Cartilha Culinária

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Published on February 28, 2014

Author: fortimmjguedes

Source: slideshare.net

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Cartilhas criadas pelo Laboratório de Estética Ártemis com a ajuda de vários alunos e professores da UFSJ

UFSJ – UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO JOÃO DEL REI REITOR Valéria Heloísa Kemp VICE-REITORA Sérgio Augusto Araújo da Gama Cerqueira PRÓ-REITOR DE EXTENSÃO E ASSUNTOS COMUNITÁRIOS Prof. Paulo Henrique Caetano CHEFE DE DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA E MÉTODOS Prof. Dr. Antônio Rogério Picoli COORDENADOR DO CURSO DE FILOSOFIA Prof. Dr. Fábio Barros Silva COORDENAÇÃO GERAL DO PROJETO Prof. Drª. Glória Maria Ferreira Ribeiro (DFIME) EQUIPE DE EXECUÇÃO Daniela da Conceição Diniz Débora Cristina Resende Etienny Natya Fonseca F. Trindade Isabela Alline Oliveira Isaac José da Silva Lucas Bertolino dos Santos Nilson Anderson Lemos EQUIPE DE APOIO Fernanda Senna Monique Kelly da Cunha AGRADECIMENTOS Balbino de Souza Rezende Beatriz de Castro Teixeira Geralda Campos da Silva José Omar Junqueira José Raimundo da Silva Juvenal José de Sousa Lazarino Francisco de Sousa Luiz de Ávila e Silva Maria Aparecida Sales Ribeiro Maria José Ribeiro Nagibe Francisco Murad Otaviano Saulo de Castro Teixeira Raul Nogueira do Nascimento Rosângela Aparecida da Silva Teixeira Sebastião Vicente da Silva.

O ato de comer é extremamente cultural. Se é cultural, é construído pelas pessoas e é diferente em cada grupo humano. Ao abordar as diferenças alimentares entre as sociedades humanas, o professor deverá levar o aluno a perceber o quanto é importante respeitar o modo das outras pessoas habitarem o mundo e agirem nas situações mais cotidianas, como é o ato de se alimentar. “Toda a existência humana decorre do binômio Estômago e Sexo. A Fome e o Amor governam o mundo”, essa é uma máxima do filósofo Friedrich Schiller citada por Luís da Câmara Cascudo em seu livro História da Alimentação no Brasil. Porém, acrescenta Cascudo, o estômago é muito mais imperioso que o sexo. A fome é inadiável, é dominadora. No entanto, o homem não se alimenta daquilo que tem em maior abundância, nem daquilo que sabe ser mais nutritivo, ele come o que está acostumado a comer. O homem se alimenta daquilo de que seus pais se alimentavam e daquilo que a sua religião permite. No Brasil comemos bois, porcos e galinhas e achamos no mínimo estranho que se comam cães, gatos, cavalos, gafanhotos e ratos. “Carne de gato, pastel de ratazana, gafanhoto torrado, larva cozida estão fora dos nossos padrões. São, entretanto, iguarias normais e provadamente limpas e saborosas quando ingeridas sem identificação.” (CASCUDO, 2004). Para os hinduístas e budistas comer a carne dos bovinos é totalmente inaceitável. O mesmo ocorre com a carne de porco, que é proibida entre muçulmanos e judeus. Ao contrário do que muitas vezes temos tendência a pensar, as pessoas que comem, por exemplo, gafanhotos, não o fazem por escassez de alimento, elas comem gafanhotos porque apreciam o sa- Debora Resende bor. Na Angola se come cachorro, não por falta de outra carne. O caso dos esquimós é um exemplo disso: “O esquimó, sustentado pela foca e ruminantes, vai buscar no estômago do caribu (rena) a papa gelatinosa de raízes, vagens e gramíneas, absorvida como regalo precioso” (CASCUDO, 2004). E vale ressaltar que os Inuits são chamados pejorativamente de esquimós, pois esse termo significa “comedor de carne crua”! Os costumes alimentares, dizia Câmara Cascudo, estão muito mais vinculados a fatores espirituais que fisiológicos. Os tabus alimentares decorrentes da religião se tornam costumes e os costumes se tornam verdadeiras leis, praticamente irrevogáveis que moldam a alimentação de cada grupo humano. Com as interações culturais entre esses grupos os costumes como um todo, inclusive os costumes alimentares, vão, muito lentamente, se modificando. É justamente o mesmo que ocorre com o patrimônio imaterial O patrimônio imaterial é definido pela Unesco como sendo “as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas - junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados - que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural”. O IPHAN acrescenta que esse tipo de patrimônio “é transmitido de geração em geração e constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente, de sua interação com a natureza e de sua história, gerando um sentimento de identidade e continuidade, contribuindo assim para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana”. A culinária, portanto, figura entre os elementos que compõem o patrimônio imaterial, uma vez que abarca práticas, conhecimentos e técnicas transmitidas de geração em geração. A característica fundamental do patrimônio imaterial é a mutabilidade, por ser preservado na memória e transmitido oralmente, ele vai aos poucos sofrendo pequenas modificações. Por isso, o patrimônio imaterial não pode ser tombado como o patrimônio material, pois o tombamento “congela” a coisa como ela é. A preservação do patrimônio imaterial só tem sentido como cotidiano, como vivência. O professor pode contribuir na preservação do patrimônio imaterial, inclusive da culinária, inserindo esses elementos nas atividades comuns no dia-a-dia da escola e mostrando ao aluno que o simples almoço que sua mãe faz, diz muito da história de seu povo e de sua família.

SUMÁRIO 6 EDITORIAL 8 APRESENTAÇÃO 14 MINAS GERAIS: MODOS PROPRIOS DE VIVER E COMER 19 RECEITAS TRADICIONAIS 28 MODO DE FAZER UM FOGÃO DE LENHA 29 INTERDISCIPLINARIDADE 35 JOGOS E BRINCADEIRAS 38 REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

EDITORIAL EXISTÊNCIA, MEMÓRIA E PATRIMÔNIO A memória deve ser antes a dimensão de celebração de comemoração da própria existência. Isto porque para podermos preservar o patrimônio cultural de um povo é preciso, antes de mais nada preservar a própria existência humana, a própria dinâmica de manifestação da vida. “O Senhor ... mire veja: o mais importante e bonito , do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam” ( Rosa, Guimarães. Grande Sertão: Veredas”). Existência que está sempre se fazendo, se retomando desde o jogo do tempo que a constitui. Tempo que escreve a história na qual os destinos se cruzam, se entrecruzam e se realizam. A cada época dessa história a existência se retoma, se reapropria de si mesma, de seu ser, de um modo novo e sempre velho. Velho porque são sempre as mesmas possibilidades de ser e novo porque a existência sempre descobre um outro modo de se apropriar de si mesma, de interpretar-se. Deste modo, cada uma época da história se mostra como um modo possível de elaborar a questão sobre a existência do homem. Existência compreendida desde a relação íntima e indissociável do homem com o seu mundo – mundo que se revela no comércio cotidiano com as coisas e com os outros. A cidade se mostra como a trama concreta na qual esse comércio com o mundo se deixa ver, tornando-o tangível. Trama que sempre de novo se renova, se utilizando sempre dos mesmos fios. Sendo assim,todo trabalho que vise a preservação do patrimonio cultural de um povo deve, antes de mais nada, viabilizar condições para que essa existência se mantenha. Por isso, em nossas reflexões sobre a Educação Patrimonial, estamos tendo sempre como elemento norteador o próprio cultivo da existência humana, ao propormos ações que celebrem (lembrem em conjunto, que co-memorem) a nossa condição que é a de estarmos sempre “afinando e desafinando”. As nossas cartilhas são uma tentativa de celebração desse nosso modo de ser cotidiano – do qual faz parte o ato de comer, de celebrar o divino, de contar estórias. É celebrar isso é deixar que as pessoas brilhem porque “gente é feita para brilhar” – seja o mediante o suor no corpo do trabalhador, seja no brilho nos olhos da criança ao perceber o caráter extraordinário do mundo, que faz com que ele possa sempre ser reinventado (reinventado pelas brincadeiras de fundo de quintal, pelo trabalho dos homens, pelo esforço e empenho dos meus iestimáveis bolsistas de extensão. Gente é para brilhar! Glória Ribeiro “O Senhor ... mire veja: o mais importante e bonito , do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam” (Rosa,Guimarães. Grande Sertão: Veredas”) 6

