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Comentários sobre teatro

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Published on March 1, 2014

Author: viegasdacosta

Source: slideshare.net

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Comentários sobre teatro (2010 - 2013) - Viegas Fernandes da Costa.

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Viegas Fernandes da Costa COMENTÁRIOS SOBRE TEATRO (2010 – 2013)

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa Ficha Catalográfica V656c Costa, Viegas Fernandes da Comentários sobre teatro: (2010 – 2013) / Viegas Fernandes da Costa – 1. ed. – Blumenau : Edição do autor, 2014. 67 p. 1. Crítica teatral CDD: 792 2

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa Ascensão e queda da cidade de Mahagonny O espetáculo “Ascensão e queda da cidade de Mahagonny” abriu, na noite de sábado (10/07) a Mostra Universitária Nacional” do 23° Fitub. A peça foi montada e apresentada pela Cia. Teatral Acidental (Unicamp – Campinas/SP) sob a direção de Marcelo Lazzarato, a partir de uma adaptação do texto Mahagonny, de 1927, escrito pelo dramaturgo alemão Bertold Brecht (1898-1956). Em 1930, Brecht revisou o texto original e, através de uma parceria com o compositor Kurt Weill, produziu “Ascensão e queda da cidade de Mahagonny” (“Aufstieg und Fall der Stadt Mahagonny”). A intenção de Brecht com esse “épico musical”, que narra a história de três fugitivos encurralados no deserto e ali decidem fundar uma cidade chamada Mahagonny, arapuca que tem como isca o prazer, era, entre outras coisas, o de questionar o modelo de ópera até então estabelecido. A adaptação da Cia. Teatral Acidental procurou manter o texto e a ambientação criados por Brecht, porém buscou “atualizar” a peça inserindo elementos identificados com a cultura pop, como a substituição das músicas de Weill por melodias dos Beatles, por exemplo. Esta opção musical nos leva a pensar se o grupo não pretendia situar temporalmente Mahagonny em um referente moral e cultural ligado à contracultura. Se “Ascensão e queda...” narra a história de uma utopia onde todos os prazeres são permitidos, podemos conjecturar na geração que cresceu ouvindo os Beatles e que na década seguinte viveu o Vietnã e Woodstock. A inserção da melodia de “Imagine” (Lennon) no repertório reforça a tese. A mesma geração que mais tarde envelheceu e teceu uma malha moral repressora, criando filhos de uma “geração perdida” e – por que não dizer? – careta. Também Mahagonny afunda na repressão, nas leis sem sentido, como aquela que proíbe arrotar, e morre. No cerne de tudo, a crítica de Brecht – e 3

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa da Cia. Teatral Acidental – à ideia de que o dinheiro pode comprar a felicidade; bem como a denúncia do capitalismo. A montagem que o grupo da Unicamp trouxe para o Fitub empregou mais de uma dezena de atores, cuja movimentação no palco foi excepcional. Ricos ainda foram os cenários e os elementos de cena, constantemente modificados pelos atores. A disposição destes e dos elementos cênicos muitas vezes construíam imagens de grande apelo poético e que brincavam com uma iconografia sacralizada pela cultura pósindustrial. Movimentação, humor e a criatividade no uso dos elementos cênicos foram as grandes virtudes da montagem que, até certa medida, compensaram as deficiências vocais notadas na apresentação. Por outro lado, a tentativa de fazer com que cada personagem (e eram muitos) fosse passível de reconhecimento por parte do público, impediu que os mesmos fossem verticalizados. Assim, apesar dos esforços de cada ator, os personagens ficaram exageradamente tipificados, e penso que tal opção fez com que a peça perdesse profundidade, ao ponto de beirar o panfletário. Panfletarismo que ficou evidente ao final do espetáculo, momento em que cada ator cruzou o palco segurando cartazes com advertências que verbalizavam uma crítica social, já implícita à trama, que melhor estariam se inerentes à constituição dos personagens e nas sutilezas da narrativa. Aplaudida entusiasticamente pelo grande público presente ao Teatro Carlos Gomes, “Ascensão e queda da cidade de Mahagonny” deixou a impressão, entretanto, que a adaptação poderia ousar mais, antropofagizando Brecht para vomitá-lo e, assim, construir um espetáculo que dialogasse de forma ainda mais contundente com os tempos que vivemos. 12/07/2010 4

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa O abajur lilás Na noite do domingo (11/07) entrou em cena, no palco do “Pequeno Auditório Willy Sievert, do Teatro Carlos Gomes, o grupo de teatro “Por que não?, composto por estudantes da Universidade Federal de Santa Maria (RS). Sob a direção de Felipe Martinez, apresentaram ao público a peça “O abajur lilás”, escrita por Plínio Marcos em 1969. O espetáculo conta a história de três prostitutas que vivem sob o jugo despótico de um cafetão homossexual, dono de um prostíbulo, e seu capanga, um monossilábico e frio torturador. A montagem original, realizada pelo grupo “Por que não?”, ocorria no interior de um bar verdadeiro, e os personagens interagiam com os clientes desse bar. Visando ampliar as possibilidades de circulação do espetáculo, o grupo resolveu readaptá-lo para o palco. Entretanto, o “bar” permanece no horizonte da peça, principalmente nos momentos em que o cafetão dirige a palavra ao público, intimando-o enquanto frequentador do seu estabelecimento e dos corpos das prostitutas, bem como na recepção dos espectadores, momento em que os personagens perambulam entre as poltronas a fim de interagir e provocar “possíveis clientes”. O clima inicial criado pelos atores foi, possivelmente, a maior virtude do espetáculo. A interação com o público criou uma ambientação e uma expectativa em relação à peça que, ao se apagarem as luzes da plateia, deixou a todos em suspenso. Entretanto, a forma como os atores lidaram com o texto de Plínio Marcos e o uso dos elementos de cena, que sobravam sem uso no palco, geraram certa frustração. Interpretar Plínio Marcos não é tarefa simples. O realismo cruel e a complexidade dos personagens exigem do ator não apenas estudo e preparação cuidadosos, mas também grande nível de entrega. Em Plínio, a representação não basta. Também o fato de vivermos uma realidade 5

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa contemporânea de extrema violência urbana, exige que o texto de Plínio Marcos seja relido e desterritorializado de sua condição original, a fim de que o público saia do conforto que naturaliza a violência para o desconforto que o inédito pode ofertar. Ao representarem os personagens de “O abajur lilás”, os atores não conseguiram construir este inédito. Ao assistirmos a peça, ficou claro que aqueles personagens eram tão somente isso, personagens de um texto dramatúrgico. Se a intenção era a de transportar a plateia para o interior de um bar licencioso, uma whiskeria, e fazê-lo partícipe do drama vivenciado pelas prostitutas, subjugadas pela força do verbo, do dinheiro, do uso venal de seus corpos e da brutalidade física, tal intento não se concretizou. E a forma estereotipada como a homossexualidade do cafetão foi apresentada, incorre na possibilidade de se reforçar, junto ao público, a perspectiva simplista da diferença. Se as prostitutas são agentes e pacientes de uma realidade social, econômica e moral repressora, o cafetão homossexual e seu chacal também o são, e esta perspectiva podia ter sido melhor explorada. Por fim, apesar dos problemas, das possibilidades não exercitadas e de certo pudor por parte dos atores, o espetáculo arrancou do público aplausos entusiasmados. 13/07/2010 6

