Arte poética : estudo biográfico entre poetas brasileiros

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Published on March 10, 2014

Author: KoguenGouveia

Source: slideshare.net

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Trabalho de Conclusão de Curso apresentado a UNIESP Faculdade de Itapecerica da Serra como requisito parcial para a obtenção do título de Licenciatura Plena em Letras, Língua Portuguesa / Língua Inglesa e suas respectivas literaturas, sob a orientação da Profª Drª Margarida Cecília Corrêa Nogueira Rocha.

U N I E S P – F I T F A C U L D A D E D E I T A P E C E R I C A D A S E R R A CURSO DE LETRAS KOGUEN GOUVEIA ARTE POÉTICA: UM ESTUDO BIOGRÁFICO ENTRE EMINENTES POETAS BRASILEIROS DO ROMANTISMO AO MODERNISMO UNINDO REFLEXÕES SOBRE A LINGUAGEM ITAPECERICA DA SERRA 2013

KOGUEN GOUVEIA (ALEXANDRE MÁRCIO DA SILVA) ARTE POÉTICA: UM ESTUDO BIOGRÁFICO ENTRE EMINENTES POETAS BRASILEIROS DO ROMANTISMO AO MODERNISMO UNINDO REFLEXÕES SOBRE A LINGUAGEM Trabalho de Conclusão de Curso apresentado a Faculdade de Itapecerica da Serra como requisito parcial para a obtenção do título de Licenciatura Plena em Letras, Língua Portuguesa / Língua Inglesa e suas respectivas literaturas, sob a orientação da Profª Drª Margarida Cecília Corrêa Nogueira Rocha. ITAPECERICA DA SERRA 2013

KOGUEN GOUVEIA, Alexandre Márcio da Silva Trabalho de Conclusão de Curso apresentado a Faculdade de Itapecerica da Serra como requisito parcial para a obtenção do título de Licenciatura Plena em Letras, Língua Portuguesa / Língua Inglesa e suas respectivas literaturas. COMISSÃO EXAMINADORA Assinatura : _______________________________________________________ Prof. Dr. : _______________________________________________________ Assinatura : _______________________________________________________ Prof. Dr. : _______________________________________________________ Assinatura : _______________________________________________________ Prof. Dr. : _______________________________________________________

DEDICATÓRIA ... a todos os poetas & poetisas despertos ou por despertar ...

AGRADECIMENTOS Dirigimos nossa auspiciosa gratidão a Margarida Cecília Corrêa Nogueira Rocha, pela orientação prestada ao final da pesquisa, e que tanto nos sustentou uma grande relação de respeito e estima. Agradecemos a Márcia Regina Fogaça, pelas incomensuráveis diretrizes fornecidas ao pré-projeto, com as quais pudemos dar partida às investigações. Sinceros agradecimentos ao Antonio Carlos Silva de Carvalho, pela rigorosa revisão do texto, trazendo-nos um critério apurado da língua. Finalmente, a nossa gratidão se dirige a todo o corpo docente da FIT, modelo reconhecedor do que a linguagem é capaz.

A sabedoria búdica nunca foi uma árvore O espelho da mente não está em parte alguma Se, desde o princípio, nada existe Onde irá se acumular o pó ? Huineng

RESUMO O conteúdo desta pesquisa consiste – pressupondo à poesia a expressão culminante na arte da palavra – numa investigação dos pontos semelhantes que estão contidos nos poetas brasileiros de prestígio, cujas literaturas tornaram-se valorizadas e preservadas ao longo da história. Sinaliza uma análise teórica sobre a relação que há entre a perspectiva psicolinguística propiciada pela linguagem e o meio ambiente sociointerativo no qual se encontra o indivíduo. Por tal motivo, o sujeito, a linguagem e a literatura poética formam o objeto conjunto de estudo em questão. O desenvolvimento do trabalho apresenta diversos pontos de vista de autores renomados vinculados à psicologia, filosofia e poesia que contribuem sobremaneira para o endereçamento do estudo, dentre os mais significativos: Ezra Pound, Lev Vygotsky, Freud, Rousseau, Schopenhauer, Amit Gotswami e Rudolf Steiner, sendo tomados como instrumentos norteadores da pesquisa os pensamentos de Guy Claxton, Gary Snyder, e Carl Gustav Jung. Em nosso embasamento teórico, destacamos a importância da poesia como matéria sumária de conhecimento altamente competente: a reflexão sobre o poder que a linguagem pode exercer no interrelacionamento do sujeito com seus mundos. Tendo em vista os procedimentos teórico-metodológicos adotados pela sondagem biográfica e a análise estatística resultante da coleta de dados, não hesitamos em afirmar que os potenciais desta monografia são ígneos projéteis à construção de insólitos saberes, bem como ao aprimoramento das sensibilidades humanas. Palavras-chave: arte; poesia; linguagem.

ABSTRACT The content of this research consists – presupposing to the poetry the culminating expression in the word’s art – in an investigation of the similar points that are contained in the Brazilian prestige poets, whose literatures were valued and preserved along the history. It signals a theoretical analysis about the relationship that there is among the perspective psycholinguistic propitiated by the language and the environment partner-interactive in which is living the individual being. For such a reason, the subject, the language and the poetic literature form the studying object here. The work’s development presents several point of view of renowned authors linked to the psychology, poetry and philosophy that contribute significantly to the address of the study, among the most significant: Ezra Pound, Lev Vygotsky, Freud, Rousseau, Schopenhauer, Amit Gotswami and Rudolf Steiner, and as orienting instruments of the research were taken Guy Claxton's thoughts, as well as Gary Snyder, and Carl Gustav Jung ones. In our theoretical base, we detached the importance of the poetry as summary matter of highly qualified knowledge: the reflection about the power that the language can exercise in the interrelationship of the subject with their worlds. Due the theoretical-methodological procedures adopted by the biographical survey and the statistical analysis resulting from the collection of data, we didn't hesitate in affirming that the potentials of this monograph are igneous projectiles to the construction of unusual knowledge, as well as to the improvement of the human sensibilities. Keywords: art; poetry; language.

SUMÁRIO INTRODUÇÃO ............................................................................................. 1. ARTE E POESIA NA HISTÓRIA ............................................................. 1.1 Sociedade e indivíduo: dois cursos paralelos ................................ 1.2 O curso do pensar poético ............................................................. 2. O EIXO: INDIVÍDUO, LINGUAGEM, MUNDO ......................................... 2.1 O entorno inerentemente humano ................................................. 2.1.1 Portadora de signos .................................................................... 2.1.2 A complexidade do agregado linguístico .................................... 2.1.3 Organizadora de processos cognitivos ....................................... 2.2 O paradoxo da linguagem ............................................................. 2.2.1 Da linguagem não vernácula aos impulsos do corpo ................. 3. A RETÓRICA POÉTICA .......................................................................... 3.1 Harmonia sígnica e musicalidade .................................................. 3.2 A transcendência ideológica .......................................................... 3.3 Ensina-se poética? ........................................................................ 3.4 Anonimato como recurso ............................................................... 4. O PROCESSO DA PESQUISA ............................................................... 4.1 A discussão da problemática ......................................................... 4.2 Objetivo .......................................................................................... 4.3 Escolha das variáveis .................................................................... 4.4 Hipóteses ....................................................................................... 4.5 Análise estatística dos dados ........................................................ 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS ..................................................................... 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ....................................................... 7. APÊNDICE .............................................................................................. 7.1 Notas ............................................................................................. 7.2 Análise biológica de Ricardo Reis ................................................. 11 14 17 25 29 30 32 34 35 35 38 41 41 42 42 44 46 46 48 48 49 49 56 59 62 62 63

