A importância da presença de elementos proféticos na pregação atual

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Published on February 15, 2014

Author: guilhermeetainanpaim

Source: slideshare.net

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Observa-se que a igreja atual tem enfrentado algumas crises no que diz respeito à pregação. Alguns elementos básicos da mensagem como a denúncia do pecado, o chamado ao arrependimento, o anúncio do juízo e da esperança de salvação estão sendo deixados de lado por muitos pregadores. Este trabalho tem como objetivo demonstrar a importância destes elementos para a pregação atual. Esses elementos são encontrados logo nos primeiros pregadores, os profetas do Antigo Testamento. Assim, o estudo será desenvolvido a partir da pregação destes profetas, apontando que os elementos discutidos estão fortemente presentes em sua mensagem. Além disso, o presente trabalho demonstrará que tais elementos também estavam presentes na mensagem dos pregadores do Novo Testamento, reforçando assim a sua importância. Fará também uma análise da pregação atual, discutindo algumas das principais razões para a perda de tais elementos e apresentará alguns fatores importantes para uma pregação profética nos dias atuais, destacando os benefícios que ela pode trazer para a igreja e a evangelização.

GUILHERME ZIMBRÃO PAIM A IMPORTÂNCIA DA PRESENÇA DE ELEMENTOS PROFÉTICOS NA PREGAÇÃO ATUAL: PREGANDO COMO OS PROFETAS DO AT SETECEB - SEMINÁRIO TEOLÓGICO CRISTÃO EVANGÉLICO DO BRASIL BACHAREL EM TEOLOGIA ANÁPOLIS – 2011

i GUILHERME ZIMBRÃO PAIM A IMPORTÂNCIA DA PRESENÇA DE ELEMENTOS PROFÉTICOS NA PREGAÇÃO ATUAL: PREGANDO COMO OS PROFETAS DO AT Monografia apresentada junto ao curso de Teologia do Seminário Teológico Cristão Evangélico do Brasil como requisito final à obtenção do grau de Bacharel em Teologia sob a orientação de Franck Neuwirth SETECEB - SEMINÁRIO TEOLÓGICO CRISTÃO EVANGÉLICO DO BRASIL BACHAREL EM TEOLOGIA ANÁPOLIS – 2011

ii TRABALHO DE CONCLUSÃO DO CURSO DE BACHAREL ORIENTADOR: Franck Neuwirth MEMBROS: 1. ORIENTADOR: Franck Neuwirth 2. ________________________________________________________________________ CURSO: BACHAREL EM TEOLOGIA Nota final: _____________________ Trabalho de Conclusão de Curso aprovado em _____/_____/__________ Com ressalvas a: _____________________________________________________________ SETECEB - SEMINÁRIO TEOLÓGICO CRISTÃO EVANGÉLICO DO BRASIL BACHAREL EM TEOLOGIA ANÁPOLIS – 2011

iii Dedicatória Dedico a Deus, o Senhor da minha vida, à minha esposa, Tainan, com imenso amor e carinho e à minha filha Alice, presente que o Senhor nos deu durante o curso no seminário. A Deus toda a glória.

iv Agradecimentos Agradeço a Deus pelo sustento diário e pelas bênçãos dispensadas sobre mim durante estes quatro anos de curso. Louvado seja Aquele que me chamou e capacitou para a boa obra, à minha fiel esposa, Tainan, que me auxilia em todos os momentos que preciso. Sem ela nada disso seria realidade, muito obrigado por tudo, te amo, aos familiares que, mesmo de longe, sempre me apoiaram nessa jornada no seminário, aos irmãos da Igreja Cristã Evangélica de Queiroz e congregações, e também aos demais mantenedores por acreditarem no meu chamado e investirem em minha vida, aos professores David Fernando Meier, por me direcionar na fase inicial do trabalho, e Franck Neuwirth, por me orientar com toda paciência durante a elaboração do mesmo.

v Epígrafe “Porque a todos a quem eu te enviar irás; e tudo quanto eu te mandar falarás. Não temas diante deles, porque eu sou contigo para te livrar, diz o SENHOR” Jeremias 1.7b e 8

vi Resumo Observa-se que a igreja atual tem enfrentado algumas crises no que diz respeito à pregação. Alguns elementos básicos da mensagem como a denúncia do pecado, o chamado ao arrependimento, o anúncio do juízo e da esperança de salvação estão sendo deixados de lado por muitos pregadores. Este trabalho tem como objetivo demonstrar a importância destes elementos para a pregação atual. Esses elementos são encontrados logo nos primeiros pregadores, os profetas do Antigo Testamento. Assim, o estudo será desenvolvido a partir da pregação destes profetas, apontando que os elementos discutidos estão fortemente presentes em sua mensagem. Além disso, o presente trabalho demonstrará que tais elementos também estavam presentes na mensagem dos pregadores do Novo Testamento, reforçando assim a sua importância. Fará também uma análise da pregação atual, discutindo algumas das principais razões para a perda de tais elementos e apresentará alguns fatores importantes para uma pregação profética nos dias atuais, destacando os benefícios que ela pode trazer para a igreja e a evangelização. Enfim, chegará à conclusão que tais elementos são extremamente importantes e que existe uma urgente necessidade de trazê-los de volta para os púlpitos.

