toda a responsabilidade nos empresários, além de dobrar o preço do produto, já que o custo de

MEIO AMBIENTE coleta, ou seja, do caminho reverso, também é alto. “O problema é convencer a indústria a entrar nesse programa”, assume o secretário adjunto de meio ambiente do estado de São Paulo, Rubens Rizek. “A verdade é que estamos muito atrasados na implantação efetiva da lei de resíduos”. O secretário, apesar de mostrar compreensão em relação às demandas dos empresários, ressalta que tentar mudar a Lei apontando problemas não é uma estratégia frutífera, já que o Ministério Público cobra constantemente a secretaria sobre o cumprimento da legislação. O mais relevante, no entanto, é que algumas empresas já largaram na frente e se adaptaram e elas não vão querer nenhuma alteração, mas sim mais rigor na fiscalização. “O próprio consumidor não vai aceitar essa mudança”, completa Rizek. Entretanto, André Luis Saraiva, diretor do departamento de responsabilidade socioambiental da Abinee (Associação Brasileira de Indústria Elétrica e Eletrônica), faz considerações relevantes. Ele logo questiona: “quantas pessoas comprariam um carro de peças 100% recicladas se pudessem pagar o mesmo preço por um totalmente novo?”. A lógica, para ele, vale para a indústria eletrônica e prova que o brasileiro ainda não tem essa cultura. “Primeiro é preciso educar e a secretaria de educação tem que fazer parte do debate para criar uma geração comprometida com o tema”, acredita. Poucas pessoas têm a real consciência do risco a que estão expostas ao não destinarem esses materiais para o reuso, além dos danos mais óbvios ao meio ambiente. Aparelhos eletroeletrônicos, como geladeiras e outros da mesma linha, possuem gases que agridem a camada de ozônio. Mais grave do que isso são os problemas que televisores, micro-ondas e computadores podem causar. Esses aparelhos têm, por exemplo, chumbo ou mercúrio na composição que, se manipulados de forma errada durante a decomposição, danificam as células cerebrais, causam fraqueza muscular e problemas no coração, rins e nos sistemas nervoso e sanguíneo. Outro grande risco é que, destinados aos aterros sanitários, esses produtos contaminam o solo e as águas, e que, de alguma maneira, podem atingir as pessoas mesmo que essas não tenham contato direto com esses objetos, in- clusive muitos anos depois. Caso simbolicamente emblemático é o do Shopping Center Norte, em São Paulo, que virou alvo da Prefeitura por não dar vazão correta ao gás metano emitido pelo terreno sobre o qual o empreendimento foi construído, um lixão desativado na década de 80. Anos depois, ainda existia o risco de explosão da área. O debate sobre a retirada de objetos não utilizados de circulação está em sintonia com o fim dos aterros sanitários, o que deve ocorrer em 2014, de acordo com a legislação brasileira. Já existem postos de recolhimento para objetos como baterias de celulares e pilhas, mas isso ainda não acontece em larga escala. Quando um aparelho ainda tem condições de uso, mas o dono não tem mais interesse, a recomendação é tentar revender ou doar para instituições de caridade. O mais importante é não misturar esse lixo específico com o comum. A lei tem quatro princípios básicos: o da precaução, das responsabilidades pós-consumo e compartilhada e do poluidor pagador. Os itens são complementares e lógicos, a ideia é a de que “colocou no mercado, também tem de tirar”. Assim, todos os agentes (fabricante, transportadora e comércio) são culpados por possíveis danos por conta da poluição gerada pelos produtos. Isso aumenta a importância de cooperativas que reaproveitam o lixo eletroeletrônico descartado de forma incorreta. O único problema, aponta Tereza Cristina Carvalho, diretora do centro de descarte e reuso de resíduos de informática da Universidade de São Paulo (Cedir), é que essas associações de catadores são especializadas e não aproveitam o todo do material que recebem. “Parte é reciclada e o resto é jogado fora”, conta. É por isso que essa discussão precisa envolver todos os setores da sociedade e o poder público, por meio das prefeituras, precisa investir também nessa logística reversa, além da parte que cabe, obviamente, à indústria, por mais que essa relute, às vezes, em aceitar o seu papel. LINHA DIRETA em revista  9

EDUCAÇÃO Bullying: agressão não é diversão “Falta respeito e compaixão com o próximo. Isso é inaceitável”, afirma a psicóloga Maria Tereza Maldonado Renata Sueiro Provocar, apelidar, discriminar, agredir, isolar, humilhar, amea- da amizade”, de Gabriel Chalita, o bullying pode ser dividido em çar e perseguir são práticas recorrentes do bullying. Quem já pre- dois tipos: direto e indireto. senciou atitudes como essa, em que um indivíduo é coagido por um ou mais “valentões”, conhece bem essa violência psicológica, física e social presente na sociedade. Emergentes de relações interpessoais, essas ações acontecem em ambientes como escolas, e clubes. No entanto, não existem registros de quando esse tipo de comportamento começou a ser praticado. Acredita-se que sempre tenha existido no meio social. O termo bullying, derivado do verbo inglês bully, é uma terminologia recentemente criada para definir o comportamento agressivo, repetitivo e contínuo de uso de poder por um ou mais indivíduos com a intenção de causar constrangimento, danos materiais, intimidação, humilhação ou de agredir fisicamente outro indivíduo sem condições de defesa. Conforme publicado no livro “Pedagogia 10  LINHA DIRETA em revista O primeiro é praticado geralmente por meninos por meio de insultos, agressões físicas e danos materiais. Já o segundo, é um comportamento predominante em meninas com ações de isolamento social, humilhação, perseguição e difamação. Nessas situações não existe um comportamento menos agressivo, tanto o bullying direto quanto o indireto podem causar transtornos irreversíveis, resultando em traumas permanentes e até a morte. “Claro que existem situações de bullying nos locais de trabalho, porém a forma mais violenta e prejudicial continua sendo a exercida sobre as crianças, porque atingem na fase de formação da personalidade, e isso pode causar danos irreparáveis de forma perpétua”, expõe Chalita. Além disso, existe o cyberbullying, relacionado ao meio virtual, que