INTRODUÇÃO O momento mais significativo no curso do desenvolvimento intelectual, que dá à luz as formas puramente humanas de inteligência prática e abstrata, ocorre quando a fala e a atividade prática, duas linhas de desenvolvimento que antes eram completamente independentes, convergem. L.S. Vygotsky 1 As origens deste estudo surgiram da reflexão e da observação no vasto território da literatura. Inicialmente, refletimos a respeito dos escritores de renome no âmbito nacional, pois alguns se inclinavam à poética desde tenra idade, enquanto outros chegaram mesmo a evitá-la por toda a vida ou afloraram-na em idade avançada. De uma espontânea auto-observação, indagamos sobre o real papel da linguagem para a compreensão dos mundos. Paralelamente, o nosso candente interesse nasceu ao depararmo-nos com a abrangência da tessitura poética no parâmetro global, e, então, contemplamos as possíveis associações entre o potencial da linguagem e o meio-ambiente do artista. Há tempos, havíamos despertado a arte poética. Ainda assim, perguntávamos que tipos de similitudes poderiam vigorar entre os poetas de destaque. Para tanto, centramo-nos na avaliação do modus vivendi de certas personalidades literárias por meio da metodologia de cunho biográfico. Devido a nossa larga fé na riqueza e envergadura do assunto, fez-se inevitável atravessar o referencial da arte literária pelo ramo da psicologia, antropologia e sócio-linguística. Acreditamos em se tratar de uma temática inerentemente ontológica porque essas vertentes disciplinares foram aparecendo ao longo dos estudos, vestimentas que moldaram diversas reflexões a respeito da linguagem. Soubemos que a informação não poderia substituir o verdadeiro conhecimento, pois o artista não é aquele que detém os dados, mas aquele que se posiciona na diacronia do tempo. A arte de poetar, sendo um campo de qualidade ontológico, a que porventura se propicie à existência humana o despertar para as criações de novas linguagens e saberes, sustentamos a hipótese de que este material pode enobrecer a educação das sensibilidades na formação da espécie humana. 1 Citado por CLAXTON, 1995, p. 81.

Descartamos a investigação dos valores ou medição da ordem de engenharia quanto à poiesis: se ela é, ou não, boa para o sujeito ou, ainda, o que pode ser feito para despertar essa arte. Na prática, tais módulos são imperscrutáveis porque a pluralidade de fatores sócio-econômicos que estruturam o criador do texto apresenta variáveis interminavelmente infinitas. Apenas gostaríamos de incentivar as possibilidades fecundas que estão localizadas no terreno da poética para o plantio e cultivo dos novos saberes, averiguando o poder de transformação que a linguagem pode abranger na formação de um ser humano. Na tentativa de elucidar até onde se pode chegar com o reino das palavras, enveredamo-nos por coordenadas insólitas, e descobrimos que muito do que pensávamos a respeito do que a linguagem podia propiciar, não era bem assim. Esse achado nos colocou na posição de superior cautela. O que torcíamos ser totalmente favorável a essa autonomia nos atirou num ponto de interseção com novas reflexões sobre a dialética conceitual. Os conceitos estão inextricavelmente tão próximos à nossa constituição biológica quanto imaginávamos. Nossa rota de fundamentação teórica alterna-se em três pilares principais. Primeiro, por meio dos estudos de Claxton, fez-se uma investigação psicolonguística e antropológica da linguagem, tecendo a mente-cérebro com o mundo. Em seguida, as referências literárias de Pound, e Snyder, propiciam argumentos seguros em relação à poética. Finalmente, defendemos a linha de raciocínio segundo a psicologia jungiana, motivo pelo qual suas análises abarcam uma ampla perspectiva psicológica das etnias ao longo do planeta. Outros autores, tais como Vygotsky, Rousseau, Freud, e Schopenhauer mantêm a trajetória de pensamento aqui vigente. Após justificar nesta introdução os caminhos que nos levaram às origens e cursos da pesquisa, informamos que os dados estatísticos referentes à mesma serão publicados no quarto capítulo. Falaremos a seguir sobre os tópicos a serem estudados nos capítulos pertinentes. O primeiro Capítulo será dedicado à arte e à poesia ao longo da história. Refletiremos sobre o papel da poética na história da civilização; abordaremos o pensamento das artes segundo algumas teorias, anexando esse fundamento à prática didática. O objetivo fulcral deste capítulo é procurar delinear a autonomia da poesia, no sentido sincrônico ou diacrônico que se pode conceber na história.

O Capítulo seguinte associará três substantivos específicos: o indivíduo, a linguagem e o mundo. Mencionaremos os aspectos fundamentais da linguagem com o objetivo de orientar até onde podemos chegar com ela. Com isso, atentaremos tanto às luzes que produzem a linguagem, como também às possíveis sombras inconscientes; os conceitos que jazem entre o indivíduo e o mundo, bem como o que pode acontecer quando se sabe, ou não se sabe, um idioma não vernáculo. No terceiro Capítulo escolhemos alguns aspectos fundamentais que, porventura, possam favorecer à classificação de uma boa literatura poética. O principal objetivo é apresentar essa referência para a construção de melhores sensibilidades artísticas. O último Capítulo é reservado à análise de dados biográficos e à exposição dos resultados segundo cada agrupamento. Ao fim de nosso trabalho refletimos sobre os percursos atingidos e as plataformas de pensamento que podem ser contempladas, para que, em nossa busca como professores engajados na permanente linha da linguagem, possamos seguir com as melhores e mais sábias escolhas.

_ I _ ARTE E POESIA NA HISTÓRIA Algumas pessoas fazem história e outras constroem uma casinha no subúrbio. Carl Jung Nos primórdios do que conhecemos historicamente por civilização, a língua e seus signos têm sido uma ferramenta comum aos integrantes de cada comunidade aglomerada – a arte e a linguagem sempre estiveram aliadas à existência humana como meios de significar a realidade. Nesse panorama, é impraticável falarmos sobre o curso da arte poética sem que se faça uma breve análise antropológica da civilização. Se quiséssemos mencionar algo sobre evolução hominídea, teríamos de voltar à casa dos quatro milhões de anos, e, nessa escala, as evidências culturais se perdem no tempo. A citar uma perda recente, Moisés (1982, p. 22) nos diz que as cantigas portuguesas, arte de poetar exacerbada na complexidade de imagens líricas, eram memorizadas pelos trovadores para fins de declamação e raramente foram transcritas em registros. Decerto houve, antes das cantigas, considerável criatividade lírica, infelizmente desaparecida. Assim sendo, de que forma a cultura poética, tal como a conhecemos hoje, deve ser pensada? Há quarenta mil anos, toda a capacidade cognitiva humana já se encontrava desenvolvida. Provavelmente éramos mais inteligentes, já que as dimensões do cérebro diminuíram um pouco, daquele ponto do Cro-Magnon. Ninguém sabe por que o atrofiamento cerebral ocorreu; talvez o processo de civilização do indivíduo tenha sido a causa, argumenta Snyder: A maior parte do seu interessante curso de vida, o ser humano passou em culturas “primárias”, como caçador e coletor. Há aproximadamente 12 mil anos, a agricultura começou a desempenhar um pequeno papel em alguns cantos do mundo; mas só nos últimos três mil anos é que a agricultura foi, de fato, difundida mais amplamente. A civilização representa uma parte muito pequena da existência humana – e a alfabetização representa uma parte ainda menor, uma vez que foi só nos dois últimos séculos que alguma proporção considerável de qualquer região civilizada a experimentou. Portanto, a literatura oral – a balada, a lenda popular, o mito, as canções (temas da etnopoética) – foi a maior experiência literária da humanidade. Quando compreendemos isso, torna-se ainda mais pungente o fato de que essa riqueza está sendo dissipada. (SNYDER, 2005, p. 221)

