Cartilha de Festas Religiosas

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Published on February 28, 2014

Author: fortimmjguedes

Source: slideshare.net

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Cartilhas criadas pelo Laboratório de Estética Ártemis com a ajuda de vários alunos e professores da UFSJ.

UFSJ – UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO JOÃO DEL REI REITOR Valéria Heloísa Kemp VICE-REITORA Sérgio Augusto Araújo da Gama Cerqueira PRÓ-REITOR DE EXTENSÃO E ASSUNTOS COMUNITÁRIOS Prof. Paulo Henrique Caetano CHEFE DE DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA E MÉTODOS Prof. Dr. Antônio Rogério Picoli COORDENADOR DO CURSO DE FILOSOFIA Prof. Dr. Fábio Barros Silva COORDENAÇÃO GERAL DO PROJETO Prof. Drª. Glória Maria Ferreira Ribeiro (DFIME) EQUIPE DE EXECUÇÃO Daniela da Conceição Diniz Débora Cristina Resende Etienny Natya Fonseca F Trindade Isabela Alline Oliveira Lucas Bertolino dos Santos Maria Auxiliadora Martins Nilson Anderson Lemos Ulisses Passareli EQUIPE DE APOIO Fernanda Senna Monique Kelly da Cunha AGRADECIMENTOS Balbino de Souza Rezende José Omar Junqueira Juvenal José de Sousa Lazarino Francisco de Sousa Luiz de Ávila e Silva Maria Aparecida Sales Ribeiro Maria José Ribeiro Nagibe Francisco Murad Raul Nogueira do Nascimento Sebastião Vicente da Silva

Isabela Alline Oliveira A oralidade é a ferramenta, A concepção de cultura está intimamente relacionada às formas e hábitos de vida humano, aos seus fazeres cotidianos e sua relação com o outro e com o mundo. A cultura popular se refere aos hábitos alimentares, saberes tradicionais, ofícios, e todas as manifestações relacionadas ao comum da existência humana. Partindo dessa perspectiva, pode-se conceber que também a religião encontra-se na dimensão mais intima da cultura. O termo religião deriva do latim Re – Ligare, que exprime a religação com o Divino. Essa relação com o transcendente e com o Sagrado, marca sua existência, cultura e história, pois é possível perceber que em todas as sociedades essa relação se exprime de alguma forma, seja com os mitos, celebrações, ritos, seja através de formas mais elaboradas da manifestação religiosa. Logo, quando pensarmos os fenômenos de manifestação desse Sagrado percebemos que estão relacionados à relação do homem com uma realidade que está para além do que é comum no nosso mundo. È o lugar onde o comum se relaciona com aquilo que o transcende. È o lugar de ligação do Sagrado com o Profano. Sobre essa relação do homem com o Sagrado nos fala Mircea Eliade: “o homo religiosus acredita sempre que existe uma realidade absoluta, o sagrado, que transcende este mundo, que aqui se manifesta, santificando o e tornando o real. Crê, além disso, que a vida tem uma origem sagrada e que a existência humana atualiza todas as suas potencialidades na medida em que é religiosa, ou seja, participa da realidade” (ELIADE, 2001, p.97). Nesse sentido buscamos ao elaborar a Cartilha de Festas Religiosas, expressar a maneira como o homem estabelece relação com o Sagrado de forma cultural e variada, pois as manifestações religiosas são propriamente uma dimensão da cultura humana. Destacamos ainda a importância das manifestações religiosas no âmbito da cultura popular, pois a dita cultura “não oficial” estabelece suas próprias religações com o Sagrado, através do Congado, da Folia de Reis e Festas Tradicionais que exprimem o mais intimo elo entre memória coletiva, história e sacralidade. A partir do material didático e referencial teórico buscamos atender a Lei Municipal n° 3.826/2004 que dispõe sobre o ensino da educação patrimonial nas Escolas Municipais de São João del Rei, entendendo que a vivência religiosa na cidade é um elemento constituir essencial da cultura do povo da “terra onde os sinos falam”.

SUMÁRIO 6 EDITORIAL 8 APRESENTAÇÃO 14 RELIGIOSIDADE 31 INTERDISCIPLINARIDADE 35 JOGOS E BRINCADEIRAS 40 REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

EDITORIAL Existência, Memória e Patrimônio A memória deve ser antes a dimensão de celebração de comemoração da própria existência. Isto porque para podermos preservar o patrimônio cultural de um povo é preciso, antes de mais nada preservar a própria existência humana, a própria dinâmica de manifestação da vida. “O Senhor ... mire veja: o mais importante e bonito , do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam” ( Rosa, Guimarães. Grande Sertão: Veredas”). Existência que está sempre se fazendo, se retomando desde o jogo do tempo que a constitui. Tempo que escreve a história na qual os destinos se cruzam, se entrecruzam e se realizam. A cada época dessa história a existência se retoma, se reapropria de si mesma, de seu ser, de um modo novo e sempre velho. Velho porque são sempre as mesmas possibilidades de ser e novo porque a existência sempre descobre um outro modo de se apropriar de si mesma, de interpretar-se. Deste modo, cada uma época da história se mostra como um modo possível de elaborar a questão sobre a existência do homem. Existência compreendida desde a relação íntima e indissociável do homem com o seu mundo – mundo que se revela no comércio cotidiano com as coisas e com os outros. A cidade se mostra como a trama concreta na qual esse comércio com o mundo se deixa ver, tornando-o tangível. Trama que sempre de novo se renova, se utilizando sempre dos mesmos fios. Sendo assim,todo trabalho que vise a preservação do patrimonio cultural de um povo deve, antes de mais nada, viabilizar condições para que essa existência se mantenha. Por isso, em nossas reflexões sobre a Educação Patrimonial, estamos tendo sempre como elemento norteador o próprio cultivo da existência humana, ao propormos ações que celebrem (lembrem em conjunto, que co-memorem) a nossa condição que é a de estarmos sempre “afinando e desafinando”. As nossas cartilhas são uma tentativa de celebração desse nosso modo de ser cotidiano – do qual faz parte o ato de comer, de celebrar o divino, de contar estórias. É celebrar isso é deixar que as pessoas brilhem porque “gente é feita para brilhar” – seja o mediante o suor no corpo do trabalhador, seja no brilho nos olhos da criança ao perceber o caráter extraordinário do mundo, que faz com que ele possa sempre ser reinventado (reinventado pelas brincadeiras de fundo de quintal, pelo trabalho dos homens, pelo esforço e empenho dos meus iestimáveis bolsistas de extensão. Gente é para brilhar! Glória Ribeiro “O Senhor ... mire veja: o mais importante e bonito , do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam” (Rosa,Guimarães. Grande Sertão: Veredas”) 6

“Quando eu estiver velho, gostaria de ter no corredor da minha casa Um mapa de Berlim com legenda Pontos azuis designariam as ruas onde morei Pontos amarelos, os lugares onde moravam minhas Namoradas Triângulos marrons, os túmulos nos cemitérios de Berlim onde jazem os que foram próximos a mim E linhas pretas redesenhariam os caminhos no Zoológico ou no Tiergarten que percorri conversando com as garotas E flechas de todas as cores apontariam os lugares nos arredores onde repensava as semanas berlinenses E muitos quadrados vermelhos marcariam os aposentos Do amor da mais baixa espécie ou do amor mais abrigado do vento”. Walter Benjamin, “Fragmento”, 1932 “Quando eu morrer quero ficar, Não contem aos meus inimigos, Sepultado em minha cidade, Saudade. Meus pés enterrem na rua Aurora, No Paiçandu deixem meu sexo Na Lopes Chaves a cabeça Esqueçam O nariz guardem nos rosais, A língua no alto do Ipiranga Para cantar a Liberdade. Saudade... Os olhos lá no Jaraguá Assistirão ao que há de vir, O joelho na Universidade, Saudade As mãos atirem por aí, Que desvivam como viveram, As tripas atirem pro Diabo, Que o espírito será de Deus Adeus”. (Mario de Andrade, ao escrever sua Lira Paulistana (1944) 7