EDUCAÇÃO utiliza a tecnologia e a comunicação como subsídio para a prática Estados Unidos. Jamey Rodemeyer, de 14 anos, cometeu suicídio de atitudes com a intenção de causar danos ao outro. Segundo a no dia 21 de setembro após postar um vídeo na internet confes- psicóloga e escritora Maria Tereza Maldonado, o comportamento sando que era vítima de bullying devido à sua homossexualidade. agressivo no meio virtual pode ser ainda mais terrível. “O cyber- Em seu blog diário, Jamey relatou as humilhações que sofria roti- bullying pode chegar a 24 horas por dia nos sete dias da semana. neiramente no colégio. “Eu sempre falo o quanto eu sofro bullying, Nesse caso, a vítima é atacada por mensagens, vídeos ou imagens mas ninguém escuta. O que eu tenho que fazer para vocês me difamatórias”, relata. escutarem?”. Para Gabriel Chalita, o cyberbullying pode ser ainda mais grave, Apesar dos altos índices de violência escolar, os resultados de pois, quando as situações de constrangimento, apelidos e difamação caem na rede, a informação ganha mais força, repercussão e abrangância ilimitada. “Dependendo da idade, isso pode ser destruidor para a criança ou adolescente”, afirma. Há algum tempo, pouco se falava sobre bullying, brincadeiras que envolviam esse comportamento eram ignoradas por pais e professores. Mas com os crescentes casos de violência escolar e até suicídio, o assunto ganhou proporção e passou a ser prioridade na agenda da educação mundial. Tragédias desoladoras resultantes de algum tipo de constrangimento se tornaram frequentes nas escolas ao redor do globo. Casos Marcantes Quem não se lembra do massacre de Columbine? Em 20 de abril de 1999, quando os estudantes Eric Harris, de 18 anos, e Dylan Klebold, de 17 anos, do Instituto Columbine, nos Estados Unidos, começaram a atirar almejando diversos colegas e professores. Em quarenta e nove minutos de tiroteio, os estudantes chegaram a matar 13 pessoas, deixaram 21 feridos e posteriormente cometeram suicídio. Contudo, após doze anos da tragédia, acredita-se que Eric e Dylan foram vítimas de bullying na escola e isso seria apontado como a real motivação da retaliação, culminando no massacre. Em 2003, a pequena cidade de Taiúva, no interior de São Paulo, também assitiu a uma tragédia semelhante. Edmar Aparecido Freitas, de 18 anos, sofria bullying no colégio desde os sete anos, constantemente chacoteado devido à sua obesidade. Após concluir o ensino médio, Edmar comprou um revólver 38 e decidiu retornar a escola para se vingar dos colegas. Durante o intervalo, atirou em nove pessoas e depois se matou. Um caso recente de perseguição também acabou em tragédia nos bullying aparecem em menores proporções no Brasil. O relatório divulgado em 2008 pela Plan - organização inglesa não-governamental que atua em 66 países em defesa dos direitos da criança e do adolescente -, mostra que 70% dos 12 mil estudantes brasileiros entrevistados, em seis estados, afirmaram já ter sofrido bullying no colégio. A pesquisa ainda revelou que cerca de 1 milhão de crianças da população mundial sofrem algum tipo de violência nas escolas por dia. O promotor de vendas H.S.R. sabe bem o que é sofrer bullying na infância. “Eu era perseguido e tomava tapas de dois meninos da minha sala de aula, consequentemente, eu ficava com medo e perdia a vontade de ir para o colégio”, declara. A psicóloga Maria Tereza Maldonado explica que o comportamento pode repercurtir de maneira diferente para cada indivíduo. Enquanto alguns encontram mecanismos para desarmar os ataques, outros se sentem profundamente atingidos, estigmatizados, resultando em sentimentos de baixa-estima, ansiedade, angústia e desmotivação para frequentar a escola. Para se ter ideia, os danos causados por ataques de bullying podem ir de baixo rendimento escolar, evasão, déficits de atenção, depressão, até ideações suicidas. Normalmente, os pais sem informação não conseguem identificar esses sintomas, o que pode se agravar ainda mais, já que a vítima tende a se isolar e não falar sobre o que está acontecendo. “Nunca comentei sobre o bullying com meus pais e eles sequer percebiam. Busquei alternativas para me livrar dos ataques, evitei algumas brigas e me defendi muitas vezes”, conta H.S.R. LINHA DIRETA em revista  11