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa Eteocles, Antígona, Polinices y otros hermanos “Eteocles, Antígona, Polinices y otros hermanos”, dirigida por Farley Velásquez e apresentada pelos alunos de Teatro da Universidad de Antioquia (Medellín, Colômbia), abriu a Mostra Universitária IberoAmericana, na tarde de segunda-feira (12/07). Em uma espécie de arena montada sobre o palco do Grande Auditório Heinz Geyer do Teatro Carlos Gomes, o grupo Colombiano adaptou textos da tragédia grega escritos por Sófocles e Ésquilo. Na primeira parte da peça, os atores interpretam a história dos irmãos Polinice e Etéocles, que lutam entre si até a morte pelo domínio de Tebas. Após a luta, o rei Creonte proíbe o sepultamento do corpo de Polinice, considerado traidor. Já na segunda parte, a trama se desenvolve em torno das irmãs de Polinice e Etéocles, Antígona e Ismênia. Enquanto Antígona resolve afrontar as leis do Estado sepultando o irmão proscrito, Ismênia opta por respeitar as leis em temor a estas. Como pano de fundo a peça apresenta a questão da natureza da justiça e da verdade. Com aproximadamente duas horas de duração, a montagem desenvolvida pelos alunos da Universidad de Antioquia apresenta dois momentos estéticos e de gênero diferentes: o primeiro que chamaremos de trágico e que apresenta uma estética mais ritualística, e o segundo, melodramático e palaciano. Essa distinção da peça em dois momentos talvez tenha prejudicado o desenvolvimento de uma montagem que inicia com muita força simbólica, porém conclui-se num “arrastar” demasiado dramático e cansativo. Uma proposta que tivesse optado por manter a linha condutora ritualística, heroica e quase tribal da primeira parte, possivelmente teria mantido a suspensão da plateia, mergulhada que estava nos movimentos, jogos vocais e recursos cênicos adotados no espetáculo. Como pontos altos da peça podemos destacar o figurino e suas máscaras hediondas, o cenário, a impressionante qualidade vocal, preparo 7

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa físico e engajamento dos atores, bem como a sincronicidade nas saídas e entradas em cena. Em tempos contemporâneos, onde espetáculos precisam ser montados “a toque de caixa”, é bom vermos um trabalho de preparação vocal e corporal que exigiu trabalho e estudo intensos. Por outro lado, a trilha sonora, extremamente repetitiva e pouco original, e a criação de uma iconografia que já se transformou em clichê, como por exemplo o momento em que Tirésias surge em cena, no alto de um monte, em meio à névoa e uma luz baça (lembrando motivos bíblicos que por diversas vezes afrontaram nossas retinas), frustram o extraordinário impacto que o espetáculo anunciava. Ao término do espetáculo, e considerando suas qualidades e problemas, permaneceu a impressão, entretanto, que “Eteocles, Antígona, Polinices y outros hermanos” proporcionou uma experiência de fruição artística memorável. 15/07/2010 8

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa Canoeiros da alma Na noite do dia 14/07, sob o frio intenso e úmido que se abateu sobre o Vale do Itajaí, o “Coletivo Teatro da Alma”, da Universidade Federal de Uberlândia (MG), apresentou o espetáculo “Canoeiros da alma”, no galpão da central de veículos da Prefeitura Municipal de Blumenau. O espetáculo integra a Mostra Universitária Nacional, e a escolha do local da apresentação já indicava tratar-se de peça pouco convencional. Com texto de Luis Carlos Leite e direção de Narciso Telles, “Canoeiros da alma” surgiu das leituras que o coletivo fez do universo das pessoas que habitam as margens do rio no Vale do Jequitinhonha. Rio que é sempre diferente, quando diferentes os olhos ou a alma de cada um que busca suas águas, suas margens e as experiências que se constroem em seu entorno. O sagrado e o profano, a vida e a morte, a pobreza e a riqueza, o dito e o não dito, candura e violência são temas que surgem no desenrolar do espetáculo, que apesar de possuir uma narrativa que o conduz, é composto por muitas peças que se sobrepõem, muitas vezes de forma simultânea, convidando o público a ter uma experiência direta e íntima com os personagens. “Canoeiros da alma” não é um espetáculo que se assiste, mas do qual se participa. Não há poltronas, arquibancada ou palco, mas um imenso pátio mergulhado na penumbra e no qual atores e público se misturam, os focos de luz indicando pontos de tensão dramática para onde cada espectador é convidado a dirigir sua atenção e no qual se desvelam tipos e suas histórias intrínsecas: um grupo jogando cartas, uma procissão, um oratório, os vendedores ambulantes, o suicida, os noivos, as lavadeiras, a sensualidade da vida e a violência da morte, velas, gritos, voz e força, enfim, todo um universo complexo e do qual é impossível se apropriar enquanto totalidade una. O que se tem é o tumulto da vida real, a azáfama 9

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa de uma feira, a solidão de multidão, mas que a peça procura problematizar quando propõe histórias que possuem voz e rosto, histórias de gente anônima das quais sequer supomos existência. E todos lavam suas roupas, e todos lavam seus corpos, como se a alma estivessem a lavar. Sem exageros, um cenário intimista ao qual o público é convidado a tocar e interagir, e com figurinos, trilha sonora e elementos cênicos que procuram inserir a todos no contexto simbólico do Vale do Jequitinhonha, “Canoeiros da alma” impressionou e arrebatou o público. 15/07/2010 10

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa A grande parada O 23° Festival Internacional de Teatro Universitário de Blumenau apresenta também a Mostra Blumenauense de Teatro, nas dependências da Fundação Cultural de Blumenau. Na noite do dia 12/07 entrou em cena o grupo “VísCera Teatro”, com a peça “A grande parada (ou o que ainda resta dela)”, sob a direção de Pépe Sedrez.. O espetáculo é uma adaptação do texto “Terror e miséria no Terceiro Reich”, de Bertold Brecht, escrito em 1938. “A grande parada” está ambientada na Alemanha nazista da década de 1930, e retrata a miséria e a falta de liberdades civis experimentadas pelo povo alemão durante a constituição do Estado nazista (o III Reich) pretendido por Adolf Hitler, notadamente sob a ótica da luta de classes, onde críticos do regime – e até mesmo pessoas cuja ingenuidade levava-as a declarar suas insatisfações – eram detidas e barbarizadas pelas forças de repressão. Tendo como cenário um campo de concentração (imagem de um campo real, mas também metáfora que aponta para os “campos de concentração” simbólicos: a casa, a fábrica, a rua; espaços vigiados e reprimidos, verdadeiros panópticos de um Estado autoritário que a todos vê, escuta e pune), “A grande parada” mostra que os tentáculos do nazismo não atingiram apenas judeus, mas todos aqueles que destoavam ou questionavam o discurso oficial e, em especial, aponta para a perseguição promovida aos comunistas. Nessa montagem do “VísCera Teatro” destacam-se cenário, elementos cênicos, a excepcional maquiagem dos atores, bem como a trilha sonora, desenvolvida ao vivo por uma das atrizes. O espetáculo fez uso ainda de recursos audiovisuais, projetando ao fundo da cena imagens de paradas militares e campos de concentração nazistas. Também a proximidade do público, disposto sobre o palco numa espécie de arena, contribuiu para 11

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa aproximar os espectadores dos dramas interpretados pelos atores. Entretanto, a opção do “VísCera” em montar um espetáculo por demais zeloso ao texto de Brecht, pareceu-me um problema para a peça. Vale dizer aqui que o Bertold Brecht da década de 1930 está morto. Não é mais possível representar uma peça que pretende dizer aquilo que se pretendia na sua concepção. Tempo e sociedade são outros, tal qual nossos signos de identificação. É necessário matar Brecht uma segunda vez para representálo no tempo presente. Apesar do subtítulo da peça (“ou o que ainda resta dela”) indicar para um tempo diferente daquele em que originalmente estão situados texto, cenário e personagens, a montagem tem dificuldades em descolar o público das imagens pré-concebidas de uma Alemanha nazista, dos campos de concentração e dos clichês de uma luta de classes romântica. Fica a impressão que está a se assistir a uma peça com preocupações de relato histórico, e não a uma provocação aos tempos atuais, onde os temas e preocupações de Bertold Brecht ainda se fazem presentes. Assim, “A grande parada” perde um caráter de ineditismo que poderia explorar, principalmente se consideramos o contexto social e cultural do Vale do Itajaí em que a montagem e o grupo “VísCera” estão inseridos. Por fim, permanece a questão: o que resta da grande parada? Problema interessante que a peça poderia provocar com maior contundência. 15/07/2010 12