APRESENTAÇÃO Em diferentes contextos sociais e em distintas épocas históricas o termo cultura foi, e vem sendo utilizado de diferentes formas, para falar dos hábitos de vida do homem, entretanto seu uso indistintamente carrega uma concepção ideológica de seu significado. Dentre essas concepções de cultura podemos perceber que muitas pessoas associam a cultura a algo que se adquire ou que se pode obter. O perigo desse tipo de compreensão e de que a cultura acabe assumindo um caráter de mercadoria na sociedade. Quando se pensa a cultura desde essa concepção, ela deixa de ser associada aos hábitos de vida do homem que lhe são naturais, e passa a ser associada à algo que o homem pode adquirir como um simples conjunto de bens. Adquirir cultura significa o mesmo que poder possuir um carro, uma casa, ou ter uma rica biblioteca. Logo aque- 8 les que não podem ter capital financeiro o suficiente para enriquecer seu legado cultural são tidos como ignorantes, pessoas sem cultura, que estão separadas das outras na sociedade por essa condição. Daí surge os desníveis de cultura, que são fruto da divisão cultural entre as pessoas. Sobre isso Alfredo Bosi em seu livro Cultura Brasileira: tradição/ contradição nos diz: “Quer dizer que as pessoas que tem cultura devem exibir certos tipos de comportamento, e devem ser poupadas de certas ações. Logo aprece a divisão, os que tem cultura de um lado, e os que não tem cultura de outro. A cultura dá a aureola da diferença’’. (BOSI, Alfredo, 1987, pg. 35). Considerar a cultura como um conjunto de coisas que se pode possuir é a principal característica da chamada cultura reificada, pois a cultura deixa de ser entendida como um processo que segue a linha sutil da existência humana, para ter seu significado concebido fora dessas vivências humanas. Logo o que antes se remetia as relações sociais entre os homens passa a ser associado a uma relação entre homens e coisas. Assim sendo, o que era uma ideia fruto da relação entre homem e a sociedade, passa a ser apenas uma relação entre homens e objetos. E a cultura que era a pura e simples expressão da minha condição humana, passa a ser vista como um objeto fora de mim. “Na sociedade de massa as pessoas sempre estão diante de objetos da tecnologia mesmo que não sejam a obras de arte. O fato delas não participarem da construção do objeto, porque são obra de uma indústria especializada, apesar delas comprarem vender e, estabelecer relação de uso, elas não compreendem seu mecanismo interno, alienação. Eu possuo um objeto mais não compreendo como ele funciona”. (BOSI, Alfredo, 1987, pg. 37). Podemos ver expressa em várias esferas da sociedade essa concepção, pois a cultura está sempre ligada ao que tem que ser visto, apreciado, preservado e mantido tal como é sem que se leve em consider- ação a relação direta com o cotidiano, porque nesse tipo de compreensão do que seja a cultura, as coisas e ações do cotidiano não são consideradas bens culturais.Cultura como ação e trabalho. Repensar o ideário de cultura difundido em nossa sociedade é essencial para que possamos falar de uma sociedade democrática, e assumir dessa forma uma prática coerente. Para isso nossos esforços devem direcionar-se em desconstruir, em nosso espírito e na sociedade, a ideia de cultura como objeto. É necessário repensarmos essa terminação de cultura como mercadoria, pois ela é segregadora, e faz com que existam níveis de cultura e distinção entre aqueles que possuem cultura e os outros que dela são destituídos. Por isso, ao repensarmos a noção de cultura desde a própria condição da existência humana, estaremos indiretamente contribuindo para repensar a distinção de classes.

Isto porque desde essa concepção de cultura como mercadoria, teríamos que somente aqueles que possuem bens culturais, seriam cultos;enquanto que aqueles que não possuem condições financeiras para possuí-los, não têm cultura. Para que torne possível redimensionar a noção de cultura é necessário considerar todos os momentos do processo produtivo e não somente ao produto (o bem) cultural que é seu resultado. A concepção que nos guia em nossas atividades extensionistas, é aquela que desloca a ideia de cultura como mercadoria, para uma concepção de cultura que diga respeito diretamente à relação que o homem estabelece com o meio onde vive – meio no qual ele estabelece as relações sociais que propriamente o constitui. Portanto a obra (enquanto o produto cultural elaborado nas relações sociais entre homens) é aquela que exprime exatamente o próprio trabalho enquanto processo e resultado. Um projeto de cultura explicito através das dimensões da memória e identidade O termo cultura diz respeito de ao conjunto de saberes, crenças, leis, costumes e todos os outros hábitos e modos de vida de um povo. De origem latina, a palavra cultura deriva do verbo colo, significando, “eu cultivo”, referenciando particularmente, o cultivo do solo e da terra, sendo, portanto, o cuidado que se mantinha com aquilo que se pretendia cultivar. Quando se pensa em cultura, pensa-se em um processo que vem sendo trabalhado há muitos anos, há séculos, que se recebe e se transmite de geração a geração. Do mesmo modo a palavra cultus, diz respeito ao verbo colo, que traz em si a determinação de cultura que nos interessa, pois nos remete a importância da memória no processo de constituição da identidade do individuo. A cultura é compreendida como o conjunto de técnicas, práticas e valores que se devem transmitir às novas gerações. No uso cotidiano, falamos em memória nos referindo ao arquivamento de fatos passados, a “faculdade de reter as ideias, impressões e conhecimentos adquiridos anteriormente”. Dessa forma, lembrar é um fenômeno individual. Porém, podemos compreender a memória fora de seu conceito usual, como um fenômeno coletivo; a memória como o fruto da construção coletiva e submetida a transformações e mudanças constantes. Se a cultura é algo que se busca transmitir às novas gerações, e necessário que tenhamos um projeto, um caminho a oferecer as “novas gerações”, e isso acontece, na junção do que foi com o que é, e o que se pretende ser, da mesma forma, o ponto de encontro entre passado, presente e futuro. Por isso, Bosi nos fala sobre o verbo cultus, não sendo somente a lembrança do labor presente, mais do conjunto de coisas que possibilitaram que esse labor, se tornasse presente, e de um projeto implícito na sua realização. A respeito disso o historiador Alfredo Bosi em seu livro Dialética da Colonização nos diz: Quando os camponeses do Lácio chamavam culta às suas plantações, queriam dizer algo de cumulativo: o ato em si de cultivar e o efeito de incontáveis tarefas, o que torna o particípio cultus, esse nome que é verbo, uma forma significante mais densa e vivida que a simples nomeação do labor presente. O ager cultus, a lavra, o nosso roçado (também um deverbal), junta a denotação de trabalho sistemático a, qualidade obtida, e funde-se com esta no sentimento de quem fala. Cultus é sinal de que a sociedade que produziu o seu alimento já tem memória. (BOSI, 1992, p.13). Nesse processo a identidade ganha seu lugar; pois, da mesma forma que nos identificamos com um lugar marcado por uma experiência individual, também acontece com as experiências coletivas que ganham um aspecto marcante para um determinado grupo, fazendo com que indivíduos se identifiquem e tenham coesão a partir de experiências e vivências comuns. No dicionário Aurélio, identidade é definida como: 1. Qualidade de idêntico; 2. Conjunto de caracteres próprios e exclusivos de uma pessoa: nome, idade, estado, profissão, sexo, defeitos físicos, impressões digitais, etc.; 3. O aspecto coletivo de um conjunto de característicos pelas quais algo é definitivamente reconhecível, ou conhecido. (FERREIRA, 2004, p.1066). Identidade é aquilo que faz com que uma coisa seja exatamente aquilo que ela é, e não seja outra coisa. Desta forma, a identidade só pode ser concebida em comparação com o diferente: “eu sei o que sou à medida que percebo que sou diferente, desse ou daquele outro. 9