vii Sumário INTRODUÇÃO .......................................................................................................................... 1 1. PREGAÇÃO: UMA DEFINIÇÃO BÍBLICA ........................................................................ 4 1.1 Definição no Antigo Testamento ..................................................................................... 4 1.2 Definição no Novo Testamento ....................................................................................... 6 2 – A PREGAÇÃO E OS PROFETAS DO ANTIGO TESTAMENTO ................................... 9 2.1 Definição dos Termos profh,thj e ‫9 ............................................................................. נָ ביא‬ ִ 2.2 Os Profetas como Pregadores ......................................................................................... 13 2.2.1 Chamados para Proclamar ........................................................................................ 14 2.2.2 Proclamando a Palavra de Deus ............................................................................... 16 2.3 Os Elementos da Pregação Profética .............................................................................. 17 2.3.1 Presente e Futuro ...................................................................................................... 18 2.3.2 A Denúncia do Pecado ............................................................................................. 19 2.3.3 O Anúncio do Juízo .................................................................................................. 21 2.3.4 O Chamado ao Arrependimento ............................................................................... 23 2.3.5 O Anúncio de Esperança e Salvação ........................................................................ 25 3. A PREGAÇÃO PROFÉTICA NO NOVO TESTAMENTO ............................................... 27 3.1 Elementos proféticos em João Batista ............................................................................ 27 3.2 Elementos proféticos em Jesus ....................................................................................... 28 3.3 Elementos proféticos nos apóstolos ................................................................................ 30 4. A PREGAÇÃO ATUAL E O SEU DECLÍNIO .................................................................. 33 4.1 A Perda da Primazia ....................................................................................................... 33 4.2 A Perda dos Elementos Proféticos .................................................................................. 35 4.2.1 As Influências do Pensamento Pós-Moderno........................................................... 35 4.2.2 Aprovação e Sucesso: negando fidelidade à Palavra ............................................... 37 4.2.3 A Psicologização da pregação .................................................................................. 39

viii 5 – FATORES IMPORTANTES PARA UMA PREGAÇÃO PROFÉTICA NOS DIAS ATUAIS E SEUS BENEFÍCIOS ............................................................................................. 42 5.1 Visão Correta da Função Profética ................................................................................. 42 5.2 Pregação Expositiva da Palavra de Deus ........................................................................ 44 5.3 Benefícios da Pregação Profética.................................................................................... 45 CONCLUSÃO .......................................................................................................................... 48 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................................................... 50

INTRODUÇÃO A pregação, sem dúvida alguma, é um importante meio pelo qual Deus tem transformado vidas durante a história da humanidade. Basta olharmos para trás e perceberemos tal realidade durante os séculos passados. O mais fascinante, é o fato de que Deus não escolheu seres angelicais, mas escolheu os homens para cumprirem a tarefa de pregar a Sua Palavra. Mesmo com todas as suas limitações, os homens têm se espalhado pelo mundo, cumprindo essa missão. Por ser algo tão especial, a pregação sempre teve destaque na Bíblia. Ao folhearmos a Palavra, não é difícil encontrarmos grandes pregadores que podem e devem servir de exemplos para os pregadores atuais. Esses grandes pregadores não são encontrados somente no Novo Testamento, mas também no Antigo Testamento. Portanto, baseando-se neste último, desejamos apresentar a pregação dos profetas como exemplo para a pregação atual. Nessa monografia, desenvolveremos um estudo a respeito da pregação dos profetas do Antigo Testamento, destacando os elementos principais da sua pregação, que são a denúncia do pecado, o anúncio do juízo, o chamado ao arrependimento e o anúncio de esperança e salvação, com o objetivo de demonstrar a importância da presença desses elementos proféticos na pregação atual. Chamaremos esses elementos de “elementos proféticos”, não porque aparecem exclusivamente nos profetas, mas porque aparecem primeiramente, e com mais frequência e intensidade na mensagem profética. Para esse tipo de estudo e aplicação, também será necessária uma avaliação da pregação atual, a fim de fazermos uma comparação entre a mensagem dos profetas e a mensagem atual. Serão pesquisados os elementos da pregação dos Profetas Anteriores e Posteriores do Antigo Testamento, com base na divisão feita na Bíblia Hebraica. Os Profetas Posteriores já são conhecidos por nós, são eles: Isaías, Jeremias, Ezequiel, e os doze menores. A Bíblia Hebraica não inclui Daniel e Lamentações como Profetas posteriores. Eles são classificados como escritos. Os Profetas Anteriores consistem nos livros de Josué, Juízes, Samuel e Reis. O objetivo com relação à pesquisa da mensagem dos profetas não é de analisar cada profeta com