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa A cena é pública Com uma proposta de intervenção urbana, na tarde do dia 13/07 apresentou-se o “Grupo de Teatro de Operações”, da UNIRIO (RJ), com o espetáculo “A cena é pública”, na praça do Teatro Carlos Gomes e seus entornos. Considerando a alma taciturna, prussiana, de Blumenau, a proposta do grupo carioca chamou a atenção pela forma como os atores ocuparam o espaço da praça e da rua, interferindo no cotidiano das pessoas e tentando promover uma situação de tumulto, capaz de convocar não apenas o público já presente ao Festival de Teatro, mas principalmente os transeuntes tangidos pela rotina, a se mobilizar ao redor das ações dramáticas. O espetáculo inicia com uma sátira à atual conjuntura política brasileira. A cena inicial apresenta um debate entre os principais candidatos à presidência, coordenado por um Nelson Mandela dessacralizado (o expresidiário, como a todo instante é referido) e por um José Sarney preocupado em não ser envenenado pelo público. Quanto aos debatedores, nada têm a dizer, e quando convocados a expor suas propostas e questões, limitam-se a luta corporal com seu adversário, transformando a ágora em ringue. Entretanto, a crítica política inerente ao desenrolar da cena não ultrapassa os limites do senso comum, constituindo-se por demais simplista e limitando-se a reproduzir clichês já absorvidos em nossa sociedade. Vale porém destacar a cena da lavanderia, momento em que bandeiras brasileiras são lavadas no chafariz da praça, e a do enforcamento de José Sarney na fachada do Teatro Carlos Gomes. Esta última, se por um lado gerou um impacto visual interessante (não é comum ver-se um corpo balançando enforcado em um dos principais pontos turísticos da cidade), por outro 13

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa quedou vazia, afinal, qual o motivo do enforcamento? Da forma como foi representado, o ato extremo do senador constitui-se como suicídio, e não como lapidação pública. Também a crítica à sociedade da informação se fez presente, notadamente quando televisores são destruídos, e houve uma tentativa de problematização das relações entre público e atores. Da mesma forma como o público era convidado a se deslocar constantemente em busca das ações dramáticas, era expulso dos espaços para que estes pudessem servir de arena aos atores. O espetáculo contou ainda com muita pirotecnia (inclusive com o uso de motosserra e a queima de fogos de artifício), movimentação (onde atores ocupam fachadas de prédios públicos e privados no entorno do “Carlos Gomes”) e uso de efeitos sonoros impactantes. Se compreendido enquanto intervenção urbana, “A cena é pública” teve seus méritos. Conseguiu mobilizar as pessoas e fazer um uso diferenciado do espaço público (apesar da cena final – uma guerra de água entre público e atores – , completamente desnecessária e que afastou muitos daqueles que haviam se aproximado para acompanhar o espetáculo). Porém, se pretendido enquanto teatro de rua, “A cena é pública” fracassou completamente. O uso de efeitos visuais e sonoros impactantes prestou-se a tentar camuflar as deficiências vocais e de representação dos atores, bem como uma dramaturgia extremamente pobre e, em muitos momentos, completamente ausente. Lamentável, diante das possibilidades que o “Grupo de Teatro Operações” podia ter explorado. 17/07/2010. 14

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa Paralelas O espetáculo “Paralelas”, da”SinoS Cia de Teatro”, encerrou a Mostra Blumenauense do 23° Fitub, na noite do dia 16/07 na Fundação Cultural de Blumenau. Sob a direção de Victor Hugo Carvalho de Oliveira, “Paralelas” é uma adaptação do texto “Sobre amores e cigarros”, de Marcelo Bourscheid. No palco, a história de uma mulher dividida em duas (interpretada pelas atrizes Fernanda Raupp e Gisele Bauer – que também assina a adaptação do texto), casada com um escritor mergulhado em seu narcisismo literário, leitor de Heidegger e que não percebe as necessidades humanas de afeto, sexo e cumplicidade da esposa. Para além de uma reflexão sobre a condição feminina e das frustrações íntimas da personagem, que renuncia aos seus projetos profissionais e pessoais para viver o sonho do marido literato e medíocre, a peça consegue discutir também a valoração da arte na sociedade contemporânea e seu significado para os sujeitos que se aproximam dela. O cenário é dividido em duas partes, dando a impressão de se estar olhando para duas imagens refletidas no espelho; composto apenas por dois tapetes, duas cadeiras, pilhas de livros e o paletó (que representa o escritor – ou “poetinha de merda”, como é referido pela personagem), no qual contracenam as duas atrizes representando facetas de uma mesma mulher, cada qual em um dos lados do cenário, sem se tocarem. O texto – um monólogo interpretado a duas vozes – é vertiginoso, intenso, visceral, tal qual a interpretação das atrizes, que se entregam à personagem com uma força que impressiona e emociona. A proximidade da plateia, disposta no entorno da cena, a trama dramática desenrolando-se no centro da “arena”, assim como a movimentação das atrizes, excepcionalmente sintonizadas 15

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa entre si, tornam o público íntimo das angústias, desventuras, indecisões e decisões da personagem. Com sua estética enxuta, onde todos os elementos de cena têm sua função, uma trilha sonora com canções de Chico Buarque e a extraordinária entrega das atrizes aos papéis, “Paralelas” arrebatou o público e foi uma das melhores peças apresentadas neste 23° Fitub. 17/07/2010 16

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa O significado do FITUB Viegas Fernandes da Costa Encerrado o 23° Festival Internacional de Teatro Universitário de Blumenau, sob a organização da FURB, é momento de se refletir a respeito do seu significado, não só para o amadurecimento da arte dramática, mas também para o desenvolvimento sociocultural da nossa região. Momento de refletir, ainda, a respeito das suas dificuldades, notadamente as de financiamento, razão pela qual o FITUB não aconteceu em 2009. Em primeiro lugar está algo que nos parece óbvio. O Festival atinge grande público, principalmente se considerarmos a quantidade de pessoas que assistiu aos 22 espetáculos teatrais apresentados este ano, além das apresentações musicais, oficinas e debates. Um público variado ao qual se oportuniza a exibição de peças provindas de diferentes estados brasileiros e do exterior a preços extremamente acessíveis. Esta razão, por si só, deveria entusiasmar o poder público a apoiar efetivamente o projeto; entretanto, o que se percebe é o descaso. Não há, sequer, a inserção do FITUB em nossa agenda cultural. A Fundação Cultural de Blumenau pouco se importa com a existência do Festival e se este irá se realizar no próximo ano. Um evento que capitaliza simbolicamente a cidade, que insere Blumenau no circuito de teatro universitário brasileiro, que desloca para o Vale do Itajaí centenas de atores, professores, técnicos e estudantes de todo território nacional e do exterior, reconhecido por sua qualidade e seriedade, corre o risco de voltar a não acontecer porque nossa sociedade, nosso poder público e nosso empresariado é incapaz de perceber sua importância. Em segundo lugar, o FITUB contribui de forma significativa para o desenvolvimento profissional de artistas, técnicos e produtores culturais da nossa região. Tão importante quanto os espetáculos, são os debates, 17