Assim também é possível a construção da identidade de grupo. Isto acontece quando percebo que divido com outras pessoas a mesma origem ou os mesmos costumes. É esse sentimento de compartilhamento que faz com que eu me sinta integrante daquele grupo. Essa noção de identificação nos remete novamente para a ideia de cultura como “cultivo de”, pois eu cuido e busco manter e preservar aquilo do qual eu faço parte, onde consigo me perceber numa relação de semelhança, no qual eu me reconheço. Desenvolvimento A Educação Patrimonial Com o processo de modernização das cidades, percebese a constante desvalorização e desconhecimento em relação ao patrimônio cultural. Portanto, desde que em 1930 foi criado o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), uma nova percepção em relação a patrimônio, ampliou os instrumentos e meios de atuação, e estão diretamente aliados á criação das instancias estaduais 10 e municipais de preservação. O campo de educação patrimonial no Brasil tem uma produção acadêmica ainda incipiente, são muitas as publicações utilizadas em ações de educação patrimonial - e, em sua maioria, essas publicações, não levam em consideração o aspecto central da existência humana – que é o fato de ela estar num processo contínuo de realização que só acaba com a morte. Dentre os trabalhos acadêmicos que discutem o tema, a maioria trata de atividades pontuais e estão ligadas a uma análise circunscrita de casos. Embora a educação patrimonial seja consensualmente considerada como peça chave para uma política pública efetiva de preservação do patrimônio cultural, ainda é um tema pouco estudado, principalmente se tratando de práticas institucionais. Dentro da temática, a educação patrimonial pode ser basicamente entendida como um processo durável que busca levar os indivíduos a um processo acionado de conhecimento, apropriação e valorização do patrimônio cultural, com o intuito de que sejam agentes da preservação. Neste aspecto, devemos pensar o patrimônio de forma ampliada. As escolas ao longo dos tempos estão tendo sua estrutura depredada, e desvalorizada dia após dia, pelos seus próprios beneficiários, com isso acreditamos que para a efetivação da Educação Patrimonial no contexto escolar devemos partir da realidade dos alunos, possibilitando sua participação nas soluções dos problemas. “Chamamos de Educação Patrimonial o processo permanente e sistemático de trabalho educativo, que tem como ponto de partida e centro o Patrimônio Cultural com todas as suas manifestações.” (GRUNBERG, 2007, p. 02). Consideramos a partir do conceito de educação patrimonial, que esse tipo de ação utiliza os bens culturais como fonte primária do conhecimento. Gerando um diálogo permanente entre os indivíduos e os bens culturais. Portanto, o maior desafio é fazer com que o individuo crie o hábito de valorizar e preservar o patrimônio cultural, pondo em prática a própria noção de cidadania. Fazendo com que as pessoas possam desenvolv- er um conhecimento crítico e uma apropriação consciente de seu patrimônio. Um fator indispensável no processo de preservação sustentável desses bens culturais é o fortalecimento do sentimento de identidade e lugar no espaço estudado. Uma das maiores dificuldades encontradas em se estabelecer um ensino eficiente em relação a patrimônio é o complexo relacionamento entre a comunidade e os órgãos de preservação. O IPHAN na maioria dos casos é tachado como um inimigo da sociedade, um dos principais motivos deste impasse é o desconhecimento das pessoas sobre suas metodologias e ações utilizadas por esse órgão do governo federal. Acredita-se que com a realização de boas práticas educativas voltadas para a comunidade, esse quadro pode ser revertido. Apesar da importância do tema retratado, na história nunca houve uma visão e atuação por parte do IPHAN e outros órgãos de preservação patrimonial que colocasse como política publica exclusiva visando a educação patrimonial, ou mesmo como um processo de importância equivalente ás demais atividades essenciais por eles desempenhadas (tombamento, fiscalização, identificação, etc.).

Assim, a educação patrimonial vem sendo tratada apenas como atividade complementar no currículo escolar, que se reflete diretamente no Iphan, e isso ocorre devido a sua pouca estruturação e institucionalização no setor responsável pela educação patrimonial. Além disso, a comunidade dá ao patrimônio cultural pouca importância por não possuir um entendimento aprofundado em relação aos bens culturais. Segundo o IPHAN: “O Patrimônio material (...) é composto por um conjunto de bens culturais classificados segundo sua natureza nos quatro Livros do Tombo: arqueológico, paisagístico e etnográfico; histórico; belas artes; e das artes aplicadas. Eles estão divididos em bens imóveis como os núcleos urbanos, sítios arqueológicos e paisagísticos e bens individuais; e móveis como coleções arqueológicas, acervos museológicos, documentais, bibliográficos, arquivísticos, videográficos, fotográficos e cinematográficos’’. (Disponível em: http:// www3.iphan.gov.br/ bibliotecavirtual/ ?page_ id=283) Enquanto que o Patrimônio Imaterial: “O Patrimônio Imaterial é transmitido de geração em geração e constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente, de sua interação com a natureza e de sua história, gerando um sentimento de identidade e continuidade, contribuindo assim para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana’’. (Disponível em: http://www3.iphan.gov.br/ bibliotecavirtual/?page_id=283, acesso em 11 de abril de 2011) . Por sua vez, a UNESCO define como Patrimônio Cultural Imaterial: “(...) as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas - junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados - que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural”. (Disponível em http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/culture/ world-heritage/cultural-heritage/, acesso em 13 de abril de 2011). A proposta metodológica de educação patrimonial foi introduzida no Brasil em 1983, balizada por um trabalho educacional já desenvolvido na Inglaterra, ao ser desenvolvido foi adaptada aos contextos patrimoniais locais. Em alguns estados este trabalho está bem embasado e se solidifica, no Rio Grande do Sul, por exemplo, o tema esta sendo trabalho por Maria Beatriz Machado (2004), José Itaqui entre outros. Em suas pesquisas, eles enfatizam a importância de orientar os professores do ensino fundamental e médio de como trabalhar e aplicar esta metodologia no ambiente escolar. Apesar de estar sendo muito bem sucedida a atividade reali- zada no Rio Grande do Sul, esse é um processo que está ocorrendo de forma isolada repercutindo apenas nas regiões onde se desenvolvem. A proposta consiste na formação de grupos de pesquisas para desenvolver uma forma contínua de projetos e ações, que possam ser aplicadas igualmente em todo o território brasileiro. Existem diversas formas de se trabalhar com o patrimônio cultural dentro de sala de aula, articulando todas as disciplinas do currículo escolar, matemática, história, geografia e ciências podendo ser elaborados exercícios e textos relacionados à educação patrimonial. O importante neste caso é estabelecer a interdisciplinaridade, com isso os alunos podem desenvolver por si só ou juntamente com seus professores, ações dentro da escola que incentivam a multiplicação deste conhecimento. Um ótimo exemplo do que pode ser gerado é a construção de um memorial, um pequeno museu, ou ainda uma roda de “contação” de histórias, fazer oficinas e várias outras atividades, a partir destes métodos os alunos desenvolvem uma visão critica. Ações realizadas conjuntamente por todos os professores dentro das escolas podem gerar atividades muito interessantes - como investigar em forma de pesquisa monumentos da cidade em que mora isso ajuda a enfatizar o patrimônio coletivo e a memória coletiva, além disso, investigar a própria casa como patrimônio cultural através de desenhos. Essa programação diferenciada promove uma identidade em relação ao patrimônio coletivo e gera um respeito em relação ao patrimônio cultural. A transversalidade mantém uma relação com a interdisciplinaridade, bastante difundida pela Pedagogia. São maneiras de se trabalhar o conhecimento buscando uma reintegração de aspectos que ficaram isolados uns dos outros pelo tratamento das disciplinas (MORAES, s. d., p. 7-8). A Educação patrimonial no ensino de história é outra forma que viabiliza formação de pessoas capazes de conhecer a sua própria historia cultural. Levando a educação para este contexto nos faz perceber que os indivíduos podem se diferenciar um dos outros, e com isso podem visualizar a própria vida, a própria cultura, a própria história e, construir a sua memória afetiva, além disso, sua identidade cultural. 11

