Cartilha de Causos

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Published on February 28, 2014

Author: fortimmjguedes

Source: slideshare.net

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Cartilhas criadas pelo Laboratório de Estética Ártemis com a ajuda de vários alunos e professores da UFSJ.

UFSJ – UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO JOÃO DEL REI REITOR Valéria Heloísa Kemp VICE-REITORA Sérgio Augusto Araújo da Gama Cerqueira PRÓ-REITOR DE EXTENSÃO E ASSUNTOS COMUNITÁRIOS Prof. Paulo Henrique Caetano CHEFE DE DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA E MÉTODOS Prof. Dr. Antônio Rogério Picoli COORDENADOR DO CURSO DE FILOSOFIA Prof. Dr. Fábio Barros Silva COORDENAÇÃO GERAL DO PROJETO Prof. Drª. Glória Maria Ferreira Ribeiro (DFIME) EQUIPE DE EXECUÇÃO Daniela da Conceição Diniz Débora Cristina Resende Etienny Natya Fonseca F Trindade Isabela Alline Oliveira Lucas Bertolino dos Santos Nilson Anderson Lemos EQUIPE DE APOIO Fernanda Senna Monique Kelly da Cunha AGRADECIMENTOS Balbino de Souza Rezende José Omar Junqueira Juvenal José de Sousa Lazarino Francisco de Sousa Luiz de Ávila e Silva Maria Aparecida Sales Ribeiro Maria José Ribeiro Nagibe Francisco Murad Raul Nogueira do Nascimento Sebastião Vicente da Silva

A oralidade é a ferramenta, que, culturas no mundo inteiro e em todas as épocas, utilizam para exprimir eventos reais ou fictícios em palavras e sons. A denominação de Literatura oral é de 1881, tendo sido criada por Paul Sébillot com a sua Littérature Oral de Ia Haute-Bretagne embora a definição concreta tenha ocorrido muito depois. “La littérature orale comprend ce qui, pour Le peuple qui net lit pás, remplace les productions litéraires”.* Essa literatura são as estórias contadas nas fazendas e cidades por peões e por gente comum, são as cantigas de roda ou de acalanto, músicas de domínio popular, poemas, lendas, jogos de adivinhações, entre outros generos. Contadas e recontadas de geração em geração, essas narrativas preservam a história de um povo, seus costumes, suas crenças, seus conhecimentos. Segundo o professor Luís da Câmara Cascudo, as narrativas tradicionais não têm somente a finalidade de distrair ou fazer dormir as crianças, seu principal objetivo é passar os ensinamentos morais e religiosos do grupo. Mas também são resguardados outros aspectos da cultura popular como cura a partir de plantas medicinais, hábitos alimentares, técnicas de plantio entre outros saberes e fazeres. O importante é que esse tipo de literatura ensina de forma diferente, pois quem aprende não aprende de forma passiva, as expressões da literatura oral são estimulam o raciocínio e a curiosidade, ela recebe o ensinamento e reage a ele, dialoga com ele modificando-o. O conhecimento passado pela literatura oral é do tipo mais imediato; absorvido rapidamente são os primeiros ensinamentos recebidos (através de pessoas mais próximas), que se usa para dar sentido ao mundo. Suas características são a impessoalidade e a atemporalidade isso, quer dizer que, nas obras orais não conseguimos saber definidamente quem as criou e em que época. Dessa forma, elas se perpetuam no tempo, mas nunca da mesma forma. Muito mais que só lembrar-se do passado, a literatura oral quando contada é comemorada, revivida sempre de forma diferente, de modo que, quem as ouve pode reviver o passado no presente e refletir sobre sua ação futura. Cascudo indica que existe em toda e qualquer sociedade duas formas de cultura paralelas: a oficial e a nãooficial. A oficial é regular que acontece sempre em um lugar próprio (em nosso tempo são mais comuns nas escolas) ou ensinadas pelos sacerdotes e conta sempre com certo tipo de autoridade em relação a quem aprende, a não-oficial seria justamente a literatura oral. Com isso faz-se extremamente necessário inserirmos a literatura oral no ambiente escolar, não no intuito de * Linguagem e cultura: múltiplos olhares - Biblioteca Digital. transformá-la em oficial ou instituir a escola como o local de morada desse tipo de literatura, mas despertar no educando um sentimento de reconhecimento de sua própria cultura, fazer se afirmarem através dos costumes de seu povo e se enxergarem como agentes construtores e constituidores da realidade. Além disso, os contos e estórias populares, cantigas, charadas, entre outros são ótimas ferramentas para a transmissão do conteúdo, por seu caráter lúdico e interdisciplinar. Nilson Anderson Lemos

SUMÁRIO 6 EDITORIAL 8 APRESENTAÇÃO 14 BIOGRAFIA 19 NARRATIVAS 32 INTERDISCIPLINARIDADE 37 JOGOS E BRINCADEIRAS 41 REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

EDITORIAL Existência, Memória e Patrimônio A memória deve ser antes a dimensão de celebração de comemoração da própria existência. Isto porque para podermos preservar o patrimônio cultural de um povo é preciso, antes de mais nada preservar a própria existência humana, a própria dinâmica de manifestação da vida. “O Senhor ... mire veja: o mais importante e bonito , do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam” ( Rosa, Guimarães. Grande Sertão: Veredas”). Existência que está sempre se fazendo, se retomando desde o jogo do tempo que a constitui. Tempo que escreve a história na qual os destinos se cruzam, se entrecruzam e se realizam. A cada época dessa história a existência se retoma, se reapropria de si mesma, de seu ser, de um modo novo e sempre velho. Velho porque são sempre as mesmas possibilidades de ser e novo porque a existência sempre descobre um outro modo de se apropriar de si mesma, de interpretar-se. Deste modo, cada uma época da história se mostra como um modo possível de elaborar a questão sobre a existência do homem. Existência compreendida desde a relação íntima e indissociável do homem com o seu mundo – mundo que se revela no comércio cotidiano com as coisas e com os outros. A cidade se mostra como a trama concreta na qual esse comércio com o mundo se deixa ver, tornando-o tangível. Trama que sempre de novo se renova, se utilizando sempre dos mesmos fios. Sendo assim,todo trabalho que vise a preservação do patrimonio cultural de um povo deve, antes de mais nada, viabilizar condições para que essa existência se mantenha. Por isso, em nossas reflexões sobre a Educação Patrimonial, estamos tendo sempre como elemento norteador o próprio cultivo da existência humana, ao propormos ações que celebrem (lembrem em conjunto, que co-memorem) a nossa condição que é a de estarmos sempre “afinando e desafinando”. As nossas cartilhas são uma tentativa de celebração desse nosso modo de ser cotidiano – do qual faz parte o ato de comer, de celebrar o divino, de contar estórias. É celebrar isso é deixar que as pessoas brilhem porque “gente é feita para brilhar” – seja o mediante o suor no corpo do trabalhador, seja no brilho nos olhos da criança ao perceber o caráter extraordinário do mundo, que faz com que ele possa sempre ser reinventado (reinventado pelas brincadeiras de fundo de quintal, pelo trabalho dos homens, pelo esforço e empenho dos meus iestimáveis bolsistas de extensão. Gente é para brilhar! Glória Ribeiro “O Senhor ... mire veja: o mais importante e bonito , do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam” (Rosa,Guimarães. Grande Sertão: Veredas”) 6

“Quando eu estiver velho, gostaria de ter no corredor da minha casa Um mapa de Berlim com legenda Pontos azuis designariam as ruas onde morei Pontos amarelos, os lugares onde moravam minhas Namoradas Triângulos marrons, os túmulos nos cemitérios de Berlim onde jazem os que foram próximos a mim E linhas pretas redesenhariam os caminhos no Zoológico ou no Tiergarten que percorri conversando com as garotas E flechas de todas as cores apontariam os lugares nos arredores onde repensava as semanas berlinenses E muitos quadrados vermelhos marcariam os aposentos Do amor da mais baixa espécie ou do amor mais abrigado do vento”. Walter Benjamin, “Fragmento”, 1932 “Quando eu morrer quero ficar, Não contem aos meus inimigos, Sepultado em minha cidade, Saudade. Meus pés enterrem na rua Aurora, No Paiçandu deixem meu sexo Na Lopes Chaves a cabeça Esqueçam O nariz guardem nos rosais, A língua no alto do Ipiranga Para cantar a Liberdade. Saudade... Os olhos lá no Jaraguá Assistirão ao que há de vir, O joelho na Universidade, Saudade As mãos atirem por aí, Que desvivam como viveram, As tripas atirem pro Diabo, Que o espírito será de Deus Adeus”. (Mario de Andrade, ao escrever sua Lira Paulistana (1944) 7

