Causas do atraso econômico, político e social do brasil

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Published on July 10, 2016

Author: falcoforado

Source: slideshare.net

1. 1 CAUSAS DO ATRASO ECONÔMICO, POLÍTICO E SOCIAL DO BRASIL Fernando Alcoforado* Complexo de vira-lata é uma expressão criada pelo dramaturgo Nelson Rodrigues quando se referiu ao trauma sofrido pelo povo brasileiro com a derrota da Seleção Brasileira para o Uruguai na partida final da Copa do Mundo de 1950 no Maracanã e que só teria se recuperado do choque em 1958, quando ganhou a Copa do Mundo pela primeira vez na Suécia. Para Nelson Rodrigues, o complexo de vira-lata não se limitava somente ao campo futebolístico. Segundo ele, o complexo de vira-lata é a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Ainda segundo Nelson Rodrigues, o brasileiro seria um narciso às avessas não encontrando pretextos pessoais ou históricos para a autoestima. A ideia de que o povo brasileiro é inferior a outros povos não é nova. No século XIX, nas décadas de 1920 e 1930, várias correntes de pensamento digladiavam-se quanto à origem desta suposta inferioridade. Alguns pensadores, como Nina Rodrigues, Oliveira Viana e até mesmo Monteiro Lobato, proclamavam que a miscigenação do povo brasileiro era a raiz de todos os males e que a "raça branca" era superior às demais. Outros, como Roquette-Pinto, afirmavam que a inferioridade era um problema de ignorância do povo brasileiro, não de miscigenação. O complexo de inferioridade é reforçado pelo fato de o Brasil jamais ter tido sua produção científica reconhecida através de um prêmio Nobel, enquanto outros países latino-americanos já conquistaram 19, como é o caso da Argentina, Colômbia e Venezuela. O complexo de inferioridade do brasileiro é reforçado ainda mais pelo fato de vivermos em um país que é detentor de imensas riquezas naturais e não termos tido a capacidade de alcançar a condição de país desenvolvido se ombreando com as grandes nações do planeta. Os sucessivos escândalos de corrupção nos quais o governo brasileiro e a classe política vivenciaram nas últimas décadas e continuam envolvidos fazem com que haja um descrédito em nossa capacidade de transformar o Brasil em um país sério. Este complexo de inferioridade do brasileiro é reforçado também pela flagrante incapacidade do povo brasileiro de assumir protagonismo ao longo da história do País. Pode-se afirmar que, no Brasil, nunca houve, de fato, uma revolução social. A própria Independência do Brasil não resultou da luta do povo brasileiro, mas sim da vontade do Imperador D. Pedro I. A luta pela Independência do Brasil na Bahia em 1823 pode ser interpretada como seu ato final ao expulsar as tropas de Portugal do território brasileiro não podendo, entretanto, ser considerada decisiva para a sua realização. É um fato incontestável que a Independência do Brasil diferiu da experiência dos demais países da América Latina porque não apresentou as características de um típico processo revolucionário nacional-libertador que nesses países se frustrou ao longo da história. Como o Brasil, todos os países da América Latina se constituíram em países periféricos, alguns, e semiperiféricos, outros como o Brasil, subalternos aos países capitalistas centrais. O nativismo revolucionário, sob a influência dos ideais do liberalismo e das grandes revoluções de fins do século XVIII cedeu terreno no Brasil à lógica do conservar- mudando em benefício das classes sociais economicamente dominantes que prevalece até hoje, cabendo à iniciativa de D. Pedro I, príncipe herdeiro da Casa Real portuguesa, e não ao povo brasileiro o ato político que culminou com a Independência. A Independência do Brasil foi, portanto, uma "revolução sem revolução" porque não