O patrimônio cultural vem sofrendo grandes prejuízos com a modernização - um exemplo disso ocorre aqui em São João del Rei, onde durante os anos de 1999 e 2001,muitos casarões históricos foram derrubados para dar lugar a supermercados, a casas de venda de materiais de construção. Outro exemplo aconteceu em Araxá-MG, onde uma praça com mais de cinqüenta anos totalmente arborizada, foi substituída por um calçadão sem nenhuma arborização e sequer bancos para as pessoas sentarem. Outra questão muito importante a ser trabalhada é a questão da identidade local nas escolas de ensino fundamental. Os alunos aprendem muitas coisas relacionadas ao mundo, e ao Brasil; mas, na maioria das vezes, o ensino é muito generalizado, fazendo com a história do município ao qual esses alunos pertencem, fique esquecida o que causa no individuo um afastamento em relação as suas origens perdendo de vista o processo formador de sua identidade social. Muitos estudiosos acham que é mais fácil trabalhar o patrimônio cul- 12 tural no âmbito disciplinar das ciências humanas, por ela estar muito próxima do tema. Em outras áreas do currículo, o professor tem certa dificuldade, porque o tema não está presente em suas analises e reflexões cotidianas. Contudo, isso é uma limitação e não pode ser levada ao pé da letra, com a criatividade dos pesquisadores e professores podem ser desenvolvidas atividades dentro da área de exatas, ciências biológicas, das ciências da terra, etc.. Metodologia Através das atividades extensionistas desenvolvidas em nosso projeto (nas Oficinas de Educação Patrimonial realizadas na Escola Municipal Maria Tereza bem como nas oficinas realizadas no espaço do Fortim dos Emboabas localizado no Alto das Mercês) foi possível perceber que as pessoas que participaram dessas atividades não se reconhecem como agentes culturais dentro da sociedade da qual fazem parte. Isto porque elas reconhecem como patrimônio cultural, apenas aquilo que é registrado e reconhecido pela chamada cultura erudita. A distinção entre cultura popular e cultura erudita recorrente em nossa sociedade, produz efeitos catastróficos na construção da identidade dessas pessoas. Mesmo expressões fortes como o congado ou os ofícios e saberes passados de geração em geração, se tornam eixos de resistência de suas raízes na sociedade, não são reconhecidos como tal. Por isso se justifica nosso trabalho de responder a demanda da lei municipal n° 3.826/2004 que torna obrigatório o ensino de educação patrimonial nas escolas da rede municipal. Nosso trabalho é um tanto desafiador quando aos métodos, pois eles não podem ser os métodos tradicionais que são utilizados para o ensino da chamada cultura erudita. Pela característica mutável do patrimônio imaterial não é de nosso interesse resguardálo tal como é (como um objeto pronto e acabado), mas sim preservá-lo através de métodos que se sintetizam exclusivamente nas vivencias que A C ultura popular nos oferece. Dar luzes para que ela por si mesma se mostre e se mantenha. Somos receptáculos dessas vivências. “Se o sistema social é democrático se o povo vive em condições digamos razoáveis de sobrevivência ela próprio saberá gerir as condições para que a cultura seja conservada, não pela cultura em si, mais enquanto expressão da comunidade de grupo e de indivíduos em grupo’’. (BOSI, Alfredo, 1987, pg. 44). Atuando principalmente em São João del Rei e região o programa de extensão “Embornal de Causos - segundo ano” é o desdobramento do projeto de extensão “Embornal de Causos a imagem e o som, a escrita, e o universo virtual como veículo de registros e preservação do patrimônio imaterial” sob a orientação da Dra. Glória Ribeiro, junto com os bolsistas de extensão Isabela Alline Oliveira e Etienny Trindade, e a bolsista atividade Daniela da Conceição Diniz. Como já foi mencionado, o trabalho consiste atender á lei municipal n° 3.826/2004 que dispõe sobre a criação do Programa Municipal de Educação Patrimonial em suas escolas municipais - buscando através do referencial teórico pesquisado, capacitar os professores para o ensino da educação patrimonial dentro das escolas, voltado para a cultura regional e local.

Neste sentido, o programa busca utilizar as novas mídias e redes sociais como ferramentas trazendo para os professores do ensino fundamental a narrativa oral, saberes e fazeres embutidos na cultura local. Nosso trabalho também teve como produto a produção cartilhas para as escolas públicas de ensino fundamental, os bolsistas desenvolveram três cartilhas, uma de culinária, outra de causos e a outra de festas religiosas; as quais ainda estão em processo de avaliação – recebemos a avaliação apenas de uma das escolas da região, como poderá ser observado nos anexos do nosso relatório final. O material possui jogos, exercícios para serem aplicados dentro de sala de aula, textos e imagens. Cada cartilha possui uma peculiaridade diferente: a cartilha de culinária contém receitas de São João del Rei e região, relatos de como o queijo é fabricado artesanalmente, como são fabricados os fornos a partir da utilização do barro e das fezes de gado; a cartilha de causos tem alguns causos transcritos das entrevistas realizadas com moradores de diferentes regiões, além da bibliografia de cada um dos contadores; e por fim a de festas religiosas descreve manifestações religiosas presentes em São João Del Rei. Foram realizadas durante o ano de 2013 em parceria com o programa de Implantação do Centro de Referência de Cultura Popular de São João del Rei, promovemos atividade conjuntas como foram as oficinas do Inverno cultural, contando com cerca de 6 oficinas realizadas no Fortim dos Emboabas entendendo que por ser tratar de uma população de risco , que entretanto mantêm uma tradição de cultura popular muita arraigada, nossos esforços em atuar principalmente com as crianças se justifica pelo fato de as oficinas serem para as crianças do Alto das Mercês uma possibilidade de acesso, diversão e espaço de lazer que a comunidade por si só não tem condições de oferecer. Também foram oferecidas Oficinas de Educação Patrimonial desenvolvidas dos dias 4 a 8 de Março de 2013 na Escola Municipal Maria Tereza, tendo como público atingido cerca de 150 alunos do ensino fundamental. to importante para a preservação do patrimônio cultural, as nossas ações ainda se mostram como uma forma pontual de se aplicar a educação patrimonial. Para que um trabalho como este possa se desenvolver de forma continua no ensino fundamental precisaríamos de uma parceria entre o IPHAN, o governo federal e os órgãos locais de cada município. O que observamos na analise deste conteúdo é que as ações são desmembradas umas das outras, não tendo assim um elo entre as iniciativas que já estão sendo produzidas e os órgãos públicos. No entanto, o IPHAN ainda é desorganizado em relação à educação patrimonial e não existe um interesse por parte dos professores em aplicar o assunto dentro de sala de aula, criando uma barreira a este processo. O patrimônio cultural ainda se encontra vulnerável. A ideia que se passa entre a juventude é que não existe o novo sem destruir o velho, e isso faz com que a memória caia no esquecimento. Como podemos lembrarnos do passado, das histórias contadas por nossos avôs sem passar de geração a gerConclusão ação? Na atual pós Embora seja modernidade o ser um trabalho mui- humano está sendo tratado como objeto, uma boa parte de idosos que fizeram parte da história são abandonados e isolados em locais fora da área de convívio social intenso (como é o caso dos abrigos e albergues), e não paramos para pensar que através deles as manifestações culturais vem sendo passadas de geração para geração. Portanto, necessitamos de uma mudança radical em relação ao patrimônio, e por isso justificamos neste estudo a importância da educação patrimonial. Esta ação pode ser comparada como a “luz no fim do túnel” porque a partir dela os indivíduos podem repensar a relação entre a memória e sua própria identidade social. 13