2 suas peculiaridades, mas destacar, de maneira geral, os elementos principais da mensagem profética. Entendemos e justificamos a necessidade desse trabalho pelo fato de que, atualmente, muitos pregadores estão se desviando de uma mensagem centrada em Deus e na Sua Palavra. John MacArthur (2009, p.1) confirma esse fato dizendo que “os pregadores estão horrorizados com o fato de que a ofensa do evangelho pode colocar alguém contra eles, por isso omitem deliberadamente partes da mensagem que o mundo não aprovará”. Com isso, elementos básicos da pregação, como o pecado, arrependimento, juízo e salvação estão sendo negligenciados no púlpito. Assim, apontando para os profetas como pregadores, queremos desafiar os pregadores atuais a manterem-se fiéis na pregação. No desenvolvimento dessa pesquisa, inicialmente, tentaremos formular uma definição bíblica da pregação. Não podemos falar de tão nobre tarefa, sem antes nos voltarmos à Palavra de Deus, buscando entender o que é a pregação. Assim, para que essa definição seja realmente bíblica, torna-se necessária uma análise dos principais termos nas línguas originais referentes à pregação, tanto do Novo Testamento como do Antigo Testamento. Depois de entendermos melhor sobre o que é a pregação, estudaremos acerca da relação dos profetas com ela, buscando entender quem eram os profetas, através da definição dos termos originais referentes à função destes, demonstrando, assim, que seu principal serviço era pregar a Palavra de Deus. Esse será um importante passo para esse estudo, pois nele também faremos uma análise da pregação dos profetas e demonstraremos, através de textos bíblicos, os seus principais elementos. Com o objetivo de reforçar a importância dos elementos proféticos para a pregação de hoje, faremos uma análise da pregação no Novo Testamento. Nessa análise, apontaremos a presença dos elementos da pregação dos profetas do Antigo Testamento na pregação neotestamentária. Esse apontamento será feito através de um resumo, apresentando os textos bíblicos que comprovam a presença de tais elementos na da pregação de João Batista, do Senhor Jesus e dos apóstolos. Em seguida, estudaremos sobre a pregação atual e a sua relação com os elementos proféticos. Primeiramente, refletiremos sobre o declínio e a perda da primazia da pregação em nossas igrejas. Depois, então, demonstraremos que, junto com a perda da primazia, a pregação também tem perdido os elementos proféticos. Deste modo, apresentaremos algumas razões para a perda desses elementos na pregação atual, discutindo as influências do pensamento

3 pós-moderno, o desejo por aprovação e sucesso por parte dos pregadores e a tendência da psicologização do púlpito. Antes de concluirmos, destacaremos alguns importantes fatores para uma pregação profética na atualidade. Em primeiro lugar, discutiremos sobre a necessidade de uma visão correta da função profética. Nesse ponto, não teremos o objetivo de discutir o dom de profecia no Novo Testamento, pois, nesse caso, fugiríamos muito do tema proposto. Contudo, refletiremos se podemos comparar o pregador atual com o profeta do Antigo Testamento. Em seguida, apresentaremos um direcionamento de como aplicar tais elementos na pregação de hoje, demonstrando a exposição bíblica como o caminho para tal aplicação, também destacaremos a necessidade da capacitação do Espírito Santo para que tal aplicação aconteça. Além disso, para que a importância dos elementos proféticos seja mais realçada, relacionaremos os benefícios que a presença dos elementos proféticos no púlpito atual pode gerar. Com essas considerações, perceberemos que a pregação atual, por causa de seus desvios, precisa retornar com urgência a uma abordagem profética. Entenderemos também que tal abordagem não se refere ao estilo da pregação, mas principalmente à mensagem. Concluiremos que os elementos proféticos são realmente importantes para a pregação de hoje, por isso, precisam ser resgatados. Certamente, os profetas do Antigo Testamento são ótimos modelos de fidelidade à Palavra, com os quais podemos aprender a servir melhor a Deus no ministério da pregação.

4 1. PREGAÇÃO: UMA DEFINIÇÃO BÍBLICA Hoje em dia, no contexto brasileiro, ouvimos muito falar sobre pregação. Andando nas ruas podemos facilmente encontrar cartazes, ouvir anúncios e receber convites para ouvir algum orador, alguém que tem algo a comunicar. Com todo esse movimento, muitas palavras estão sendo utilizadas a fim de descrever o ofício de alguém que comunica uma mensagem. É bem comum recebermos um convite a fim de ouvir uma palestra, pregação, sermão, estudo, preleção e outros. Dentro desse contexto, nosso desafio é buscar entender e trazer de volta o sentido bíblico da pregação. Pensando nisso, desejo, nesse primeiro capítulo, buscar uma definição bíblica da pregação. Ao contrário do que muitos pensam; a pregação não pode ser definida somente com base no Novo Testamento. Este nos traz uma iluminação bem abrangente acerca da pregação. Contudo, existe um desdobramento da pregação desde os primórdios do Antigo Testamento, isso faz com que toda a Bíblia seja necessária na busca pela definição da pregação. Sendo assim, não podemos buscar uma definição da pregação sem primeiramente nos voltarmos ao Antigo Testamento. 1.1 Definição no Antigo Testamento No Antigo Testamento encontramos as palavras ‫( ק ִריאה‬qerî’â), “proclamação”, e ‫ּבׂשר‬ ָ ְ (, “dar boas notícias, pregar, mostrar, tornar público” que descrevem um pouco a respeito da pregação. A palavra ‫( ק ִריאה‬qerî’â), “proclamação”, aparece nesta forma somente ָ ְ uma vez, quando, pela segunda vez, Deus diz a Jonas: “Dispõe-te, vai à grande cidade de Nínive e proclama contra ela a mensagem que eu te digo” (Jn 3.2).1 A palavra da qual ‫קְ ריָאה‬ ִ (qerî’â) deriva é ‫( ק ָרא‬qara’) “chamar, convocar, recitar”, que tem como raiz qr’: ָ A raiz qr’ denota basicamente a enunciação de um vocábulo ou mensagem específica. No caso deste último uso, a enunciação é dirigida geralmente a um receptor específico com o objetivo de obter uma resposta específica, por conseguinte, pode-se traduzir o verbo por “apregoar, convidar” (HARRIS, 1998, p.1364). 1 No texto de (Jn 3.2), além de ‫( ק ִריאה‬qerî’â), também aparece a palavra ‫( ק ָרא‬qera’), traduzida por “proclama”. ָ ְ ָ֤ ְ Todas as duas são derivadas da raiz qr’.