APRESENTAÇÃO Em diferentes contextos sociais e em distintas épocas históricas o termo cultura foi, e vem sendo utilizado de diferentes formas, para falar dos hábitos de vida do homem, entretanto seu uso indistintamente carrega uma concepção ideológica de seu significado. Dentre essas concepções de cultura podemos perceber que muitas pessoas associam a cultura a algo que se adquire ou que se pode obter. O perigo desse tipo de compreensão e de que a cultura acabe assumindo um caráter de mercadoria na sociedade. Quando se pensa a cultura desde essa concepção, ela deixa de ser associada aos hábitos de vida do homem que lhe são naturais, e passa a ser associada à algo que o homem pode adquirir como um simples conjunto de bens. Adquirir cultura significa o mesmo que poder possuir um carro, uma casa, ou ter uma rica biblioteca. Logo aque- 8 les que não podem ter capital financeiro o suficiente para enriquecer seu legado cultural são tidos como ignorantes, pessoas sem cultura, que estão separadas das outras na sociedade por essa condição. Daí surge os desníveis de cultura, que são fruto da divisão cultural entre as pessoas. Sobre isso Alfredo Bosi em seu livro Cultura Brasileira: tradição/ contradição nos diz: “Quer dizer que as pessoas que tem cultura devem exibir certos tipos de comportamento, e devem ser poupadas de certas ações. Logo aprece a divisão, os que tem cultura de um lado, e os que não tem cultura de outro. A cultura dá a aureola da diferença’’. (BOSI, Alfredo, 1987, pg. 35). Considerar a cultura como um conjunto de coisas que se pode possuir é a principal característica da chamada cultura reificada, pois a cultura deixa de ser entendida como um processo que segue a linha sutil da existência humana, para ter seu significado concebido fora dessas vivências humanas. Logo o que antes se remetia as relações sociais entre os homens passa a ser associado a uma relação entre homens e coisas. Assim sendo, o que era uma ideia fruto da relação entre homem e a sociedade, passa a ser apenas uma relação entre homens e objetos. E a cultura que era a pura e simples expressão da minha condição humana, passa a ser vista como um objeto fora de mim. “Na sociedade de massa as pessoas sempre estão diante de objetos da tecnologia mesmo que não sejam a obras de arte. O fato delas não participarem da construção do objeto, porque são obra de uma indústria especializada, apesar delas comprarem vender e, estabelecer relação de uso, elas não compreendem seu mecanismo interno, alienação. Eu possuo um objeto mais não compreendo como ele funciona”. (BOSI, Alfredo, 1987, pg. 37). Podemos ver expressa em várias esferas da sociedade essa concepção, pois a cultura está sempre ligada ao que tem que ser visto, apreciado, preservado e mantido tal como é sem que se leve em consider- ação a relação direta com o cotidiano, porque nesse tipo de compreensão do que seja a cultura, as coisas e ações do cotidiano não são consideradas bens culturais.Cultura como ação e trabalho. Repensar o ideário de cultura difundido em nossa sociedade é essencial para que possamos falar de uma sociedade democrática, e assumir dessa forma uma prática coerente. Para isso nossos esforços devem direcionar-se em desconstruir, em nosso espírito e na sociedade, a ideia de cultura como objeto. É necessário repensarmos essa terminação de cultura como mercadoria, pois ela é segregadora, e faz com que existam níveis de cultura e distinção entre aqueles que possuem cultura e os outros que dela são destituídos. Por isso, ao repensarmos a noção de cultura desde a própria condição da existência humana, estaremos indiretamente contribuindo para repensar a distinção de classes.

Isto porque desde essa concepção de cultura como mercadoria, teríamos que somente aqueles que possuem bens culturais, seriam cultos;enquanto que aqueles que não possuem condições financeiras para possuí-los, não têm cultura. Para que torne possível redimensionar a noção de cultura é necessário considerar todos os momentos do processo produtivo e não somente ao produto (o bem) cultural que é seu resultado. A concepção que nos guia em nossas atividades extensionistas, é aquela que desloca a ideia de cultura como mercadoria, para uma concepção de cultura que diga respeito diretamente à relação que o homem estabelece com o meio onde vive – meio no qual ele estabelece as relações sociais que propriamente o constitui. Portanto a obra (enquanto o produto cultural elaborado nas relações sociais entre homens) é aquela que exprime exatamente o próprio trabalho enquanto processo e resultado. Um projeto de cultura explicito através das dimensões da memória e identidade O termo cultura diz respeito de ao conjunto de saberes, crenças, leis, costumes e todos os outros hábitos e modos de vida de um povo. De origem latina, a palavra cultura deriva do verbo colo, significando, “eu cultivo”, referenciando particularmente, o cultivo do solo e da terra, sendo, portanto, o cuidado que se mantinha com aquilo que se pretendia cultivar. Quando se pensa em cultura, pensa-se em um processo que vem sendo trabalhado há muitos anos, há séculos, que se recebe e se transmite de geração a geração. Do mesmo modo a palavra cultus, diz respeito ao verbo colo, que traz em si a determinação de cultura que nos interessa, pois nos remete a importância da memória no processo de constituição da identidade do individuo. A cultura é compreendida como o conjunto de técnicas, práticas e valores que se devem transmitir às novas gerações. No uso cotidiano, falamos em memória nos referindo ao arquivamento de fatos passados, a “faculdade de reter as ideias, impressões e conhecimentos adquiridos anteriormente”. Dessa forma, lembrar é um fenômeno individual. Porém, podemos compreender a memória fora de seu conceito usual, como um fenômeno coletivo; a memória como o fruto da construção coletiva e submetida a transformações e mudanças constantes. Se a cultura é algo que se busca transmitir às novas gerações, e necessário que tenhamos um projeto, um caminho a oferecer as “novas gerações”, e isso acontece, na junção do que foi com o que é, e o que se pretende ser, da mesma forma, o ponto de encontro entre passado, presente e futuro. Por isso, Bosi nos fala sobre o verbo cultus, não sendo somente a lembrança do labor presente, mais do conjunto de coisas que possibilitaram que esse labor, se tornasse presente, e de um projeto implícito na sua realização. A respeito disso o historiador Alfredo Bosi em seu livro Dialética da Colonização nos diz: Quando os camponeses do Lácio chamavam culta às suas plantações, queriam dizer algo de cumulativo: o ato em si de cultivar e o efeito de incontáveis tarefas, o que torna o particípio cultus, esse nome que é verbo, uma forma sig- nificante mais densa e vivida que a simples nomeação do labor presente. O ager cultus, a lavra, o nosso roçado (também um deverbal), junta a denotação de trabalho sistemático a, qualidade obtida, e funde-se com esta no sentimento de quem fala. Cultus é sinal de que a sociedade que produziu o seu alimento já tem memória. (BOSI, 1992, p.13). Nesse processo a identidade ganha seu lugar; pois, da mesma forma que nos identificamos com um lugar marcado por uma experiência individual, também acontece com as experiências coletivas que ganham um aspecto marcante para um determinado grupo, fazendo com que indivíduos se identifiquem e tenham coesão a partir de experiências e vivências comuns. No dicionário Aurélio, identidade é definida como: 1. Qualidade de idêntico; 2. Conjunto de caracteres próprios e exclusivos de uma pessoa: nome, idade, estado, profissão, sexo, defeitos físicos, impressões digitais, etc.; 3. O aspecto coletivo de um conjunto de característicos pelas quais algo é definitivamente reconhecível, ou conhecido. (FERREIRA, 2004, p.1066). Identidade é aquilo que faz com que uma coisa seja exatamente aquilo que ela é, e não seja outra coisa. Desta forma, a identidade só pode ser concebida em comparação com o diferente: “eu sei o que sou à medida que percebo que sou diferente, desse ou daquele outro. 9