“Quando eu estiver velho, gostaria de ter no corredor da minha casa Um mapa de Berlim com legenda Pontos azuis designariam as ruas onde morei Pontos amarelos, os lugares onde moravam minhas Namoradas Triângulos marrons, os túmulos nos cemitérios de Berlim onde jazem os que foram próximos a mim E linhas pretas redesenhariam os caminhos no Zoológico ou no Tiergarten que percorri conversando com as garotas E flechas de todas as cores apontariam os lugares nos arredores onde repensava as semanas berlinenses E muitos quadrados vermelhos marcariam os aposentos Do amor da mais baixa espécie ou do amor mais abrigado do vento”. Walter Benjamin, “Fragmento”, 1932 “Quando eu morrer quero ficar, Não contem aos meus inimigos, Sepultado em minha cidade, Saudade. Meus pés enterrem na rua Aurora, No Paiçandu deixem meu sexo Na Lopes Chaves a cabeça Esqueçam O nariz guardem nos rosais, A língua no alto do Ipiranga Para cantar a Liberdade. Saudade... Os olhos lá no Jaraguá Assistirão ao que há de vir, O joelho na Universidade, Saudade As mãos atirem por aí, Que desvivam como viveram, As tripas atirem pro Diabo, Que o espírito será de Deus Adeus”. (Mario de Andrade, ao escrever sua Lira Paulistana (1944) 7

APRESENTAÇÃO Em diferentes contextos sociais e em distintas épocas históricas o termo cultura foi, e vem sendo utilizado de diferentes formas, para falar dos hábitos de vida do homem, entretanto seu uso indistintamente carrega uma concepção ideológica de seu significado. Dentre essas concepções de cultura podemos perceber que muitas pessoas associam a cultura a algo que se adquire ou que se pode obter. O perigo desse tipo de compreensão e de que a cultura acabe assumindo um caráter de mercadoria na sociedade. Quando se pensa a cultura desde essa concepção, ela deixa de ser associada aos hábitos de vida do homem que lhe são naturais, e passa a ser associada à algo que o homem pode adquirir como um simples conjunto de bens. Adquirir cultura significa o mesmo que poder possuir um carro, uma casa, ou ter uma rica biblioteca. Logo aque- 8 les que não podem ter capital financeiro o suficiente para enriquecer seu legado cultural são tidos como ignorantes, pessoas sem cultura, que estão separadas das outras na sociedade por essa condição. Daí surge os desníveis de cultura, que são fruto da divisão cultural entre as pessoas. Sobre isso Alfredo Bosi em seu livro Cultura Brasileira: tradição/ contradição nos diz: “Quer dizer que as pessoas que tem cultura devem exibir certos tipos de comportamento, e devem ser poupadas de certas ações. Logo aprece a divisão, os que tem cultura de um lado, e os que não tem cultura de outro. A cultura dá a aureola da diferença’’. (BOSI, Alfredo, 1987, pg. 35). Considerar a cultura como um conjunto de coisas que se pode possuir é a principal característica da chamada cultura reificada, pois a cultura deixa de ser entendida como um processo que segue a linha sutil da existência humana, para ter seu significado concebido fora dessas vivências humanas. Logo o que antes se remetia as relações sociais entre os homens passa a ser associado a uma relação entre homens e coisas. Assim sendo, o que era uma ideia fruto da relação entre homem e a sociedade, passa a ser apenas uma relação entre homens e objetos. E a cultura que era a pura e simples expressão da minha condição humana, passa a ser vista como um objeto fora de mim. “Na sociedade de massa as pessoas sempre estão diante de objetos da tecnologia mesmo que não sejam a obras de arte. O fato delas não participarem da construção do objeto, porque são obra de uma indústria especializada, apesar delas comprarem vender e, estabelecer relação de uso, elas não compreendem seu mecanismo interno, alienação. Eu possuo um objeto mais não compreendo como ele funciona”. (BOSI, Alfredo, 1987, pg. 37). Podemos ver expressa em várias esferas da sociedade essa concepção, pois a cultura está sempre ligada ao que tem que ser visto, apreciado, preservado e mantido tal como é sem que se leve em consider- ação a relação direta com o cotidiano, porque nesse tipo de compreensão do que seja a cultura, as coisas e ações do cotidiano não são consideradas bens culturais.Cultura como ação e trabalho. Repensar o ideário de cultura difundido em nossa sociedade é essencial para que possamos falar de uma sociedade democrática, e assumir dessa forma uma prática coerente. Para isso nossos esforços devem direcionar-se em desconstruir, em nosso espírito e na sociedade, a ideia de cultura como objeto. É necessário repensarmos essa terminação de cultura como mercadoria, pois ela é segregadora, e faz com que existam níveis de cultura e distinção entre aqueles que possuem cultura e os outros que dela são destituídos. Por isso, ao repensarmos a noção de cultura desde a própria condição da existência humana, estaremos indiretamente contribuindo para repensar a distinção de classes.

Isto porque desde essa concepção de cultura como mercadoria, teríamos que somente aqueles que possuem bens culturais, seriam cultos;enquanto que aqueles que não possuem condições financeiras para possuí-los, não têm cultura. Para que torne possível redimensionar a noção de cultura é necessário considerar todos os momentos do processo produtivo e não somente ao produto (o bem) cultural que é seu resultado. A concepção que nos guia em nossas atividades extensionistas, é aquela que desloca a ideia de cultura como mercadoria, para uma concepção de cultura que diga respeito diretamente à relação que o homem estabelece com o meio onde vive – meio no qual ele estabelece as relações sociais que propriamente o constitui. Portanto a obra (enquanto o produto cultural elaborado nas relações sociais entre homens) é aquela que exprime exatamente o próprio trabalho enquanto processo e resultado. Um projeto de cultura explicito através das dimensões da memória e identidade O termo cultura diz respeito de ao conjunto de saberes, crenças, leis, costumes e todos os outros hábitos e modos de vida de um povo. De origem latina, a palavra cultura deriva do verbo colo, significando, “eu cultivo”, referenciando particularmente, o cultivo do solo e da terra, sendo, portanto, o cuidado que se mantinha com aquilo que se pretendia cultivar. Quando se pensa em cultura, pensa-se em um processo que vem sendo trabalhado há muitos anos, há séculos, que se recebe e se transmite de geração a geração. Do mesmo modo a palavra cultus, diz respeito ao verbo colo, que traz em si a determinação de cultura que nos interessa, pois nos remete a importância da memória no processo de constituição da identidade do individuo. A cultura é compreendida como o conjunto de técnicas, práticas e valores que se devem transmitir às novas gerações. No uso cotidiano, falamos em memória nos referindo ao arquivamento de fatos passados, a “faculdade de reter as ideias, impressões e conhecimentos adquiridos anteriormente”. Dessa forma, lembrar é um fenômeno individual. Porém, podemos compreender a memória fora de seu conceito usual, como um fenômeno coletivo; a memória como o fruto da construção coletiva e submetida a transformações e mudanças constantes. Se a cultura é algo que se busca transmitir às novas gerações, e necessário que tenhamos um projeto, um caminho a oferecer as “novas gerações”, e isso acontece, na junção do que foi com o que é, e o que se pretende ser, da mesma forma, o ponto de encontro entre passado, presente e futuro. Por isso, Bosi nos fala sobre o verbo cultus, não sendo somente a lembrança do labor presente, mais do conjunto de coisas que possibilitaram que esse labor, se tornasse presente, e de um projeto implícito na sua realização. A respeito disso o historiador Alfredo Bosi em seu livro Dialética da Colonização nos diz: Quando os camponeses do Lácio chamavam culta às suas plantações, queriam dizer algo de cumulativo: o ato em si de cultivar e o efeito de incontáveis tarefas, o que torna o particípio cultus, esse nome que é verbo, uma forma sig- nificante mais densa e vivida que a simples nomeação do labor presente. O ager cultus, a lavra, o nosso roçado (também um deverbal), junta a denotação de trabalho sistemático a, qualidade obtida, e funde-se com esta no sentimento de quem fala. Cultus é sinal de que a sociedade que produziu o seu alimento já tem memória. (BOSI, 1992, p.13). Nesse processo a identidade ganha seu lugar; pois, da mesma forma que nos identificamos com um lugar marcado por uma experiência individual, também acontece com as experiências coletivas que ganham um aspecto marcante para um determinado grupo, fazendo com que indivíduos se identifiquem e tenham coesão a partir de experiências e vivências comuns. No dicionário Aurélio, identidade é definida como: 1. Qualidade de idêntico; 2. Conjunto de caracteres próprios e exclusivos de uma pessoa: nome, idade, estado, profissão, sexo, defeitos físicos, impressões digitais, etc.; 3. O aspecto coletivo de um conjunto de característicos pelas quais algo é definitivamente reconhecível, ou conhecido. (FERREIRA, 2004, p.1066). Identidade é aquilo que faz com que uma coisa seja exatamente aquilo que ela é, e não seja outra coisa. Desta forma, a identidade só pode ser concebida em comparação com o diferente: “eu sei o que sou à medida que percebo que sou diferente, desse ou daquele outro”. 9