AS FESTAS RELIGIOSAS NA CULTURA SÃO-JOANENSE Daniela da Conceição Diniz Quando se pronuncia a palavra festa quase de imediato pensamos num acontecimento no qual as pessoas se reúnem para celebrar algo. Isto não se diferencia muito quando o assunto é religião: na festa religiosa a vida é comemorada, a morte é reverenciada, o Ser oculto dá sinais de sua presença. Religiosidade talvez seja um dos aspectos mais marcantes e interessantes de nossa cultura. Aqui, nessa terra, onde se encontraram por força do advento da colonização europeia, o negro o indígena e o branco, se formou o que hoje podemos chamar de identidade brasileira. Os elementos dessas culturas se encontraram (claro, nem sempre pacificamente, causando alguns choques culturais), se misturando, se influenciando e dando origem a uma cultura plural. Pluralidade que podemos observar na religiosidade de nosso povo e nas variadas formas de festejá-la e representála. Nesta cartilha trataremos apenas de duas manifestações de caráter religioso presentes em São João del Rei e região. Mas para se falar em festas religiosas, faz-se necessário rememorar o modo como as manifestações religiosas aqui vivenciadas foram introduzidas no Brasil. A tradição católica no Brasil Mais tradicionalmente reconhecido no Brasil, o cristianismo chegou ao país por meio dos colonos portugueses. Não, porém, sem algumas diferenças na forma de vivenciar esse tipo de religião. A cultura cristã desenvolveu-se em meio a acontecimentos diversos, que fazem com que esta seja o que hoje perdura em nossos tempos. No tempo do Brasil colônia, a religião católica teve como expressão marcante a presença dos jesuítas. “Além da oratória por meio das pregações, os portugueses também utilizavam as músicas, festas e teatralização para conquistar a confiança dos indígenas. Os missionários tentavam uma aproximação com os nativos, entre os costumes portugueses e indígenas empregando nestes rituais tanto elementos culturais não profanos, quanto elementos profanos e não cristãos” (.SIGNES, 2011, pág. 05) O projeto dos Jesuitas não se limitava apenas a ensinar aos índios os preceitos da religião católica, mas, também tentaram introduzir todo o universo da cultura européia. Contudo, os índios não se submetiam facilmente aos preceitos da Companhia de Jesus. O choque entre duas culturas tão diversas, a resistência dos índios diante da imposição de um novo tipo de religião pôs por terra a intenção de dominação através da oratória e das demais estratégias artísticas utilizadas pelos jesuítas. “no Brasil os primeiros missionários foram os jesuítas, que tinha como chefe missionário o Pe. Manuel da Nóbrega, que acreditava na facilidade da conversão do nativo, pois afirmava que eles “eram um papel em branco, onde se podia escrever a vontade.” Contudo, logo se percebe que os nativos não era um povo sem cultura e que não aceitaria facilmente sua conversão.” (SIGNES, 2011, pág. 03) Diante dessa resistên- cia, os jesuitas utilizam a força física para subjugar os índios e a sua cultura. Contudo, nem mesmo assim a nova religião (e o modelo de cultura trazida no seu bojo) é totalmente aceita pelos índios. A mesma resistência pode ser observada com a chegada dos africanos no Brasil. No entanto, os africanos resistiram à pressão exercida pelos portugueses e a sua cultura, através da dissimulação. Em virtude da violência exercida sobre os africanos escravizados, eles se viram obrigados a esconder as suas práticas religiosas sob a roupagem da religião católica. Nesse processo estava implícito um movimento de resistência e a tentativa de manutenção da identidade daquele povo. Nesse processo de colonização, cheio de violência e desrespeito às diferenças culturais, nasceu o povo brasileiro. Povo mestiço: nascido da mistura de índios, negros e brancos; povo influenciado por diferentes culturas, o brasileiro tem como marca de nascença a diversidade. E é na re- 15

Continuação 16 ligião, nas suas práticas que isso pode ser observado. As práticas religiosas sempre foram marcadas pela festa, pelos rituais, que tem o intuito de trazer à presença o sagrado. É no ritual que acontece o encontro do divino com o humano. E para intensificar tal encontro, os fiéis utilizam símbolos que cumprem um importante papel, pois o símbolo tem a função de representar através de elementos concretos fenômenos abstratos. Na religião predominante no Brasil, um ritual que perdura até os tempos atuais, com grande participação dos fiéis em Minas Gerais, são as procissões – herança da presença dos jesuítas, que encenavam a Paixão de Cristo no intuito de persuadir os índios brasileiros da força e da presença do deus do cristianismo. A Procissão é um rito da Igreja Católica que tem o sentido de caminhar à sombra do Crucificado. Em Minas Gerais este rito vem sendo conservado em muitas cidades, com grande participação dos fiéis. Em São João del Rei, este rito, inspira também a conservação de diversos rituais que a diferenciam, da mesma celebração realizadas em diferentes regiões do Brasil. Um dos diferenciais existentes nas procissões desta cidade mineira é a Procissão do Encontro; em cidades que ainda conservam tal rito religioso, esta acontece dentro da Semana Santa. Enquanto que já em São João del Rei, tal Procissão acontece no 4° domingo da quaresma. Há uma lenda que tenta explicar, o motivo dessa diferença de datas: “o Imperador, teria feito uma visita a São João del Rei em tempos de Quaresma. Com o intuito de agradá-lo, e sabendo que na Semana Santa o Imperador não estaria mais na cidade, querendo expor algo que tinha grande fluência de pessoas, a Procissão teria sido adiantada, de modo que ele pudesse assistir, seguindo tal costume até os tempos hodiernos” (referência) Outro grande e importante diferencial na cidade de São João del Rei são as Capelas-Passos, espalhadas pelo centro histórico da cidade, comumente chamadas de Passinhos. Estes Passinhos somente são abertos na quaresma, quando os fiéis, passando diante deles, contemplam e meditam os mistérios da Paixão e Morte de Jesus. Em seu interior, existem telas com pinturas que narram passagens da Paixão e Morte de Jesus. Há em São João del Rei, cinco Passinhos que são abertos e visitados pela Imagem de Nosso Senhor dos Passos. No momento em que a Imagem passa em frente do Passinho, a procissão para e os fiéis meditam a passagem ali existente, com o auxílio dos motetos dos passos (Cantos meditativos que lembram a Paixão e Morte de Jesus), cantados em latim pela orquestra e coro sanjoanense. Não se pode deixar de dizer que há em São João del Rei um ícone histórico de suma importância nas celebrações católicas que é o toque dos sinos. Além de contar com diversos significados, o toque dos sinos deixou de ser apenas uma prática religiosa, passando inclusive a fazer parte da vivência cultural do povo. São João del Rei carrega consigo o codinome de “Terra Onde os Sinos Falam”, e falam em língua que pode ser entendida por grande parte da população. Embora os rituais católicos sejam os que têm maior participação de fiéis, fazse necessário lembrar que os rituais praticados pelas religiões de matriz afrobrasileira, como citado acima, também fazem parte da cultura brasileira, e é claramente notável o crescente número de adeptos a estas práticas religiosas, na cidade onde os sinos falam.