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa análises, oficinas e intercâmbios que o evento promove, contribuindo para a constituição de um corpo crítico local que possa não só produzir espetáculos de qualidade, capazes de circular para além das nossas fronteiras, gerando renda e trabalho, bem como estimulando o desenvolvimento de um público local cada vez mais exigente e sedento de produção artística. Não reconhecer a importância e as possibilidades que o FITUB oferece demonstra a incapacidade de promoção e gestão cultural do poder público e de toda nossa sociedade. É necessário inserir o Festival na agenda cultural de Blumenau, promovê-lo enquanto opção de atração de um público diferenciado para a nossa cidade e entendê-lo como um evento cuja responsabilidade não se restringe à FURB, mas se estende a todos que se interessam pelo desenvolvimento sustentável e pela qualidade de vida em nossa região. 19/07/2010 18

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa Breves considerações a respeito do 23º Fitub. O inverno este ano soprou o alento aconchegante que apenas um festival de teatro pode nos dar. Depois de um 2009 onde sentimos sua clamorosa ausência (a primeira, após sucessivos 22 anos), aconteceu a 23ª edição do Festival Internacional de Teatro de Blumenau, organizado pela FURB e ansiosamente aguardado não apenas pela comunidade artística e pelo já cativo público que assiste aos espetáculos, mas por todos aqueles que compreendem a importância e o significado dos bens culturais no desenvolvimento integral e sustentável de uma sociedade. A não realização do Fitub no ano passado criou, assim, uma expectativa ainda maior para a edição deste ano. A grande dúvida era saber se o evento realmente aconteceria e se a Universidade manteria seu caráter anual, respondendo a uma das reivindicações da classe artística reunida na 4ª Conferência Municipal de Cultura, que naquela oportunidade manifestou-se contrária à anunciada bianualidade do Fitub. Incertezas à parte, o evento aconteceu entre os dias 09 e 17 de julho sob a temática “Quando a voz dá vida ao texto”, um pouco menor se comparado a edições anteriores, mas mantendo grande quantidade de público, qualidade nas análises dos espetáculos e fomentando o intercâmbio artístico e acadêmico entre teatreiros e estudantes de diferentes estados brasileiros e do exterior. Cortinas fechadas, queremos agora refletir, na qualidade de espectadores que fomos, sobre o 23° Fitub e tecer algumas considerações a respeito do caráter estratégico do festival para a FURB e para o desenvolvimento cultural da região. Financiamento e público. Apesar das inúmeras dificuldades motivadas pela falta de apoio financeiro e pela incapacidade do poder público municipal e estadual, bem 19

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa como do empresariado local, compreender a importância e o significado de um evento como esse, o Festival Internacional de Teatro Universitário de Blumenau conta ainda com grande prestígio acadêmico e audiência, esta última podendo ser medida pela quantidade e variedade de público que acompanhou os espetáculos. Sessões lotadas e disputa por ingressos já são rotina para aqueles que se habituaram a acompanhar o Fitub, o que demonstra o grande interesse da comunidade em acessar bens culturais, principalmente quando oferecidos a preços populares. Impressionou-me constatar a grande quantidade de pessoas que compareceram às peças, ainda que em horários pouco habituais (houve sessões no período da tarde e à meia-noite), bem como a fidelidade de um público que todas as tardes participou das análises dos espetáculos. Se considerarmos que na semana do Fitub os termômetros em Blumenau registraram temperaturas muito baixas e o clima nos brindou com chuva e grande umidade, a participação de um público que abriu mão da sua tendência à hibernação para participar das atividades no Teatro Carlos Gomes e na Fundação Cultural chama ainda mais atenção. Quanto ao prestígio acadêmico, este pode ser medido pelo interesse que o Fitub provoca junto às universidades brasileiras e ibero-americanas. Segundo informações da organização do evento, inscreveram-se para a seleção 54 grupos de teatro universitário nacionais (7 selecionados) e 13 grupos internacionais (apenas 3 selecionados). Ouvindo também as manifestações de diversos atores e professores oriundos de diferentes lugares, ficou evidente o significado do Fitub para os estudantes de artes cênicas. Entre estes é praticamente unânime a opinião de que o Fitub proporciona um espaço privilegiado de exibição da produção teatral universitária nacional e, principalmente, de troca de experiências por meio do exercício da análise e da crítica. Neste sentido, o Fitub insere a FURB e a cidade de Blumenau no cenário artístico e acadêmico nacional, 20

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa constituindo-se assim enquanto evento estratégico para a Universidade, para o aprofundamento da qualidade da produção teatral local e até mesmo para o desenvolvimento de um turismo cultural diferenciado no Vale do Itajaí, potencial até o momento praticamente ignorado pelo poder público. As dimensões que o Fitub atingiu, bem como a quantidade de pessoas que atrai, legitimam a necessidade da sua manutenção, ampliação e aprimoramento, o que não pode ser feito sem o devido financiamento e sua inserção na agenda cultural do município e do Estado. Torna-se assim necessário um esforço em torno da organização e promoção do festival que reúna, além da FURB, a Fundação Cultural de Blumenau, a Secretaria Municipal de Turismo, a Secretaria de Desenvolvimento Regional, a Associação Blumenauense de Teatro, o Conselho Municipal de Cultura, além de outras entidades da sociedade civil organizada. Em 2008 o Festival de Teatro deu um passo qualitativo ao assumir o caráter internacional, cabe agora consolidar este caráter e ampliar sua inserção no cenário artístico e acadêmico nacional a fim de que suas potencialidades possam ser plenamente exploradas. Espetáculos O 23° Fitub apresentou 22 espetáculos de teatro. Além das peças que integraram as duas mostras competitivas (Mostra Universitária Nacional e Mostra Universitária Ibero-Americana), o evento contou ainda com 4 espetáculos convidados, além dos espetáculos do Palco Sobre Rodas e da Mostra Blumenauense de Teatro. No conjunto das mostras, Blumenau recebeu grupos do Chile, Colômbia, Argentina, Portugal, São Paulo, Ceará, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, além dos grupos catarinenses e dos seis grupos locais. 21

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa Ao observarmos os espetáculos das mostras universitárias, é possível constatar a grande influência que textos e autores canonizados pela crítica ainda exercem sobre os estudantes de artes cênicas. Bertold Brecht, Nelson Rodrigues, Plínio Marcos, Sófocles e Ésquilo são alguns destes autores que recorrentemente têm seus textos encenados nos palcos do Fitub, e que marcaram presença também nesta edição. A opção por representar textos de autores cuja qualidade e importância para a história do teatro já está consolidada não representa, necessariamente, um problema. Entretanto, há de se considerar o teatro enquanto manifestação artística viva e capaz de dialogar com o tempo e a sociedade presentes. Textos clássicos têm sua importância para a história, mas sua representação nos palcos contemporâneos só faz sentido se atualizados, se capazes de resignificar nossas experiências emergentes. Diretores e atores necessitam antropofagizar os clássicos, superar o mito do autor canonizado (como no caso de Brecht, por exemplo), matá-lo uma segunda vez, para então produzir um espetáculo que não seja pastiche de si mesmo. O que presenciamos, entretanto, nesta edição do Fitub, foi o zelo excessivo, o extremo pudor com que a maioria dos grupos de teatro trataram o texto original. Talvez o espetáculo que melhor exemplifique o que estamos dizendo aqui tenha sido a montagem do Centro de Produção Teatral da Escola de Belas Artes da UFRJ, que encenou “A Serpente”, de Nelson Rodrigues. Ao se preocuparem em reproduzir fielmente a história trágica de Guida, que oferece seu marido à irmã para evitar o suicídio desta, os atores não apresentaram absolutamente nada de novo, tornando o texto, intenso e repleto de sutilezas, em algo insosso e incapaz de dialogar com a plateia. Até mesmo “Ascensão e queda da cidade de Mahagonny”, escrita originalmente por Bertold Brecht em 1927, cuja montagem realizada pela Cia. Acidental da Unicamp recebeu o prêmio de melhor espetáculo do 23° Fitub, escorregou para o panfletarismo, na medida em que o discurso que 22