5 Como Harris observa, as palavras derivadas da raiz qr’ dão basicamente uma ideia de “divulgação de uma mensagem”. Em algumas passagens podemos encontrar palavras dessa raiz sendo utilizadas para descrever uma mensagem vinda da parte de Deus. Em Jeremias 3.12 Deus diz ao profeta: “Vai, pois, e apregoa estas palavras para o lado do Norte e dize: Volta, ó pérfida Israel, diz o SENHOR, e não farei cair a minha ira sobre ti, porque eu sou compassivo, diz o SENHOR, e não manterei para sempre a minha ira”. Nesse caso, a palavra traduzida por “apregoa” é ‫( קָרא‬qara’). Aqui vemos claramente Deus entregando uma mensagem ao profeta. ָ Tal mensagem deveria ser recebida de Deus e “apregoada” a um destinatário específico. Observe que assim como o destinatário, a mensagem e o propósito dela são específicos. Temos uma mensagem específica, “Volta, ó pérfida Israel...”, um destinatário específico, “lado do Norte”, e um propósito específico, a conversão de Israel. Portanto, podemos dizer que a pregação no Antigo Testamento possui essa dinâmica de recepção e transmissão da mensagem. Isto é, receber a mensagem específica de Deus e transmiti-la a um destinatário específico para atingir um propósito específico.2 A palavra ‫( ּבׂשר‬) “dar boas notícias, pregar, mostrar, tornar público” e seus derivados, aparecem na maioria das vezes nos livros de Samuel, Reis e Isaías. Por sua vez, Harris (1998, p.226-227) explica que ‫( ּבׂשר‬) é considerada uma raiz comum nas línguas semíticas e traz consigo um sentido de “trazer novas, especialmente relativas a encontros militares”, contudo não necessariamente sempre são boas novas, pois também encontramos ‫( ּבׂשר‬) se referindo a más notícias.3 Como os livros de Samuel e Reis são especialmente cheios de batalhas militares, é compreensível que ‫( ּבׂשר‬) apareça na maioria das vezes nesses dois livros. Porém, o sentido de ‫( ּבׂשר‬) ultrapassa o ambiente militar e alcança um sentido teológico mais profundo em alguns textos específicos, especialmente em Isaías: Esse conceito de mensageiro recém chegado (sic) do campo de batalha encontra-se no âmago dos usos mais teologicamente fecundos em Isaías e em Salmos. Aqui é o Senhor que é vitorioso sobre os seus inimigos. Por causa da sua vitória, ele vem agora libertar os cativos (Sl 68.11[12]; Is 61.1). A sentinela espera ansiosamente pelo mensageiro (Is 52.7; cf 2 Sm 18.25 e ss), que trará as boas novas. A princípio, somente Sião conhece a verdade (Is 40.9; 41.27), mas finalmente todas as nações contarão a história (Is 60.6). A realidade deste conceito só é finalmente encontrada em Cristo (Lc 4. 16-21; 1Co 15.54-56; Cl 1.5, 6; 2.13-15) (HARRIS, 1998, P. 227). 2 Outras passagens onde os verbos da raiz qr’ descrevem uma mensagem específica vinda da parte de Deus (Jz 7.3; Jr 3.12, 11.6, 19.2, Is 40.6, 58.1; Zc 1.14,17, 7.7,13). 3 Entre outros, posso destacar dois eventos em Samuel em que ‫( ּבׂשר‬basar) aparece: morte de Saul (1Sm 31.9; 2Sm 1.20; 4.10) e a morte de Absalão (2Sm 18.19).

6 Levando em conta a observação de Harris, podemos afirmar que ‫( ּבׂשר‬) nesses textos citados acima, alcança um significado teológico mais profundo. Pois não se refere às boas notícias de uma batalha de homens, mas refere-se às “boas novas de salvação”, não se refere às boas notícias de um reino humano, mas refere-se às boas novas do Reino de Deus. É nesse sentido que o verbo hebraico aparece no texto de Isaías: “O Espírito do SENHOR Deus está sobre mim, porque o SENHOR me ungiu para pregar boas-novas aos quebrantados, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a proclamar libertação aos cativos e a pôr em liberdade os algemados” (Is 61.1). Em última instância, o texto de Isaías 61.1-3 se cumpre em Cristo, pois ele é o que vem trazer as boas novas (cf. Lc 4.16-21). Porém, não podemos descartar que o profeta também se vê como aquele que prega as boas novas. Nesse caso, Ridderbos (1995, p.487) observa que “as duas interpretações não precisam excluir-se mutuamente”.4 A análise teológica de ‫ק ָרא‬() e ‫( ּבׂשר‬) explica que a pregação no Antigo ָ Testamento é “o ato de proclamar a mensagem de Deus ao homem”. Essa mensagem também é descrita como “boas novas de salvação”, pois já aqui no Antigo Testamento a intenção é trazer o homem para perto de Deus. As duas palavras hebraicas analisadas possuíam um significado comum como “chamar, convocar” e “trazer boas notícias de guerra”. Porém, foram escolhidas pelos escritores bíblicos para descrever a nobre tarefa da pregação. 1.2 Definição no Novo Testamento No Novo Testamento encontramos as palavras euvaggeli,zw () “anunciar boas novas, proclamar, pregar”, khru,ssw () “anunciar, tornar conhecido, proclamar”, kh/rux () “arauto”, diagge,llwn () “proclamar, fazer conhecido” e katagge,llw () “proclamar”. Todas essas palavras e seus derivados aparecem se referindo de alguma maneira ao ofício da pregação. Dentre essas palavras, quero destacar euvaggeli,zw () e khru,ssw (), pois são mais utilizadas e de maneira geral nos ajudam a entender a definição neotestamentária da pregação. A palavra euvaggeli,zw () e palavras derivadas, muitas vezes são utilizadas na LXX para traduzir o hebraico ‫( ּבׂשר‬) e seus derivados, verbo que em Isaías 61.1-3 se 4 Sobre a interpretação completa de Isaías 61 (Cf. Hidderbos, 1995, p. 487-492).