BREVE HISTÓRIA DA ORIGEM DO CONGADO Dentre as atividades religiosas de descendência afro que se desenvolveram no Brasil está a festa de Nossa Senhora do Rosário que ainda hoje perdura em nossos dias, mais comumente conhecida por Congado ou Festa Conga. O congado é uma festa religiosa resultada da miscigenação das culturas europeias e africanas e nascida em berço brasileiro, mas de raízes africanas e principalmente dos povos Bantos (Poel, 2011), presente em vários estados de nosso país, com destaque para Minas Gerais onde tudo começou. A evocação das tradições e cultos dos antepassados representou e representa até hoje um elemento unificador e de sobrevivência da identidade negra. Nesse sentido procuramos saber um pouco mais das tradições afro-brasileiras no intuito de compreendermos e respeitarmos aqueles que as praticam, pois são também mais um elemento cultural que compõem a complexa identidade Brasileira. A origem do congado nos remete à antiga “Mãe África” e ao tem- po do tráfico de escravos quando as colônias portuguesas necessitavam de mão de obra para exploração da nova colônia de Portugal. Esses escravos provinham de muitas regiões da África, em sua grande maioria da África Centro Ocidental e dividem-se basicamente em três grandes grupos étnicos: os Sudaneses, Guineo-sudaneses muçulmanos e por último os Bantos ou Bantus. Os Bantos, a quem se atribuem as festas de congado, são o resultado de uma grande mistura entre vários povos da África durante séculos de migrações, guerras e conquista de outros povos, antes mesmo da chegada dos Portugueses ao continente. Os Bantos formam uma etnia com mais de 500 povos de culturas e dialetos diferentes (Poel, 2011), e são esses que vão compor em grande maioria a população escrava de Minas Gerais vindos principalmente de Moçambique, Angola e outras regiões de domínio Banto na África. Quando chegavam ao Brasil muitas vezes eram separados de seus familiares e conterrâneos e misturados a outros indivíduos de tribos, culturas e dialetos diferentes afim de se evitar revoltas e qualquer tipo de agremiação em seus futuros locais de trabalho. As comunidades negras no Brasil foram formadas em meio a desagregação familiar resultante do tráfico e as diversidades da vida escrava. A condição escrava dificultou a formação e consolidação de famílias e comunidades, já que amigos e parentes podiam ser separados pela venda para proprietários diferentes. (ALBUQUERQUE; FILHO, 2006, p. 95) Fatores que eventualmente resultavam em conflitos entre etnias diferentes, mas de uma forma bastante criativa os negros “driblavam” essas dificuldades linguísticas e culturais no intuito de melhorar as condições do cativeiro e tentar formar uma unidade social referida a seus antigos valores. Para sobreviver sob o cativeiro, os escravos e escravas buscaram acionar relações sociais aprendidas na África e as aqui inventadas. Os vínculos formados a partir do trabalho, da família, dos grupos de convívio e da religião foram fundamentais para sobrevivência e para a recriação de valores e referências culturais. (ALBUQUERQUE; FILHO, 2006, p. 95) Na busca de amenizar as diferenças linguísticas e culturais esses grupos africanos ainda dentro dos navios organizaram um novo dialeto o chamado “português crioulo” no qual pudessem haver pelo menos uma unidade linguística para garantir a “sobrevivência, também cultural” (Poel, 2011, pág.). Somado a isso identificamos a assimilação do cristianismo como fator aliado importantíssimo para a construção de nova identidade e culto às antigas tradições africanas. Como indica Francisco van der Poel, muitos escravos de origem Banto já haviam tido contato com o cristianismo ainda em território africano, além disso, os Bantos já cultuavam a fé em um só Deus, por ora os chamavam por vários nomes, Nzámbi, Zambiapunga entre outros. Documentos da própria igreja comprovam a existência da 'Confraria de Nossa Senhora do Rosário' dos Homens Pretos' datada de 14 de Julho de 1496 pouco antes da chegada dos portugueses ao Bra- 17

Continuação 18 sil (Poel, 2011, pág.). seus valores culturais den tro da tradição cristã. Não A mais antiga men- podemos deixar de lembrar ção a uma “Confraria de as inúmeras investiduras Nossa Senhora do Rosário da igreja para depreciar e dos Homens Pretos” encontramos em 14 de julho de perseguir as manifestações 1496, portanto, quatro anos africanas e suas influências antes da chegada dos por- dentro do catolicismo ou tugueses ao Brasil. Esta in- mesmo fora dele. Os neformação consta num alvará gros passam, então, a se dado à dita confraria, sita no mosteiro de S. Domingos de organizar em confrarias e Lisboa, "para poderem dar aos poucos vão ganhando círios e recolher as esmolas espaço podendo sair às nas caravelas que vão à Mina ruas e podendo prestar e aos rios da Guiné". Encon- suas homenagens aos seus tramos o importante documento no Arquivo Nacional santos devotos nas portas da Torre do Tombo em Lis- das igrejas. boa: Confirmações Gerais, As festas de coroL.2 fls.107v.-108. (Poel, Fran- ação de reis realizadas em cisco van der. 2011) devoção aos santos negros, como São Benedito, O congado Nossa Senhora do Rosário surge como um elee Santa Efigênia ocorrem mento de resistência da em diversas localidades identidade africana e de brasileiras, com destaque para os interiores de Minas Gerais. No entanto, cada região possui suas características próprias, e os tipos de guardas, ternos ou bandas, possuem cada qual seu próprio vestuário, adereços e autonomia. O mesmo tipo de terno pode apresentar variações de um lugar para outro, porém, todos possuem em comum a fé e a devoção ao santo protetor que é assegurada pelo Reinado. As guardas são em número de sete e são chamados irmãos. São eles: Candombe, Congo, Moçambique, Catopê, Marujo, Caboclinho, e Vilão. Fotos: Isaac Josué da Silva