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa funcionava plenamente na sociedade fascista da década de 1930 é incapaz de ecoar da mesma forma no pós-industrialismo que caracteriza nossa sociedade ocidental do início do século XXI. O mesmo podemos dizer a respeito do espetáculo “A grande parada (ou o que resta dela)”, também uma adaptação de um texto de Brecht, produzida pelo grupo “VisCera Teatro” e incluída na Mostra Blumenauense. Apesar do subtítulo da peça (“ou o que ainda resta dela”) indicar para um tempo diferente daquele em que originalmente estão situados texto, cenário e personagens, a montagem tem dificuldades em descolar o público das imagens pré-concebidas de uma Alemanha nazista, dos campos de concentração e dos clichês de uma luta de classes romântica. Fica a impressão que está a se assistir a uma peça com preocupações de relato histórico, e não a uma provocação aos tempos atuais, onde os temas e preocupações de Bertold Brecht ainda se fazem presentes. Assim, “A grande parada” perde um caráter de ineditismo que poderia explorar, principalmente se consideramos o contexto social e cultural do Vale do Itajaí em que a montagem e o grupo “VísCera” se inserem. Talvez o ponto alto da Mostra Nacional tenha sido o espetáculo “Canoeiros da Alma”, de autoria de Luís Carlos Leite e apresentado pelo “Coletivo Teatro da Margem”, da Univ. Fed. de Uberlândia. O espetáculo não é daqueles a que se assiste, mas do qual se participa. Não há poltronas, arquibancada ou palco, mas um imenso pátio mergulhado na penumbra e no qual atores e público se misturam, os focos de luz indicando pontos de tensão dramática criados a partir do estudo do universo do Vale do Jequitinhonha e para onde cada espectador é convidado a dirigir sua atenção: um grupo jogando cartas, uma procissão, um oratório, os vendedores ambulantes, o suicida, os noivos, as lavadeiras, a sensualidade da vida e a violência da morte, velas, gritos, voz e força, enfim, todo um universo complexo e do qual é impossível se apropriar enquanto totalidade 23

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa una. O que se tem é o tumulto da vida real, a azáfama de uma feira, a solidão de multidão, mas que a peça procura problematizar quando propõe histórias que possuem voz e rosto, histórias de gente anônima das quais sequer supomos existência. Um espetáculo forte e comovente, que contou com a entrega dos atores e com o reconhecimento do público. Destaque também para “Hay amor”, do grupo “Os Geraldos” da Unicamp. Apesar de não ter recebido nenhum prêmio e de não ter ousado nenhuma linguagem inédita, o espetáculo, com seu humor simples e o uso de imagens facilmente reconhecidas pelo imaginário do público, agradou a plateia, arrancando muitas gargalhadas e aplausos. Se “Hay amor” não apresentou a experimentação que se espera de uma peça universitária, por outro lado mostrou que um espetáculo que visa tão somente a fruição ainda é possível. Quanto aos espetáculos da “Mostra Ibero-Americana”, arrisco-me a dizer que o destaque tenha sido mesmo o figurino e o cenário de “Eteocles, Antígona, Polinices y otros hermanos”, da Universidade de Antioquia, Colômbia, e a preparação vocal dos atores. “Ofelia”, do grupo “Las Rayadas”, da Argentina, frustrou sob todos os aspectos; e o espetáculo “Tartarugas e migração”, da Universidade Nova de Lisboa, apesar de receber o prêmio do público, brindado que foi por imagens de grande apelo poético, mostrou grandes fragilidades narrativas. Mostra blumenauense e considerações finais. Quero concluir ressaltando a importância da Mostra Blumenauense no contexto do Fitub e a necessidade de se ampliar a sua inserção no festival. Considerando que o Fitub, este ano, concentrou a maior parte dos seus espetáculos no Teatro Carlos Gomes, a apresentação das peças da Mostra Blumenauense na Fundação Cultural de Blumenau deu um caráter marginal 24

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa às peças locais, o que foi motivo de críticas. A inserção dos espetáculos blumenauenses no mesmo espaço das mostras nacionais e internacionais possivelmente aprofundaria o intercâmbio entre os grupos e tornaria mais conhecido o trabalho que vem sendo desenvolvido em nível regional. Integrar ainda a Associação Blumenauense de Teatro na organização do Festival e pensar alternativas para que os espetáculos locais possam também ser analisados criticamente (tal qual o que ocorre com as peças universitárias), aprofundaria esta inserção e contribuiria para a reflexão a respeito do fazer artístico local. Por fim, apontar ainda a importância do Fitub. Um evento que capitaliza simbolicamente a cidade, inserindo-a no circuito de teatro universitário brasileiro, deslocando para Blumenau centenas de atores, professores, técnicos e estudantes do Brasil e do exterior, contribuindo para o desenvolvimento profissional de artistas, técnicos e produtores culturais e constituindo um corpo crítico local que possa não só produzir espetáculos de qualidade, gerando renda e trabalho, bem como estimulando o desenvolvimento de um público local cada vez mais exigente e sedento de produção artística. Eis o significado do Fitub e a necessidade da sua existência. 05/08/2010 25

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa Amálgama Um homem, e está só. A um canto da arena, na penumbra, este homem, em silêncio, posta-se de pé e segura nas mãos seus sapatos usados; sob suas solas, possível é, a memória das terras que já não mais estão. O homem só move-se lentamente, escoando seu tempo num ritmo diferente ao da modernidade inaugurada com o aparecimento da locomotiva. Passo a passo, encontra o local exato para depositar seus sapatos, cercando assim seu território, suas referências: o par de sapatos, o casaco, as flores e a cadeira, sobre a qual repousa o vestido vermelho manchado de esperma. É no interior deste quadrado – sapatos, flores, cadeira e casaco – circundado pelo público, que se anuncia ao mundo surdo e cego o vazio de uma vida repleta de memórias impossíveis de troca. Uma cadeira ou um altar? Que cheiro trescalam flores antigas? Um casaco que aquece, ou paletó que representa? E esse vestido manchado de um esperma antigo, ainda cheira um cheiro passível aos sentidos, ou cheira apenas na lembrança? E o homem só move seu corpo nos limites da sua história, resumida à necessidade dos instintos que nunca se satisfazem e ao absurdo da existência. O que resta, enfim, é a repetição. É na repetição que este homem só se reconhece e se inscreve no mundo, estabelece sua identidade, ainda que intangível à racionalidade do público. Há momentos em que a comunicação procura se estabelecer, o homem só aproxima-se de um ou outro espectador, mas quando tal, não há mais um homem só, tal qual aquele que grita, que se masturba e se entrega ao gozo mecânico, que se contorce freneticamente, que liga o aparelho de som e se deixa mergulhado no ritmo de um mantra, que fala o ininteligível em fonemas que remotamente lembram o alemão e o italiano (culturas presentes na construção identitária do Vale do Itajaí, contexto geográfico no qual se construiu a experiência dramatúrgica de “Amálgama”). Quando o homem 26