Assim também é possível a construção da identidade de grupo. Isto acontece quando percebo que divido com outras pessoas a mesma origem ou os mesmos costumes. É esse sentimento de compartilhamento que faz com que eu me sinta integrante daquele grupo. Essa noção de identificação nos remete novamente para a ideia de cultura como “cultivo de”, pois eu cuido e busco manter e preservar aquilo do qual eu faço parte, onde consigo me perceber numa relação de semelhança, no qual eu me reconheço. Desenvolvimento A Educação Patrimonial Com o processo de modernização das cidades, percebese a constante desvalorização e desconhecimento em relação ao patrimônio cultural. Portanto, desde que em 1930 foi criado o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), uma nova percepção em relação a patrimônio, ampliou os instrumentos e meios de atuação, e estão diretamente aliados á criação das instancias estaduais 10 e municipais de preservação. O campo de educação patrimonial no Brasil tem uma produção acadêmica ainda incipiente, são muitas as publicações utilizadas em ações de educação patrimonial - e, em sua maioria, essas publicações, não levam em consideração o aspecto central da existência humana – que é o fato de ela estar num processo contínuo de realização que só acaba com a morte. Dentre os trabalhos acadêmicos que discutem o tema, a maioria trata de atividades pontuais e estão ligadas a uma análise circunscrita de casos. Embora a educação patrimonial seja consensualmente considerada como peça chave para uma política pública efetiva de preservação do patrimônio cultural, ainda é um tema pouco estudado, principalmente se tratando de práticas institucionais. Dentro da temática, a educação patrimonial pode ser basicamente entendida como um processo durável que busca levar os indivíduos a um processo acionado de conhecimento, apropriação e valorização do patrimônio cultural, com o intuito de que sejam agentes da preservação. Neste aspecto, devemos pensar o patrimônio de forma ampliada. As escolas ao longo dos tempos estão tendo sua estrutura depredada, e desvalorizada dia após dia, pelos seus próprios beneficiários, com isso acreditamos que para a efetivação da Educação Patrimonial no contexto escolar devemos partir da realidade dos alunos, possibilitando sua participação nas soluções dos problemas. “Chamamos de Educação Patrimonial o processo permanente e sistemático de trabalho educativo, que tem como ponto de partida e centro o Patrimônio Cultural com todas as suas manifestações.” (GRUNBERG, 2007, p. 02). Consideramos a partir do conceito de educação patrimonial, que esse tipo de ação utiliza os bens culturais como fonte primária do conhecimento. Gerando um diálogo permanente entre os indivíduos e os bens culturais. Portanto, o maior desafio é fazer com que o individuo crie o hábito de valorizar e preservar o patrimônio cultural, pondo em prática a própria noção de cidadania. Fazendo com que as pessoas possam desenvolver um conhecimento crítico e uma apropriação consciente de seu patrimônio. Um fator indispensável no processo de preservação sustentável desses bens culturais é o fortalecimento do sentimento de identidade e lugar no espaço estudado. Uma das maiores dificuldades encontradas em se estabelecer um ensino eficiente em relação a patrimônio é o complexo relacionamento entre a comunidade e os órgãos de preservação. O IPHAN na maioria dos casos é tachado como um inimigo da sociedade, um dos principais motivos deste impasse é o desconhecimento das pessoas sobre suas metodologias e ações utilizadas por esse órgão do governo federal. Acredita-se que com a realização de boas práticas educativas voltadas para a comunidade, esse quadro pode ser revertido. Apesar da importância do tema retratado, na história nunca houve uma visão e atuação por parte do IPHAN e outros órgãos de preservação patrimonial que colocasse como política publica exclusiva visando a educação patrimonial, ou mesmo como um processo de importância equivalente ás demais atividades essenciais por eles desempenhadas (tombamento, fiscalização, identificação, etc.).

Assim, a educação patrimonial vem sendo tratada apenas como atividade complementar no currículo escolar, que se reflete diretamente no Iphan, e isso ocorre devido a sua pouca estruturação e institucionalização no setor responsável pela educação patrimonial. Além disso, a comunidade dá ao patrimônio cultural pouca importância por não possuir um entendimento aprofundado em relação aos bens culturais. Segundo o IPHAN: “O Patrimônio material (...) é composto por um conjunto de bens culturais classificados segundo sua natureza nos quatro Livros do Tombo: arqueológico, paisagístico e etnográfico; histórico; belas artes; e das artes aplicadas. Eles estão divididos em bens imóveis como os núcleos urbanos, sítios arqueológicos e paisagísticos e bens individuais; e móveis como coleções arqueológicas, acervos museológicos, documentais, bibliográficos, arquivísticos, videográficos, fotográficos e cinematográficos’’. (Disponível em: http:// www3.iphan.gov.br/ bibliotecavirtual/ ?page_ id=283) Enquanto que o Patrimônio Imaterial: “O Patrimônio Imaterial é transmitido de geração em geração e constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente, de sua interação com a natureza e de sua história, gerando um sentimento de identidade e continuidade, contribuindo assim para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana’’. (Disponível em: http://www3.iphan.gov.br/ bibliotecavirtual/?page_id=283, acesso em 11 de abril de 2011) . Por sua vez, a UNESCO define como Patrimônio Cultural Imaterial: “(...) as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas - junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados - que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural”. (Disponível em http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/culture/ world-heritage/cultural-heritage/, acesso em 13 de abril de 2011). A proposta metodológica de educação patrimonial foi introduzida no Brasil em 1983, balizada por um trabalho educacional já desenvolvido na Inglaterra, ao ser desenvolvido foi adaptada aos contextos patrimoniais locais. Em alguns estados este trabalho está bem embasado e se solidifica, no Rio Grande do Sul, por exemplo, o tema esta sendo trabalho por Maria Beatriz Machado (2004), José Itaqui entre outros. Em suas pesquisas, eles enfatizam a importância de orientar os professores do ensino fundamental e médio de como trabalhar e aplicar esta metodologia no ambiente escolar. Apesar de estar sendo muito bem sucedida a atividade reali- zada no Rio Grande do Sul, esse é um processo que está ocorrendo de forma isolada repercutindo apenas nas regiões onde se desenvolvem. A proposta consiste na formação de grupos de pesquisas para desenvolver uma forma contínua de projetos e ações, que possam ser aplicadas igualmente em todo o território brasileiro. Existem diversas formas de se trabalhar com o patrimônio cultural dentro de sala de aula, articulando todas as disciplinas do currículo escolar, matemática, história, geografia e ciências podendo ser elaborados exercícios e textos relacionados à educação patrimonial. O importante neste caso é estabelecer a interdisciplinaridade, com isso os alunos podem desenvolver por si só ou juntamente com seus professores, ações dentro da escola que incentivam a multiplicação deste conhecimento. Um ótimo exemplo do que pode ser gerado é a construção de um memorial, um pequeno museu, ou ainda uma roda de “contação” de histórias, fazer oficinas e várias outras atividades, a partir destes métodos os alunos desenvolvem uma visão critica. Ações realizadas conjuntamente por todos os professores dentro das escolas podem gerar atividades muito interessantes - como investigar em forma de pesquisa monumentos da cidade em que mora isso ajuda a enfatizar o patrimônio coletivo e a memória coletiva, além disso, investigar a própria casa como patrimônio cultural através de desenhos. Essa programação diferenciada promove uma identidade em relação ao patrimônio coletivo e gera um respeito em relação ao patrimônio cultural. A transversalidade mantém uma relação com a interdisciplinaridade, bastante difundida pela Pedagogia. São maneiras de se trabalhar o conhecimento buscando uma reintegração de aspectos que ficaram isolados uns dos outros pelo tratamento das disciplinas (MORAES, s. d., p. 7-8). A Educação patrimonial no ensino de história é outra forma que viabiliza formação de pessoas capazes de conhecer a sua própria historia cultural. Levando a educação para este contexto nos faz perceber que os indivíduos podem se diferenciar um dos outros, e com isso podem visualizar a própria vida, a própria cultura, a própria história e, construir a sua memória afetiva, além disso, sua identidade cultural. 11