7 refere às “boas novas de salvação”.5 Para entendermos melhor sobre a proclamação das boas novas no Novo Testamento, devemos não só prender a nossa atenção ao verbo euvaggeli,zw (), mas também ao substantivo euvagge,lion (). Coenen (2000, p.762) observa que no Novo Testamento “a ação da proclamação não se apresenta apenas pelo verbo euangelizomai (como e.g. em 1Co 1.17), como também por euangelion que se emprega como substantivo da ação. Assim, em 2Coríntios 8.18 euangelion significa a ‘pregação do evangelho’”. Assim, tanto o verbo como o substantivo em vários contextos do Novo Testamento referem-se à proclamação do evangelho. Além disso, Coenen (2000, p.762) diz que “o genitivo nas frases ‘evangelho de Deus’, ou ‘evangelho de Cristo’ e ‘do Filho de Deus’ (e.g. Rm 1.1; 15.16; 1Co 9.12; 2Co 2.12) deve ser tomado tanto como objetivo quanto como subjetivo: Cristo ou Deus é tanto o conteúdo quanto o autor do evangelho”. Aquele que proclama o evangelho está proclamando não uma mensagem da sua parte, mas de Deus, mensagem essa que o conteúdo tem a ver com o próprio Deus. Em Lucas 9.6 os discípulos percorrem as “aldeias anunciando o evangelho” euvaggelizo,menoi (). Eles não anunciavam uma mensagem que não viera deles, mas de Deus. O próprio Jesus os enviou a pregar, portanto, era debaixo da autoridade de Jesus que eles anunciavam a mensagem. Nas páginas do Novo Testamento temos essa mensagem escrita, porém, Coenen (2000, p.762) observa que “por mais variados que sejam a ênfase e o desenvolvimento do termo euangelion no NT, sempre se refere à proclamação oral da mensagem de salvação, e nunca alguma coisa fixada por escrito, tal como um livro ou uma carta”. Olhando a partir dessa perspectiva para o termo euangelion, podemos entender melhor a importância que o Novo Testamento dá à proclamação oral da mensagem da salvação. A mensagem escrita para preservação precisa ser transmitida oralmente por pregadores da palavra de Deus. Portanto, podemos dizer que euvaggeli,zw () é a “proclamação das boas novas de salvação de Deus ao homem, exercida debaixo da autoridade do próprio Deus” A palavra khru,ssw (), na LXX traduz o termo hebraico ‫ ָק ָרא‬() cerca de nove vezes.6 Assim como acontece com euvaggeli,zw () e ‫( ּבׂשר‬), também acontece com khru,ssw () e ‫ ָק ָרא‬(), existe uma aproximação entre os sentidos dos 5 ‫( ּבׂשר‬basar) verbo que estudamos anteriormente (cf. cap. 1.1). Isso sugere uma aproximação entre o sentido teológico de euvaggeli,zw (euangelizo) e ‫( ּבׂשר‬basar). 6 ‫ק ָרא‬(qara’) verbo que estudamos anteriormente (cf. cap. 1.1). ָ

8 verbos hebraico e grego. Por mais que exista alguma aproximação entre os verbos, devemos entender khru,ssw () especialmente no contexto do Novo Testamento. O verbo khru,ssw () no Novo Testamento aparece se referindo a objetos variados, algumas vezes o objeto é o evangelho (1Ts 2.9; Gl 2.2; Mc 1.14, 13.10; Mt 4.23), outras vezes é o próprio Jesus (1Co 1.23, 15.12; 2Co 1.19), quando se refere a proclamação de João Batista o objeto é o batismo (Mc 1.4; Lc 3.3; At 10.37), em Lucas e Mateus o objeto é o Reino (Lc 8.1, 9.2, At 20.35; Mt 4.23, 9.35) (Coenen, 2000). Com isso, podemos entender que khru,ssw () não é usado para especificar o conteúdo da mensagem, mas sim usado para denotar a proclamação como um meio para transmissão da mensagem. Vemos isso na figura do kh/rux () “arauto”, que era um servo real incumbido de proclamar em alta voz os vários decretos do rei, independente do conteúdo da mensagem, o papel do arauto era proclamar7. Da mesma forma khru,ssw () enfatiza a proclamação e não o conteúdo: O conceito totalmente predominante no NT, da proclamação como processo e evento, cujo conteúdo só pode ser determinado por uma definição mais exata, é confirmado pela freqüência (sic) consideravelmente maior do emprego do verbo em comparação com os substantivos. Kerysso é um de um certo número de verbos formais de informação e comunicação, que conotam certos meios de comunicação, mas que não se limitam quanto ao conteúdo (COENEN, 2000, vl 2, p. 1862). Por mais que khru,ssw () não especifique o conteúdo da mensagem, o próprio Coenen reconhece que em Lucas, por exemplo, o verbo é empregado especialmente quando se trata da proclamação da mensagem do reino de Deus que raiou em Cristo (Lc 1.19, 2.10, 3.18, 9.6; At 5.52; 8.4 e segs.).8 Após essa análise, é possível concordar com o que Elwell (2009, p. 172) diz: “nos dois testamentos, as palavras usadas para denotar a pregação possuem o elemento essencial de proclamar ou anunciar”. A mensagem é sempre específica (boas novas de salvação),9 transmitida a um destinatário específico (homem) e com um propósito específico (conversão). Portanto, podemos definir biblicamente que a pregação é “a proclamação das boas novas de salvação para o homem, feita por um indivíduo chamado por Deus para isso, com o propósito trazer o homem novamente para perto de dEle”. 7 O verbo khru,ssw (kerysso) é derivado do substantivo kh/rux (keryx). No NT kh/rux (keryx) é traduzido como “pregador” (Cf. Coenen, 2000, vl 2, p. 1861). 8 Para ver o argumento completo ( Cf. Coenen, 2000, vl 2, P. 1865-1866). 9 Com “boas novas de salvação” não me refiro somente ao Evangelho plenamente entendido no NT, mas me refiro também ao AT. No AT as mensagens de Deus transmitidas pelos pregadores eram sempre “boas novas de salvação”. Deus “falava” para trazer o homem para Si. Mesmo que não citasse Cristo, de alguma forma apontava para Ele.