Assim também é possível a construção da identidade de grupo. Isto acontece quando percebo que divido com outras pessoas a mesma origem ou os mesmos costumes. É esse sentimento de compartilhamento que faz com que eu me sinta integrante daquele grupo. Essa noção de identificação nos remete novamente para a ideia de cultura como “cultivo de”, pois eu cuido e busco manter e preservar aquilo do qual eu faço parte, onde consigo me perceber numa relação de semelhança, no qual eu me reconheço. Desenvolvimento A Educação Patrimonial Com o processo de modernização das cidades, percebese a constante desvalorização e desconhecimento em relação ao patrimônio cultural. Portanto, desde que em 1930 foi criado o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), uma nova percepção em relação a patrimônio, ampliou os instrumentos e meios de atuação, e estão diretamente aliados á criação das instancias estaduais 10 e municipais de preservação. O campo de educação patrimonial no Brasil tem uma produção acadêmica ainda incipiente, são muitas as publicações utilizadas em ações de educação patrimonial - e, em sua maioria, essas publicações, não levam em consideração o aspecto central da existência humana – que é o fato de ela estar num processo contínuo de realização que só acaba com a morte. Dentre os trabalhos acadêmicos que discutem o tema, a maioria trata de atividades pontuais e estão ligadas a uma análise circunscrita de casos. Embora a educação patrimonial seja consensualmente considerada como peça chave para uma política pública efetiva de preservação do patrimônio cultural, ainda é um tema pouco estudado, principalmente se tratando de práticas institucionais. Dentro da temática, a educação patrimonial pode ser basicamente entendida como um processo durável que busca levar os indivíduos a um processo acionado de conhecimento, apropriação e valorização do patrimônio cultural, com o intuito de que sejam agentes da preservação. Neste aspecto, devemos pensar o patrimônio de forma ampliada. As escolas ao longo dos tempos estão tendo sua estrutura depredada, e desvalorizada dia após dia, pelos seus próprios beneficiários, com isso acreditamos que para a efetivação da Educação Patrimonial no contexto escolar devemos partir da realidade dos alunos, possibilitando sua participação nas soluções dos problemas. “Chamamos de Educação Patrimonial o processo permanente e sistemático de trabalho educativo, que tem como ponto de partida e centro o Patrimônio Cultural com todas as suas manifestações.” (GRUNBERG, 2007, p. 02). Consideramos a partir do conceito de educação patrimonial, que esse tipo de ação utiliza os bens culturais como fonte primária do conhecimento. Gerando um diálogo permanente entre os indivíduos e os bens culturais. Portanto, o maior desafio é fazer com que o individuo crie o hábito de valorizar e preservar o patrimônio cultural, pondo em prática a própria noção de cidadania. Fazendo com que as pessoas possam desenvolv- er um conhecimento crítico e uma apropriação consciente de seu patrimônio. Um fator indispensável no processo de preservação sustentável desses bens culturais é o fortalecimento do sentimento de identidade e lugar no espaço estudado. Uma das maiores dificuldades encontradas em se estabelecer um ensino eficiente em relação a patrimônio é o complexo relacionamento entre a comunidade e os órgãos de preservação. O IPHAN na maioria dos casos é tachado como um inimigo da sociedade, um dos principais motivos deste impasse é o desconhecimento das pessoas sobre suas metodologias e ações utilizadas por esse órgão do governo federal. Acredita-se que com a realização de boas práticas educativas voltadas para a comunidade, esse quadro pode ser revertido. Apesar da importância do tema retratado, na história nunca houve uma visão e atuação por parte do IPHAN e outros órgãos de preservação patrimonial que colocasse como política publica exclusiva visando a educação patrimonial, ou mesmo como um processo de importância equivalente ás demais atividades essenciais por eles desempenhadas (tombamento, fiscalização, identificação, etc.).

Assim, a educação patrimonial vem sendo tratada apenas como atividade complementar no currículo escolar, que se reflete diretamente no Iphan, e isso ocorre devido a sua pouca estruturação e institucionalização no setor responsável pela educação patrimonial. Além disso, a comunidade dá ao patrimônio cultural pouca importância por não possuir um entendimento aprofundado em relação aos bens culturais. Segundo o IPHAN: “O Patrimônio material (...) é composto por um conjunto de bens culturais classificados segundo sua natureza nos quatro Livros do Tombo: arqueológico, paisagístico e etnográfico; histórico; belas artes; e das artes aplicadas. Eles estão divididos em bens imóveis como os núcleos urbanos, sítios arqueológicos e paisagísticos e bens individuais; e móveis como coleções arqueológicas, acervos museológicos, documentais, bibliográficos, arquivísticos, videográficos, fotográficos e cinematográficos’’. (Disponível em: http:// www3.iphan.gov.br/ bibliotecavirtual/ ?page_ id=283) Enquanto que o Patrimônio Imaterial: “O Patrimônio Imaterial é transmitido de geração em geração e constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente, de sua interação com a natureza e de sua história, gerando um sentimento de identidade e continuidade, contribuindo assim para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana’’. (Disponível em: http://www3.iphan.gov.br/ bibliotecavirtual/?page_id=283, acesso em 11 de abril de 2011) . Por sua vez, a UNESCO define como Patrimônio Cultural Imaterial: “(...) as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas - junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados - que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural”. (Disponível em http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/culture/ world-heritage/cultural-heritage/, acesso em 13 de abril de 2011). A proposta metodológica de educação patrimonial foi introduzida no Brasil em 1983, balizada por um trabalho educacional já desenvolvido na Inglaterra, ao ser desenvolvido foi adaptada aos contextos patrimoniais locais. Em alguns estados este trabalho está bem embasado e se solidifica, no Rio Grande do Sul, por exemplo, o tema esta sendo trabalho por Maria Beatriz Machado (2004), José Itaqui entre outros. Em suas pesquisas, eles enfatizam a importância de orientar os professores do ensino fundamental e médio de como trabalhar e aplicar esta metodologia no ambiente escolar. Apesar de estar sendo muito bem sucedida a atividade reali- zada no Rio Grande do Sul, esse é um processo que está ocorrendo de forma isolada repercutindo apenas nas regiões onde se desenvolvem. A proposta consiste na formação de grupos de pesquisas para desenvolver uma forma contínua de projetos e ações, que possam ser aplicadas igualmente em todo o território brasileiro. Existem diversas formas de se trabalhar com o patrimônio cultural dentro de sala de aula, articulando todas as disciplinas do currículo escolar, matemática, história, geografia e ciências podendo ser elaborados exercícios e textos relacionados à educação patrimonial. O importante neste caso é estabelecer a interdisciplinaridade, com isso os alunos podem desenvolver por si só ou juntamente com seus professores, ações dentro da escola que incentivam a multiplicação deste conhecimento. Um ótimo exemplo do que pode ser gerado é a construção de um memorial, um pequeno museu, ou ainda uma roda de “contação” de histórias, fazer oficinas e várias outras atividades, a partir destes métodos os alunos desenvolvem uma visão critica. Ações realizadas conjuntamente por todos os professores dentro das escolas podem gerar atividades muito interessantes - como investigar em forma de pesquisa monumentos da cidade em que mora isso ajuda a enfatizar o patrimônio coletivo e a memória coletiva, além disso, investigar a própria casa como patrimônio cultural através de desenhos. Essa programação diferenciada promove uma identidade em relação ao patrimônio coletivo e gera um respeito em relação ao patrimônio cultural. A transversalidade mantém uma relação com a interdisciplinaridade, bastante difundida pela Pedagogia. São maneiras de se trabalhar o conhecimento buscando uma reintegração de aspectos que ficaram isolados uns dos outros pelo tratamento das disciplinas (MORAES, s. d., p. 7-8). A Educação patrimonial no ensino de história é outra forma que viabiliza formação de pessoas capazes de conhecer a sua própria historia cultural. Levando a educação para este contexto nos faz perceber que os indivíduos podem se diferenciar um dos outros, e com isso podem visualizar a própria vida, a própria cultura, a própria história e, construir a sua memória afetiva, além disso, sua identidade cultural. 11