Deste modo, é necessária exímia cautela no questionamento da linguagem em pauta na poética humana. A literatura etnopoética da história, que gira entre oralidade, semiótica e textualidade, sofreu novas marcas, em especial, com o surgimento do sistema pedagógico. No Brasil, embora os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN, 1997) tenham estabelecido diretrizes teóricas, os resultados educacionais ainda não foram, de fato, atingidos, mesmo após 15 anos de sua implantação. A população acabou por vislumbrar um cenário de discentes concluindo o Ensino Médio da rede pública com baixíssimo aproveitamento efetivo.2 Sob essa ampla perspectiva, para trazer o tema da linguagem em termos qualitativos requer que se avalie a interdisciplinaridade no processo pedagógico, requer que se revejam os efeitos a curto e longo prazos que são edificados pelos veículos de comunicação de uma sociedade, bem como a análise do entrelaçamento das línguas, abarcando a relação interdependente de toda a humanidade: o uso de termos que ultrapassam fronteiras geopolíticas. É impossível conceber qualquer mundo de modo isolado, sem código de comunicação, seja em termos de seu funcionamento, ou em termos de seu aglomerado estrutural. Cada mundo possui suas próprias linguagens, suas próprias matemáticas, eles são totalmente diferentes em suas especificidades, porém absolutamente complementares. Talvez a verdade fundamental da interdependência sintetize uma resposta satisfatória – metafísica ou ontológica – para a complexidade do mundo. Sherrington diz: A vida, como sistema de energia, está tão embutida no tecido da superfície da Terra que supor, mesmo brevemente, uma vida isolada do resto do mundo terrestre, produz uma imagem distorcida demais para se parecer com a vida. Tudo se ajusta simultaneamente. (1963, p. 79, citado por CLAXTON, 1995, p. 38) Snyder (2005, p. 253) identifica essa visão multifacetada do ecossistema comparando-o a um tipo de mandala. Cada figura tem um papel hierárquico a representar, mas todos os participantes são iguais em relação ao conjunto. Doguen (Ibid., p. 275) ensinou “Impor sua própria experiência sobre o mundo dos fenômenos 2 O quadro do Ensino Fundamental Público no País agravou-se com a sanção da Lei da Progressão Continuada (1996), assim desencadeando o descaso à seriedade das avaliações e o crescente número de analfabetos funcionais. A solução deste imbróglio é, em sua maior grandeza, de ordem Política Federativa, cuja celeuma dispensa comentários, aqui.

é ilusão. Quando o mundo dos fenômenos aparece e experimenta a si mesmo, é Iluminação”. A linguagem modula, por si mesma, esse entrelaçamento dos mundos. Esta condição reforça que a privação da intercomunicação exclui, de imediato, os caminhos à sobrevivência estrutural e psíquica3 de qualquer ser vivente. Em tese, a vida só é possível devido a essa arte, e esta, no meio humano, só é possível através de uma mentalidade sociointeracionista. Tal como o sistema nervoso de um animal (POUND, 1973, p. 36), a linguagem transmite os estímulos e respostas; e pode atrofiar-se caso a literatura de uma nação entre em declínio. Igualmente, na ótica de Claxton (1995, p. 57), assim como está registrado em nossos nervos que somos sistemas biológicos inextricavelmente entrelaçados, a linguagem binária de nossos corações nos leva a participar. Nesse caso, a matéria- prima do cérebro se estende à sociabilidade humana. A compreensão adequada do funcionamento do comitê mente-cérebro4 e da linguagem nos seres humanos será diretamente proporcional à abrangência da percepção multifatorial; a considerar sistemas no conjunto de sistemas. Por conseguinte, a habilidade linguística em sua expressão artística está, principalmente no território etnopoético, intimamente relacionada a fatores culturais. Ora, se considerarmos que somente a partir do século XIX a civilização passou a difundir o emprego do sistema educacional, o tratamento da linguagem parece ter ingressado numa etapa de insólito aprendizado da humanidade. Nesse fim, a história nos fez indagar: quais relações existem entre letramento e qualidade da linguagem, ou casta social e nível de linguagem? A possibilidade de a qualidade poética ser diretamente associada às camadas privilegiadas não foge à realidade. A arte é inacessível às massas desprovidas de meios educacionais, pois se acham empenhadas ao trabalho extremo (FREUD, 2003, p. 6). A arte poética, como nenhuma outra, propicia satisfações substitutivas sentidas no rol das abstinências culturais; experiências emocionais de alto valor no eixo de sua identificação. 3 Se entendermos como psique, em sua ampla acepção linguística, como a qualidade de estar vivo, amebas e protozoários, por exemplo, são dotados de tanta psique quanto os seres humanos. E nesse sentido, é natural que a sobrevivência de qualquer ser vivo dependa de algum código mediador das comunicações entre os universos, interno e externo. 4 No subcapítulo O cérebro sem o eu, diz: “Na colônia de polvos [referente às redes neurais, grifo nosso], não existe grupo privilegiado com status especial ou poderes especiais.” O sistema como um todo – cérebro, corpo e mundo – deriva da conexão do conjunto de situações e prioridades envolvidas nas atividades do ser humano.

Conforme a visão de Lévi-Strauss (TERWILLIGER, 1974, p. 103), as origens da escrita podem estar ligadas ao desejo de poder social. O acesso à escrita está vinculado a um modo diferenciado de status social, e o artista, indiferente à sua casta social, ocupa alguma posição privilegiada de poder de leitura da linguagem. Pound (1973, p. 45) nos orienta dizendo que a sabedoria poética está vinculada a uma noção de espaço multicultural, e nem todos se lançam para além de sua terra natal, quando comenta “Quando se trata de poesia, há uma porção de gente que nem mesmo sabe que o seu país não ocupa TODA a superfície útil do planeta. A simples ideia disso parece um insulto a tais pessoas”. 1.1 Sociedade e indivíduo: dois cursos paralelos Segundo os moldes de interatividade sócio-construtivistas dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN, 1998), toda abordagem artística depende da avaliação do docente em relação à situação, sumariamente específica. A modulação da prática didática à arte da poesia abrange ponderações ininterruptas quanto à realidade do nível de ensino-aprendizado e aos recursos pedagógicos disponíveis. No horizonte de dois hemisférios, língua e linguagem, a orientação do ensino- aprendizagem navega em função das necessidades vigentes de cada grupo social, frequentemente encontrada somente durante a intervenção didática. Não há uma tabela que se deva seguir. Em nossa prática de docência, constatamos níveis díspares de linguagem, tanto entre indivíduos da mesma escola quanto do mesmo bairro. O melhor emprego didático solicita uma análise do ambiente específico. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) fornecem diretrizes: Há um aspecto positivo na simples veiculação das diferentes formas de pensar e agir sobre o mundo para o reconhecimento da existência de outras possibilidades de relações humanas, de organização social, no que se refere a valores, símbolos, linguagens, representações sociais, relacionamentos, assim como a interação com o ambiente, mediada por diferentes técnicas e segundo outros valores. (PCN, 1998, p. 218) O homem constrói a história da arte entrelaçando os valores sociais com o meio-ambiente, mas a arte não depende impreterivelmente da plataforma humanoide para se manifestar, já que a natureza prova sua ininterrupta criação