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa só se aproxima do público, quando olha em seus olhos, quando quase o toca, este homem só é tão somente representação; procura arrumar o cabelo, alinhar suas roupas, sorrir ou sofrer como quem sorri ou sofre para alguém, não para si. Logo a fraude se anuncia estéril, vazia, e o homem só retorna ao centro do seu imundo, onde goza, grita, geme, busca, morre e ressuscita. E quando esse homem só diz que acabou, porque necessita que acreditemos que acabou para que o possamos abandoná-lo a si mesmo, não aceitamos sua sentença, e permanecemos, nós plateia, muda, surda e cega, na espera de um sentido, de um algo a mais que nos territorialize. Porque afinal, não nos movemos ao teatro para compreender o outro, movemo-nos ao teatro porque queremos nos encontrar. Mas não há sentido, não há um algo mais além da repetição. E temos então um homem, e está só. A um canto da arena, na penumbra, este homem, em silêncio, posta-se de pé e segura nas mãos seus sapatos usados; sob suas solas, possível é, a memória das terras que já não mais estão... “Amálgama” estreou em 2008, e retornou aos palcos da Temporada Blumenauense de Teatro em 2010. Com direção de Silvio da Luz e texto de Gregory Haertel, podemos dizer aqui que o espetáculo constitui-se mais como uma performance do ator Adriano Amaral, e não tanto como monólogo. Em “Amálgama”, apesar do texto, o que menos importa são as palavras. É o trabalho de ator, seu domínio sobre o corpo e a forma como este expressa a angústia e os conflitos do personagem que importam. Não é o verbo, mas o movimento e a austeridade dos elementos de cena, que imprimem significado ao espetáculo, associados a uma pesquisa rigorosa na construção do roteiro e do próprio ator. O resultado é uma atuação impecável de Amaral e uma dramaturgia que nos remete a Samuel Beckett e seu universo de vazios e ausências de sentido. Importante o retorno de “Amálgama” aos palcos, e a certeza da possibilidade de se radicalizar ainda mais a proposta do espetáculo. Se o 27

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa personagem afirma, em dado momento “Acabou! Vão embora! Preciso que vocês vão embora para saber que acabou!”, talvez seria interessante deixar nas mãos do público a decisão de encerrar a peça. Desafio interessante para os limites físicos do ator e do público, amalgamado na ausência das palmas e no vazio 02/10/2010. 28

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa Estrangeiros Edelweiss é uma flor, mas também uma canção. Alguém lembrará que edelweiss empresta seu nome há muitas outras coisas, e é verdade. Todas, entretanto, remetem à mesma ideia: a do branco precioso, da pureza. Edelweiss, a flor, nasce nos Alpes, em ambiente inóspito, tem o formato de uma estrela e, apesar de ser extremamente branca, retém em sua penugem a umidade do ambiente, o que lhe dá um tom prateado. Como chegou a estar próxima da extinção, hoje esta flor é tombada como patrimônio natural nos países alpinos. Edelweiss, a canção, foi composta em 1959 por Richard Charles Rodgers e Oscar Hammerstein II para o musical “The sound of music”, que conta a história da família austríaca von Trapp, emigrados para os Estados Unidos em 1938. Os von Trapp fugiam do nazismo que se espalhava pela Europa. A tradução da canção original diz: “Edelweiss/ Toda manhã você me cumprimenta / Pequena e Branca / Clara e Brilhante / Você parece feliz por me encontrar / Floco de neve / Que você possa desabrochar e crescer / Desabrochar e crescer pra sempre / Edelweiss / Edelweiss / Abençoe a minha terra pra sempre.” Não é fácil desabrochar e crescer em ambiente inóspito, mas edelweiss – a flor – desabrocha e cresce, e é disso – mas não apenas disso – que trata a peça “Estrangeiros”, cuja pré-estreia aconteceu no dia 24 de fevereiro, sob a direção de Fábio Hostert, com texto de Gregory Haertel e a atuação de Daidrê Thomas e Enzo Monti. Se começo este comentário pelo avesso, é porque “Edelweiss” – a canção – dá o tom da peça, sendo sua trilha sonora inicial, porém não só! Falaria, talvez, que “edelweiss” – o branco precioso – dá mesmo sentido, consciente ou inconscientemente, ao espetáculo. A flor, a canção e – por que não? – até mesmo os von Trapp anunciam-se na relação entre Alícia (Daidrê Thomas), Pablo (Enzo Monti) – é este mesmo seu nome? – e 29

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa Verde, a boneca de pano que acompanha a protagonista. A respeito daquilo que Verde possa representar, cabe lembrar que “Verde” é também cor. Por que então chamar de Verde a boneca? Verde é cor complexa, e sabemos que assinala o fim do inverno e a esperança. Para além, o verde indica vigor sexual e necessidade de valorização. Ainda, verde é a cor das águas mortas e pode representar influências nefastas. Verde, percebemos, constitui-se como um prisma de possibilidades, e todas, sem exceção, estarão reunidas nesta personagem muda e manipulável que será a boneca de Alícia. O palco é italiano, e o cenário, apesar de modesto, é belo e repleto de significados. A trama se desenrola no interior de uma loja de fantasias, onde não há objeto sem preço. À venda máscaras, vestidos, quadros, espelhos e demais objetos cuja relação está no fato de que todos servem à representação. Alícia é a vendedora, senta-se atrás de uma mesa, no centro da loja. Às suas costas, uma cortina indica a porta que leva ao quarto no qual dorme seu pai. Um pai onipresente que se anuncia nos gestos, nas palavras, nos silêncios e nos temores da personagem, mas cujo rosto e corpo não vemos. Quem é este pai, afinal? A que pai Alícia presta subserviência? Suspeitamos, na plateia, não se tratar de um pai de carne e osso. Este pai que irrompe simbolicamente a cada instante, ao qual a personagem venera e acusa, está para além de um progenitor biológico. Este pai, ao qual a personagem acorre em proteção, tem a face da Instituição. Uma face que só nos é dada a ver por intermédio dos personagens, tal qual um pai que outrora ditou mandamentos, tal qual um pai que impõe seu relho ainda nos tempos que correm, e que se não mostra seu rosto, é porque muitos possui, e não importa; sua face, afinal, é sempre a mesma fascista face. E Alícia é assim uma ficção que se crê real, uma edelweiss, pequena e branca, que vive sob a inóspita presença do Pai. Um corpo virgem de afetos, de toque, que não conhece outra carne, que não 30

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa profere palavrão. Não há, assim, tesão em Alícia. Não há vida em Alícia, senão no sonho que vive acordada e que nos é dado a conhecer através das imagens produzidas por Leo Kufner (um dos pontos altos da peça). A câmera nervosa persegue o sonho de liberdade bucólica de Alícia, que corre pelos campos, se lança à relva e se balança sob às copas das árvores. Sonho do qual é arrancada quando adentra a loja o moço estrangeiro de fala estranha, sedutora, movimentos calculados. Quem é, afinal este personagem? Qual seu nome real? De onde vem? Ao chegar este personagem – Pablo? – Alícia se vê arrancada do seu mundo em que, emudecida, goza do não saber. Pablo - ? – assume seu papel, apropria-se de Verde para lhe conferir influências nefastas. Se Verde induz esperança, que fique alertado que nem toda esperança induz ao deleite. A Verde incorporada por Pablo é dor, é pesadelo. Pablo é o algoz que se encarrega de uma certa educação à Alícia. Alícia precisa crescer, precisa viver, precisa aprender. Pablo é assim uma espécie de preceptor imoral, e o fio da trama nos conduz a reconhecer na história de Alícia uma Cinderela dos tempos que correm. O que Alícia busca em Pablo é alcançar ser outra, ser estrangeira de si mesma. Mas tal qual no conto de Cinderela, só se é possível ser outro por breve momento. Passado o inédito, passamos a ser nós mesmos. Inevitável sentença! Há muitas possibilidades apontadas no espetáculo dirigido por Fábio Hostert, mas há problemas. Como pontos altos aponto a cenografia, a iluminação, o vídeo de abertura do espetáculo (apesar de excessiva e desnecessariamente longo) e a atuação de Enzo Monti no momento em que ordena a Alícia que esta se dispa. A fotografia desta cena em especial é antológica, uma das mais bonitas que já vi nos palcos blumenauenses. Também Daidrê Thomas nitidamente apresentou uma grande caminhada desde sua atuação em “A sede do santo” (2010). Entregou-se a um papel difícil e apresentou uma boa atuação, apesar do nervosismo. Porém cresceu 31