EDUCAÇÃO O grande problema é que o sentimento de opressão reprimido panhas de combate ao bullying é de extrema importância. Ela res- pode levar as vítimas a responder de maneira violenta e desen- salta que o trabalho de conscientização deve acontecer em todos os freada. “Infelizmente, quando a pessoa resolve responder ao bul- níveis, na escola, no trabalho e com a família. “É preciso mostrar lying a ação é sem medida, ainda mais com a facilidade de acesso a para os pais que os filhos aprendem a linguagem da agressão e armas”, completa H.S.R. depois reproduzem em outros ambientes sociais” afirma. “Também é necessário conscientizar os co-autores de que não se pode Combate ao bullying Em busca de erradicar esse tipo de comportamento, diversos programas são desenvolvidos no Brasil, exemplo disso é a campanha “Aprender sem Medo”, desenvolvido pela Plan desde 2008, com o objetivo de combater a violência contra crianças e adolescentes no período escolar. Ainda mais focado no combate ao bullying é o projeto “Educação para paz” em parceria com a ONG Aliança pela Infância. Atividades como ioga, práticas de concentração, harmonização, oficinas de artes, música e ikebana são oferecidas gratuitamente para as crianças. aceitar ou incentivar esse tipo de comportamento”. Como protagonista, o ser humano sempre poderá mudar o rumo da sua história. Para quem já sofreu bullying, a psicóloga indica que as vítimas façam uma revisão na vida e não deixem que esse comportamento influencie no cotidiano. “Devemos sempre reescrever nossa vida, se libertar das dores passadas e se posicionar em busca da felicidade”, aconselha. Legislação Parlamentares preocupados com a educação de crianças e adoles- Maeze Vida, co-autora do programa, explica que o projeto pro- centes desenvolveram alguns meios de combate ao bullying. Um move atividades para mudar a consciência e os valores humanos deles é o Projeto de Lei do deputado Gabriel Chalita (PMDB/ das crianças e busca desenvolver os sentimentos de compaixão, SP) que propõe a criação de um programa para conscientização, tolerância, simplicidade e não violência. “Buscamos resgatar uma prevenção e capacitação dos pais e professores em relação à pro- infância saudável, afastar a sociedade do consumo com incenti- blemática escolar. Chalita acredita que o tema merece a atenção da vos à simplicidade e tolerância. Essa conscientização de valores e sociedade e das autoridades. “ Cabe às autoridades e ao poder le- virtudes é essencial para combater comportamentos como o bul- gislativo refletir sobre esse problema da educação e regulamentar lying”, acredita. o combate desse tipo de comportamento”, ressalta. Para a psicóloga Maria Tereza Maldonado, a construção de cam- Em paralelo, a deputada Maria do Rosário (PT-RS) conseguiu no ano passado a aprovação da proposta que altera o Estatuto da Criança e do Adolescente e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação e que obriga lugares públicos e privados a adotarem medidas de conscientização e combate ao problema e comunicar os casos ao Conselho Tutelar para possíveis providências. Além disso, a Câmara analisa a inclusão do bullying na relação de crimes contra a honra, prevista pelo Código Penal Brasileiro. “O bullying é um crime de desamor. Para combater esse conflito social, o trabalho deve ser desenvolvido em todas as bases da lei em conformidade com as familias, sempre com o objetivo de educar as crianças numa cultura de amor e respeito”, afirma Gabriel Chalita. 12  LINHA DIRETA em revista

COMPORTAMENTO Adeus, Barbie Crianças amadurecem cada vez mais cedo e trocam os brinquedos tradicionais por equipamentos eletrônicos Amanda Santoro Bonecas e carrinhos são coisas do passado. Quem assistiu “Toy Story 3”, longa-metragem da Pixar que mostra como o adolescente Andy se desfaz dos seus velhos brinquedos, ilustrativamente acompanhou o processo de troca imputado às Barbies e miniaturas de super-heróis por aqueles que deixam a infância. E como a arte imita a vida é isso que tem se observado nas crianças da atualidade – mesmo que haja uma diferença de faixa etária evidente entre elas e o personagem do filme. Na era da informação e da automatização, nada mais justo que os eletrônicos ganhem espaço e mudem os padrões de diversão. Difícil mesmo é encontrar criança que não saiba mexer em celulares, computadores e dispositivos da mais alta tecnologia. “A Malu sempre brinca no iPod Touch, principalmente com os jogos da Barbie e Angry Birds”, afirmou a mãe e produ- tora Bia Tabosa. “Ela não gosta de boneca, mas adora jogo da memória, pintura e desenho, em geral tudo que envolva lógica”, completou. Falando nisso, são poucos aqueles que se atrevem a criticar o estímulo que a tecnologia proporciona desde cedo à criatividade e à inteligência. O que os profissionais da área questionam é se esse bombardeio digital não seria decisivo para o aparecimento de um fenômeno novo e ainda desconhecido: o encurtamento da infância. Para Ana Maria Blanques, doutora em Psicologia Social pela USP, os eletrônicos não são os únicos vilões da história. “No mundo contemporâneo tudo acelerou e os modelos que tínhamos para a compreensão da infância não funcionam mais”, disse a psicóloga em tom conclusivo. “A criança utiliza as tecLINHA DIRETA em revista  13