9 2 – A PREGAÇÃO E OS PROFETAS DO ANTIGO TESTAMENTO Após definirmos a pregação usando toda a Bíblia, precisamos voltar-nos mais especificamente para os profetas do Antigo Testamento, a fim de entendermos melhor a relação deles com a pregação. Esse é um importante passo na nossa linha de raciocínio, pois visa demonstrar os profetas como verdadeiros pregadores e apresentar os principais elementos da pregação profética. 2.1 Definição dos Termos profh,thj e ‫נָ ביא‬ ִ Em nossos dias, exceto nas igrejas conservadoras, encontramos poucas pessoas que consideram os profetas como pregadores da palavra de Deus. Existe uma ideia popular sobre o profeta que é muito influenciada e está fundamentada nos movimentos neopetencostais. Essa concepção popular diz que o profeta é aquele que anuncia o futuro, pode prever o que vai acontecer, consegue ver e descobrir o que as pessoas estão passando, antes que alguém o revele. Na ideia popular o profeta é simplesmente um vidente a quem podemos recorrer para recebermos orientação. Assim, o profeta pode ser comparado facilmente com um cartomante ou qualquer outro tipo de vidente. A visão bíblica do profeta não é essa. É claro que temos o elemento de predição presente nos profetas. Porém, como veremos adiante, o fato de predizer não é um fim em si mesmo, como acontece com um adivinho, mas sempre tem uma relação com o presente. Para entendermos melhor quem eram os profetas e qual era a sua função, devemos trabalhar na definição dos termos profh,thj ( e ‫נָ ביא‬. ִ O termo “profeta” que hoje temos no português vem do grego profh,thj (. Na LXX, o termo grego traduz o hebraico  por isso, é importante buscarmos o significado de  no Antigo Testamento.10 A tradução do Antigo Testamento para o grego foi feita em Alexandria, no Egito. Ali existia uma comunidade de judeus desde a sua fundação por Alexandre o Grande, em 331 a.C. Segundo Youngblood (2004), esses judeus já haviam esquecido sua língua nativa e falavam somente o grego, por isso perceberam sua necessidade de terem as Escrituras hebraicas no idioma que entendiam. Ele também destaca 10 A LXX, Septuaginta, é a primeira tradução do Antigo Testamento, a qual foi feita do hebraico para o grego. Recebe o nome de Septuaginta porque, segundo a tradição, o Pentateuco foi traduzido por setenta anciãos que foram de Israel para Alexandria com esse propósito.

10 que primeiro foi traduzido o Pentateuco, pouco antes de 200 a.C. e as outras porções foram traduzidas no século seguinte. No período da tradução da LXX, na cultura grega o termo  era usado para descrever um porta-voz da divindade diante do povo, proclamador e interpretador da revelação de alguma divindade. No oráculo de Delfos, por exemplo, no templo de Apolo, vemos a sacerdotisa Pítia que sentava num tripé acima da terra onde recebia inspiração e emitia sons incompreensíveis a respeito do futuro. Os que iam consultar o oráculo dependiam dos oficiais do santuário para compreenderem a mensagem. Esses oficiais traduziam os sons enigmáticos de Pítia de maneira que os visitantes pudessem entender; tais oficiais eram chamados de “profetas”.11 O fato de conhecer o pano de fundo grego do termo  não nos faz chegar diretamente à conclusão que os profetas bíblicos se assemelham aos profetas gregos, nem mesmo podemos pensar que os profetas gregos nos ajudam a entender os profetas bíblicos. É claro que existem alguns paralelos que fizeram com que o termo grego se aproximasse do hebraico. Porém, as diferenças são bem mais notáveis e, portanto, imprescindíveis para chegarmos à conclusão de que não podemos conhecer os profetas bíblicos a partir do pano de fundo dos profetas gregos. No quadro a seguir temos algumas diferenças essenciais entre os profetas bíblicos e os gregos: DIFERENÇAS ENTRE OS PROFETAS DO ANTIGO TESTAMENTO E OS GREGOS Profetas do Antigo Testamento Profetas Gregos Eram Monoteístas Eram politeístas Recebiam inspiração direta - a palavra vinha Recebiam inspiração indireta - a palavra dos diretamente de Deus deuses vinha através da sacerdotisa (Pítia) Não precisavam interpretar sons enigmáticos, Precisavam interpretar os sons enigmáticos. pois Deus falava-lhes de maneira Além de interpretar, testavam, completavam compreensível e formulavam o dito final Profetizavam ao comando de Deus Profetizavam somente ao serem consultados Eram chamados por Deus Eram chamados pela instituição oracular Tinham compromisso com a Torá – O Não tinham uma lei como base, tudo chamado para obediência à lei era constante 11 dependia da revelação recebida Para saber um pouco mais sobre o pano de fundo do termo  (Cf. Coenen, 2000, vl 2, p. 1876-1879).