O patrimônio cultural vem sofrendo grandes prejuízos com a modernização - um exemplo disso ocorre aqui em São João del Rei, onde durante os anos de 1999 e 2001,muitos casarões históricos foram derrubados para dar lugar a supermercados, a casas de venda de materiais de construção. Outro exemplo aconteceu em Araxá-MG, onde uma praça com mais de cinqüenta anos totalmente arborizada, foi substituída por um calçadão sem nenhuma arborização e sequer bancos para as pessoas sentarem. Outra questão muito importante a ser trabalhada é a questão da identidade local nas escolas de ensino fundamental. Os alunos aprendem muitas coisas relacionadas ao mundo, e ao Brasil; mas, na maioria das vezes, o ensino é muito generalizado, fazendo com a história do município ao qual esses alunos pertencem, fique esquecida o que causa no individuo um afastamento em relação as suas origens perdendo de vista o processo formador de sua identidade social. Muitos estudiosos acham que é mais fácil trabalhar o patrimônio cul- 12 tural no âmbito disciplinar das ciências humanas, por ela estar muito próxima do tema. Em outras áreas do currículo, o professor tem certa dificuldade, porque o tema não está presente em suas analises e reflexões cotidianas. Contudo, isso é uma limitação e não pode ser levada ao pé da letra, com a criatividade dos pesquisadores e professores podem ser desenvolvidas atividades dentro da área de exatas, ciências biológicas, das ciências da terra, etc.. Metodologia Através das atividades extensionistas desenvolvidas em nosso projeto (nas Oficinas de Educação Patrimonial realizadas na Escola Municipal Maria Tereza bem como nas oficinas realizadas no espaço do Fortim dos Emboabas localizado no Alto das Mercês) foi possível perceber que as pessoas que participaram dessas atividades não se reconhecem como agentes culturais dentro da sociedade da qual fazem parte. Isto porque elas reconhecem como patrimônio cultural, apenas aquilo que é registrado e reconhecido pela chamada cultura erudita. A distinção entre cultura popular e cultura erudita recorrente em nossa sociedade, produz efeitos catastróficos na construção da identidade dessas pessoas. Mesmo expressões fortes como o congado ou os ofícios e saberes passados de geração em geração, se tornam eixos de resistência de suas raízes na sociedade, não são reconhecidos como tal. Por isso se justifica nosso trabalho de responder a demanda da lei municipal n° 3.826/2004 que torna obrigatório o ensino de educação patrimonial nas escolas da rede municipal. Nosso trabalho é um tanto desafiador quando aos métodos, pois eles não podem ser os métodos tradicionais que são utilizados para o ensino da chamada cultura erudita. Pela característica mutável do patrimônio imaterial não é de nosso interesse resguardálo tal como é (como um objeto pronto e acabado), mas sim preservá-lo através de métodos que se sintetizam exclusivamente nas vivencias que A C ultura popular nos oferece. Dar luzes para que ela por si mesma se mostre e se mantenha. Somos receptáculos dessas vivências. “Se o sistema social é democrático se o povo vive em condições digamos razoáveis de sobrevivência ela próprio saberá gerir as condições para que a cultura seja conservada, não pela cultura em si, mais enquanto expressão da comunidade de grupo e de indivíduos em grupo’’. (BOSI, Alfredo, 1987, pg. 44). Atuando principalmente em São João del Rei e região o programa de extensão “Embornal de Causos - segundo ano” é o desdobramento do projeto de extensão “Embornal de Causos a imagem e o som, a escrita, e o universo virtual como veículo de registros e preservação do patrimônio imaterial” sob a orientação da Dra. Glória Ribeiro, junto com os bolsistas de extensão Isabela Alline Oliveira e Etienny Trindade, e a bolsista atividade Daniela da Conceição Diniz. Como já foi mencionado, o trabalho consiste atender á lei municipal n° 3.826/2004 que dispõe sobre a criação do Programa Municipal de Educação Patrimonial em suas escolas municipais - buscando através do referencial teórico pesquisado, capacitar os professores para o ensino da educação patrimonial dentro das escolas, voltado para a cultura regional e local.