artística nas montanhas e nos rios. Em que medida os elixires artísticos devem ser postos à comercialização? 5 Essa reflexão nos levou à indagação: a poesia é dispensável? Segundo a contradição de Jean Cocteau (FISCHER, 1979, p. 11), a poesia é-nos inseparável, mas uma parcela de nós, ainda que por um certo período indefinido, não sabe qual a sua utilidade. O indivíduo é capturado por um paradoxo ou niilismo à poética o qual ele deve solucionar por si mesmo. Fischer (1979) esclarece que a arte é um terreno de ressignificação da realidade em que se busca o equilíbrio perfeito entre o mundo externo e interno, fato e fábula, mito e realidade objetiva; a cristalização dos signos que expressa algo além do tempo. Verificamos (Ibid., p. 16) a profunda razão de ser da arte na história, com suas aspirações político-sociais particulares de cada época. Enquanto os fenômenos naturais exalam arte no ritmo de suas leis, o ser humano procura transcender o tempo com a modulação de suas estruturas físicas e psíquicas: Para conseguir ser um artista, é necessário dominar, controlar e transformar a experiência em memória, a memória em expressão, a matéria em forma. A emoção para um artista não é tudo; ele precisa também saber tratá-la, transmiti-la, precisa conhecer todas as regras, técnicas, recursos, formas e convenções com que a natureza – esta provocadora – pode ser dominada e sujeitada à concentração da arte. A paixão que consome o diletante serve ao verdadeiro artista; o artista não é possuído pela besta-fera, mas doma-a. (FISCHER, 1979, p. 14) Acrescentemos, pois, que há, na humanidade, um consenso quanto à qualidade artística em seu funcionalismo. Schopenhauer (2001, L.III, p. 67) delega que o exclusivamente raro, grande e verdadeiro poeta, não é o fazedor de rimas e inventor de histórias. Pound (1973, p. 42) classifica a competência dos escritores em seis grupos.6 As alusões poéticas de um eu lírico, no plano textual, expõem características vívidas que possibilitam separar os bons dos maus artistas (LEIRNER, 1983, p. 313). Outrossim, Pirsig (1984, p. 2) refere-se à qualidade como um aspecto essencial da experiência: “A Metafísica da Qualidade [...] é a primaz 5 UNESCO, 1976: a carta do Índio Chefe Seattle, da tribo Suquamish, Estado de Washington, intitulada O Manifesto da Terra-Mãe, exemplifica os potenciais expressivos da linguagem que, em prosa, se estendem bem próximos aos padrões da cultura letrada. 6 Inventores (a descoberta de novos processos); Mestres (o domínio dos processos); Bons escritores sem qualidades salientes (a sorte de nascer numa era de ouro dos processos literários); Beletristas, (a especialização dos processos); Diluidores (a incapacidade de dominar os processos); e, Lançadores de moda.

realidade empírica do mundo... Mas presenciar isso, claro, requereu um enorme trabalho...”. Diante da arte, Bosi (1986, p. 8) aponta que o ser humano tem se inclinado, desde a pré-história, a um estado de perplexidade e contemplação profundo. Essa atividade primitiva, ao criar objetos e provocar certos estados psicológicos numa coletividade, deixa sempre uma parcela de sentido ainda por animar sua existência nas ações. Destarte, enorme entrelaçamento há entre arte e o anseio humano em posicionar-se no curso da história. As reflexões advindas do impacto de uma obra fazem com que o homem avance ou recue no tempo: sua perplexidade diante da capacidade de imitar o natural ou de superar limites. Disso se pode refletir que a elasticidade e abrangência do tempo é o potencial latente que a arte exala. Muito embora o artista possa estar cercado de crises sociais, a precocidade o cerca. O mundo está sujeito a crises, a arte não (LEIRNER, 1991, p. 84). O que há de contemporaneidade em arte é a previsão do que virá ao mundo. Obras renascentistas apontam que, após um período de transição de valores estéticos ainda em luta pela concretização, podemos dizer que a arte de hoje se resume num novo mundo. Provavelmente o mundo não tenha progredido devido aos sistemas de crença, mas, indubitavelmente, um mundo distinto. O cenário moderno, todavia, passou a ser caracterizado pelo excesso de informações, resultado do efeito cumulativo dos conhecimentos na medida que a história avança. Proporcionalmente, a quantidade de bits de informação infiéis também se elevou. Inferimos, nessa instância, que o conhecimento perdeu lugar para a dispersão de informações. Ao convivermos com a arte, também há uma gigantesca avalanche de informações, mas a exímia qualidade dos bits de informação nunca obscurece nosso senso perceptível. Ao contrário, provoca um estado progressivo de sofisticação metaexistencial; Leirner diz: Afinal, a história da arte – e aqui cabe um parêntese para lembrar o trabalho brilhante de Suzi Gablik no seu discutidíssimo Progress in Art – pode realmente ser examinada à luz do modelo cognitivo piagetiano, segundo o qual essa história seria não apenas um agregado de estilos individuais ou tendências que simplesmente se acumularam e acumulam, mas um sistema integrado que manifesta uma estrutura ordenada de acontecimentos. A arte, assim como a ciência, segue um caminho evolucionário, que, como Gablik prova, sempre parte de um estágio de desenvolvimento para outro, senão

mais alto, pelo menos mais sofisticado de integração perspectiva. (LEIRNER, 1991, p. 89) O embasamento supracitado nos levou a ponderar sobre uma pesquisa histórica e cultural que atesta alterações de um indivíduo nos modos de percepção sobre a abrangência do seu tempo ou a perda de noção da riqueza deste. A linguista Norberg-Hodge (CLAXTON, 1995, p. 222) mostrou os efeitos da intromissão da civilização na sociedade Ladakh, isolada próximo ao Himalaia. Até a década de 1960, essas pessoas não distinguiam trabalho de lazer: eram pobres, porém felizes, e tinham tempo para fazer uma festa durar duas semanas. A mudança de atitude causada pela cobiça do excesso ou riqueza, que tomou lugar da meta do suficiente, levou-os ao mito de desfrutar de um lazer prometido na raia do consumismo, resultando em festas de um dia ou menos: a perda da noção dos valores fundamentais, antes cultivados. Observando esses dados históricos pensamos que, enquanto o ícone da arte permanece puro e intocável no modus vivendi simples ou na tradicional transmissão dos mitos e fábulas, a célere era moderna, porém, forneceu ao homo sapiens novos paradigmas, jamais testemunhados. As pressões da sociedade consumista tornearam o padrão de vida, e, consequentemente, a depressão, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), apresenta-se como a segunda maior patologia mundial. Nas reflexões de Santos (2001, p. 18), se as facilidades tecnológicas aumentaram, viver se tornou progressivemente complicado. Freud argumenta que tal desconforto advém de um estado de insatisfação minuciosamente subjetivo: Parece certo que não nos sentimos confortáveis na civilização atual, mas é muito difícil formar uma opinião sobre se, e em que grau, os homens de épocas anteriores se sentiram mais felizes, e sobre o papel que suas condições culturais desempenharam nessa questão. Sempre tendemos a considerar objetivamente a aflição das pessoas – isto é, nos colocarmos, com nossas próprias necessidades e sensibilidades, nas condições delas, e então examinar quais as ocasiões que nelas encontraríamos para experimentar felicidade ou infelicidade. [...] A felicidade, contudo, é algo essencialmente subjetivo. (FREUD, 2004, p. 17) Destarte, a causa não está, precisamente, na civilização. Há um mal-estar natural da espécie humana, seu sofrimento por simplesmente existir diante do incerto. Freud (Ibid., p. 14) espantou-se diante da hipótese sustentada no abandono do modo de vida civilizado para regressar às condições primitivas, responsabilizando