11 Como vimos acima, as diferenças entre os profetas bíblicos e gregos são grandes. Sendo assim, não podemos incorrer no erro de alguns que ressaltam as semelhanças e acabam delimitando o significado bíblico de  dentro do contexto grego. O contexto de  serve apenas para nos esclarecer as razões da utilização do mesmo na tradução do hebraico  Ao ser utilizado na LXX para traduzir , o termo  recebe uma nova roupagem e passa a ser delimitado pelo termo hebraico. Portanto, para entendermos o significado de  no Antigo Testamento, precisamos trabalhar também na definição do hebraico  O termo ‫נָ ביא‬é traduzido basicamente por “porta-voz; profeta”. De acordo ִ com Harris (1998), os estudiosos entendem de duas maneiras esse termo: no sentido passivo e no sentido ativo. Aqueles que entendem esse termo no sentido ativo vão dizer que a função de  é expressar revelações vindas de Deus. Já aqueles que entendem no sentido passivo vão dizer que a ênfase do termo está na atitude de receber a mensagem de Deus e depois proclamá-la. Nessas duas maneiras de entender o termo, não há muita diferença no significado, mas sim na ênfase. Alguns colocam a ênfase no ato de “receber a mensagem” (passivo) e outros no ato de “proclamar a mensagem” (ativo). O significado de  não têm sido encontrado com base na etimologia, pois essa já se perdeu. Contudo, os estudiosos têm buscado o sentido do termo com base no seu uso geral, mais precisamente com base no seu uso em três textos clássicos do Pentateuco. Para chegarmos a um maior entendimento sobre  também precisamos nos voltar para esses textos. O primeiro texto para o qual iremos nos voltar está em Êxodo 7.1-2a: “Então, disse o SENHOR a Moisés: Vê que te constituí como Deus sobre Faraó, e Arão, teu irmão, será teu profeta. Tu falarás tudo o que eu te ordenar; e Arão, teu irmão, falará a Faraó”. Segundo Harris (1998), esse texto nos deixa claro que, independente da sua etimologia,  é alguém que tem autorização para falar em nome de outro. Arão tinha autorização para falar em nome de Moisés diante de Faraó, por isso nesse texto Arão é o profeta ( de Moisés. O segundo texto é o de Números 12.1-8, quando Miriã e Arão disseram: “Porventura, tem falado o SENHOR somente por Moisés? Não tem falado também por nós?” (vs 2). Com essa fala eles estavam se colocando no lugar de Moisés, como mediadores das revelações de Deus. O texto nos mostra que Deus responde a Miriã e Arão mostrando-lhes que Moisés é quem era o profeta no meio deles: “se entre vós há profeta, eu, o SENHOR, em visão a ele,

12 me faço conhecer ou falo com ele em sonhos. Não é assim com o meu servo Moisés, que é fiel em toda a minha casa” (vs 6b-7). Moisés era esse profeta porque Deus falava com ele: “Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a forma do SENHOR” (vs 8). Podemos entender com essa passagem que um profeta só pode ser qualificado como tal se Deus falar com ele, dando-lhe uma mensagem para anunciar. Esse era o caso de Moisés.12 O terceiro texto está em Deuteronômio 18.9-22. Nesse texto, Deus proíbe os israelitas de se envolverem em práticas de adivinhação, consultarem necromantes, encantadores, mágicos e etc., pois tudo isso era “abominação ao SENHOR” (vs 12). Contudo, Deus não deixaria Israel sem profeta. Depois de Moisés Deus levantaria um profeta e falaria por meio dele: “Suscitar-lhes-ei um profeta do meio de seus irmãos, semelhante a ti, em cuja boca porei as minhas palavras, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar” (Dt 18.18). Em última análise, esse texto tem cumprimento em Jesus, que foi o maior de todos os profetas, e assim como Moisés, foi o Mediador de uma aliança entre Deus e seu povo.13 Porém, não podemos negar que Deus falou depois de Moisés através de outros profetas. A sucessão de profetas foi estabelecida em Israel e Deus falava por meio dos seus servos profetas. Em Deuteronômio 18 temos dois sinais importantes que revelam o verdadeiro profeta: 1) o profeta verdadeiro fala somente o que Deus manda falar, por isso, só fala em nome de Deus (v. 20). Isso indica que o verdadeiro profeta não deve ensinar em nome de outros deuses, nem desviar o povo levando-o à idolatria e ao engano, pelo contrário, suas palavras devem vir diretamente de Deus para levar o povo à verdade;14 e 2) o profeta verdadeiro fala e a palavra se cumpre (v. 22). Nesse versículo há clareza no fato de que quando o SENHOR fala pelo profeta a palavra se cumpre, mas quando a palavra não se cumpre, o profeta falou de si mesmo e não da parte do SENHOR. Com base nos três textos analisados acima (Êx 7.1 e 2a; Nm 12.1-8; Dt 18.9-22), podemos dizer que  é aquele que tem autorização para falar em nome de Deus, pois Deus fala com ele e também por meio dele. Mais uma vez podemos notar a dinâmica existente entre receber e transmitir a palavra de Deus. Outros termos usados para designar o profeta do Antigo Testamento também podem nos ajudar a entender essa dinâmica. Dentre eles, podemos destacar  () que significa “homem de Deus” e  () que significa “vidente”. 12 Cf. comentário de Harris acerca dessa passagem (Harris, 1998, p.905). (cf. At 3.22-26). 14 Em Dt 13.1-5 Deus alerta o povo a não ouvirem os falsos profetas que enganam e levam à idolatria. 13