Neste sentido, o programa busca utilizar as novas mídias e redes sociais como ferramentas trazendo para os professores do ensino fundamental a narrativa oral, saberes e fazeres embutidos na cultura local. Nosso trabalho também teve como produto a produção cartilhas para as escolas públicas de ensino fundamental, os bolsistas desenvolveram três cartilhas, uma de culinária, outra de causos e a outra de festas religiosas; as quais ainda estão em processo de avaliação – recebemos a avaliação apenas de uma das escolas da região, como poderá ser observado nos anexos do nosso relatório final. O material possui jogos, exercícios para serem aplicados dentro de sala de aula, textos e imagens. Cada cartilha possui uma peculiaridade diferente: a cartilha de culinária contém receitas de São João del Rei e região, relatos de como o queijo é fabricado artesanalmente, como são fabricados os fornos a partir da utilização do barro e das fezes de gado; a cartilha de causos tem alguns causos transcritos das entrevistas realizadas com moradores de diferentes regiões, além da bibliografia de cada um dos contadores; e por fim a de festas religiosas descreve manifestações religiosas presentes em São João Del Rei. Foram realizadas durante o ano de 2013 em parceria com o programa de Implantação do Centro de Referência de Cultura Popular de São João del Rei, promovemos atividade conjuntas como foram as oficinas do Inverno cultural, contando com cerca de 6 oficinas realizadas no Fortim dos Emboabas entendendo que por ser tratar de uma população de risco , que entretanto mantêm uma tradição de cultura popular muita arraigada, nossos esforços em atuar principalmente com as crianças se justifica pelo fato de as oficinas serem para as crianças do Alto das Mercês uma possibilidade de acesso, diversão e espaço de lazer que a comunidade por si só não tem condições de oferecer. Também foram oferecidas Oficinas de Educação Patrimonial desenvolvidas dos dias 4 a 8 de Março de 2013 na Escola Municipal Maria Tereza, tendo como público atingido cerca de 150 alunos do ensino fundamental. to importante para a preservação do patrimônio cultural, as nossas ações ainda se mostram como uma forma pontual de se aplicar a educação patrimonial. Para que um trabalho como este possa se desenvolver de forma continua no ensino fundamental precisaríamos de uma parceria entre o IPHAN, o governo federal e os órgãos locais de cada município. O que observamos na analise deste conteúdo é que as ações são desmembradas umas das outras, não tendo assim um elo entre as iniciativas que já estão sendo produzidas e os órgãos públicos. No entanto, o IPHAN ainda é desorganizado em relação à educação patrimonial e não existe um interesse por parte dos professores em aplicar o assunto dentro de sala de aula, criando uma barreira a este processo. O patrimônio cultural ainda se encontra vulnerável. A ideia que se passa entre a juventude é que não existe o novo sem destruir o velho, e isso faz com que a memória caia no esquecimento. Como podemos lembrarnos do passado, das histórias contadas por nossos avôs sem passar de geração a gerConclusão ação? Na atual pós Embora seja modernidade o ser um trabalho mui- humano está sendo tratado como objeto, uma boa parte de idosos que fizeram parte da história são abandonados e isolados em locais fora da área de convívio social intenso (como é o caso dos abrigos e albergues), e não paramos para pensar que através deles as manifestações culturais vem sendo passadas de geração para geração. Portanto, necessitamos de uma mudança radical em relação ao patrimônio, e por isso justificamos neste estudo a importância da educação patrimonial. Esta ação pode ser comparada como a “luz no fim do túnel” porque a partir dela os indivíduos podem repensar a relação entre a memória e sua própria identidade social. 13

MINAS GERAIS: MODOS PROPRIOS DE VIVER E COMER uma verdadeira colcha de retalhos de influências indígenas, africanas e portuguesas. A mandioca, o milho, o amendoim, a abóbora, o feijão são heranças indígenas. O arroz, a pimenta malagueta, o quiabo foram trazidos pelos africanos. O trigo, a cana de açúcar, as criações de animais para consumo da carne, os doces e os queijos vieram com os colonizadores. Os modos de preparo que hoje conhecemos têm contribuições de ambos. Ingrediente que vem de um lado, tempero que vem de outro e modo de fazer de outro, novas mis- turas, adequações foram formando o que hoje se conhece por culinária mineira: pão de queijo, broa de fubá, café, pernil de porco assado, bife de boi, angu, couve. E as combinações! Arroz com feijão, queijo com goiabada - o famoso Romeu e Julieta-, café com leite, frango com quiabo, pão com manteiga, canjiquinha com costelinha, carne com farinha, pinga com torresmo... Mas qual a importância de cada um desses elementos no cotidiano, na economia e na nutrição dos mineiros? Como são produzidos cada um deles? É o que tentaremos abordar a partir de agora. Isaac Josué da Silva As cozinhas são lugares privilegiados, o lugar do encontro, da confraternização, da conversa durante o café da manhã e o almoço. À noite então, na ampla cozinha, à beira do fogão à lenha, é a hora de beber uma pinga e “quentar” fogo para espantar o frio. Acopladas aos fogões à lenha existem as serpentinas, um sistema no qual a água passa por tubulações metálicas que vão ao interior do fogão e entram em contato com o fogo, esquentando a água para um ótimo banho. A culinária mineira é 14 14

MINAS GERAIS: MODOS PROPRIOS DE VIVER E COMER MANDIOCA: A FARINHA E O POLVILHO A mandioca é uma planta nativa do Brasil que já era muito utilizada pelos povos indígenas quando os portugueses aqui chegaram. Luís da Câmara Cascudo em seu História da Alimentação no Brasil, faz o reconto de uma das lendas que explica o surgimento dessa planta: ‘A filha de um chefe indígena engravidara sem contato masculino, como em sonho comunicara um homem branco ao pai furioso que se acalmou. Nasceu uma menina deslumbrante, de nome Mani, morta ao fim de um ano, sem doença e sem dor. Do túmulo surgiu arbusto novo. A terra fendeu-se, como mostrando o corpo da morta. Encontraram raízes que eram as primeiras man- diocas, fortificantes e poderosas. Mandioca de Mani-oca, a casa de Mani’. (CASCUDO, 2004) A mandioca é o alimento mais popular no Brasil: de norte a sul, cozida, frita, na forma de farinha ou de polvilho, ela é consumida por todas as camadas sociais. ‘Presente tanto nos pratos cotidianos mais simples quanto nos mais elaborados, ocupa lugar de destaque no sistema culinário nacional e regional desempenhando em algumas regiões do país relevante papel na construção de identidades culturais’. (PINTO, ????) A farinha é o seu principal produto: seja fina ou grossa, torrada ou crua, pura ou temperada. É ainda produzida arte- sanalmente nas casas de farinha, principalmente no norte e nordeste de Minas. Além da farinha, um outro subproduto da mandioca que é amplamente utilizado é o polvilho. Também conhecida como goma, o polvilho é a fécula da mandioca, ou seja, o amido extraído dessa planta. Ele pode ser obtida tanto industrialmente quanto em casas de farinha. A diferença do polvilho azedo em relação ao doce é que o primeiro sofre uma fermentação antes do processo de secagem, que é obrigatoriamente solar. Ele é a base de algumas das quitandas mineiras mais tradicionais como as rosquinhas quebra-quebra, o biscoito de polvilho e o pão de queijo. Aliás, o pão de queijo, como o próprio nome já diz, tem como segundo ingrediente mais importante o queijo, que é um dos principais produtos do leite. O COBRE: NO TACHO E NO ALAMBIQUE Os utensílios em cobre são em sua maioria produzidos artesanalmente e são amplamente utilizados na feitura de doces. De cobre é também grande parte dos alambiques. As doceiras acreditam que os doces de frutas feitos em tachos de cobre preservam mais a cor da fruta e são mais saudáveis quando comparados aos doces feitos nos tachos de alumínio. Além disso, os doces feitos em tacho de cobre ganham um sabor par- ticular. O tacho de cobre deve ser bem esfregado com limão e sal para tirar o “zinabre”, ou seja, o azinhavre, “camada verde de carbonato de cobre que se forma nos objetos de cobre expostos ao ar e à umidade” (FERREIRA, 2004), só depois ele deve ser lavado com água e sabão. Apesar do uso do cobre ser tão tradicional em Minas Gerais, uma restrição da Vigilância Sanitária Estadual de Minas Gerais tem inco- modado as doceiras e doceiros. Baseada em uma resolução da Anvisa - Agência Nacional de Vigilância Sanitária, o órgão estadual proibiu o uso de utensílios de cobre na produção alimentícia. Segundo a Anvisa, o excesso de cobre no organismo causa problemas neurológicos e psiquiátricos, perda de glóbulos vermelhos e problemas no fígado, nos rins, no sistema nervoso e nos ossos. 15