O patrimônio cultural vem sofrendo grandes prejuízos com a modernização - um exemplo disso ocorre aqui em São João del Rei, onde durante os anos de 1999 e 2001,muitos casarões históricos foram derrubados para dar lugar a supermercados, a casas de venda de materiais de construção. Outro exemplo aconteceu em Araxá-MG, onde uma praça com mais de cinqüenta anos totalmente arborizada, foi substituída por um calçadão sem nenhuma arborização e sequer bancos para as pessoas sentarem. Outra questão muito importante a ser trabalhada é a questão da identidade local nas escolas de ensino fundamental. Os alunos aprendem muitas coisas relacionadas ao mundo, e ao Brasil; mas, na maioria das vezes, o ensino é muito generalizado, fazendo com a história do município ao qual esses alunos pertencem, fique esquecida o que causa no individuo um afastamento em relação as suas origens perdendo de vista o processo formador de sua identidade social. Muitos estudiosos acham que é mais fácil trabalhar o patrimônio cul- 12 tural no âmbito disciplinar das ciências humanas, por ela estar muito próxima do tema. Em outras áreas do currículo, o professor tem certa dificuldade, porque o tema não está presente em suas analises e reflexões cotidianas. Contudo, isso é uma limitação e não pode ser levada ao pé da letra, com a criatividade dos pesquisadores e professores podem ser desenvolvidas atividades dentro da área de exatas, ciências biológicas, das ciências da terra, etc.. Metodologia Através das atividades extensionistas desenvolvidas em nosso projeto (nas Oficinas de Educação Patrimonial realizadas na Escola Municipal Maria Tereza bem como nas oficinas realizadas no espaço do Fortim dos Emboabas localizado no Alto das Mercês) foi possível perceber que as pessoas que participaram dessas atividades não se reconhecem como agentes culturais dentro da sociedade da qual fazem parte. Isto porque elas reconhecem como patrimônio cultural, apenas aquilo que é registrado e reconhecido pela chamada cultura erudita. A distinção entre cultura popular e cultura erudita recorrente em nossa sociedade, produz efeitos catastróficos na construção da identidade dessas pessoas. Mesmo expressões fortes como o congado ou os ofícios e saberes passados de geração em geração, se tornam eixos de resistência de suas raízes na sociedade, não são reconhecidos como tal. Por isso se justifica nosso trabalho de responder a demanda da lei municipal n° 3.826/2004 que torna obrigatório o ensino de educação patrimonial nas escolas da rede municipal. Nosso trabalho é um tanto desafiador quando aos métodos, pois eles não podem ser os métodos tradicionais que são utilizados para o ensino da chamada cultura erudita. Pela característica mutável do patrimônio imaterial não é de nosso interesse resguardálo tal como é (como um objeto pronto e acabado), mas sim preservá-lo através de métodos que se sintetizam exclusivamente nas vivencias que A C ultura popular nos oferece. Dar luzes para que ela por si mesma se mostre e se mantenha. Somos receptáculos dessas vivências. “Se o sistema social é democrático se o povo vive em condições digamos razoáveis de sobrevivência ela próprio saberá gerir as condições para que a cultura seja conservada, não pela cultura em si, mais enquanto expressão da comunidade de grupo e de indivíduos em grupo’’. (BOSI, Alfredo, 1987, pg. 44). Atuando principalmente em São João del Rei e região o programa de extensão “Embornal de Causos - segundo ano” é o desdobramento do projeto de extensão “Embornal de Causos a imagem e o som, a escrita, e o universo virtual como veículo de registros e preservação do patrimônio imaterial” sob a orientação da Dra. Glória Ribeiro, junto com os bolsistas de extensão Isabela Alline Oliveira e Etienny Trindade, e a bolsista atividade Daniela da Conceição Diniz. Como já foi mencionado, o trabalho consiste atender á lei municipal n° 3.826/2004 que dispõe sobre a criação do Programa Municipal de Educação Patrimonial em suas escolas municipais - buscando através do referencial teórico pesquisado, capacitar os professores para o ensino da educação patrimonial dentro das escolas, voltado para a cultura regional e local.

Neste sentido, o programa busca utilizar as novas mídias e redes sociais como ferramentas trazendo para os professores do ensino fundamental a narrativa oral, saberes e fazeres embutidos na cultura local. Nosso trabalho também teve como produto a produção cartilhas para as escolas públicas de ensino fundamental, os bolsistas desenvolveram três cartilhas, uma de culinária, outra de causos e a outra de festas religiosas; as quais ainda estão em processo de avaliação – recebemos a avaliação apenas de uma das escolas da região, como poderá ser observado nos anexos do nosso relatório final. O material possui jogos, exercícios para serem aplicados dentro de sala de aula, textos e imagens. Cada cartilha possui uma peculiaridade diferente: a cartilha de culinária contém receitas de São João del Rei e região, relatos de como o queijo é fabricado artesanalmente, como são fabricados os fornos a partir da utilização do barro e das fezes de gado; a cartilha de causos tem alguns causos transcritos das entrevistas realizadas com moradores de diferentes regiões, além da bibliografia de cada um dos contadores; e por fim a de festas religiosas descreve manifestações religiosas presentes em São João Del Rei. Foram realizadas durante o ano de 2013 em parceria com o programa de Implantação do Centro de Referência de Cultura Popular de São João del Rei, promovemos atividade conjuntas como foram as oficinas do Inverno cultural, contando com cerca de 6 oficinas realizadas no Fortim dos Emboabas entendendo que por ser tratar de uma população de risco , que entretanto mantêm uma tradição de cultura popular muita arraigada, nossos esforços em atuar principalmente com as crianças se justifica pelo fato de as oficinas serem para as crianças do Alto das Mercês uma possibilidade de acesso, diversão e espaço de lazer que a comunidade por si só não tem condições de oferecer. Também foram oferecidas Oficinas de Educação Patrimonial desenvolvidas dos dias 4 a 8 de Março de 2013 na Escola Municipal Maria Tereza, tendo como público atingido cerca de 150 alunos do ensino fundamental. to importante para a preservação do patrimônio cultural, as nossas ações ainda se mostram como uma forma pontual de se aplicar a educação patrimonial. Para que um trabalho como este possa se desenvolver de forma continua no ensino fundamental precisaríamos de uma parceria entre o IPHAN, o governo federal e os órgãos locais de cada município. O que observamos na analise deste conteúdo é que as ações são desmembradas umas das outras, não tendo assim um elo entre as iniciativas que já estão sendo produzidas e os órgãos públicos. No entanto, o IPHAN ainda é desorganizado em relação à educação patrimonial e não existe um interesse por parte dos professores em aplicar o assunto dentro de sala de aula, criando uma barreira a este processo. O patrimônio cultural ainda se encontra vulnerável. A ideia que se passa entre a juventude é que não existe o novo sem destruir o velho, e isso faz com que a memória caia no esquecimento. Como podemos lembrarnos do passado, das histórias contadas por nossos avôs sem passar de geração a gerConclusão ação? Na atual pós Embora seja modernidade o ser um trabalho mui- humano está sendo tratado como objeto, uma boa parte de idosos que fizeram parte da história são abandonados e isolados em locais fora da área de convívio social intenso (como é o caso dos abrigos e albergues), e não paramos para pensar que através deles as manifestações culturais vem sendo passadas de geração para geração. Portanto, necessitamos de uma mudança radical em relação ao patrimônio, e por isso justificamos neste estudo a importância da educação patrimonial. Esta ação pode ser comparada como a “luz no fim do túnel” porque a partir dela os indivíduos podem repensar a relação entre a memória e sua própria identidade social. 13