2. 2 houve mudanças na base econômica e nas superestruturas política e jurídica da nação. O Estado que nasce da Independência do Brasil mantém o execrável latifúndio e intensifica a não menos execrável escravidão fazendo desta o suporte da restauração que realiza quanto às estruturas econômicas herdadas da Colônia. Apesar das inúmeras revoltas populares registradas ao longo da história do Brasil, uma verdadeira revolução política, econômica e social capaz de realizar mudanças estruturais profundas e promover o desenvolvimento em benefício da população brasileira nunca aconteceu efetivamente no País. Todas as tentativas revolucionárias realizadas no Brasil foram abortadas com dura repressão pelos detentores do poder. O Brasil foi o último país do mundo a acabar com a escravidão no século XIX cuja abolição resultou da concessão realizada pelos detentores do poder e não da luta dos escravos. A reforma agrária ainda está por se realizar porque a malfadada estrutura agrária baseada no latifúndio continua existindo no Brasil, modernizada na atualidade com o agronegócio, e o processo de industrialização foi introduzido tardiamente no Brasil, 200 anos após a Revolução Industrial na Inglaterra. Isto tudo reflete o atraso econômico e político do Brasil em relação aos países mais desenvolvidos. As crises econômicas enfrentadas pelo Brasil ao longo de sua história não foram capazes de gerar crises políticas que levassem o povo brasileiro à revolução social e colocassem em xeque o sistema econômico e os detentores do poder visando a promoção de seu desenvolvimento econômico e social. É sabido que, no mundo, os países que avançaram política, econômica e socialmente são aqueles cujos povos foram protagonistas, através de revoluções sociais, das mudanças realizadas nos planos econômico e social. Para exemplificar, a Revolução Gloriosa na Inglaterra em 1689 lançou as bases do Império Britânico, a Revolução ou Guerra de Independência Americana em 1776 deu início à transformação dos Estados Unidos em potência mundial, a Revolução Francesa em 1789 revolucionou a França e a cena mundial, a Revolução Meiji no Japão em 1868 lançou as bases que transformaram o Japão em grande potência mundial, a Revolução Russa em 1917 transformou um país agrário em grande potência mundial apesar do insucesso na implantação do socialismo, a Revolução Escandinava que proporcionou a seus povos o estado de bem-estar social com uma sociedade detentora dos maiores IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do planeta e a Revolução Chinesa em 1949 foi fator alavancador do desenvolvimento deste país cujos frutos estão sendo colhidos nas últimas décadas. Os mais importantes eventos históricos do Brasil encontraram uma resposta que ficou configurada na intenção explícita de manter fora do âmbito das decisões, as classes e camadas sociais “de baixo” com a “conciliação pelo alto” como ocorreu com a Independência e a Abolição da Escravidão ou a concretização de golpes de estado, quando a “conciliação pelo alto” se tornou impossível como ocorreu na Proclamação da República, na Revolução de 1930 e na implantação da ditadura militar em 1964. Pode- se afirmar que as transformações ocorridas na história do Brasil não resultaram de autênticas revoluções, de movimentos provenientes de baixo para cima, envolvendo o conjunto da população, mas se encaminharam sempre através de uma conciliação entre os representantes dos grupos economicamente dominantes ou a realização de golpes de estado quando a conciliação não era possível. A crítica situação política, econômica e social em que se encontra o Brasil no momento atual dificilmente será solucionada com a “conciliação pelo alto” em curso com a ascensão ao poder de Michel Temer. Todas as medidas adotadas pelo governo Temer

3. 3 não apontam no sentido de reverter o processo de devastação econômica, política e social imposta ao Brasil pelos governos Lula e Dilma Rousseff. A dependência científica, tecnológica, econômica e financeira do Brasil em relação ao exterior se aprofundará ainda mais. A “conciliação pelo alto” é consequência, fundamentalmente, do frágil protagonismo do povo brasileiro que resulta, de um lado, da ausência de partidos políticos e de lideranças confiáveis com propostas capazes de galvanizar a grande maioria da população e, de outro, da alienação política em que se acha possuída a maioria da população. Sem o protagonismo do povo brasileiro na definição dos rumos da sociedade brasileira, o Brasil não se transformará em um país desenvolvido e, em consequência, não superará seu complexo de inferioridade. *Fernando Alcoforado, 76, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (P&A Gráfica e Editora, Salvador, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012) e Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015). Possui blog na Internet (http://fernando.alcoforado.zip.net). E-mail: falcoforado@uol.com.br

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