a civilização pela desgraça pessoal; pois todas as coisas que procuramos com o intuito de proteger-nos das ameaças do sofrimento fazem parte dessa mesma civilização. Snyder (2005, p. 221) observa que a expansão demográfica da sociedade forneceu proteção ao indivíduo das demandas de velocidade, habilidade e conhecimento que eram comuns no Paleolítico Superior. O modus vivendi daquela época exigia uma agilidade arcaica devido ao contato corporal direto com o mundo natural que o ser humano tinha de enfrentar. Atualmente temos a mesma matéria- prima da mente e do corpo de outrora para adaptarmo-nos em um mundo num ritmo de mudanças quase inexorável. Na época de Goethe uma paixão arrebatadora pela natureza grassava, pela paisagem primitiva e por tudo que é selvagem em qualquer rol das artes, mas ele nutria uma afiada antipatia por tudo isso. Ao mesmo tempo em que reconhecia a verdade nas manifestações da natureza, ele catapultava o antropoide acima dela quando dizia “nada fala mais alto do que as marcas deixadas por um homem bom e inteligente, do que a verdadeira arte, que é tão coerente quanto a natureza”. (BAKHTIN, 2010, p. 242) Rousseau reverenciava os elementos naturais em sua época. Durante sua peregrinação a Turim, deliciou-se com as paisagens do campo e a povoou com a fertilidade da imaginação. Em Confissões, imaginava “banquetes nas cabanas rurais, [...] vasos com leite e creme de leite nas montanhas, uma ociosidade encantadora paz, simplicidade, prazer de perambular sem saber para onde”. (Ibid. p. 255). Amalgamados aos elementos naturais, suspeitamos, aqui, que a ausência de certas provas físicas na natureza podem ter diminuído as referências psicológicas que traziam o homem ao estado de percepção saudável, e primitiva, sobre a abrangência do tempo. Na pós-modernidade, raríssimas são as chances de presenciarmos uma árvore com mais de 1500 anos7 . Esses registros milenares – tal como se emana, em algum nível diferenciado, nos patrimônios históricos ou artísticos – não mais abundam como outrora, e o resultado é, sugerimos, a 7 No Parque Estadual do Vassununga, Estado de São Paulo, encontra-se a mais idosa árvore do Brasil, um jequitibá-rosa com idade estimada em 3.050 anos. Mede 49 metros de altura.

inconsciência a essa linguagem simbólica e não verbal, a qual Jung (2005, p. 224) tanto se refere. Esta perspectiva ecológica e ‘selvagem’, que pode propiciar ao homem uma percepção primitiva do tempo, não significa, contudo, o desligamento do seu temperamento agressivo. Os povos primitivos também são condicionados a determinados padrões proporcionais àqueles de uma civilização que é usuária da linguagem literária. Observamos os sistemas de manipulação presentes em toda parte, quando Sargant sugere: O problema fisiológico complica−se ainda mais com o conhecimento de que os tipos temperamentais tanto do homem como do animal irracional raramente são puros. Pavlov descobriu que muitos de seus cães eram misturas de quatro temperamentos básicos; e o mesmo parece aplicar−se aos seres humanos. Em culturas primitivas, onde a vida é dura e o condicionamento rigoroso, é provável que os sobreviventes sejam mais temperamentalmente padronizados do que em sociedades mais civilizadas e assim disciplinados por métodos menos variados. Pode−se mesmo sugerir que, quanto mais elevada a civilização, tanto maior o número de indivíduos “normais” cronicamente ansiosos, obsessos, histéricos, esquizóides e depressivos que a comunidade pode dar−se ao luxo de suportar. (SARGANT, 2002, p. 111) Por conseguinte, a espécie humana comporta-se, em suas estratégias físicas e psicológicas, de forma duvidosa quanto ao valor que dá à história de sua comunidade local. Claxton (1995, p. 72) menciona a respeito do grau de egoísmo ou altruísmo que o membro deve ter em períodos de escassez: quando “nós” somos ameaçados, o indivíduo questiona suas lealdades. Quem quer ficar na mão? Contanto, demanda-se um tipo de organização social, e até de hierarquia: o desenvolvimento de formas mais complexas de comunicação. Resolvemos frisar a poética como uma delas. À medida que a população de uma comunidade aumenta, a pertinência da sofisticação da linguagem torna-se mais evidente. Dunbar (Ibid., p. 77) sugeriu, com base em evidências arqueológicas, que as primeiras sociedades primitivas se reuniam em torno de 120 a 150 pessoas.8 Quando este número é excedido, as hierarquias se tornam mais formais e os sistemas legislativos e penais tornam-se indispensáveis. Disso verifica-se que o trajeto da exigência da qualidade da linguagem é diretamente proporcional à densidade demográfica. Freud (2004, p. 16) 8 Segundo os huteristas, fundamentalistas religiosos dos EUA, se um grupo ultrapassa esse número não consegue manter a comunidade harmoniosa e isenta de crimes em virtude da própria pressão individual.

explica sustentando que os benefícios advindos do avanço científico da civilização impõem condições proporcionalmente difíceis a cada um deles. Jung (2005, p. 224), de modo excepcionalmente poético, argumenta que o mundo tornou-se desumanizado por meio do entendimento sumariamente científico e afastou o homem de sua condição selvagem, da simbologia basilar que emana na experiência emocional com os eventos naturais: “Nenhum rio contém um espírito, nenhuma árvore simboliza a vida de um homem [...] A sua comunicação imediata com a Natureza desapareceu para sempre”. Coloca-nos diante de um sentimento elevado à essência empírica imediata dos fenômenos, tal como as árvores milenares são portadoras do poder de transmitir; percepções pouco usuais ao senso comum. Embasada nessa forma, uma sociedade demasiadamente afastada dos domínios naturais tende a levar, com mais facilidade, qualquer indivíduo a padrões de condicionamentos atípicos. Jung, em reunião com o chefe Ochwiay, dos índios pueblos, encontrou indícios do ponto vulnerável da civilização. Perguntou-lhe porque pensava que todos os brancos eram loucos. E o diálogo prosseguiu: –– Eles dizem que pensam com suas cabeças. –– Mas naturalmente! Com o que pensa você? – perguntei admirado. –– Nós pensamos aqui – disse ele, apontando o coração. “Esse índio pusera o dedo naquilo em que somos cegos”. (JUNG, 2006, p. 293) É difícil definir em que grau ou modo alguém pode se encontrar condicionado por seu ambiente – agrário ou metropolitano – ao menos que os aspectos subjetivos o levem a questionar sobre as formas de manipulação de que essa pessoa participa. Igualmente à arte, sugerimos que o modo empírico a que nos submetemos e somos submetidos está sob controle do sujeito. Drummond, numa crítica literária dirigida a Margarida Botafogo, endossa que toda vez que lhe pediam opinião sobre a poética de alguém, entrava em pânico; não sentia autoridade para julgar o que é ou deve ser; alva essência de uma individualidade tal como se manifesta: “Os juízos pessoais são tão precários! Os poetas não obedecem à orientação alheia. Não podem obedecer. A mágica brota do fundo do ser. Pouco importa que seja ignorada de uns, mal vista de outras.”9 . Tecendo os harmônicos pontos de vista entre Jung e 9 ANDRADE, Carlos Drummond, www.antoniomiranda.com.br – poetas do Rio de Janeiro: Margarida Botafogo – acesso em 01/04/2013.

Drummond, em que espírito e sujeito são o foco do pensamento em questão, os estudos mostram o quão individual pode se concentrar a arte e sua linguagem. Para tanto, Moisés (1982, p. 20) nos direciona embasando que o simples enquadramento do artista na história não significa que ele seja obrigado a viver a tendência de estilo, colocada em primeiro plano. A arte está condicionada por seu tempo (FISCHER, 1979, p. 17); representa a humanidade nas aspirações que estão na história. Mas a arte transcende também às condições históricas, porque diz respeito a algo muito além do que aquelas representam. Pois Aristóteles (2003, p. 43) registra que não cabe ao poeta descrever minuciosamente a sucessão dos acontecimentos, e sim o que poderia ter sucedido, valendo-se do grau representação mímica ou necessidade. Poeta e historiador não se distinguem, já que este escreve em prosa e aquele em verso. Reviver os processos religiosos e espirituais por meio dos escritos dos historiadores e poetas abre um espaço de compreensão fora de possibilidade da vida real (BODEI, 2000, p. 87). Porém, a poesia é de caráter mais filosófico e elevado que a história; enquanto a poética jaz no universal, o leito da história é particular. Schopenhauer (2001, p. 75) diz que o poeta apreende a ideia e a essência da humanidade e a objetividade da coisa-em-si em seu grau mais elevado do que o historiador, uma vez que o cerne de todos os invólucros relativos aos fenômenos nunca se perde inteiramente, e o verdadeiro desdobramento da essência pode ser encontrado por quem está em sua busca, por muito mais clareza na poesia do que na história, por mais paradoxal que aquela possa parecer. O poeta transcende a história cronológica, e recria a linguagem para significar um mundo mutante, e, para isso, ele/ela precisa transpor sua própria praia, ir além dos conceitos moldados por uma sociedade, expondo, em alguns casos, o absurdo. Segundo Jung (2005, p. 156), o grande ser humano é aquele que faz a história, e não meramente o que se contenta com sua pequena casa, o mundo de poucas possibilidades de seu Eu, construída nos recantos de um lugar estagnado no tempo.

