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Duas perspectivas sobre o sentido da existência

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Information about Duas perspectivas sobre o sentido da existência
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Published on March 9, 2014

Author: isabelamd

Source: slideshare.net

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«Eu não conseguia atribuir qualquer sentido racional a um único ato em toda a minha vida. O que me surpreendia era não ter compreendido isso desde sempre. Toda a gente soubera sempre disso. A doença e a morte, mais cedo ou mais tarde, acabariam por vir (na verdade, aproximavam-se já) afetando toda a gente e eu próprio, e nada restaria exceto podridão e vermes. Os meus feitos, sejam eles quais forem, serão esquecidos mais cedo ou mais tarde, e eu próprio não existirei mais. Porquê, então, fazer seja o que for? Como pode alguém não ver isto e viver? É isso que é espantoso! Só é possível viver enquanto a vida nos intoxica; quando ficamos sóbrios não podemos deixar de ver que tudo isto é uma ilusão, uma estúpida ilusão! E isto não é divertido nem espirituoso; é apenas cruel e estúpido. […] A minha questão, a questão que me tinha conduzido à beira do suicídio quando eu tinha cinquenta anos, era a questão mais simples que existe na alma de todos os seres humanos, da criança simplória ao mais sábio dos anciãos, a questão sem a qual a vida é impossível; pois era o que eu sentia com respeito a isso. A questão é esta: O que será do que faço hoje e amanhã? O que será da minha vida inteira? Expresso de forma diferente, a questão pode ser: Por que hei de viver? Por que hei de desejar ou fazer seja o que for? Ou, de outra forma ainda: Há algum sentido na minha vida que não seja destruído pela minha morte, que se aproxima inevitavelmente? Tomei consciência de que por mais irracionais ou pouco atraentes que fossem as respostas dadas pela fé, têm a vantagem de introduzir em todas as respostas uma relação entre o finito e o infinito, sem a qual não pode haver resposta. Ponha eu como puser a questão de saber como viver, a resposta é: de acordo com a lei de Deus. Haverá algo de real que resulte da minha vida? Tormento eterno ou felicidade eterna. Que sentido há que não seja destruído pela morte? A união com o Deus infinito, o paraíso. A fé dava-me o sentido da vida e a possibilidade de viver.» Retirado de Tolstoi, Leo (1882), Confession, Nova Iorque: W. W. Norton, 1996, «O que significa aqui dizer que a existência precede a essência? Significa que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e que só depois se define. O homem, tal como o concebe o existencialista, se não é definível, é porque primeiramente não é nada. Só depois será alguma coisa e tal como a si próprio se fizer. Assim, não há natureza humana, visto que não há Deus para a conceber. O homem não é mais que o que ele faz. Tal é o primeiro princípio do existencialismo. Escreveu Dostoievsky: “Se Deus não existisse, tudo seria permitido”. Aí se situa o ponto de partida do existencialismo. Com efeito, tudo é permitido, se Deus não existe, e, por conseguinte, o homem fica abandonado, porque não encontra em si, nem fora de si, a que se apegue. Antes de mais nada, não tem desculpa. Se, com efeito, a existência precede a essência, não será nunca possível referir uma explicação a uma natureza humana dada e imutável; por outras palavras, não há determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade. Se, por outro lado, Deus não existe, não encontramos diante de nós valores ou imposições que nos legitimem o comportamento. Assim, não temos nem atrás de nós nem diante de nós, no domínio luminoso dos valores, justificações ou desculpas. Estamos sós e sem desculpas. É o que traduzirei dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não se criou a si próprio; e, no entanto, livre, porque, uma vez lançado no mundo, é responsável por tudo quanto fizer. [...]. Se suprimi Deus Pai, é necessário que alguém invente os valores. É necessário encarar as coisas como são. Aliás, dizer que inventamos os valores não significa senão isto: a vida não tem sentido a priori. Antes de viverdes, a vida não é nada, mas de vós depende dar-lhe um sentido, e o valor não é outra coisa senão o sentido que escolherdes». Jean-Paul Sartre, O Existencialismo é um Humanismo. Trad. de Vergílio Ferreira, Lisboa, Presença, 1962, pp. 261-217; 227-228 e 266.

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