UM CASO DE FOLIA DE REIS Eu gostaria de contá uma estória pra vocês que... é estória aconticida mêmo, que a gente já viu comentário, que conteceu na nossa região. Uma estória até engraçada, uma estória que... Contando assunto de folia de reis, né? Na nossa região aqui, é um lugar que tem muito esse negócio de folia de reis. Então me contaro essa estória pra mim que aconteceu, mas que foi estória contada que aconteceu mêmo! E diz que tinha uma folia de reis, saiu numa zona rural, na região da cidade, por perto aqui. E chegô nessa região tinha muita casa pá... po povo cantá e ês já chegaro de tarde, nessa região. Chegô lá, cantô um pouco nas casa que tinha. Chegô numa fazenda dum fazendêro muito bão, e o fazendêro, a atividade dele era duas coisa: era tirá leite, tinha um gado de corte e tamém tinha um negóço de fazeção de pinga, né? Que sempre isso é uma das coisa que sempre tem mêmo. E o fazendêro fazia muitas qualidade de pinga e todas que fazia diz que era boa. Aí, a folia de reis chegô na fazenda desse fazendêro de tarde, fazendêro tamém muito bão, mandou o povo entrar pra dentro. E o currar da fazenda, o gado chegava até na porta da sala da fazenda. E aí o povo chegô, dexô a bandêra da folia de reis dês lá em riba da escada, dexô os instrumento e entrô pra dentro da fazenda do home. Chegô lá, o fazendêro muito bão, dava um golinho da pinga pá pessoa porvá. A pessoa porvava, achava a pinga muito gostosa. Por causa que achô gostosa, bebia mais um golo daquela. Aí o fazendêro: - Tem mais uma, vem cá, o senhor exprementa essa. Aí dava um golim pá pessoa porvá. A pessoa: - Ah não! Mais um golo! Tomava mais um golim. Aí todo mundo ficô tonto e durmiu. Esqueceu os instrumento em cima da escada lá do currar, em riba da es- SEBASTIÃO VICENTE DA SILVA cada que entrava na porta da fazenda, mas era dentro do currar. Esqueceu os instrumentos, ficou, esqueceu tamém a bandeira da folia de reis. E aí, bão. E durmiro e nem lembrô que tinha dexado os instrumento do lado de fora, nem bandêra e nem nada e durmiro. E quando ês cordaro no ôtro dia cedo, aí que ês foi recordá que tinha dexado os instrumento, a bandeira e tudo em cima daquela escada. E aí veio pá mó pegá os instrumento, pegá a bandêra pa cantá. Porque logo naquele lugar que tinha muita casa pr’ês cantá. Pegá os instrumento e a bandeira pá mode ês saí, pá mode cantá novamente naquela região. Aí chego lá, achô os instrumento tudo, mas num achô a bandêra - Mas cumé que faiz ué? Folia de reis, o primeiro da folia de reis que anda na frente é a bandêra. Cês tudo sabe disso, né? A bandêra que anda na frente. Marungo pega a bandeira e vai na frente. Aí não achô a bandêra, - Cumé que faiz, cumé que num faiz pá cantá, seno que num tinha bandêra? E ali no meio tinha um rapaiz novo, ansim, muito inteligente. Olhou pr’um lado, pr’outro e viu aquele pauzinho que carrega a bandeira. Aí falou pro outro: - Ô fulano! Pega aquele pauzim lá e leva aquele pauzim mêmo. Nóivaivê o que dá pra fazê memo. Aí a pessoa pegô aquele pauzinho e saiu na frente. Chegô na primeira casa, aquela pessoa que tinha mandado ele levá aquele pauzinho, chegô na primeira casa e cantô pá dona de casa assim, ó. (Cantado) “Ai da licença dona de casa, não pergunte o que aconteceu, dá esmola pr’esse pau, que a bandêra o boi cumeu.” É... aí é a estória: o gado cumeu a bandêra e não tinha bandêra mais. O rapaz falou: - Não, leva esse pauzinho mêmo! Levou o pauzinho, chegou lá imprevisô desse jeitinho, cantando bem. Cantô direitinho que era pá móde dá esmola pr’aquele pau por que não tinha bandêra. Porque sempre pede esmola é pra bandeira, né? Agora, não tinha bandêra, ia dá esmola pá quem? Aí pidiu pá dá esmola pr’aquele pau, que a bandeira o boi tinha cumido. Essa ai é a estória de folia de reis, o povo fala que é estória de mentiroso, né? Mas, diz que isso aí foi aconticido mêmo! BIOGRAFIA Sebastião Vicente da Silva, mais conhecido comoTiãozinho da Lavrinha, nasceu em 1957 em Luminárias – MG e é lavrador. No vídeo a seguir ele narra um divertido conto. 17

Transcrição Eu gostaria de contar uma estória pra vocês: - É estória acontecida mesmo, que a gente já viu comentário, que aconteceu na nossa região. Uma estória até engraçada, uma estória que... ...Contando assunto de folia de reis, não é? Na nossa região aqui, é um lugar que tem muito esse negócio de folia de reis. Então me contaram essa estória, que aconteceu, mas foi estória contada que aconteceu mesmo! E diz que existia uma folia de reis que saiu numa zona rural, na região da cidade, por perto aqui. E chegou nessa região existiam muitas casas pro povo cantar e eles já chegaram de tarde. Chegaram lá, cantaram um pouco nas casas que existiam. Chegaram na fazenda de um fazendeiro muito bom, e o fazendeiro, as atividades dele eram duas coisas: era tirar leite, tinha um gado de corte e também tinha um negócio de fabricação de pinga, não é? Que sempre isso é uma das coisas que sempre tem mesmo. E o fazendeiro fazia muitas qualidades de pinga e todas que ele fazia dizem que eram boas. Aí, a folia de reis chegou na fazenda desse fazendeiro de tarde, fazendeiro muito bom, mandou o povo entrar. E o curral da fazenda, o gado chegava até na porta da sala da fazenda. na porta da sala da fazenda. E aí o povo chegou, deixou a bandeira da folia de reis deles lá em cima da escada, deixou os instrumentos e entrou para dentro da fazenda do homem. Chegou lá, o fazendeiro muito bom, dava um golinho da pinga para a pessoa provar. A pessoa provava, achava a pinga muito gostosa. Porque achou gostosa, bebia mais um gole daquela. 18 Aí o fazendeiro: - Tem mais uma, vem cá, o senhor experimenta essa. Aí dava um golinho para a pessoa provar. A pessoa: - Ah não! Mais um gole! Tomava mais um golinho. Aí todos ficaram tontos e dormiram. Esqueceram os instrumentos em cima da escada lá do curral, em cima da escada que entrava na portada fazenda, mas era dentro do curral. Esqueceram os instrumentos, esqueceram também a bandeira da folia de reis. E aí, bom. Dormiram e nem lembraram que tinham deixado os instrumentos do lado de fora, nem bandeira e nem nada. E quando eles acordaram no outro dia cedo, aí que eles foram recordar que tinham deixado os instrumentos, a bandeira e tudo em cima daquela escada. E aí vieram para pegar os instrumentos, pegar a bandeira pra cantar. Porque logo naquele lugar que tinha muita casa para eles cantarem. Pegar os instrumentos e a bandeira para eles poder sair para cantar novamente naquela região. Aí chegaram lá, acharam os instrumentos todos, mas não acharam a bandeira. - Mas como é que faz ué? Na folia de reis, o primeiro da folia de reis, que anda na frente é a bandeira. Vocês todos sabem disso, não é? A bandeira é que anda na frente. O Marungo pega a bandeira e vai na frente. Aí não acharam a bandeira. - Como é que faz, como é que não faz pra cantar, sendo que não tinha bandeira? E ali no meio tinha um rapaz novo, muito inteligente. Olhou para um lado, para o outro e viu aquele pauzinho que carrega a bandeira, aí falou para o outro: - Ô fulano! Pega aquele pauzinho lá e leva aquele pauzinho mesmo. Nós vamos ver o que dá para nós fazermos. Aí a pessoa pegou aquele pauzinho e saiu na frente. Chegou na primeira casa, aquela pessoa que tinha mandado ele levar aquele pauzinho, chegou na primeira casa e cantou para a dona- de- casa assim: (Cantado) - “Ai, da licença dona- de- casa, não pergunte o que aconteceu, dê esmola para esse pau porque a bandeira o boi comeu.” É... aí é a estória, o gado comeu a bandeira e não tinha bandeira mais. O rapaz falou: - Não, leva esse pauzinho mesmo! Levou o pauzinho, chegou lá improvisou desse jeitinho, cantando bem. Cantou direitinho que era para dar esmola para aquele pau por que ele não tinha bandeira. Porque sempre se pede esmola é para a bandeira, não é? Agora, não tinha bandeira, ia dar esmola pra quem? Ai pediu para dar esmola para aquele pau, porque a bandeira o boi tinha comido. Essa ai é a estória de folia de reis, o povo fala que é estória de mentiroso, não é? Mas, dizem que isso aí foi acontecido mesmo! Sebastião Vicente da Silva Fotos: Débora Resende