MINAS GERAIS: MODOS PROPRIOS DE VIVER E COMER LEITE, QUEIJO E MANTEIGA: DO CURRAL PARA A MESA O estado de Minas Gerais é disparado o maior produtor de leite do Brasil. É isso o que mostra o gráfico abaixo, disponibilizado pela Embrapa Gado de Leite. O leite é um produto altamente perecível, por isso deve ser processado rápido. Como grande parte dos produtores de leite são pequenos proprietários rurais, existe no estado de Minas Gerais muitas cooperativas e pequenos laticínios, em ambos os casos o leite é recolhido por caminhões e levado para esses lugares onde é pasteurizado ou transformado em manteiga, queijos e iogurtes. No entanto, muitos desses produtos são produzidos de forma artesanal nas propriedades mesmas. Para produzir a manteiga é necessário antes recolher a nata, ou seja, a parte mais gordurosa do leite que sobe quando deixado em repouso. A nata resfriada deve então ser batida. Nas fazendas mineiras é comum pendurar a lata de nata em uma árvore com cordas e sacudir até virar manteiga, tarefa que muitas vezes é executada pelas crianças. Quando o barulho do líquido muda ao bater na lata é porque a nata se separou em manteiga e soro. A manteiga é muito utilizada na culinária mineira no preparo de bolos, broas e rosquinhas. E o soro que sobra é aproveitado na alimentação dos animais. O queijo talvez seja o produto que mais faça referência a Minas Gerais. O Modo Artesanal de fazer o Queijo Minas foi registrado pelo IPHAN em 2008 no Livro de Registro dos Saberes: Saberes(IPHAN). (...) O modo artesanal de fazer queijo constitui um conhecimento tradicional e um traço marcante da identidade cultural dessas regiões. (...) LEITE INTEGRAL → FILTRAÇÃO ATRAVÉS DE TECIDOS → ADIÇÕES DE PINGO E COALHO LÍQUIDO → COAGULAÇÃO → QUEBRA MANUAL DO COALHADA → REPOUSO E DECANTAÇÃO POR 15 MINUTOS → DESSORAGEM DE 2/3 DO VOLUME DO LEITE EM SORO → COLETA DA MASSA NO FUNDO DA TINA → MOLDAGEM EM FÔRMAS SOBRE MESA DESSORADORA → PRENSSAGEM MANUAL COM “FOFAS” REPETIDAS → PRIMEIRA SALGA → COLETA DO PINGO → SEGUNDA SALGA → REMOÇÃO DO EXCESSO DE SAL → DESENFORMAGEM E “GROSAGEM” COM RALO → CURTIMENTO EM PRATELEIRAS À TEMPERATURA AMBIENTE DE 5 A 7 DIAS. (FURTADO, 1993; REIS, 1998) O modo próprio de fazer queijo de Minas sintetiza, no queijo do Serro, no queijo da Canastra, no queijo do Salitre ou Alto Paranaíba, ou ainda Cerrado, um conjunto de experiências, símbolos e significados que definem a identidade do mineiro, reconhecida por todos os brasileiros. Por se tratar de um modo de fazer enraizado na comunidade mineira, o Modo Artesanal de fazer Queijo Minas é considerado um patrimonio imaterial dos mineiros registrado no Livro de Registro dos O processo de fabricação desse tipo de queijo segue basicamente o seguinte fluxograma: Luís da Câmara Cascudo publicou em 14 de junho de 1959 na Folha de São Paulo o texto “O queijo no céu” no qual narra suas investigações acerca da ligação entre uma expressão popular e uma procissão da cidade do Serro – MG. A expressão 16

MINAS GERAIS: MODOS PROPRIOS DE VIVER E COMER A MADEIRA: NA GAMELA E NA COLHER DE PAU Continuação “Aquele vai cortar o queijo no céu!” se refere ao casal que sempre guardou fidelidade e nunca se arrependeu do matrimônio. A procissão de cinzas em Serro tem entre os andores, o andor dos bem casados, no qual figura a imagem de um casal de santos e um enorme queijo. “A refeição comum no paraíso deve ser raro prêmio maravilhoso para uma fidelidade que nem um pecado interrompeu. O queijo, comum e habitual na região, reapareceria no céu numa Etienny Natya Fonseca F. Trindade homenagem reconstituitiva do ambiente doméstico modelar”. (CASCUDO, 1959) E falando em queijo logo se lembra da goiabada, doce tradicional que traz elementos muito característicos do nosso estado: o açúcar, a colher de pau e o tacho de cobre. A gamela é uma espécie de bacia larga e baixa, podendo ser redonda ou oval, esculpida em madeira. É essencial no preparo do pão de queijo, pois por ser pesada e “aberta”, permite que a cozinheira sove melhor o polvilho, para preparar o pão de queijo. É usada também no preparo de pães e rosquinhas. A colher de pau, por sua vez, é utilizada no preparo de angu e doces. Isto porque o mexer contínuo com colher de metal desgas- taria o tacho ou a panela liberando resíduos no alimento. As madeiras mais usadas na confecção das gamelas e colheres de pau são o caju, a goiaba, a emburama e o jenipapo. Passada de geração em geração, a técnica usada pelos artesãos para esculpir as peças conta com instrumentos como o enxó, a grosa e a lixa. Depois de prontas, as peças passam por um processo de curtimento com sebo de vaca para que não ganhe rachaduras com o uso. Uma gamela ou uma colher de pau bem feita podem durar até 20 anos! CANA DE AÇÚCAR: NA CACHAÇA E NOS DOCES O Brasil é o maior produtor de cana-de-açúcar, açúcar e álcool etílico do mundo. A planta foi introduzida no Brasil no período colonial e é hoje um dos principais produtos brasileiros. A cachaça é uma bebida tipicamente brasileira. Seu nome tem origem no termo espanhol cachaza que designava um vinho inferior. Ela foi, por muito tempo, considerada bebida de pobres, mas tem caído cada vez mais no gosto das outras classes. Também conhecida como pinga, caninha, garapa, a cachaça é a aguardente produzida da destilação de um fermentado de cana de açúcar moída. A Constituição Brasileira faz a seguinte diferenciação entre cachaça e aguardente de cana: Art. 52. Aguardente de cana é a bebida com graduação alcoólica de trinta e oito a cinqüenta e quatro por cento em volume, a vinte graus Celsius, obtida de desti- naqueles em que o cultivo da cana-de-açúcar não é favorável. Ela pode ser produzida tanto em destilarias industriais quanto em alambiques artesanais. Considerando ambas as formas de produção de cachaça, temos os seguintes dados: São Paulo é o maior produtor, com 54% de toda a produção. Pernambuco é o segundo maior produtor, com A cachaça é pro- 12%, Ceará é o terceiro, duzida em todos os Es- com 11%, seguidos de tados brasileiros, mesmo Rio de Janeiro (8%), Milado alcoólico simples de canade-açúcar ou pela destilação do mosto fermentado do caldo de cana-de-açúcar, podendo ser adicionada de açúcares até seis gramas por litro, expressos em sacarose. Art. 53. Cachaça é a denominação típica e exclusiva da aguardente de cana produzida no Brasil, com graduação alcoólica de trinta e oito a quarenta e oito por cento em volume, a vinte graus Celsius, obtida pela destilação do mosto fermentado do caldo de cana-deaçúcar com características sensoriais peculiares, podendo ser adicionada de açúcares até seis gramas por litro. 17

MINAS GERAIS: MODOS PROPRIOS DE VIVER E COMER nas Gerais (8%), Goiás (8%), Paraná (4%), Paraíba (2%) e Bahia (2%). A produção de cachaça em alambiques, de modo artesanal está concentrada nos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e São Paulo, sendo que os dois primeiros são responsáveis por cerca de metade da produção de cachaça de alambique do Brasil, sendo Minas Gerais o principal produtor. O processo artesanal de fabricação da cachaça segue as seguintes etapas: moagem, filtragem, fermentação, destilação em alambiques de cobre e, por último, envelhecimento em barris de madeira. O cobre e a madeira desempenham, Fonte: Martinelli et al. (2000). no resultado final da cachaça, um importantíssimo papel, pois conferem o sabor específico da cachaça produzida artesanalmente. A PANELA DE PEDRA SABÃO Isabela Alline Oliveira As panelas de pedra sabão têm também um importante papel na culinária mineira, podendo ser utilizadas no preparo de arroz, feijão, frango ensopado, legumes cozidos, etc. As panelas são esculpidas pelos artesãos muitas 18 vezes em pequenas oficinas no fundo de suas casas. A técnica, antiga e tradicional, vai sendo passada de pai para filho. Em Minas Gerais, as principais cidades que mantêm a centenária fabricação de panelas de pedra sabão são Mata dos Palmitos, Divinópolis, Cláudio, Ouro Preto, Mariana, Congonhas, Santa Rita de Ouro Preto e Cachoeira do Campo. Os dois últimos são distritos de Ouro Preto, e Santa Rita é considerada a capital mundial da pedra sabão