COMPORTAMENTO nologias do mundo informatizado de forma lúdica. Ela brinca com os novos equipamentos como faz com os objetos com os quais se relaciona, é só outra forma de aprender a viver”, explicou. O resultado da inserção eletrônica na vida desses jovens ainda não pode ser mensurado com precisão – mesmo porque o boom digital ganhou contornos mais sólidos só em meados dos anos 90. “Ainda é cedo para concluir alguma coisa, essas são as primeiras gerações que passam por isso e só poderemos verificar a repercussão dos acontecimentos quando ficar socialmente perceptível”, acrescentou Ana Maria Blanques. “Os adultos se assustam porque a mudança é visível demais, mas como ela é inevitável, teremos que vivê-la para conseguirmos avaliar melhor”, finalizou. Crianças & Moda O universo fashion também gera debates acalorados quando se fala no amadurecimento precoce das meninas e meninos que ingressam na área ainda sob a tutela dos pais. Além de serem condicionadas a uma rotina atribulada e de adquirirem responsabilidades de trabalho desde cedo, essas crianças e adolescentes esbarram no culto que a sociedade contemporânea faz à juventude – mesmo que nem sempre se relacione ao viés sexual. “Quem não quer ser jovem? A indústria se apoia nessa vontade de bilhões e, assim, enriquece seus cofres”, afirmou Ludmila Batista, consultora de Moda e Imagem. “Isso sem mencionar o incentivo dado a campanhas que mexem com o psicológico, especialmente das mulheres, que eventualmente também são mães”, complementou. Recentemente a revista Vogue polemizou ao lançar um ensaio de moda produzido pelo conceituado Tom Ford e estrelado por uma menina de apenas 10 anos. No material divulgado, Thylane Lena-Rose Blondeau aparece ao lado de outras crianças em trajes adultos e poses sensuais. Não tardou para que Veronika Loubry, mãe da top model mirim, fosse crucificada, inclusive por representantes mais cautelosos do mundo fashion. Após o assédio no Facebook e diversos sites dedicados ao culto da meteórica new face, a progenitora da garota retrocedeu. “Thylane não sabe deste buzz todo e prefiro protegê-la. Por isso vamos fechar essa conta por um tempo”, declarou Veronika minutos antes de encerrar o perfil de Thylane na rede social. Com gancho na polêmica, a consultora de moda Ludmila Batista explica por que as marcas optam por jovens para vender conceitos que nem sempre se relacionam diretamente aos seus expoentes mirins de visibilidade. “O que vemos é a fidelização precoce e subliminar de clientes, as grifes apostam nesse 14  LINHA DIRETA em revista público para que no futuro haja a contínua compra dos seus produtos”, pontuou. Quem também está dando o que falar é a miss mirim Eden Wood, de apenas seis anos, que usou roupas e dançou de forma provocante na última Semana de Moda de Nova Iorque, realizada em setembro. A loirinha, que já venceu mais de 300 concursos de beleza, participou também do programa Toddlers & Tiaras – reality show que mostra o dia a dia de crianças que participam de concursos infantis sempre revelando casos polêmicos, como o da mãe que vestiu de prostituta a filha de três anos para homenagear Julia Roberts em Uma Linda Mulher. Outro recente caso polêmico aconteceu com a Jour Après Lunes, marca de lingerie para meninas a partir de três meses. No ousado e controverso ensaio fotográfico da nova coleção, meninas aparecem adornadas com muitas joias e cabelo montado, em uma clara imitação de mulheres adultas refinadas. “Trabalhei sete anos com moda juvenil e posso afirmar que vende mais adequar roupas do vestuário adulto para o infantil. A mãe é a primeira a optar por esse tipo de peça”, explica. Crianças & Internet Sempre apontada como uma das responsáveis pelo encurtamento da infância, a internet – ao menos nesse caso – pode não ser tão culpada assim. Isso porque, ao contrário do que se imagina, é pequena a taxa de crianças brasileiras com acesso à web – ainda mais se comparada a países europeus. Em pesquisa divulgada no ano passado pelo NIC.br (Núcleo de Informação e Coordenação do Brasil), 57% das crianças brasileiras com idade entre cinco e nove anos já usaram o computador, mas apenas 28% afirmam ter navegado na internet. Do total de “pequenos navegantes”, 46% têm contato com a rede em casa, 17% em lan houses e somente 14% nas escolas. O índice nada animador no que se refere ao uso de internet nas instituições de ensino acaba por deflagrar a dificuldade que há no Brasil de se fazer a ponte entre conteúdo pedagógico e tecnologia, principalmente quando o assunto é incorporá-la para facilitar a aprendizagem. “Desde a década passada, e cada vez mais, as crianças e os adolescentes estão plugados 24 horas por dia e o que a escola oferece em nível de tecnologia coletiva não supera o que eles têm em casa”, afirmou a pedagoga Elisatebes Carlini. É justamente essa dificuldade do setor de ensino que gera uma contradição interessante: 20% das crianças entrevistadas confirmaram que aprenderam a usar a internet na escola, e não nos seus domicílios como era de se esperar. “Para que não ocorra