O TIRA-COURO OU O SETE ORELHAS Um fato que foi acontecido no município de São Bento Abade, num lugar chamado de... Sítio do Tira Côro. E... sete irmão Silva, daí brigô, tava brigano com os irmão Januário Garcia e João Garcia por causa de... duma divisa de terra, de gado, entrava no terreno do outro. E nas discussões dês lá, entre os... os irmãos Silva e o João Garcia, aí, ês pegô o João Garcia e... os sete irmão marrô ele numa árvre, numa figuêra e tirou o côro dele vivo. Aí o Januário Garcia fêis um juramento, um juramento de... de matar os sete irmão Silva e cortá a orêia e fazê um colar de orêia do... dos sete irmão Silva. Aí o quê que ele fez: na época não tinha, num existia delegacia no município aqui de São Bento e Luminária. Aí é só em São João dé Reis que... que tinha delegacia e delegado. Aí foi em São João dé Reis e contô o caso pro delegado que tinha acontecido. Aí o delegado deu uma... uma escrita pr’ele e falô ó, uma órde pr’ele e falô: – Ó: cê pode matá, matá os sete, sete irmão Silva. Aí veio com a órde, com a escrita lá do delegado. E chegô e... e ficô sabeno que ês ía fazê um baile de despedida, que ês ficô sabeno que o Januário ia matá ês, falô em matá ês, ês fez um baile de despedida. E no dia do baile ele... ele foi e ficô escondido, ele conseguiu matá dois, matô dois. Aí sumiu os ôtro cinco. Aí... foi, passô muito tempo, ele foi, entregô a família dele pr’ôtra pessoa cuidá lá e falô que enquanto ele num cumprisse o juramento, ele num vortava em casa. E saiu andano, percurando. E... diz que chegô numa cidade e ficô sabeno que tinha dois que ia... tava casano, tava no artar pá casá. Aí chegô e... num sei expricá direito como que foi, se ele matô no artar, na hora do casamento e... sei que ele matô mais dois, e cortô a orêia daquês dois, aí interô quatro, né? Aí passô... passou... andô mais um pôco. E... aí achô mais um, achô mais um e, matô. Dipois ficô um. Aí passô muito, muito tempo, ele tava bem velho já, mas procurano... procurano... e num achava. Aí muito, muitos ano depois ele viu uma fumacinha de dentro dum mato, no fundo dum mato, entrô um pouco pro mato pra vê quem era naquele mato abaixo. E... chegô num ranchinho. Aí chegô lá era um velhinho que tava morando lá. E, pediu pouso. Aí ele deu pouso, deu janta pro Januário e ele não conheceu o Januário. Aí de noite o Januário perguntava ele, perguntano por que que ele tava morano naquele lugar, quê que tinha acontecido, sozinho naquele mato. Aí ele disse: – Óia, nóis fez isso, fez aquilo ôtro, tirô o côro do... do João Garcia. Aí posô. O Januário posô lá no ranchinho dele, ele deu janta, deu pôso. Quando foi no ôtro dia cedo, ele perguntô o veizinho, perguntô: - Cê sabe quem que eu sô? Aí ele falô assim : -Não. - Eu sou Januário Garcia. Aí ele pediu perdão, ajueiô e pediu perdão. Aí Januário falou: - Ó: o perdão que eu posso te dá, é cê contá cem passo, você com... se antes você contá cem passo se ocê... se eu errá cê tá perdoado. Agora, se eu acertá cê é... é a úrtima orêia que me farta pra... pra inte... pra interar o juramento. Aí ele contô cem passo, ele atirô e matô. Aí ele dispois ele vortano, ele muito cansado chegô numa casa tinha um... pediu pouso, aí tinha um... uma turma de jogador de baraio, jogando baraio, e convidô ele pra jogá baraio e ele não quis. - Sabe? Não, eu tô cansado, vô deitá pá durmí porque eu num... num gosto de baraio. Aí os jogadô de baraio fazeno baruio, não deixava ele durmí. Aí ele, quê que ele fez? Ele levantô lá e JUVENAL JOSÉ DE SOUSA veio, falô assim: - Ah! Resorvi, vô jogá um pouco. Aí quando ele sentô na mesa lá, que deu uma trucada ele jogô... falô seis e jogô o colar de orêia em cima da mesa. Aí aquêis... aquêis turma de jogadô de baraio saiu tudo correno que num ficô um na casa. Aí ele deitô na cama e dormiu o resto da noite. E dipois veio vortando, vortô. Chegô na casa dele a mulher dele tinha arrumado ôtro homi e tava cuidano dela, cuidando da família dele lá. Que ele chegô e falô assim: - Não, agora nóis vai ficar morano junto. Cê... cê cuidou da minha mulher, cuidô da minha família. E ficou morando. Assim o povo antigo conta: que ficô morano o homi que já morava com a mulher dele , que fazia muitos ano, num sabia se ele ia vortá, se tinha morrido. Aí terminô o trecho da estória do Januário Garcia. BIOGRAFIA O senhor Juvenal José de Souza é natural de Luminárias - MG onde vive com sua família e trabalha como extrator de pedra. No vídeo a seguir ele narra dois acontecimentos: um ocorrido com ele e outro com sua mãe. São aparições de misteriosos “clarões”. Narrativas deste tipo são muito comuns na cidade de Luminárias, que recebeu este nome justamente em função da aparição de luzes até hoje inexplicadas. 19