1.2 O curso do pensar poético Tomamos, cronologicamente, o escopo de partida com bases em pensamento da Grécia antiga, segundo o qual a imitação, advinda da natureza humana, é a tendência instintiva que nos captura desde a infância. Por meio da imitação adquire- se o conhecimento de uma representação simbólica que não é facilmente contemplada no mundo real, como bestas-feras ou cadáveres. Há três modos de imitação poética: representar os personagens ou as imagens melhores ao que são na realidade;10 piores do que são; ou iguais (ARISTÓTELES, 2003, p. 26). Mas o pensamento artístico como modo imitativo do mundo das formas foi contra-argumentado. Platão impôs restrições severas à dialética de Sócrates quanto à função das artes, considerando-as, do ponto de vista metafísico, como frequentemente corruptoras, tentando mesmo excluí-las por inteiro, justificando que elas são mera cópia da autêntica realidade constituída pelas Formas. Argumenta Sócrates (ROUSSEAU, 2002, p. 27) que os artistas, poetas, oradores – ele próprio – não sabem o que é o verdadeiro, o bom e o belo. Há apenas diferença daqueles que nada sabem e julgam saber e os que nada sabem, porém não têm dúvida. E tal como sua ótica “De sorte que toda essa superioridade de sabedoria que me foi concedida pelo oráculo se reduz apenas a estar bem convencido de que ignoro o que não sei”; podemos atentar-nos ao modo de se pensar a arte poética como um modo de saber ser. A dialética a respeito do pensamento poético refere-se a uma perspectiva mais ampla do que o pessoal. Schelling, discípulo de Fichte e criador do idealismo absoluto, considerava a história do homem inerte numa escalada progressiva em direção à consciência de si mesmo, do Absoluto, sendo que a arte estaria como estágio essencial na revelação desse ideal absolutista (Ibid., p. 224). Nesse universo, o processo de imitação, ou reinvenção artística, não deve desviar o poeta para coordenadas das conceituações. Os imitadores e maneiristas apreendem a essência de realizações exemplares alheias pelo conceito; e conceitos não propiciam uma obra legítima, sorvida diretamente da natureza 10 Analogamente, essa modalidade é encontrada no estilo milenar de arte marcial Kung-fu por meio dos quais, durante o treinamento diário, os monges procuram imitar alguns animais, melhores do que são na realidade.

(SCHOPENHAUER, 2001, L.III, p. 66). Na poesia, o conceitual é o material que dá lugar ao intuitivo, às alegorias surpreendentes (Ibid., p. 71). Steiner (2011, p. 102) menciona uma esfera de pensamento superior, em que o seu conteúdo, na base de um sistema ideal, é determinado pela intuição. Seu preenchimento não possui referência alguma quando influenciado pelo ramo da perceptibilidade ou das ideias. A fonte desse pensamento a priori é oriunda de uma razão prática, intuitiva, e aplicada à apreensão. Schopenhauer (2001) complementa que a intuição é o estado não conceitual básico para a apreensão da poiesis, quando diz: Assim como o químico, partindo de líquidos completamente claros e transparentes, obtém por sua mistura precipitados compactos, assim o poeta, partindo da generalidade abstrata e transparente dos conceitos, pelo modo de combiná-los, sabe conduzir ao concreto, ao individual, à representação intuitiva. Pois a idéia é conhecida somente intuitivamente; e o conhecimento da idéia é o objetivo de toda arte. A maestria na poesia, como na química, toma capaz de obter sempre o precipitado almejado. A este fim servem os muitos epítetos na poesia, com que se restringe a generalidade de todo conceito, até tomá-lo apto de apreensão intuitiva. Homero acompanha quase todo substantivo de um adjetivo, cujo conceito corta a esfera do conceito daquele, diminuindo-o consideravelmente, com o que já de muito se aproxima da intuição. (SCHOPENHAUER, 2001, p. 74) Desse panorama, o pensamento da arte imanente na natureza retorna à esfera ontológica. Gotswami11 (2002, p. 247) refere-se a um nível de consciência em que o ego não mais se separa do meio, e pode chegar a um máximo de identidade em que transcende a forma humana. Em caráter ilustrativo, traz à tona trechos de poetas, tais como Wallace Stevens, T.S. Eliot, ou Rabindranath Tagore (Ibid., p. 230- 232-290), e, repetidas vezes, atenta-se ao processo de criatividade interior. Essa consciência empírica e subjetiva diz respeito à superação da dualidade discriminadora imposta pela ditadura do ego. Tal processo de interatividade do indivíduo com uma consciência cósmica se intensifica com a prática meditativa, na base da qual tudo o que somos é resultado do que temos pensado. Sustenta, todavia, que esse nível de conhecimento é adquirido por meio ilógico, o que é, senão, pura intuição: 11 Amit Gotswami agrega o cientificismo da física quântica à espiritualidade. Esta ciência depara-se com o sujeito (a consciência / o observador), responsável por alterar os dados de medição da velocidade de uma partícula fundamental no momento que afere a localização da mesma, não sendo possível – pelo menos ainda – aferir as duas informações simultaneamente.

O antropólogo Gregory Bateson notou a semelhança entre a técnica do koan 12 e o dilema. O dilema neutraliza o ego, ao paralisá-lo. O ego-self não pode lidar com a oscilação nenhum vencedor de uma opção a outra em uma situação como a seguinte: se você diz que este cachorro é Buda, eu lhe darei um soco. Se disser que este cachorro não é Buda, eu lhe darei um soco, e se não disser coisa alguma, eu lhe darei um soco. (Ibid., p. 279) Steiner (2011), outrossim, lança uma linha de pensamento além da lógica, e de natureza antroposófica. O poeta utiliza o material linguístico num plano sujeito a mudanças diacrônicas para expressar-se na plataforma dos signos. A qualidade da arte, nesse caso, estará tanto mais intensificada quanto maior for a espiritualidade, deslocando-se para além da esfera científica. Steiner diz: O artista busca incorporar no material dele as ideias que são seu Self, em que ele pode reconciliar o espírito que vive dentro de si e o mundo exterior. Ele, também, sente-se insatisfeito com o mundo de meras aparências, e busca moldar na obra algo mais que seu Self provê e que transcende aparecimentos. O pensador pesquisa as leis dos fenômenos. Ele se esforça para dominar através do pensamento o que ele experimenta através de observação. Só quando nós transformamos o mundo-conteúdo em nosso pensamento-conteúdo é que recapturamos a conexão a qual tínhamos rompido. Veremos depois que esta meta só pode ser alcançada se penetrarmos muito mais profundamente do que é frequentemente empregado na natureza do problema do cientista. (STEINER, 2011, p. 27- 28, tradução nossa) No universo da poiesis, o valor da ciência consiste na capacidade de expor as falhas de nosso bom senso, permitindo à sua cultura observar e aperfeiçoar a linguagem de seus mitos. Nesse aspecto, os filósofos, xamãs, místicos e poetas são os tradicionais cientistas da mente (CLAXTON, 1995, p. 23). Essas premissas nos libertam das limitações no momento em que tanto o pesquisador quanto o poeta podem fazer perguntas que o bom senso jamais ousaria, e, se ousasse, as descartaria por parecerem ridículas ou absurdas. Todavia, com frequência, as respostas àquelas perguntas desafiam a sabedoria e conduzem ao pensar. O pensamento poético se difere peculiarmente das demais expressões artísticas, as quais a desorganização ainda emite algum significado. E porque a análise poética exige uma descrição biológica e científica das palavras (POUND, 1973, p. 23), cada sintagma é dotado de um poder simbólico que transmite, em níveis microscópicos, a solução de um enigma. Pound, assim como Mourão (2000), nos conduz à finalidade fundamental da arte literária: a beleza da verdade, e, como eles, reconhecemos que a poesia 12 Verificar “Nota sobre o Koan” no Apêndice.