COMPORTAMENTO essa lacuna entre ensino regular e informação automatizada, precisamos treinar os professores a empregar no cotidiano as novidades tecnológicas, embora grande parte deles tenha acesso restrito à tecnologia existente no mercado”, explica a pedagoga. O que acontece na prática é que os responsáveis pela didática são os mesmos que inviabilizam a evolução da convergência entre as plataformas, justamente por não estarem familiarizados com os produtos tecnológicos que surgem de maneira natural para as novas gerações. Douglas Adams, autor do “Guia do Mochileiro das Galáxias”, retratou muito bem a questão em seus textos. “Tudo o que já existia no mundo antes de nascermos é absolutamente normal; tudo o que surge enquanto somos jovens é uma oportunidade e, com sorte, pode até vir a ser uma carreira; mas o que aparece depois dos 30 anos é o fim do mundo como conhecemos, até que permaneça vigente por uma década quando começa a parecer normal”, escreveu. Dentre as principais atividades realizadas pelas crianças na internet lidera a prática de jogos (97%), seguida pelo acesso a sites de desenhos (56%), estudo (46%) e conversas em chats e comunicadores instantâneos (31%). “Caberia à escola propiciar que esse jovens gerassem interesse por sites e ferramentas não ligadas diretamente à diversão, para ampliar o leque de opções em um futuro não tão distante”, finalizou Elisatebes. Dinheiro, o fator decisivo As mudanças comportamentais abordadas nesta reportagem não podem ser encaradas isoladamente; uma série de fatores atua direta e indiretamente no curso delas. Uma das variáveis mais importantes é o poder aquisitivo que acaba por garantir a acessibilidade tecnológica. Famílias que garantem condições de compra são peças-chave neste processo. “Isso não vale para todos, não é um fator homogêneo, e a constatação mais evidente é que grande parte das crianças dos países pobres ainda improvisa seus brinquedos”, afirmou a psicóloga Ana Maria Blanques. Ao se fazer uma análise específica da América Latina, os estudos lançados em 2007 pela TNS – empresa britânica de pesquisas customizadas – apontam também o crescimento do poder de compra dessas crianças. “Atualmente o que está fazendo toda a diferença é que as marcas se comunicam com elas sem a mediação de um adulto, especialmente em categorias em que a criança conta com alto poder de decisão e legitimidade”, observou Ivani Rossi, diretora de planejamento da TNS InterScience, subsidiária brasileira da empresa, em comunicado à imprensa. Embora não controlem as finanças, as crianças interferem diretamente nas escolhas dos pais não apenas quanto aos produtos a elas destinados, mas também elegem categorias e marcas posicionadas para o segmento adulto. Até os entrevistados mais novos, com apenas três anos de idade, mostraram noção do valor do dinheiro e do seu papel como moeda de troca. Mas independentemente da idade e da classe social é consenso que esses jovens consumidores têm consciência da interferência que exercem em casa para a realização das suas vontades. “As crianças de hoje têm um perfil bem diferente das que nasceram na década de 90. Elas começam a ter noções de pobreza, riqueza e dinheiro e revelam preocupação com o aquecimento global e ações predatórias da natureza. Em contrapartida, são hedonistas e acompanham a tendência comportamental dos adultos voltada aos prazeres individuais”, finalizou Ivani. LINHA DIRETA em revista  15

TECNOLOGIA Novos hábitos A nova classe média entra no mercado também por meio da tecnologia Emilio Franco Jr. A ascensão de milhões de brasileiros à condição de classe média durante o governo Lula abriu os olhos do mercado que antes ignorava essa grande parcela da população. Com mais acesso à informação e ao crédito, cresceram os interesses por produtos de boa qualidade, bom atendimento e bens materiais mais caros. “Essas pessoas passaram a concretizar o que antigamente era apenas sonho de consumo”, conta Renato Meirelles, sócio-diretor do Data Popular, que como o próprio nome diz se dedica a estudar o comportamento das classes menos abastadas. O mais curioso é o que esse enriquecimento ocasionou em termos de avanços tecnológicos. É justamente no ambiente digital que as empresas enxergam potencial para conquistar as classes E, D e C, esta última principalmente, já que responde por metade da população - e será cerca de 60% em apenas quatro anos. É por isso que Meirelles afirma que a classe média deixou de ser um nicho e passou a ser o verdadeiro mercado. “Nenhuma empresa será líder se não conquistá-los”, alerta. Para se ter ideia da dimensão, os internautas emergentes movimentam R$ 273 bilhões por ano. As mulheres jovens e negras são maioria nesse novo retrato da classe C e, ao contrário do que o senso comum prega, a maior parte reside no sul do país. O nordeste, por exemplo, ainda continua concentrando 16  LINHA DIRETA em revista considerável parcela da população carente que não conseguiu alcançar esse novo patamar. De acordo com dados da Fundação Getúlio Vargas, do início do mandato do ex-presidente Lula até o seu penúltimo ano de governo, 29 milhões migraram para a classe C, o que representa mais gente gastando. E até 2014 mais 15 milhões devem sair da classe D em direção à C, gerando ainda mais oportunidades de negócio. Outros tantos devem chegar para integrar a D, já que a E, de acordo com pretensão do governo, deve deixar de existir. Após ser eleita presidenta da República, Dilma Rousseff assumiu o compromisso público de erradicar a miséria no país por meio de programa batizado como “Brasil sem Miséria”, cujo foco é resgatar 16, 267 milhões da pobreza extrema. Renato Opice Blum, presidente do Conselho de Tecnologia da Informação e Comunicação da Fecomercio, explica que quando um mercado está em ascensão, é natural que a atenção se volte para ele. Ele acrescenta que no caso brasileiro se dá muito valor àquilo que é colocado nas redes sociais e que esse é o filão que está conquistando as classes altas e, principalmente, a emergente. “É impossível pensar hoje em qualquer estratégia online que desconsidere as classes C e D”, enfatiza Meirelles. Nessa faixa, são cerca de 36 milhões que acessam as redes sociais, principalmente o Orkut.