Transcrição Um fato que foi acontecido no município de São Bento Abade, num lugar chamado Sítio do Tira Couro. E os sete irmãos Silva, daí brigaram, estavam brigando com os irmãos Januário Garcia e João Garcia por causa de uma divisa de terra, de gado que entrava no terreno do outro. E nas discussões deles lá, entre os irmãos Silva e o João Garcia, eles pegaram o João Garcia. E os sete irmãos, amarraram ele numa árvore, numa figueira e tiraram o couro dele vivo Aí o Januário Garcia fez um juramento, um juramento de matar os sete irmãos Silva e cortar as orelhas, e fazer um colar de orelhas dos sete irmãos Silva. Aí o quê ele fez? Na época não existia delegacia nos municípios de São Bento e Luminárias. Aí era só em São João del -Rei que existia delegacia e delegado. Aí ele foi em São João del- Rei e contou o caso para o delegado, o que tinha acontecido. Aí o delegado deu uma escrita para ele, e uma ordem para ele e falou: – Ó, você pode matar, matar os sete, os sete irmãos Silva. Aí ele veio com a ordem, com a escrita do delegado. E chegou e ficou sabendo que eles iam fazer um baile de despedida, que eles ficaram sabendo que o Januário ia matá-los, falou em matá-los, eles fizeram um baile de despedida. E no dia do baile ele foi e ficou escondido e conseguiu matar dois, matou dois. Aí, sumiram os outros cinco. Aí... foi, passou muito tempo, ele foi e entregou sua família para outra pessoa cuidar e falou que enquanto ele não cumprisse o juramento, ele não voltava. E saiu andando, procurando. E... dizem que ele chegou numa cidade e ficou sabendo que tinha dois que estavam se casando, estavam no altar para casar. Aí chegou e, não sei explicar direito como foi, se ele os matou no 20 altar na hora do casamento em casa. . Sei que ele matou mais dois, e cortou a orelha daqueles dois, aí inteirou quatro, não é? Aí passou... passou... andou mais um pouco. Aí achou mais um, achou mais um e matou. Depois ficou um. Passou muito, muito tempo, ele estava bem velho já, mas procurando... procurando... e não achava. Aí muitos anos depois ele viu uma fumacinha saindo de dentro de um mato, entrou no mato, entrou um pouco no mato para ver quem era naquele mato abaixo. E chegou a um ranchinho. Chegou lá, era um velhinho que estava morando lá. E ele (Januário) pediu pouso. Aí ele deu pouso, deu janta para o Januário e ele não reconheceu o Januário. A noite o Januário perguntou a ele, ficou perguntando por que ele estava morando naquele lugar, o que tinha acontecido, sozinho naquele mato. Aí ele disse: - Olha, nós fizemos isso, fizemos aquilo, tiramos o couro do João Garcia. Aí pousou, o Januário pousou no ranchinho dele, aí ele (o velhinho) deu janta, deu pouso. No outro dia cedo, ele perguntou para o velhinho: - Você sabe quem eu sou? Ele respondeu: - Não. - Eu sou o Januário Garcia Aí o velhinho pediu perdão, ajoelhou e pediu perdão. Aí Januário falou: - Ó, o perdão que eu posso te dar, é você contar cem passos, se eu errar, você está perdoado. Agora, se eu acertar, sua orelha é a última que me falta para inteirar meu juramento. O velhinho contou os cem passos, então, ele atirou e matou. Na volta, o Januário, muito cansado, chegou numa casa e pediu pouso. Ali havia uma turma de jogadores de baralho que o convidaram para jogar e ele não quis. - Sabe? Não, eu estou cansado, eu vou me deitar para dormir porque eu não gosto de baralho. Aí os jogadores de baralho faziam muito barulho e não deixavam ele dormir. Então o que ele fez? Ele levantou, foi e falou assim: - Ah! Resolvi jogar um pouco. Aí, quando ele sentou na mesa, assim que deram uma trucada, ele falou: - Seis! - e jogou o colar de orelhas em cima da mesa. Aí aquela turma de jogadores de baralho saiu toda correndo, e não ficou um na casa. Aí ele deitou na cama e dormiu o resto da noite. E depois ele veio voltando. Voltou. Chegou a sua casa, sua mulher havia arrumado um outro homem, que estava cuidando dela e de sua família. Ele chegou e falou assim: - Não, agora nós vamos ficar morando juntos. Você cuidou da minha mulher, cuidou da minha família. E ficaram morando juntos. Assim o povo antigo conta: que ficou morando ele, sua mulher e o homem que já morava com ela há muitos anos, porque eles não sabiam se ele ia voltar, ou se ele havia morrido. Aí terminou o trecho da estória do Januário Garcia. Fotos: Débora Resende

CAUSO DE SEXTA FEIRA SANTA NAGIBE FRANCISCO MURAD Fatos verídicos: Na década de trinta, o nosso comércio era feito por carros de bois, cargueiros e tudo atrasado como era em todo o Brasil. O comércio era de pequenos comerciantes, o povo não tinha condições financeira e poder, de poder de compra. A crise era geral. Era e é tradição fechar o comércio na sexta-feira santa, desde essa época, em nosso distrito. Aconteceu o seguinte: havia um comerciante, Evaristo de Sousa, que resolveu fechar a sua venda na quinta-feira santa ao meio-dia. Rua do Cruzeiro, esquina com a Praça Nossa Senhora do Carmo. E abriu na sexta-feira ao meio-dia. Ele tinha filhos pequenos, a gaveta onde colocava o dinheiro era na parte arta da prateleira, para as crianças não tirarem dinheiro. Então ele começou a vender ao meio-dia de sexta-feira santa. O comércio dele era de gênero alimentício, quitanda, doce, etecetera. Depois de argum tempo, ali pelas três hora da tarde, em determinado momento ele foi atender um freguês, e aí, ao ir à gaveta onde colocava o dinheiro, para dar o troco, ele achou uma cobra coral dentro da gaveta. Assustado, ele tirou-a e matou-a, em seguida, fechou a venda. O povo recebeu esse con- tecimento como castigo pela farta de respeito no dia de sexta-feira santa. BIOGRAFIA O senhor Nagibe Francisco Murad, mais conhecido como seu Bíbi, é natural de Lavras mas foi para a cidade de Luminárias muito criança e lá mora desde então. Sempre trabalhou e continua trabalhando como comerciante.No vídeo a seguir, seu Bíbi conta um fato que ocorreu na cidade de Luminárias e que é relembrado como um sinal da importância de se respeitar o dia de sexta-feira santa. 21

Transcr ção 22 NAGIBE FRANCISCO MURAD Fatos verídicos: Na década de trinta, o nosso comércio era feito por carros de bois, cargueiros e tudo atrasado como era em todo o Brasil. O comércio era de pequenos comerciantes, o povo não tinha condições financeiras e poder de compra. A crise era geral. Era, e é tradição fechar o comércio na sexta-feira santa, desde essa época em nosso distrito. Aconteceu o seguinte: -Havia um comerciante, Evar- isto de Sousa, que resolveu fechar a sua venda na quinta-feira santa ao meio-dia. Rua do Cruzeiro, esquina com a Praça Nossa Senhora do Carmo. E abriu na sexta-feira ao meiodia. Ele tinha filhos pequenos, a gaveta onde colocava o dinheiro era na parte alta da prateleira, para as crianças não tirarem dinheiro. Então ele começou a vender ao meio-dia de sexta-feira santa. O comércio dele era de gêneros alimentícios, quitandas, doces e etecetera. Depois de algum tempo, por volta das três horas da tarde, em determinado momento ele foi atender a um freguês, e ao ir à gaveta onde colocava o dinheiro para dar o troco, ele achou uma cobra coral dentro da gaveta. Assustado, ele tirou-a e matou-a, em seguida, fechou a venda. O povo recebeu esse acontecimento como castigo pela falta de respeito no dia de sexta-feira santa. Fotos: Débora Resende

ESTÓRIA DE ASSOMBRAÇÃO Transcr ção RAUL NOGUEIRA DO NASCIMENTO Ês tava viajano. Deu uma chuva muito forte, e por conta da chuva ês chegô numa fazenda antiga pá abrigá, né? E nessa fazenda tinha quatro pedreiro trabaiando, né? Aí ês, tudo amigo, ficô por ali bateno papo. Um, compradô de galinha, pá revendê, o ôtro, negociante de gado, né? É... viajando. Aí num pudero í pra casa, com a chuva muito forte, o corgo encheu, aí ficô lá e jantaro com, com os pedreiro, contaro caso até uma certa hora. Na hora dês... í deitá, cuô um café. Aí, na hora que cuô o café, um desses visitante num cumbinava com o moradô que morreu na fazenda. Aí ele foi tomá o café, chamô o que morreu, que chamava Tonho dos Reis: - Vamo chamá o Tonho Reis pá tomá café. Então falô assim. Entrô, fez tudo quanto é baruio que pôde existir na fazenda. E pagava a luz, jogano pedra, balaio de galinha jogava pra cima, caía no chão, mas não acertava ninguém. No muvimento da fazenda roncava pombim, latia cachorro, miava gato, brigava com a esposa dele, chegava carro cantando, cavalo rinchando, vaca berrando, munho rodando, na distância de longe. Aí ele mandô pro mei do inferno, quando ele viu que o trem tava... mandô pro mei do inferno, e ficou muito... E dipois já tava os cumpanheiro desmaiado, o medo foi apertano, ele mandô pro mei do inferno, quando aquele trem sumiu um instante. Quando vortô, vortô muito pior, mais nervoso. Aí ele se viu apertado mêmo, o medo foi aumentando tamém, suzinho, aí apelou pras... gritou pras trêis missa de Natal. E foi a salvação dele! Eles estavam viajando. Deu uma chuva muito forte, e por conta da chuva eles chegaram numa fazenda antiga para se abrigarem. E nessa fazenda tinha quatro pedreiros trabalhando. Aí eles, todos amigos, ficaram por ali batendo papo. Um, comprador de galinha, para revender, o outro, negociante de gado, viajando. Aí não puderam ir para casa, por causa da chuva muito forte, o córrego encheu, aí ficaram lá e jantaram com os pedreiros, contaram causo até uma certa hora. Na hora deles irem deitar, coaram um café. Na hora que coaram o café, um desses visitantes não combinava com o morador que morreu na fazenda. Aí ele foi tomar o café, chamou o que morreu, que se chamava Tonho dos Reis. - Vamos chamar o Tonho Reis para tomar café. Então falou assim. Então, fez tudo o quanto é barulho que pôde existir na fazenda. E apagava a luz, jogando pedra, balaio de galinha jogava pra cima, caía no chão, mas não acertava ninguém. No movi- mento da fazenda roncava pombinho, latia cachorro, miava gato, brigava com a esposa dele, chegava carro (de boi) cantando, cavalo rinchando, vaca berrando, moinho rodando, na distância de longe. Aí ele mandou para o meio do inferno, quando ele viu que o trem estava... mandou pro meio do inferno, e ficou muito... E depois que já estavam os companheiros desmaiados, o medo foi apertando, ele mandou pro meio do inferno, quando aquele trem sumiu um instante. Quando voltou, voltou muito pior, mais nervoso. Aí ele se viu apertado mesmo, o medo foi aumentando também, sozinho, aí apelou para as... gritou para as três missa de Natal. E foi a salvação dele! BIOGRAFIA O senhor Raul Nogueira do Nascimento, conhecido serralheiro da cidade de Itumirim, nasceu no ano de 1932 em Andrelândia - MG, mas foi para a cidade de Itumirim - MG ainda jovem. No vídeo a seguir ele nos conta algumas passagens misteriosas que ocorreram na vida de seu irmão, um homem que, segundo o senhor Raul, não tinha medo de nada. 23