compõe a magia mensageira incompreensível numa lógica que não nos ensina nem se ensina. Ela apenas revela, e isto é tudo. Mourão, referindo-se à advertência de Lautréamont, reforça o eixo aristotélico quando argumenta: A missão da poesia é difícil. Ela não se mete nos acontecimentos da política, na maneira pela qual se governa um povo, não faz sequer alusão aos períodos históricos, aos golpes de Estado, aos regicídios, às intrigas da corte. Não trata nem mesmo das lutas que excepcionalmente o homem trava consigo próprio, com suas paixões. O que ela faz é descobrir as leis que dão corpo e vida à política teórica, à paz universal, às refutações de Maquiavel, aos corneteiros da obra de Proudhon, à psicologia da humanidade. 13 Verificamos nas palavras de Greene (2006, p. 112) que essa amplitude insondável da poética equivale mesmo, em síntese e dimensão maiores, ao simbolismo que emana da natureza. A elegância, a complexidade e a pluralidade dos fenômenos que formam um conjunto simples de leis universais integram o que os cientistas costumam dizer quando se referem ao termo “beleza”. Assim, o pensar em poesia só existe enquanto ordenada no modo de se ser, a integração de corpo e alma com um todo muito maior. Alencar (2002, p. 74) conclui que a observância à natureza em sua linguagem primitiva constitui a fonte primordial que deve beber o poeta brasileiro: “O conhecimento da língua indígena é o melhor critério para a nacionalidade da literatura. Ele nos dá não só o verdadeiro estilo, como as imagens poéticas do selvagem [...]”. Somente através do sentido epistêmico dessas imagens arcaicas e naturais – seus modos de pensamento, tendências de espírito, e particularidades vitais – jaz a garrida poética banhada na originalidade. 13 MOURÃO, Geraldo Mello, Revista E, São Paulo: SESC, 2000. Disponível em http://www.biografia.inf.br/gerardo-mello-mourao-poeta.html - acesso em 11/11/ 2011.

_ II _ O EIXO: INDIVÍDUO, LINGUAGEM, MUNDO Não é exagero dizer que um chimpanzé mantido na solidão não é um chimpanzé de verdade. Wolfgang Kohler O fulcro da investigação deste eixo nos coloca numa tabula rasa para o levantamento das reflexões. Imediatamente, encontramos, talvez, o maior de todos os paradoxos, pois a ausência de dados absolutos nos levaria à ausência da própria tabula rasa. Mas a literatura não é suspensa no vácuo (POUND, 1973, p. 36). Para Pound, o escrito é a matéria-prima para análise fiel de competência da linguagem do poeta. De acordo com Heidegger (BODEI, 2000), a linguagem é para o homem, mais do que um veículo de comunicação; nela temos um caminho pelo qual precisamos trilhar, cuja essência reflete algo além do mundo materialmente presente – o universo pelo qual criamos referências de significados vitais, em que se contém exacerbada mensagem ontológica: A linguagem é o recinto (templum), ou seja, a casa do ser. A essência da linguagem não se esgota na significação, nem é algo conectado exclusivamente a signos e a cifras. Sendo a linguagem a casa do ser, podemos aceder ao ente apenas passando constantemente por esta casa. Se vamos à uma fonte, se atravessamos um bosque, atravessamos já sempre a palavra “fonte”, a palavra “bosque”, ainda que não pronunciemos estas palavras e não nos refiramos a nada de linguístico [...]. No caso de algum lugar, é unicamente nesta região que poderá acontecer aquele revolvimento da dominação dos objetos e da sua representação no mais interior do coração. (BODEI, 2000, p. 179) Contudo, não podemos delinear, ainda, em que grau ou modo a linguagem e o pensamento estão entrelaçados. Os progressos da linguagem e pensamento não seguem linhas totalmente emparelhadas; conquanto se confundam. Ambos passam por muitas alterações e suas trajetórias não são paralelas. O curso do intelecto segue, ora aliado, ora indiferente à linguagem (VYGOTSKY, 2002, p. 26). A curva de seus desenvolvimentos – filogenético ou ontogenético – se cruza repetidas vezes, e se afasta novamente. Vygotsky (Ibid., p. 83) salva que não há interdependência específica entre as raízes genéticas do pensamento e da palavra. Os dois elementos não são

independentes e estabelecem uma mútua e próxima influência praticamente confundível. Ele frisa um trecho do poema de Mandelstham, que diz “Esqueci a palavra que pretendia dizer e o meu pensamento, desencarnado, volta ao reino das sombras”. E segue: Qualquer evolução do significado de uma palavra é impossível e inexplicável – consequência esta que constitui um handicap tanto para os linguistas como para os psicólogos. A partir da altura em que se comprometeu com a teoria da associação, a semântica persistiu em considerar o significado da palavra como uma associação entre o som e o conteúdo. Todas as palavras, desde as mais concretas às mais abstratas, surgiam como sendo formadas da mesma maneira, relativamente ao seu significado, parecendo não conter nenhum elemento característico da fala enquanto tal; uma palavra fazia-nos recordar o seu significado tal como um objeto nos recordava outro objeto. (VYGOTSKY, p. 84) Nem a escola de Psicologia Gestalt logrou quaisquer progressos na associação entre pensamento e linguagem. A mesma buscou comparações com as operações intelectuais dos chimpanzés nas experiências de Koehler, em que o pau se torna parte da estrutura de obtenção do fruto e adquire o significado funcional de instrumento. Já não se estabelece a conexão entre palavra e significado como uma mera associação, mas como questão de estrutura (Ibid., p. 86). Representou um progresso, mas, ainda assim, um avanço ilusório que permanece no mesmo sítio. Tal como o curso da água que passa pelos prados, evapora-se e congela, a linguagem adquire nome e forma, é classificadora e generalizadora de mundos, recorta a realidade; possui autonomia própria num movimento que é, em parte, determinado pelo homem. Assim como a lua refletida num lago, a linguagem está no mundo, mas não pode ser confundida com o mundo. Ou será que a linguagem, sobretudo a poética, poderá desvendar as origens do incompreensível? Talvez jamais saibamos, ou até já saibamos em algum nível, com a condição de que não possamos, jamais, codificar. 2.1 O entorno inerentemente humano Instrumento de comunicação entre dois ou mais interlocutores e de reinvenção dos mundos, a existência da linguagem foi questionada no seio de outras espécies animais.