O CONGADO COMO ELEMENTO DA CULTURA POPULAR A cultura popular é o resultado de uma interação contínua entre pessoas de determinadas regiões e abarca um complexo de padrões de comportamento e crenças de um povo. Ultrapassando gerações, adequando muito das vezes as suas novas realidades. A cultura popular surgiu na adaptação do homem ao ambiente onde vive diferenciando um povo de uma determinada região, de outra abrangendo um modo especifico e peculiar de um grupo. Ao contrário da ‘cultura de elite’, a cultura popular surge das tradições e costumes e é transmitida de geração para geração, principalmente, de forma oral. O mais importante na arte popular, ou cultura popular, não é o objeto produzido, mas sim o artista, o povo, a periferia, isso faz com que a arte popular seja contemporânea do seu tempo. “A obra de arte popular constitui um tipo de linguagem por meio da qual o homem do povo expressa sua luta pela sobrevivência. Cada objeto ou manifestação é um momento de vida. Ele manifesta o testemunho de algum acontecimento, ou denúncia de alguma injustiça”. (BOSI, 1987, pág.29). A inspiração da cultura popular vem dos acontecimentos corriqueiros. Diferente da cultura erudita, que é ensinada nas escolas, e que às vezes é vista como um “produto” e faz parte de uma elite. Ao ver a cultura como algo amplo, sem ser um produto, chegase a conclusão que toda cultura é por definição popular. Não existe cultura pertencente a um único grupo social, toda cultura é baseada em fatos históricos sociais que implicam na formação cultural e na aceitação de valores e costumes. Para Alfredo Bosi o termo cultura é, na maioria das vezes, associada ao fator financeiro, já que no período clássico a cultura era um bem atribuído somente às pessoas que detinham um poder aquisitivo melhor; devido ao fato de ser sempre relacionada com posses materiais. Ela era muitas vezes relacionada com a boa educação oferecida em colégios particulares, com a posse de uma casa na qual houvesse uma boa biblioteca, assim como bens materiais, de forma que somente as classes elitizadas tinham o poder de compra. Segundo Bosi toda a cultura que era vivenciada pelas classes mais pobres era tida como cultura de “guetos” tida como nãoerudita. Nessa perspectiva a cultura é entendida como uma mercadoria e algo que é herdado. Segundo Bosi é possível encontrar em algumas partes do mundo pessoas que ainda possuem esse pensamento rotulado de cultura. Para o autor tal ideia tem sido reformulada, levando em conta a riqueza de tais manifestações antes vista como não-culturais, bem como sua característica de determinar a identidade de um povo. Na perspectiva de Guinsburg a cultura popular é um elemento produzido pelas classes populares, que por muito das vezes esse elemento não é escolhido pelo povo, nos locais onde vivem, mas algo imposto às mesmos por grupos dominantes. Partindo da ótica de Guinsburg e Bosi, podemos analisar o congado como uma forte manifestação cultural em nossa sociedade, uma vez que, além de o congado expressar elementos religiosos ele permite percebermos a cultura africana trazida pelos escravos, assim como a sua mescla com a cultura católica portuguesa. Nesse sentido, o congado é uma manifestação religiosa cultural que pertence a uma das práticas mais antigas documentadas no Brasil, fazendo hoje parte integrante do folclore brasileiro. Tais manifestações, como tivemos oportunidade de var acima, tiveram sua origem na África vindas principalmente dos povos bantos das regiões do Congo, Moçambique e Angola. Segundo os congadeiros, o congado chegou ao Brasil através dos escravos trazidos em navios negreiros em condições desumanas, para trabalharem nas minas de ouro existentes no país. Algumas pessoas acreditam que a história do congado em Minas Gerais começou com a vinda de Chico Rei. Um senhor que era considerado rei pelos seus irmãos na África. Segundo conta a história, Chico Rei foi arrancado de sua mãe pátria (África) juntamente com toda sua família, chegando aqui na metade do século XVIII. Na viagem, Chico Rei perdeu sua mulher e seus filhos, so- 19

brevivendo apenas um. Conta à tradição que ele era rei na África, e chegando ao Brasil foi reconhecido pelos seus compatriotas. Ao chegar ao Brasil, Chico Rei foi vendido para senhores de escravos em Vila Rica, trabalhou nas minas de ouro e somando o trabalho de domingos e dias santos, conseguiu realizar a economia necessária para comprar a sua liberdade e a do filho. Com o feito realizado, conta à história que Chico Rei dançou e cantou em agradecimento a Nossa Senhora do Rosário e junto com seus companheiros fundou a igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Depois Chico Rei conseguiu comprar seus súditos de nação e adquiriu uma mina de ouro desativada. Casouse com uma nova rainha e o prestígio do “rei negro” se expandiu. O congado retrata basicamente três temas em seu enredo: a vida de São Benedito, o encontro de Nossa Senhora do Rosário submergida nas águas, e a representação da luta de Carlos Magno contra as invasões mouras. Na celebração das festas onde se reverenciam os santos, a aclamação é animada através de danças, com muito batuque e som de tambores. Há também uma hierarquia na qual se destaca o rei, a rainha, os generais e capitães. Os congadeiros são divididos em grupos de números variáveis, chamados ternos ou guardas. Os tipos de ternos 20 variam de acordo com sua função ou ritual, na festa e no cortejo. Como vimos anteriormente, no congado os ternos são divididos em grupos chamados de família de sete irmãos. Quais são eles: Candombe; Congo; Moçambique; Catupê; Marujo; Caboclinho; Cavaleiros de São Jorge e Vilão. A festa do congado acontece na forma de procissões ou cortejos misturando elementos tribais tradicionais da África com elementos do catolicismo. Esse fenômeno cultural é conhecido como sincretismo religioso. Nestas manifestações sagradas, entidades dos cultos africanos são identificadas aos santos do catolicismo. Os congadeiros reverenciam esses santos, com levantamento de mastro ao som dos tambores com muita música e dança, tendo como padroeira Nossa Senhora do Rosário. Diante de elementos tão fortes no catolicismo fez com que a igreja, as autoridades e os senhores de engenho em geral aceitassem e, muito das vezes, prestigiassem a solenidade, tornando possíveis estas manifestações. Em épocas na qual a igreja comandava uma sociedade muito conservadora. O congado, em linhas gerais, faz uso da memória e da oralidade, recompondo as histórias vivenciadas do sagrado. Dentre a diversidade de feições e multiplicidade dos seus elementos constitutivos, destaca-se o lamento dos congadeiros diante do mastro sagrado rememorando o tráfico negreiro, a tragédia da escravidão vivida no Brasil bem como a aparição de Nossa Senhora do Rosário na luta contra o cativeiro. Trata-se de comemorar (uma comemoração coletiva) o tempo primordial, tempo no quais os negros podem reorganizar reordenar a sua origem e a sua história a par- tir de uma experiência que transcendem os limites temporais e geográficos. Não se trata, portanto, de simplesmente reviver a história tal e qual ela foi vivenciada no tempo profano (portanto não se trata da comemoração de uma história que tem um começo e um fim) - daí talvez a dificuldade dos historiadores de determinarem com precisão a origem desse tipo de manifestação religiosa no Brasil. Tratase antes, de simplesmente dar sentido à existência do homem negro de forma que ele possa reorganizar o seu mundo (cosmo) a partir de uma experiência que transcende o tempo e o espaço profano. Nessa reorganização ele busca se integrar a uma ordem que lhe é superior e, simbolicamente ele assim o faz, na festa do congado ao ficar o mastro – no “umbigo do mundo”, “no centro da terra”. Fotos: Isaac Josué da Silva

A FESTA DO CONGADO A manifestação festiva dos ternos de congado começa com o levantamento dos mastros na porta da igreja, neles são colocados à imagem dos Santos que serão reverenciados na festa. O grupo que fica responsável em levantar os mastros são os organizadores da festa, este mastro é levantado oito dias antes dos festejos. No dia da festa o grupo organizador da cerimônia tem a função de receber todos os ternos de congado que vão participar dos festejos. Os grupos se preparam e saem em cortejo com seus reis e rainhas em direção a igreja do Rosário, onde foram fincados os mastros. Ao chegar diante dos mastros, puxado pelos seus capitães todos os ternos de congado cantam um lamento a Nossa Senhora do Rosário rememorando sua luta contra a escravidão e o cativeiro. Debaixo do mastro o capitão apresenta aos santos reverenciados na festa sua bandeira contendo a devoção do grupo, todos cantam e dançam agradecendo as bênçãos concedidas e pedindo proteção e prosperidade. Terminada as manifestações sagradas diante dos mastros, os congadeiros partem em direção a igreja onde tem um altar especial dedicado a Nossa Senhora do Rosário. Diante do altar acontece o ponto alto da festa, no qual há uma relação direta com o sagrado. Dentro da igreja todos rezam manifestando a sua fé, em seguida todos cantam e dançam agradecendo e homenageando a Nossa Senhora do Rosário. Durante todo o dia os ternos de congados se alternam nas homenagens aos Santos. Nesse tipo de ritual, o tempo e o espaço sagrado são vivenciados de forma simbólica. O cosmo (o mundo) se reorganiza e os congadeiros, através da devoção à Nossa Senhora do Rosário, resignificam a sua existência no mundo. Nesse processo ritual de resignificação, eles retomam aquilo que os identificam em sua existência enquanto homens pretos. Não se trata de nenhum tipo de “ação afirmativa” contra o racismo que ainda hoje impera em nosso país, tampouco se trata de uma “representação teatral” do modo como os primeiros negros chegaram ao Brasil. O congado não se inscreve em nenhum desses discursos. Isto porque, em sua maioria, os congadeiros são homens e mulheres do povo, muitos não concluíram sequer a antiga quarta série primária. A prática do congado não se confunde com nenhum tipo de tematização teórica, nenhum tipo de reflexão sobre a história da África e dos africanos no Brasil que, por ventura, estaria sendo dramatizada nas apresentações realizadas pelos grupos. O congado é pura e simplesmente uma experiência religiosa que, em sua tentativa de religar-se ao divino, transcende qualquer tipo de discurso. Representações simbólicas do Congado vestimentas Conforme nos mostra Saul Martins em seu livro Congado Família de Sete Irmãos (1988). O grupos de congados se vestiam originalmente da seguinte maneira: Embora atualmente seja notada uma grande variação na composição dos ternos , no que diz respeito às vestimentas ou até mesmo na substituição de instrumentos, todos e cada um deles, na festa saúdam a mãe de Jesus, representada por Nossa Senhora do Rosário, que coincidentemente ou não se comemora no mesmo dia da abolição da escravatura no Brasil. 21