RECEITAS TRADICIONAIS EM SAO JOÃO DEL REI Receita de: Vera Lúcia Rezende tem 48 anos, é professora, natural da cidade de Luminárias – MG. Aprendeu a fazer essa goiabada com sua mãe, pois desde a infância a ajudava nessa tarefa. Da mesma forma, ensinou a seus filhos. Afirma que a ajuda dos mais jovens é de muita importância principalmente na etapa da colheita das goiabas, pois eles sobem nas árvores com mais facilidade e podem assim, colher todas as goiabas maduras do pé. 20 Ingredientes Goiaba (1 medida) Açúcar (1/2 medida) Utensílios: Moedor manual, tacho de cobre, colher de pau e caixeta de madeira. Modo de Preparo Utilize somente goiabas maduras. Laveas, retire todas as sujeiras da casca (cabinho, o outro lado, algum defeitinho que tiver...), não descasque. Corte as goiabas ao meio e retire o miolo. Separe os miolos bons e jogue fora os miolos bichados. No final desse processo, você terá somente as poupas das goiabas, sem miolos e sem defeitos na casca, então as lave uma a uma. É im- GOIABADA portante retirar todas as sementes, pois elas não cozinham e prejudicam seriamente a qualidade do doce. Depois de lavar as goiabas, deixe as de cabeça para baixo para escorrer bem a água, se tiverem com muita água, o doce espirra muito. Depois passe as goiabas em uma máquina de moer carne. Depois de moer, meça quanto dessa massa você obteve. Para cada medida de goiaba, acrescente meia medida de açúcar cristal. Coloque o açúcar e a goiaba em um tacho de cobre e leve ao fogo mexendo com colher de pau sem parar. A colher deve ter o cabo grande, pois em certa etapa o doce espirra muito. Numa panela a parte coloque os miolos, cozinhe bem, coe e acrescente ao doce, com a quantidade de açúcar correspondente. O ponto do doce é quando você começa a ver o fundo do tacho e começa a fazer um barulhinho de fritura no fundo. Retire do fogo, bata bem o doce para engrossar mais e coloque nas caixetas de madeira, forradas com plástico.

RECEITAS TRADICIONAIS EM SAO JOÃO DEL REI PÃO DE QUEIJO Receita de Vera Lúcia Rezende tem 48 anos, é professora, natural da cidade de Luminárias – MG. Aprendeu a fazer o pão de queijo com sua mãe observando e ajudando desde a infância. Em sua casa o pão de queijo é feito principalmente aos fins de semana e quando recebem visitas. Ingredientes 1 Kg de polvilho azedo 4 copos grandes de leite 1 copo americano de óleo 1 colher de sopa de sal 6 ovos 1 prato de queijo curado ralado grosso Utensílios Gamela, assadeira Modo de Preparo Despeje o polvilho todo em uma gamela, coloque meia xícara de leite e sove bastante até ficar bem fininho, sem pelotinhas. Sovar é apertar pequenas quantidades de polvilho entre a palma das mãos, com força. Esse processo é importante para o pão de queijo ficar liso. Quando o polvilho estiver bem fininho, leve ao fogo um copo grande de leite, um copo americano de óleo e uma colher cheia de sal. Logo que a mistura ferver, escalde espal- hando bem a mistura sobre o polvilho. Pegue uma colher grande e misture para que o calor da mistura entre em contato com uma quantidade maior de polvilho. Acrescente seis ovos inteiros e um pouco de leite e amasse. Vá acrescentando leite aos poucos, coloque o queijo e continue acrescentando leite até chegar à consistência ideal. Para testar essa consistência, lave a mão, seque-a e encoste-a na massa, a massa deve grudar na mão, se não grudar, ainda está dura. Unte as mãos com óleo e enrole os pães de queijo. Asse em forno quente até dourar. Fotos: Equipe Embornal 21

RECEITAS TRADICIONAIS EM SAO JOÃO DEL REI PÉ DE MOLEQUE COM RAPADURA Receita de: Maria de Fátima Diniz tem 55 anos, é cozinheira, natural da cidade de São Francisco de Paula – MG. Aprendeu a receita com uma patroa. Tem o hábito de fazer essa receita mais na época das festas juninas e durante certo tempo, fazia o pé de moleque para comercializar em Oliveira – MG, cidade em que mora atualmente. Ingredientes 1 rapadura pura 1 pacote de amendoim torrado e moído 1 copo de leite (250 ml) Utensílios Colher de pau por completo e fique uma espuma grossa; junte o amendoim de uma só vez; bata bem, até que o doce comece a esfriar e endurecer; despeje sobre uma superfície limpa (pedra ou assadeira), acerte bem com uma espátula; corte e guarde em recipiente tampado. Modo de Preparo Corte a rapadura com uma faca como se faz com uma barra de chocolate, leve ao fogo junto com o leite e mexa com a colher de pau, sem parar, até que a mistura fique homogênea. Deixe a mistura ferver, sem parar de mexer até que a rapadura dissolva BOLINHO DE FEIJÃO Receita cedida por: Márcia Sena tem 54 anos é técnica em Nutrição e Dietética, mora em de Barbacena – MG, sendo natural da cidade de Senhora de Oliveira– MG. Aprendeu a fazer o bolinho de feijão com sua avó e o faz aos finais de semana, quando a família está reunida. 22 Ingredientes 2 copos de feijão cozido 2 ovos Salsinha Cebolinha Cebola branca picadinha Sal a gosto Farinha de trigo até o ponto 1 colher (chá) fermento em pó químico Óleo para fritar Modo de Preparo Em uma tigela, coloque o feijão cozido, os ovos inteiros, cebolinha, salsinha, cebola picada e sal e mexa bem. Acrescente aos poucos o trigo, até ficar no ponto de cair da colher, como bolinho de chuva. Por último acrescente o fermento em pó e mexa. Frite em óleo não muito quente, como se fosse bolinho de chuva. Rende 20 porções

RECEITAS TRADICIONAIS EM SAO JOÃO DEL REI BISCOITO DE POLVILHO Receita de: Anunciação Resende tem 75 anos, é professora aposentada, natural da cidade de Itumirim – MG. Aprendeu a fazer o biscoito de polvilho com sua mãe. Ela lembra que antigamente as mulheres de uma mesma família costumavam se reunir em mutirão para fazer grandes quantidades e variedades de quitandas, que eram assadas em fornos de areia ou de tambor e armazenadas em latas por um período relativamente longo. Uma das quitandas que sempre eram feitas era o biscoito de polvilho. Ingredientes 1 Kg de polvilho azedo 2 copos de leite 1 colher de sopa de sal 1 copo de óleo 2 ovos inteiros Água até atingir o ponto Utensílios Saquinho de confeitaria e assadeira Modo de preparo Sove bem o polvilho misturado com um copo de leite e o sal. Ferva o outro copo de leite junto com o copo de óleo e escalde o polvilho. Espere esfriar e acrescente os ovos. Amasse tudo acrescentando água até a massa virar um creme homogêneo mole. Despeje a massa em um saco plástico e corte o cantinho do saco na espessura que desejar que fique os biscoitos, lembrando que eles do- bram de tamanho depois de assados. Esprema a massa em um tabuleiro untado com óleo fazendo círculos fechados ou vírgulas. Asse em forno médio, deixe secar bem para não murchar. Fotos: Equipe Embornal 23