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa durante a peça, como atriz. Vale dizer que cenas de violência física e moral não são fáceis de representar, exigem experiência, e tais cenas preenchem boa parte da trama. Entretanto, a entrega da atriz à personagem pode e deve melhorar. Mas foi no roteiro, entretanto, que algumas deficiências se fizeram notar, e de certa forma comprometeram a narrativa e a verossimilhança. Alícia, apesar de ser esta edelweiss aprisionada no bojo de uma ordem discursiva, entrega-se muito facilmente aos ditames de Pablo. Não há “verdade” nesta transição. Alícia precisa ser outra, mas como se dá isso? Alícia precisa se despir (não só das vestes, mas principalmente de si mesma. A nudez do corpo de Alícia é apenas o caminho para o reconhecimento de uma nudez muito mais ampla – como que se estivesse saindo da caverna de Platão), mas seu despir não convence. O que vemos é um corpo nu, apenas um corpo nu, o que é uma pena, porque ao nos chocarmos com a violência da nudez de Alícia, poderíamos assumir nossa própria nudez, e assim os espelhos pendurados no cenário fariam ainda mais sentido, porque refletiriam a nós, plateia, também nús. Por fim, há o fim que não se resolve. Não porque a peça indicasse uma insolubilidade, mas porque assumir-se outro não se resume a um “vai tomar no cú!” gritado pela personagem. “Vai tomar no cú” é muito pouco para uma peça que pode tanto, mas não se realiza plenamente. “Estrangeiros” é uma proposta interessante, mas que não parece pronta. 25/02/2011. 32

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa Carla Edilene precisa ser algo além de nada Carla Edilene (Zanza França) ama seu marido (Leomar Peruzzo), ou pelo menos acredita amar. Construiu suas referências de amor lendo romances de banca e acompanhando programas românticos no rádio. Descobre entretanto que foi traída, e a partir de então a imagem da mulher (Aline Barth), com que seu homem se deitou, a acompanha e tortura. Carla Edilene aprendeu em suas leituras baratas e em seus programas de rádio, que há de se sofrer quando se é traída. Que há de se vingar, também. O conflito que se estabelece na personalidade de Carla Edilene a partir de então, diz respeito ao fato de que diante do seu homem arrependido, que lhe pede perdão e promete amor e fidelidade, a personagem não deve ceder ao seu desejo de reconciliação, afinal, não é assim que acontece nas histórias que lê, nos casos que escuta. Não, há um padrão de luto, de revanche, que precisa ser plenamente experimentado, caso contrário, Carla Edilene será nada, incapaz de sentir, incapaz de machucar e ser machucada. Vingar-se do marido que tanto ama é, acima de tudo, afirmar uma existência, ainda que sob padrões estabelecidos pela mídia barata. E talvez esta seja a grande sacada de “Amar (e mesmo assim...)”, peça que inaugurou a Temporada Blumenauense de Teatro de 2011: problematizar os discursos que impõem aos sujeitos padrões de sentimentos entendidos como corretos. Em seu íntimo tudo que desejava Carla Edilene era agarrar seu homem, tomá-lo em seu corpo, mas não podia, não é isso que se espera de uma mulher romântica. Por isso exigia sofrer para sentir-se digna de si, digna da imagem que sempre projetou para sua vida. Com texto de Gregory Haertel e direção de Jean Massaneiro, a montagem de “Amar (e mesmo assim...)” coube ao grupo “Detalhe”, que trouxe no elenco, além dos atores já citados, o experiente Roberto Morauer 33

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa no papel de radialista. Morauer assina ainda a assistência de direção do espetáculo. A peça não apresenta grandes pretensões. Com uma narrativa linear, sua linguagem kitsch e tipos estereotipados, “Amar (e mesmo assim...)” diverte e consegue discutir a iconografia brega do universo romântico. Destaque para Zanza França, cuja interpretação literalmente estridente (a personagem da atriz caracteriza-se pela voz aguda, quase histriônica) conseguiu sustentar a tensão dramática do espetáculo. No conjunto, entretanto, os atores não pareceram “sintonizados”, o mesmo ocorrendo em relação à trilha sonora. Também a onipresença voluptuosa da amante pareceu demasiada em vários momentos, o que contribuiu para que a atenção do público fosse indevidamente desviada da protagonista para uma situação coadjuvante. Há, assim, uma espécie de descompasso, que tira o espectador do transe da peça, devolvendo-o à cadeira fria do auditório. Pesados os problemas da montagem, entretanto, o espetáculo do grupo “Detalhe” parece ter cumprido com sua proposta. Divertiu o público, ironizou o romantismo piegas e discutiu o papel da mídia e da cultura de massas na construção de subjetividades. E, por fim, um sentimento de cumplicidade com Carla Edilene. Afinal, o que precisamos nós para sermos algo além de nada? 20/03/2011 34

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa Rebu Nas últimas quinta e sexta-feira (24 e 25/03) teve início a temporada 2011 do Palco Giratório do SESC em Blumenau. No palco do Teatro Carlos Gomes apresentou-se a Companhia Independente de Teatro do Rio de Janeiro com as peças “Rebu” (palavra que significa desordem, confusão, briga) e “Cachorro”, ambas de autoria de Jô Bilac e sob a direção de Vinicius Arneiro. “Cachorro”, indicada em 2007 para o Prêmio Shell na categoria melhor direção, apesar de preceder “Rebu” e ter sido a peça que deu início às atividades da Companhia Independente, foi apresentada na noite de sexta-feira, com casa cheia e uma plateia com a expectativa inflada pelo boca a boca do público da noite anterior. Um tragicômico triângulo amoroso muito bem montado, com iluminação impecável e atores cuja interpretação competentíssima levaram o público a boas gargalhadas, o que não foi suficiente para evitar uma certa sensação de frustração perceptível nos aplausos e nos comentários de corredor ao final da peça. Isto não significa, porém, que “Cachorro” não tenha cumprido com sua proposta. Cumpriu, e muito bem! Entretanto, há de se render ao óbvio: “Rebu” é muito melhor, resultado da trajetória de uma companhia teatral ainda jovem, mas que mostrou aperfeiçoamento nesta que é sua segunda montagem. Como ambos os espetáculos apresentam estéticas muito semelhantes (apesar de “Cachorro” se inspirar no universo de Nelson Rodrigues e “Rebu” nos folhetins tão comuns na imprensa brasileira da segunda metade do século XIX), fica praticamente impossível não tecer comparações entre eles; mas que se registre, não há demérito na frustração do público que retornou ao teatro na noite de sexta-feira, pelo contrário, mérito à Companhia Independente que ousou se superar ao montar “Rebu”. 35