MULHER QUE VIRA MULA SEM CABEÇA LUIZ DE ÁVILA E SILVA 24 Eram casados há pouco tempo e a moça que casou virava a tal mula-semcabeça. E então o marido dela, brigando, brigando com ela por causa dessa história dela virar a tal mula-sem-cabeça. Aí ela saiu de tarde, quando o marido estava quietinho. Ela saiu, foi numa moita de bananeira e “plantou uma bananeira”, lá largou a cabeça, lá na moita de bananeira e saiu sozinha sem cabeça. O marido dela foi lá, pegou a cabeça da mulher dele e trouxe para dentro. Quando a mula-sem-cabeça chegou lá para procurar, nada... não achou! Chegou lá pelo cheiro, batia com as mãos nas portas e nas janelas. Caçando dentro de casa, pelo cheiro ela percebeu que (a cabeça) estava dentro de casa. Aí o marido dela levantou, abriu a porta, ela entrou e pegou a cabeça que o marido tinha guardado. Mas ela foi... levou... É, ela levou a cabeça lá na moita de bananeira e voltou a “vestir” a cabeça. Veio o pai dela e o marido dela, falou assim: - De agora em diante você pode marcar o rumo, que eu não quero te ver mais nunca! Porque a mulher virou o bicho de verdade, né? Transcrição Casado de pouco. E a moça que casô, era, virava a tar de mula-sem-cabeça. E então, o marido dela, brigano, brigano com ela com essa história dela virá a tale de mula-sem-cabeça. Aí ela saiu de tarde, quando o marido tava quetinho. Ela saiu, foi lá numa moita de bananeira, é, plantou uma bananeira lá, largou a cabeça lá na moita de bananeira e saiu sozinha sem cabeça. O marido dela foi lá, pegô essa cabeça da mulher dele e trouxe prá dentro. Quando a mula-sem-cabeça chegô lá prá procurar, nada... num acho! Chegô lá pelo cheiro, batia com as mão nas porta, nas janela, A seguir temos duas variações de um mesmo conto. Ele foi narrado pelo senhor Luíz de Ávila e Silva e por sua filha, Maria José Ribeiro, ambos naturais de São João del Rei, ele nascido em 1912 e ela em 1940. É interessante notar as diferenças entre as duas narrações, o que comprova que os contos populares, por serem transmitidos oralmente e guardados apenas na memória, sofrem inúmeras variações a cada vez que são recontados. Este é um conto que pertence ao grupo que Luís da Câmara Cascudo classifica como contos catequísticos, pois tem a finalidade de transmitir um valor religioso, no caso, o hábito de pedir a bênção aos pais. né? Caçando dentro de casa, pelo cheiro ela percebeu que tava dentro de casa. Aí o marido dela levantô, abriu a porta, ela entrô, pegô a cabeça que o marido tinha guardado. Mais ela... ela foi... levô... É, ela levô a cabeça lá na moita de bananeira e torno vestí a cabeça. Veio o pai dela, o marido dela falô assim: - De agora em diente cê pode marcá o rumo, que eu num quero te vê mais nunca! Porque a mulher virou o bicho de verdade, né?

AS PASTORINHAS MARIA APARECIDA SALES RIBEIRO Bom, esse... é uma estória, né? Uma estória não, um caso verídico de todas as cidades, né? Que... Vem de muitos anos atrás, a estória das pastorinhas, como existe, é... Embaixada de Reis e outras coisa que se faz pra angariá dinheiro, donativos pra reforma de igreja, construção de igreja, católica, né? Então, aqui em Itumirim, eu consegui montá um grupo de pastorinha, na época eu tinha a minha filha que era adolescente e meus filho eram pequenos. Então eu não trabalhava fora porque eu tinha que cuidá dos meus filho e da minha casa. Aí nós montamos as pastorinha. Que era muito divertido e muito bom, era feito com muita alegria, com muita... sabe? Só que era bem ensaiadinho, coisa bem feitinha, com muita fé. Tinha as menininha que tocava violão... Então aí eu resolvi montá e montei: são oito pastorinha, uma Nossa Senhora, um violeiro e uma senhora mais, assim, de mais responsabilidade pra cuidá das meninas. Onde a gente ia de casa em casa, cada uma com um bastão. Era lindo, lindo... Eu tenho vontade de fazê isso de novo, um dia eu vô fazê, eu vô montá de novo. Onde a gente ia de porta em porta. Cantava pedindo a esmola, expricando que era pra barraquinha ou pra igreja. E a gente pedia es- mola, esperava recebê, né? O donativo, que era falado esmola mesmo, que era esmola pra igreja. Depois disso a gente cantava agradecendo. Era muito divertido. A gente chegava em muitas casa, aquelas pessoa assim de bem idade, recebia a gente com o maior carinho. A gente carregava um Menino Jesus, a Nossa... a menina vestida de Nossa Senhora carregava a imagem do Menino Jesus. E nós íamos pra zona rural, pras fazenda. Divertia muito porque vaca corria atrás da gente... cachorro... a gente se perdia nas trilha... Era muito divertido. Só que era feito com muita fé, as vêis a gente rezava terço no caminho, chegava em algumas casa da zona rural, eles davam um lanche pras menina. E com isso era muito lindo, muito lindo... É uma coisa que não pode deixá acaba. É... eu acho que inda existe em algum lugar em Minas que eles ainda sai com as pastorinha. Eu saí deve tê mais ou menos uns quatorze anos que eu sai com um grupo de pastorinha. Fomos ao Macuco, Rosário, percorremo Itumirim inteirinha, a zona rural. Onde angariamo bastante, mas muito mesmo! Depois, no final do dia era contado aquele, aqueles donativos, anotado numa caderneta. Na zona rural a gente ganhava porco, galinha... Só que a gente, não tinha condição de carregá, ia carro, né? Da prefeitura, da igreja ou algum amigo ia buscar pra gente pra conseguí dinheiro pra construção das igreja, ou reforma. Aí nós montamos as pastorinhas. Que era muito divertido e muito bom, era feito com muita alegria, sabe? Só que era bem ensaiadinho, coisa bem feitinha, com muita fé. Havia as menininhas que tocavam violão... Então eu resolvi montar e montei: são oito pastorinhas, uma Nossa Senhora, um violeiro e uma senhora de mais responsabilidade para cuidar das meninas. Onde a gente ia de casa em casa, cada uma com um bastão. Era lindo, lindo... Eu tenho vontade de fazer isso de novo, um dia eu vou fazer, eu vou montar de novo. Onde a gent

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