TECNOLOGIA Isso se deve às profundas mudanças pela quais o país passou nos últimos anos, quando a inflação foi finalmente controlada e, por consequência, houve aumento do poder de escolha do consumidor, que não precisa mais se desesperar para comprar bens e serviços e ainda pode poupar dinheiro. Com a internet, e com o acesso cada vez mais facilitado, aumentou esse poder de escolha. De cada 100 domicílios com acesso à rede mundial de computador, 56 são da classe C. Do total de internautas desse segmento da população, 38% têm conexão banda larga, entre os que estão nas áreas metropolitanas. Meirelles ressalta que esses consumidores desenvolvem jeito próprio de ter acesso à internet de alta velocidade. “Isso não acontece necessariamente de forma legal”, afirma. Ele cita o exemplo de muitos moradores de conjuntos habitacionais ou áreas menos favorecidas, que rateiam o custo de assinar a internet banda larga entre eles para que todos possam utilizar, pagando pouco, uma mesma rede de acesso. Também jurista, Opice Blum pondera que a atitude é crime e que a condenação recairia sobre o assinante primário, ou seja, sobre o proprietário do local de onde parte o sinal. O mercado de telecomunicações, aliás, foi abastecido com esses novos hábitos de consumo. A banda larga cresceu nove vezes nos últimos anos e a telefonia móvel ficou 4,6 vezes maior. Meirelles, do Data Popular, conta que as classes C e D inovaram no jeito de lidar com as novas tecnologias. Esse grupo, por exemplo, soma operadoras de telefonia, com aparelhos que comportam mais de um chip, para aproveitar as promoções e André Torretta, sócio-diretor de A Ponte Estratégia, consultoria especializada na base da pirâmide social, explica que esses novos consumidores esperam, querem e gostam de produtos e estratégias de vendas diferentes daquelas voltadas para as classes A e B. As campanhas segmentadas são fundamentais para que as empresas consigam passar ao público o recado que realmente desejam. falar de graça com os amigos de acordo com a empresa. Com a Caso emblemático é o de uma marca de café que trazia em suas propagandas e na embalagem a imagem de um rapaz abrindo a camisa de forma semelhante ao super-homem e, na camiseta por baixo, a imagem do produto. Em pesquisas, percebeu-se que a mensagem foi corretamente apreendida pelas classes A e B, que afirmaram que aquele café era mais forte em comparação aos demais. Já as classes C, D e E entenderam de outra maneira. Para eles, a imagem mostrava que o café tinha chegado ao estômago do consumidor ou, ainda, que havia “caído bem”. tura suficiente para, em pouco tempo, suprir a demanda por Até mesmo nas redes sociais da internet os gostos são diferentes e, por isso, as empresas têm que saber onde achá-los e como abordá-los. Enquanto a classe alta opta pelo Facebook, por exemplo, os emergentes apontam preferência pelo Orkut por acharem de navegação mais fácil. “As redes sociais são fundamentais para monitorar o comportamento dos consumidores”, conta Pedro Guasti, diretor geral da consultoria de compras online e-bit. Chama a atenção, também, a projeção de que o acesso à banda larga dobrará no país até 2015. A internet, para esse grupo ascendente, não significa só novas e diferentes formas de informações, mas também a busca de emprego e comunicação com que mora longe. Tablets para todos massificação da internet e dos celulares, Meirelles profetiza: “a nova grande revolução se dará pela internet móvel”. O país e as tecnologias crescem em ritmo acelerado e as novidades para o mercado, consumidor ou provedor, se adaptar são muitas e mutáveis. Resta saber se o Brasil terá infraestruserviços ligados às telecomunicações e, também, se a economia está forte o suficiente para responder com vitalidade à nova crise internacional que deve abalar os mercados nos próximos meses. É um ciclo em que a necessária retenção de investimentos para poupar as finanças pode, lá na frente, gerar colapsos em serviços cada vez mais essenciais para a população, de A a E. Dentro desse processo de inclusão social e aquecimento do mercado por meio da tecnologia, o governo acertou a redução de 31% no custo de produção de tablets feitos em solo nacional. Isso foi possível porque, agora, são enquadrados pela Lei do Bem, a mesma dos computadores regulares. De olho nos emergentes, a fabricante Positivo, por exemplo, pretende inundar as lojas, no natal, com seus aparelhos similares aos “iPads”, da Apple, mirando os consumidores da classe C. LINHA DIRETA em revista  17