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa “Rebu” está ambientado em algum momento do século XIX, e narra a história de um jovem casal que recebe a visita da irmã do chefe da casa e seu bode de estimação, que é cego. Esta irmã alega estar adoentada, e por isso exige que a casa esteja impecavelmente limpa e que nenhuma nesga de luz do dia lhe alcance o corpo. Bianca, a esposa, praticamente enlouquece com as exigências da cunhada e com a presença do bode cego no interior da residência. Há, entre a irmã e o marido, uma relação quase incestuosa e que submete este último, sempre pusilânime, aos caprichos e à chantagem emocional da parente. A esposa, entretanto, descobre um grave segredo, motivo real da visita da cunhada, que usará como moeda de chantagem para ter de volta a tranquilidade que gozava com o marido antes da chegada da parente e seu insólito animal de estimação. No geral, a peça tem como tema a mentira. Com o desenrolar da trama fica claro que cada um dos personagens carrega consigo sua mentira e seu pecado, e que se movem como se em um jogo de xadrez, cada passo medido e pensado. A coreografia do espetáculo contribui para a metáfora do jogo de xadrez, os personagens alinhando-se em diagonais e em colunas sobre um tablado quadrado, ao público a expectativa do lance arrebatador, do xeque-mate. No elenco estão Carolina Pismel (a irmã), Julia Marini (a esposa), Paulo Verlings (o marido) e Diego Becker (o bode cego), este o grande destaque da peça. O bode cego que Diego Becker interpreta não se apresenta estilizado, mas absolutamente humanizado – humanização que nos provoca a pensar a respeito do tratamento que muitos dispensam aos seus animais de estimação, que de tão humanizados chegam a ser violentados em sua natureza. Vestido de paletó e colete, entretanto, em nenhum momento a interpretação sutil e precisa de Diego nos faz duvidar de que se trata de um bode cego. Ao vermos o homem de óculos com suas lentes pequenas, redondas e escuras, vemos na realidade o insólito personagem imaginado 36

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa por Jô Bilac, e acreditamos nele, tamanha a verossimilhança construída pela trama e pelo trabalho do ator, que irrompe no palco com um estrondoso sapateado flamenco. O bode, a propósito, merece outras reflexões, símbolo importante que significa a peça. Podemos perguntar: por que um bode? Por que não um cão, um porco ou até mesmo uma serpente? Um primeiro elemento seria a tradução da palavra tragédia, que em grego significa, literalmente, “caminho do bode”, isto porque o bode montanhês precisa calcular muito bem cada passo que dá, a fim de não se precipitar montanha abaixo. Também numa tragédia (enquanto gênero dramático) cada movimento em falso pode ter consequências funestas para os personagens, assim como em “Rebu” (uma tragicomédia), onde uma palavra descuidada revela culpas e um descuido imprevidente lança nas mãos de Bianca o segredo da cunhada. Para além, entretanto, o bode de “Rebu” é cego, elemento importante. O bode, na tradição judaica, expia culpas. É da prática de se abandonar um bode no deserto, depois de se tocar sua fronte e assim lançar sobre si todos os pecados de um povo, que surge a expressão bode expiatório. Para Bianca, a esposa, basta que a cunhada abandone o bode para que se resolva as desavenças entre elas. Mas como abandoná-lo, cego, à própria sorte? O bode, justamente porque não enxerga, não pode ver a maldade inerente a sua dona, por isso o único que não a julgará e em quem pode confiar. Mas como um bode cego que não enxerga os seixos traiçoeiros nas trilhas estreitas e sinuosas de uma montanha, a tragédia em “Rebu” leva seus personagens a movimentos que acabam por destruí-los. Em toda mitologia o bode é sempre um símbolo complexo, que tanto pode se associar ao sublime, já que dos animais não alados é o que mais se aproxima de Deus, como pode estar associado ao vil, ao instintivo, à figura dos sátiros que habitavam as florestas e defloravam moças descuidadas. Também a forma como cada personagem se relaciona com o bode cego reflete a complexidade do símbolo. Se para 37

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa Bianca o bode é animal pavoroso e asqueroso, para seu marido transformase em uma espécie de irmão puro, inocente. É na figura do bode cego, sem dúvida alguma, que reside o grande trunfo da peça, seja pela interpretação impecável de Diego Becker, seja pelas possibilidades que, enquanto símbolo, oferece à trama. Por fim cumpre destacar o trabalho de corpo desenvolvido pelos atores, o cenário austero assinado por Daniele Geammal e a iluminação desenhada por Paulo César Medeiros. Um trabalho completo e irretocável! 26/03/2011. 38

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa Um teatro vivo e propositivo Ainda que constatada a absurda falta de investimos públicos no desenvolvimento de atividades artístico-culturais em Blumenau, bem como a ausência de uma política clara definida para a área, sazonalmente a cidade é palco de interessantes experiências no campo do Teatro. Experiências que parecem ter atingido uma certa maturidade no transcorrer desta primeira década do século XXI, em que se percebe uma diversificação de linguagens dramatúrgicas, uma maior organização e profissionalização do setor e a constituição de um público constante para os espetáculos. Realidade conquistada, fruto portanto de uma história com muitos altos e baixos e que não se iniciou ontem. É preciso que destaquemos algumas iniciativas que contribuíram para que o cenário teatral blumenauense alcançasse o patamar em que se encontra hoje. Em primeiro lugar, chamar a atenção para o Núcleo de Teatro Experimental (Nute) do Teatro Carlos Gomes, que teve importante atuação no cenário artístico-cultural da cidade, notadamente nas décadas de 1980 e 90, seja através dos Jogos de Teatro (onde toda cadeia da produção teatral – do texto à representação – era estimulada através de competições que premiavam peças de curta duração, concebidas e montadas em intervalos de poucas horas), seja através dos cursos de Teatro e da apresentação das peças produzidas pela escola. Muitos dos atores, diretores e público que atualmente frequentam o cenário artístico do Vale do Itajaí, formaram-se nas atividades desenvolvidas a partir do Nute. Outra importante iniciativa na história do Teatro em nossa região foi a criação, em 1987, do Festival Universitário de Teatro de Blumenau (atualmente internacionalizado). O Fitub, como hoje é conhecido, sempre contribuiu para o intercâmbio de experiências dramatúrgicas entre grupos universitários do Brasil e exterior. Com sua periodicidade anual (exceção 39

Comentários sobre teatro - Viegas Fernandes da Costa para 2009, ano em que o Festival não se realizou por decisão da então Reitoria da FURB), e sua maratona de peças, debates e atividades correlatas, o Festival sempre proporcionou um espaço privilegiado de exibição da produção teatral universitária e, principalmente, de troca de experiências por meio do exercício da análise e da crítica. Também não há dúvidas quanto à contribuição do Fitub para a formação de plateias, elemento central para o desenvolvimento de toda cadeia produtiva que atua no entorno desta atividade artística. Segundo dados oficiais publicados pela organização do Festival, em 2010 o público que assistiu às peças totalizou 23 mil espectadores. Este número demonstra o crescimento e importância deste evento que, em sua primeira edição, reuniu 5 mil espectadores. Evento que divide sua importância e significado com o Festival Nacional de Teatro Infantil (Fenatib), promovido pela Fundação Cultural de Blumenau e que neste ano chega a sua 15ª edição. Fitub e Finatib são as duas faces de uma importante estratégia de fomento da economia criativa em nossa região, mas que infelizmente carecem da atenção pública devida. Ainda assim sobrevivem e são fortemente responsáveis pelo espaço que o teatro vem ocupando no cenário cultural do Vale do Itajaí. Também a criação em 2004 do curso superior de Bacharelado em Artes Cênicas pela Universidade Regional de Blumenau, e do surgimento, há quinze anos, da Companhia Carona de Teatro (que funciona como escola de teatro do Teatro Carlos Gomes – ocupando um espaço anteriormente representado pelo Nute – e como companhia de teatro), concorreram para a profissionalização de atores e para o exercício da produção teatral na região. Muitos dos protagonistas que frequentam os “palcos” blumenauense

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