O comportamento das abelhas foi mapeado por Von Frisch para determinar o uso da linguagem na localização do néctar. De acordo com o critério de Terwilliger (1974, p. 18), pelo fato de as abelhas nunca cometerem erros na dança e porque suas comunicações transmitidas nunca são enganosas, conclui-se que elas não dispõem de linguagem. Completa que a ineficiência da linguagem em certos animais se torna evidente, por exemplo, quando se toma o percurso da fala de um papagaio (Ibid., p. 19). Claxton (1995, p. 76) aponta que antes do aparecimento da linguagem verbal, a percepção das intenções dos outros indivíduos – e as de irradiar ou ocultar as suas próprias – por meio de variações da postura, comportamento e da direção do olhar, já se encontrava bastante avançada. Com efeito, muitos desses sinais, e suas reações, foram desenvolvidos ao longo do tempo, e incorporados ao código genético.14 Os primatas, por exemplo, conseguem utilizar a linguagem não verbal para enganar e desorientar, assim como para informar. A língua e a linguagem estão localizadas em um grupo social, que os controla por meio de padrões de escrita e da fala, enquanto que, simultaneamente, tal controle não é absoluto, visto que os indivíduos e as mídias de comunicação globais se entrelaçam com contínuos embates de imagens e valores de época. Segundo Vygotsky (2001), o plano filogenético da espécie humana determina que uma pessoa é capaz de ser portadora da linguagem, e ser maleável ao meio ambiente; e o plano ontogenético determina a sequência de acontecimentos da espécie, do nascer ao morrer. O discurso interior se interage com a qualidade do fluxo da linguagem que a pessoa assimila ao longo do desenvolvimento sociogenético: A relação entre o homem e o mundo passa pela mediação do discurso, pela formação de ideias e pensamentos através dos quais o homem apreende o mundo e atua sobre ele, recebe a palavra do mundo sobre si mesmo e sobre ele-homem, e funda a sua própria palavra sobre esse mundo (VYGOTSKY, 2001, p. 12). Para Bahktin, o dialogismo é constitutivo da linguagem. A palavra é o produto da reciprocidade entre dois interlocutores. Cada léxico expressa a unidade do indivíduo em relação ao outro. A pessoa verbaliza-se a partir da ótica da 14 O etólogo John Krebs descreve a evolução de sistemas de sinalização bastante complexos entre as aves, dentro de seu contexto evolutivo. KREBS, J., The evolution of animal signs, Blakemore e Greenfield, p.163.

comunidade a que ela pertence. O eu é construído com a constituição do eu presente no outro e por ele é constituído (KOCH, 2005, p. 64). O propósito último da linguagem é o intercâmbio social; não há possibilidade lógica de uma linguagem verdadeiramente privada (TERWILLIGER,1974, p. 31). Essa dedução é generalizada e aceita de forma universal. A frase categórica de J. Hughlings Jackson (CLAXTON, 1995, p. 70) sintetiza a indispensável função salutar da linguagem quando argumenta “Falamos não apenas para dizer aos outros o que pensamos, mas para dizer-nos o que pensamos”. 2.1.1 Portadora de signos Terwilliger (1974, p. 23) sustenta ser pertinente estudar a linguagem porque ela pode mostrar indícios de ser mediadora de comportamentos extremamente sutis. Por meio dos códigos, a linguagem exerce um papel de transmissão e classificação, tanto de um objeto, quanto dos fenômenos perceptíveis pelos sentidos. Quando nascemos, a língua está pronta no ambiente na forma de códigos que podem ser oralizados, de fonemas a sintagmas complexos; e apropriamos-nos dessa linguagem mediadora ao longo de nosso desenvolvimento. Por volta dos três anos de idade, a criança utiliza a fala egocêntrica, que é um ponto de desenvolvimento para a assimilação da língua (para Piaget, a fala sai do sujeito, e para Vygotsky, a fala ingressa no sujeito). O ponto mais desenvolvido da língua se dá no discurso interior, quando incorporamos o sistema simbólico ao pensamento, sem que seja necessário uma oralização verbal dos códigos. Nessa instância, os códigos isolados não trazem significado algum, e só fazem sentido quando são incorporados ao mundo dos signos. Vygostky (2002, p. 107) diz “Uma palavra que não representa uma idéia é uma coisa morta, da mesma forma que uma idéia não incorporada em palavras não passa de uma sombra”. Na escola psicológica de Vigotsky (Ibid., p. 9), constata-se que, na ausência de um sistema de signos, linguísticos ou não, somente um tipo primitivo e imediato de comunicação é acionado, tal como observa-se nos gansos quando, sob ameaça de perigo, alertam o bando com grasnidos.

A linguagem é portadora de signos, que diz respeito à classificação, generalização e convenção de um significado. As funções psicológicas de elevado grau são mediadas pelos signos, tanto para dominar ou orientar (Ibid., p. 42). Na gênese da formação de um conceito, o signo é a palavra que desempenha o papel mediador, transformando-se, ulteriormente, em símbolo. Os fenômenos, entre um ser humano e o universo, não podem ser explicados ou compreendidos numa esfera que não seja sígnica; e o acesso ao mundo dos signos só pode ser adquirido por meio dos textos, isto é, da linguagem implantada nas Ciências Humanas. Bakhtin diz “Não há possibilidade de chegar ao homem e sua vida, senão através de textos sígnicos criados ou por criar” (FREITAS, 1994, p. 17). Esta posição confirma o pensamento de Vygotsky em relação aos sistemas primitivos de comunicação, que entram em ação na ausência de signos: a residência da linguagem na moldura do ser vivente é uma representação fenomênica da realidade, exercida no expediente totalitário das Ciências Naturais. Para Bakhtin, só há dialogismo nas Ciências Humanas porque outro sujeito que dialoga se posiciona numa forma heterológica de conhecimento (Ibid., p. 18). Luria destaca que o desenvolvimento posterior do processo de alfabetização abarca a assimilação dos sistemas simbólicos da escrita elaborada em uma cultura específica, associado à utilização de símbolos para exemplificar e apressar o fenômeno de recordação. Isto enuncia a respeito do laço de desenvolvimento entre língua/linguagem e mediação simbólica (CASTORINA; et alii, p. 67). Piaget observou que, para a criança, a palavra é parte do objeto ou, pelo menos, na mente dela, não se distingue do objeto que tem como referente. Para a mente de um adulto, geralmente, a palavra se distingue de um objeto (TERWILLIGER, 1974, p. 92). Acentuando esse fato, Vygotsky (2002, p. 34) registra que a criança aprende a função simbólica das palavras por meio das perguntas, ela procura aprender os signos associando as palavras aos objetos. Esse é o ponto de encontro da trajetória do desenvolvimento da linguagem e do pensamento. 2.1.2 A complexidade do agregado linguístico É uma presunção estabelecer que a complexidade de um agregado linguístico se constitui da soma de conexões simples. Terwilliger (1974, p. 21) diz “Essa

presunção é manifestamente errônea, pois o ‘somar’ não leva em conta a ordem necessária das partes”. Há numerosos processos sequencialmente ordenados sobre os quais ignoramos todos. Um dos aforismos de Bacon exemplifica que a natureza é o habitat da linguagem, e sua complexidade é diretamente proporcional ao seu tamanho (2001, p. 7). Sustenta: “A natureza supera em muito, em complexidade, os sentidos e o intelecto. Todas aquelas belas meditações e especulações humanas, todas as controvérsias são coisas malsãs. E ninguém disso se apercebe”. A complexidade da linguagem existe em função do entrelaçamento dos pacotes de agregados que nelas coexistem. O funcionamento da mente na linguagem do senso comum demonstra palavras que traduzem experiências, esperanças, medos e anseios; entendimento aparentemente simples a partir do bom senso, seja ele decodificado ou criptografado. Por outro lado, o funcionamento do cérebro sob o vocábulo dos cientistas retrata a linguagem dos neurônios, enzimas e axônios, e eles não servem para a compreensão de outros módulos subjacentes. Claxton diz: Os seres humanos são sistemas, e uma das coisas que isso implica é terem propriedades em níveis ‘superiores’ de organização não previsíveis ou explicáveis em termos das propriedades dos níveis ‘inferiores’. Em cada nível de discurso precisamos de uma nova linguagem para falar de ‘totalidades’, uma linguagem fundamentada na linguagem das ‘partes’, mas apta a dizer coisas que a linguagem das ‘partes’ não é capaz de dizer. (CLAXTON, 1995, p. 50) De acordo com os princípios de Croft & Cruse (FIT, 2010, p.

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