APOSENTADOS Uma vida de categoria Na sua Carteira de Trabalho consta o registro número 12.565 datado de 1º de fevereiro de 1947. De lá para cá, já passaram 64 anos e Dona Laís ainda tem uma forte ligação com a categoria Marco Tirelli Caminhando a passos lentos, porém determinados, ao longo de uma estreita rua, Laís Vieira, no auge dos seus 87 anos, veio ao nosso encontro para dar início à sua entrevista para Linha Direta em Revista. Por determinação médica, Dona Laís, como é conhecida, começou a fazer caminhadas pelo bairro após ter sofrido um acidente ao descer de um ônibus há alguns meses. “Tenho que andar porque o médico solicitou, mas as ruas por aqui estão muito esburacadas”, reclama, com razão, do descaso da prefeitura com a manutenção do calçamento das ruas de Vila Nova Vieira, bairro operário da região sul de Campinas construído para abrigar os trabalhadores da ferrovia Mogiana, da Companhia Telefônica Brasileira e da Companhia de Força e Luz. A sua história começa muito longe daí. Aos 23 anos de idade, Dona Laís ingressou no mercado de trabalho na extinta companhia de Café São Joaquim, no setor de atendimento ao público. Pouco tempo depois, por intermédio de seu irmão José Vieira, Laís ingressou na Companhia Telefônica Brasileira – CTB. “Ocupei o cargo de telefonista no tráfego durante muitos anos”, relembra. Caçula de uma família composta por mais cinco irmãos, Laís nasceu em Campinas e trabalhou por 38 anos na Companhia Telefônica. “Naquela época era muito bom trabalhar lá, era uma maravilha!”, recorda-se. Na vida pessoal, optou por não se casar, o que permitiu a ela se dedicar a outras atividades. Dona Laís conta que havia grande preocupação por parte da empresa com a formação de seus funcionários. “Fazíamos diversos cursos de relações humanas. A empresa nos dava muita instrução, tinha respeito, tínhamos que saber conversar com os assinantes”, salienta. Se por um lado havia investimento no capital humano, por outro, as regras na CTB eram rígidas. “Os funcionários não podiam namorar entre si. Certa vez, os chefes descobriram um casal que se relacionava e, por final, os dois foram demitidos”, lembra-se. Além disso, as mulheres não podiam usar calça comprida, minissaia, cabelo comprido ou unhas grandes. “Tínhamos que nos vestir adequadamente e de forma impecável, eu gostava muito”, completa. Naquela época, as telefonistas cumpriam um turno de oito ho18  LINHA DIRETA em revista ras diárias, dividido em dois períodos de quatro, das 8h às 12h e das 16h às 20h. “Ficávamos na empresa quando o tráfego era maior”, explica. Vale lembrar que no ano de 1960, o Sintetel organizou grande mobilização das telefonistas da CTB e conquistou a jornada de trabalho de seis horas. Mais tarde, o benefício foi estendido para telefonistas de todas as empresas do Estado de São Paulo. Este item faz parte do histórico das principais conquistas do Sindicato. “Agradeço muito ao Sintetel, pois a partir daquele ano passamos a trabalhar seis horas e sobrou mais tempo para organizarmos as festas” diverte-se. Construindo o clube dos funcionários Organizadora frequente de festas na empresa, Laís conta uma passagem que ficou para a história. “Na época fizemos um con-

APOSENTADOS para ser mais bem conservada, havia sido tratada com piche. A Ponte Preta contava com a simpatia de muita gente, inclusive da chefia do tráfego, setor no qual trabalhava Dona Laís. “Nossa encarregada trocava nosso horário para que pudéssemos ir ao jogo da Ponte. Até hoje eu acompanho os jogos, mas, pela minha idade, não consigo mais ir ao estádio, então ouço pelo rádio ou assisto na televisão”, conclui. Atuação popular no bairro As festas eram constantes e, muitas delas, organizadas por Laís Vieira (na foto a 4ª pessoa) curso de Miss Simpatia. A moça a qual eu assessorava foi a vencedora. Com o dinheiro do prêmio, compramos o terreno do Telesp Clube de Campinas [TCC], na estrada de Indaiatuba, que existe até hoje”. Fundadora do TCC, dona Laís relata que as festas organizadas por ela tinham um objetivo muito claro: arrecadar dinheiro para a construção do clube. Além das comemorações, os associados contribuíam financeiramente para a obra. “Construímos o TCC para que todos tivessem um lugar para o lazer e, depois que me aposentei, em 1985, passei a dar expediente na secretaria do clube, local que trabalhei até algum tempo atrás”, relata. Coração pontepretano Em fevereiro de 2000, Dona Laís encampou uma luta comunitária. A Praça das Andorinhas, próxima à sua residência, estava às moscas. “Entrei em contato com a Prefeitura de Campinas e organizei um abaixo-assinado reivindicando a reurbanização da praça e a iluminação da rua”, conta com orgulho. De pronto, a administração da época acatou a reivindicação e instalou postes de luz, urbanizou a praça, podou as árvores, recapeou a rua e aumentou o policiamento. Dez anos se passaram e, atualmente, Dona Laís está decepcionada com a prefeitura da cidade. “Tudo que havíamos solicitado foi atendido na época e hoje está tudo destruído. A prefeitura não deu continuidade à manutenção”, enfatiza aliando-se às vozes de milhares de brasileiros que estão decepcionados com o poder público. Além de adorar fazer tricô e viajar, Dona Laís nutre uma enorme paixão pela Associação Atlética Ponte Preta. Ela conta que seu pai e seus irmãos mais velhos ajudaram a construir o estádio do clube. “Eu nasci ao lado do campo da Ponte Preta e desde cedo me apaixonei pelo clube”. Dona Laís enfatiza que Moisés Lucarelli, junto com mais dois amigos, doou o terreno e os torcedores ajudaram a construílo. “Os torcedores voltavam à noite dos seus respectivos trabalhos e iam ajudar na construção. Eu mesma ajudei a fazer os canteiros dos jardins levando plantas”, relata. A história conta que o material de construção foi conseguido junto a amigos empresários e a edificação veio dos apaixonados torcedores que puseram a mão na massa, literalmente, e ergueram a edificação em sistema de mutirão. O estádio Moisés Lucarelli, conhecido como Majestoso, foi inaugurado oficialmente em 12 de setembro de 1948. A Ponte Preta é o primeiro time do Brasil, fundado em 11 de agosto de 1900 por estudantes que jogavam bola em campos improvisados no bairro da Ponte Preta, batizado assim em virtude de uma ponte de madeira que passava pela ferrovia e que, Na época do tráfego, Laís chegou a substituir a monitora LINHA DIRETA em revista  19