22 Fotos: Isaac José da Silva

FOLIAS DE REIS: UMA JORNADA POR SUA HISTÓRIA Ulisses Passarelli Santa Helena, mãe de Constantino, imperador romano, empreendeu verdadeira caçada aos tesouros religiosos. No início do século IV resgatou no Oriente Médio os restos mortais dos Três Reis Magos que visitaram Jesus em Belém. Trouxe os ossos para Constantinopla, guardando-os na Catedral de Santa Sofia. Em meados do mesmo século, Eustórgio, primeiro bispo da cidade italiana de Milão os transportou para lá, edificando um templo próprio para os magos. As relíquias foram conservadas num sarcófago de pedra. No ano 1164, foram transladadas para Colônia (Alemanha), como despojos de guerra, graças a vitória do Imperador Frederico I (dito “Barba Roxa” ou “Barba Ruiva”). Em Colônia foi então edificada uma extraordinária obra em estilo gótico, a Catedral dos Santos Reis, onde seus ossos ainda se encontram, numa urna artística de ouro. Por toda época e por onde estiveram as relíquias, elas foram alvo de romarias. Cristãos de toda Europa vinham de longe venerá-las e em torno dessa devoção foram criadas músicas, cantos, danças, peças teatrais e obras de arte. No mais, os Magos tornaram-se durante a Idade Média, modelo da realeza europeia, já que foram considerados os primeiros reis cristãos. Soberanos visitaram as relíquias e deixaram opulentas ofertas. Os estudos do folclorista Affonso Furtado, da Casa Santos Reis, sobre a história da tradição reiseira são um referencial no Brasil, para quem se aventurar no estudo de tão intrincado tema. Não é pois de admirar que por toda Europa surgissem formas populares de louvar os Três Reis Magos por meio de grupos folclóricos, muito arraigados aos costumes de diversos países, inclusive os ibéricos, de onde recebemos as matrizes que deram origem às nossas folias de Reis e demais tipos de reisados. Vem pois de uma antiga prática europeia, o costume da cultura popular de cantar nas casas versos que descrevem a natividade, a visita dos magos e pastores, com ou sem representação dramática, assumindo diferentes aspectos e nomes conforme o país ou região: Sternsinger (Alemanha, Bélgica, Luxem- burgo, Áustria, Alsácia), Vilancicos (Península Ibérica), Pastoradas, Reisadas, Janeiras (Portugal), Noel Christmas (Inglaterra), dentre outros. França, Itália, Romênia, igualmente conhecem esses cantos. O Brasil recebeu as matrizes europeias (sobretudo ibéricas) que ainda no período quinhentista foram representadas nas áreas litorâneas, nos redutos de catequese jesuítica e, mais tarde, adentraramse pelo imenso interior. Em cada região, sob as influências locais, tomaram outras formatações, mais ao gosto nacional. Os relatos mostram que já no período quinhentista, ao longo da costa brasileira, os padres jesuítas se esforçavam por criar ou aproveitar autos catequéticos tematizados nos Reis Magos, segundo modelos europeus, adaptados à realidade brasileira, que eram representados nos aldeamentos indígenas. Mais tarde, adentraram pelo imenso interior do país e ganhando liberdade de expressão, adquiriram a cor local em cada região do Brasil, gerando tipos com características regionais. É muito claro o abrasileiramento do cos- tume ancestral de cantar e dançar pelo período natalino em memória da visita dos Magos. Neste processo de nacionalização do velho costume a influência da cultura africana nas terras do Brasil foi fundamental. Não nos limitamos a imitar o estrangeiro, mas tomando-o por modelo, criamos uma nova realidade sobre ele. Eis que o brasileiro não se satisfez em imitar o canto natalino europeu. Adaptou-o com criatividade, acrescentou os personagens regionais, figuras provincianas e seres mitológicos, enriquecendo sobremaneira o modelo europeu. Já então, pode-se afirmar sem dúvidas que a folia de Reis assim como outros reisados do nosso país são expressões legítimas de nossa cultura popular, que vão encontrar nos cantares europeus apenas o seu arquétipo. Em outras palavras, não há na Europa uma folia como a nossa. O cristianismo dominante no Novo Mundo tem uma gigantesca amplitude de expressões, muitas de natureza popular, extra institucional 23

Dentre estas situa-se a folia de Reis, grupo folclórico desenvolvido no Brasil sobre modelos do continente europeu e mais especificamente de Portugal e Espanha. Constituem-se na base de um pequeno grupo itinerante de pessoas, sobretudo homens, outrora, aliás, só homens, que vem no período propício com seus instrumentos musicais e cantorias louvar e anunciar o nascimento de Jesus, de porta em porta, visitando os devotos em processo ritual que envolve coleta de donativos, destinados à organização de uma festa dedicada aos Santos Reis (Três Reis Magos do Oriente, comemorados a 06 de janeiro), ou a cooperação em obras de melhoria ou construção de igrejas, ou ainda, para a caridade. Cada folia de Reis traz de praxe consigo como abre-alas, uma bandeira ou estandarte com estampa ou pintura, que retrata a cena da natividade de Cristo; outras vezes apenas a figura dos Reis Magos. Outras mais, de certas regiões substituem-nas por um pequeno oratório ou caixa contendo imagem e há por fim as que não se precedem por objeto religioso, ficando esta expressão limitada ao verbo. Seja como for, bandeira ou oratório é sempre um foco de atenções e grande respeito do grupo, de efeito con- 24 gregador e em suma o elo de ligação entre participantes e visitados. Em questão classificatória a folia de Reis é o que coletivamente se chama de um reisado. Neste contexto entendese reisado como manifestações folclóricas natalinas, coreográficomusicais, baseadas direta ou indiretamente nos costumes ibéricos do Ciclo do Natal, tendo ou não preservado o fundo religioso e independente da existência de um entrecho dramático, de peças teatralizadas, figuras de entremeio ou simulacros guerreiros. Este termo “folia de Reis”, carrega na vastidão territorial do país uma lista de sinônimos, obviamente sujeita às peculiaridades regionais: bando de Reis, folia de Santos Reis (do Oriente), terno de Reis, terno de Folia de Reis, companhia de Reis, comitiva de Reis, tripulação de Reis, grupo de Reis, bandeira de Reis, reis, tiradores de Reis. É o folguedo reiseiro mais comum do país, havendo municípios com dezenas deles. Há até mesmo associações e federações que as congregam. É também a variante reiseira de mais vasta bibliografia. Os rituais, detalhes, toada

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