RECEITAS TRADICIONAIS EM SAO JOÃO DEL REI BISCOITO DE POLVILHO Receita de: Márcia Sena tem 54 anos, é técnica em Nutrição e Dietética, mora em de Barbacena – MG, sendo natural da cidade de Senhora de Oliveira– MG. Aprendeu a fazer o doce com sua avó, que carinhosamente a ensinava no fogão à lenha, explicando os detalhes e enfatizando que o importante acima de tudo é o carinho e dedicação que você tem com aquilo que está fazendo, e isto inclui o ato de cozinhar. Márcia faz o doce de leite aos finais de semana e principalmente em datas comemorativas. Ingredientes Leite (1 medida) Açúcar (1/2 medida) Utensílios: Tacho de cobre e colher de pau Modo de preparo Colocar o leite no tacho, esperar levantar fervura e acrescentar o açúcar. Mexer sempre e para tirar o ponto, colocar água em um recipiente e colocar um pouquinho do doce. Quando tiver uma puxa bem firme; retirar do fogo, bater com a colher e em seguida despejar em um refratário untado com manteiga. Ao esfriar, corte em quadradinhos. Fotos: Equipe Embornal 24

RECEITAS TRADICIONAIS EM SAO JOÃO DEL REI FRANGO COM QUIABO Receita de: Fotos: Equipe Embornal 1 xícara de chá de salsinha pic- do água aos poucos, deixe cozinadinha har até que você sinta que a carne 1 xícara de chá de cebolinha pic- está macia. Meire Soares Torres À parte, lave bem o quitem 59 anos, é dona de casa, natu- adinha abo e seque-o em um pano para ral de Lavras. Aprendeu a fazer o Pimenta do reino a gosto evitar a baba, pique em rodelas e frango com quiabo com sua mãe refogue em óleo quente, por dez quando adolescente ajudava no Utensílios preparo deste típico prato mineiro. Panela de pedra e colher de pau minutos em uma panela a parte. Depois de o frango e o Hoje tenta passar à sua filha a imquiabo estarem prontos sepaportância de perpetuar esta receita Modo de Preparo radamente, junte os dois em uma tão tradicional em sua família. panela de pedra, sem esquecer-se Limpe e corte o frango do resto dos temperos, espere reIngredientes em pedaços, logo após tempere fogar e está pronto. 1 frango médio com o alho amassado com sal ( ou 4 dentes de alho com outros temperos se for de sua Sal a gosto preferência ) e deixe descansar por 2 colheres de sopa de açúcar um dia na geladeira. 1 cebola média picada Em uma panela grande ½ Kg de quiabo derreta o açúcar, depois coloque o 1 xícara de chá de óleo frango e a cebola picada mexendo 1 xícara de chá de cheiro verde até ficar bem moreno. Vá colocan- 25

RECEITAS TRADICIONAIS EM SAO JOÃO DEL REI Receita de: Modo de preparo Kátia Cristina de Paula natural de Bom Sucesso, 27 anos, estudante. Aprendeu a receita quando criança com sua mãe. Ela lembra que é um costume mineiro servir um cafezinho para as visitas, e a broa de fubá o acompanha muito bem. A broa de fubá sempre esteve presente em sua casa, desde a sua infância. 26 Ingredientes 3 ovos 1 ½ xícara de açúcar cristal 1 pitada de sal 1 colher de chá de bicarbonato de sódio 2 colheres de sopa de manteiga 3 xícaras de fubá 2 xícaras de coalhada Óleo e farinha de trigo para untar a assadeira Bata os ovos e o açúcar. Acrescente o sal, o bicarbonato e a manteiga e bata mais. Em seguida, acrescente a coalhada e o fubá e bata até ficar bem homogêneo. Despeje em assadeira untada e asse em forno pré-aquecido. Utensílios Assadeira BROA DE FUBÁ

RECEITAS TRADICIONAIS EM SAO JOÃO DEL REI Receita cedida por: José Jorge de Oliveira tem 75 anos, é pedreiro aposentado, natural de Andrelândia – MG. Aprendeu a fazer o torresmo com sua mãe e desde então ele é a única pessoa da família que o faz. O senhor José afirma que se acostumou tanto a fazer o torresmo que faz quase todos os dias, mas não o utiliza como tira gosto da cachaça como é utilizado tradicionalmente, pois o senhor José não bebe cachaça. Ingredientes Torresmo Sal a gosto Utensílios: Panela, colher de pau, faca bem afiada. TORRESMO em quando para não grudar um torresmo no outro. Eles vão soltar mais gordura ainda e quando estiverem opacos, com cara de que estão fritos, desligue o fogo, retire daquela gordura os torresmos para que eles possam esfriar. Modo de Preparo Tempere os torresmos com o sal e deixe descansar por uns 15 minutos. Coloque um pouco de óleo numa panela e quando estiver quente, coloque os cubos do torresmo em uma panela tampada. Com uma colher de pau vá mexendo de vez 27

MODO DE FAZER O FOGÃO A LENHA Isabela Alline Oliveira e José Raimundo da Silva nado cinzeiro. A primeira carreira de tijolos tem que ter uma inclinação de 25° ou mais. Depois vai tecendo as carreiras de tijolos. Quando tiver uma altura de 60 cm deverá deixar uma abertura que será a chaminé (ao lado). Usa-se rebocar o forno com uma mistura de areia e estrume de vaca, pois essa pasta que faz com que a temperatura do forno seja mantida. Essa mistura deve ser curtida por 8 dias e passada no forno. Não se deve usar cimento e cal no reboco, pois com o aumento do calor eles fazem com que o forno trinque. Na hora de acender o fogo é necessário esperar a lenha queimar, para então, espalhar a brasa de modo a distribuir as ondas de calor dentro do forno. Depois de pronto o forno deverá ser aceso para que ele seque por completo, mas,não é recomendável usa-lo antes de 15 dias. No fim de cada uso, aconselha-se jogar sal fino para conservar o calor. Fotos: Equipe Embornal Primeiramente fazse a base (alicerce) com Adobe. Depois de fazer a base, por dentro faz um aterro de 40 cm de espaço (distância). Depois coloca 35 cm de areia grossa e se coloca sal grosso, em forma de cruz, fazendo com que as partes estejam iguais. O sal é para conservar o calor dentro do forno. No alicerce tem uma abertura de 20 cm de diâmetro. Em cima coloca ladrilha com os tijolos que são só encaixados. Após esse processo, com uma areia mais fina vai completando as aberturas entre os tijolos. Faz-se a porta do forno nesse momento, e do lado oposto um orifício denomi- 28

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS CASCUDO, Luís da Câmara; ANDRADE, Mario de, Cartas, 1924 – 1944. Organizador: Marcos Antonio de Moraes. São Paulo: Global, 2010. ______, Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: MEC, 1954. ______, Literatura Oral no Brasil. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora/ MEC, 1978a. ______, Seleta. 2 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976. DETIENNE, Marcel, Os Mestres da Verdade na Grécia Arcaica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. ELIADE, Mircea, O sagrado e o Profano: a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2001. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. Curitiba: Positivo, 2004. LE GOFF, Jacques, História e Memória. Tradução Bernardo Leitão... [et al.]. Campinas: Editora da Unicamp, 2003. ORIÁ, Ricardo. Memória e ensino de História. BITTENCOURT, Circe (Org.). O saber histórico na sala-de-aula. São Paulo: Contexto, 1997. TEIXEIRA, Simonne; VIEIRA, Silviane de Souza... [et al.], Educação patrimonial: novos caminhos na ação pedagógica. Campos dos Goytacazes: EDUENF. 2006 Informações do IPHAN disponíveis em: http://portal.iphan.gov.br/portal/montarPaginaSecao.do;jsessionid=092730D01A132E79E32EBCBE412DF280?id=10852&retorno=paginaIp han 38

Número de ISBN 978-85-8141-047-0

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