CAPA Banda Larga para todos A implantação do Plano Nacional de Banda Larga abre oportunidade para a inclusão digital da população de olho na Copa do Mundo e nas Olimpíadas Amanda Santoro, Emilio Franco Jr. e Marco Tirelli Ouvir aquele barulho cheio de chiados do computador tentando Entretanto, um país tão desigual como o Brasil ainda apresenta se conectar à rede mundial de computadores é algo quase impen- muitas deficiências na banda larga, seja na velocidade real de co- sável atualmente. Ter a linha telefônica ocupada para poder nave- nexão ou no número de lares que dispõem da tecnologia. gar pelos sites da internet então, nem se fala. Há menos de vinte anos, o uso doméstico da rede mundial de computadores era bem Os dados revelam com clareza essa disparidade em relação a ou- restrito, hoje é cada vez mais difundido. Difícil encontrar alguém tros países com condições e características semelhantes às brasi- que ainda não tenha se rendido a pelo menos uma rede social, ou leiras. “O governo afirma, com razão, que a banda larga aqui é que não tenha e-mail para contatos pessoais ou profissionais. cara, concentrada e lenta. Apenas 21% dos domicílios dispõem do serviço e estão localizados principalmente no Sul, Sudeste e Com a mesma velocidade que a internet se desenvolveu, cresceu a Centro-Oeste”, afirmou Marcello Miranda, especialista em tele- necessidade de conexões mais eficientes e independentes da linha comunicações do Instituto Telecom. “E para piorar, o brasileiro telefônica. Foi assim que as conexões discadas foram deixadas paga cinco vezes mais do que os japoneses, 2,7 vezes mais do que para trás e as de alta velocidade passaram a dominar o mercado. os russos e 2,5 vezes mais do que os mexicanos”, completou. 20  LINHA DIRETA em revista

CAPA Atualmente, a referência nacional de velocidade é de 512 Kbps; na Europa o índice fica acima dos 2 Mbps – ou seja, é quase quatro vezes maior. Avançando um pouco, já dentro das metas futuras estabelecidas pelo Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), a velocidade continua fora do que se pode considerar banda larga. O plano estipula 5 Mbps para 2015, mas não finca qualquer obrigação ou garantia de que isso vá de fato acontecer. No PNBL norteamericano, por exemplo, pretende-se a universalização da internet, com 75% da população recebendo velocidade de 100 Mbps em 2020 e índice mínimo de 4 Mbps – que quase chega ao valor máximo previsto para o Brasil em 2015. Mas para falar sobre o desenvolvimento da banda larga no País há que se analisar as circunstâncias que envolvem o assunto. Deve-se olhar a realidade no mundo, inserindo o Brasil e a sociedade neste contexto global. Desde os primórdios, há uma necessidade intrínseca ao ser humano de se comunicar. Essa carência criou uma demanda muito grande de troca de informações. Com o advento da internet, no final da década de 80, essa troca se tornou mais frequente e facilitou a vida das pessoas nesse intercâmbio. Assim, ao longo do tempo, vários outros serviços surgiram, como o correio eletrônico, os programas de troca instantânea de mensagens, mecanismos para baixar filmes e músicas, compras de A realidade brasileira O Brasil passa por um ciclo de crescimento econômico e o acesso à internet tem aumentado de forma muito rápida. Quer seja por terminais móveis, modens 3G colocados nos computadores, WiFi, TV a cabo, dentre muitas outras tecnologias. Para se ter uma ideia, o País contava com 14,7 milhões de acessos de banda larga fixa no final de 2010, um crescimento de cerca de 9% em relação a 2009. Quanto à banda larga móvel, os números são ainda mais significativos e chegaram a 20,6 milhões. produtos online, as redes sociais, entre outros. Isso tudo exige das “Isso faz com que o descompasso entre a demanda e a tecnologia redes alta capacidade de transportar informações. O crescimento seja maior e, por isso, exige mais investimentos com maior partici- das taxas de transmissão e da quantidade de dados é mais rápido pação do Estado consorciado com a iniciativa privada”, acredita do que a tecnologia consegue atender, ou seja, há um descom- Luiz Salomão, presidente da Padtec, empresa brasileira especia- passo entre a necessidade da sociedade e aquilo que a tecnologia lizada em sistemas de transmissão de alta capacidade. Para ele, o oferece para solucionar o problema de demanda. A Lei de Moore (engenheiro norte-americano e co-fundador do grupo Intel) diz que a capacidade de transmissão multiplicase por dez enquanto no mesmo período a tecnologia consegue panorama no Brasil é de enorme demanda, possui grande potencial de investimento e oferece rentabilidade viável, mas isso exige a participação tanto da iniciativa privada quanto do governo. “Não existe outro jeito. Tem que somar todos os esforços e recursos do país”, afirma de forma taxativa. um aumento de apenas duas vezes. No mundo inteiro, existe um O Plano Nacional de Banda Larga é uma resposta às necessidades ponto de estrangulamento decorrente das limitações tecnológicas da sociedade brasileira. “As escolas precisam estar conectadas, ex- para se prover acessos de alta capacidade e, com isso, fazer com iste uma geração de pessoas que precisa ser integrada aos demais”, que as pessoas consigam trocar informação com maior rapidez acredita Salomão. Foi pensando nisso que o governo federal lan- e eficiência. çou em 2008, ainda no governo Luiz Inácio Lula da Silva, o ProLINHA DIRETA em revista  21

CAPA grama Banda Larga nas Escolas (PBLE), cu

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