13 A expressão “homem de Deus” se refere aos profetas e descreve o íntimo relacionamento do profeta com Deus. É uma designação antiga e foi utilizada para se referir a Moisés (Dt 33.1), Samuel (1Sm 9.6 e 7), Semaías (1Rs 12.22), Elias (1Rs 17.18 e 24) , Eliseu (2Rs 5.8,14 e 15) e outros. A maioria das citações refere-se a personagens que viveram na época da divisão do reino de Israel, por volta de 931, até o início do século VIII, quando morreu Eliseu. O termo “vidente” também aparece no Antigo Testamento descrevendo os profetas.15 Em (1Sm 9.9) também vemos que “vidente” é uma expressão antiga que mais tarde foi substituída por “profeta”. Contudo, Freeman (apud Harris, 1998) chama a atenção para o fato de que o termo “vidente” enfatiza o elemento subjetivo, ou seja, a forma da recepção da mensagem por meio da visão, enquanto  enfatiza o elemento objetivo, que é a proclamação da mensagem recebida. Com base no texto de (1Sm 9.9), não podemos concordar em tudo com Freeman, pois ali é dito que o termo “vidente” foi substituído por “profeta” e não que os termos se complementam. Por outro lado, não podemos descartar o pensamento de Freeman, pois o termo “vidente” também aparece em contextos quando os profetas recebiam revelações por meio de visões.16 Portanto, é mais correto concordar com Osborne que faz a seguinte colocação sobre os diversos termos utilizados para descrever os profetas: “estes não são usados para diferenciar aspectos isolados do papel profético, mas antes são termos usados em épocas ou lugares diferentes. Tudo se refere à função principal do profeta como porta-voz de Deus” (2009, p. 334). 2.2 Os Profetas como Pregadores Até o presente momento tratamos das definições dos termos que se referem aos profetas do Antigo Testamento. Nesse ponto veremos os profetas como pregadores, ou seja, recebendo e proclamando a palavra de Deus aos seus ouvintes. Atualmente, poucas vezes os profetas são vistos como pregadores, mas cada vez mais os estudiosos estão certos de que os profetas eram homens escolhidos por Deus para pregar a sua palavra: 15 16 (Cf. 1Sm 9.9,11,18 e 19; 2Sm 15.27; Is 30.10; 1Cr 9.22; 26.28; 29.29; 2Cr 16.7.10). (Cf. Is 30.10).

14 O profeta, como homem da palavra, não é só mensageiro, mas também pregador; tal ele se mostra quando apresenta, motiva e explica a mensagem de Iahweh, geralmente breve e relativa a um acontecimento iminente, exprimido também os seus sentimentos e opiniões pessoais (SHREINER, 2004, p. 185). O ofício da palavra não acontecia por acaso na vida dos profetas, pelo contrário, eles eram chamados por Deus com o propósito de pregar a Sua mensagem. 2.2.1 Chamados para Proclamar O chamado dos profetas é algo bem individual. Tal chamado acontece de maneira pessoal com cada um deles, porém, todos têm algo em comum, pois foram chamados para proclamar a mensagem de Deus. Lasor (1999, p. 240) confirma essa verdade quando diz que “os profetas bíblicos estavam certos não apenas de que Deus lhes havia falado, mas também de que eram chamados para falar a mensagem de Deus”. O chamado dos profetas é caracterizado pela revelação de Deus a eles. Não eram os profetas que queriam ser proclamadores, nem mesmo em momento algum demonstraram um desejo ou sonho de se tornarem profetas, mas Deus que os comissiona de maneira que eles são surpreendidos pelo chamado de Deus. Amós, por exemplo, demonstra ter sido surpreendido por Deus ao declarar: “Eu não sou profeta, nem discípulo de profeta, mas boiadeiro e colhedor de sicômoros. Mas o SENHOR me tirou de após o gado e o SENHOR me disse: Vai e profetiza ao meu povo de Israel” (Am 7.14b e 15). Amós tinha o seu trabalho e uma vida comum, seus sonhos não pareciam estar voltados para ser um profeta, pelo contrário, ele diz que Deus o tirou das suas atividades, ou seja, ele foi surpreendido por Deus. Além de serem surpreendidos, os profetas também se sentiam coagidos pelo chamado de Deus. Samuel foi chamado para entregar uma mensagem de condenação a Eli e seus filhos, nesse momento ele sentiu-se coagido e diz o texto que ele “temia relatar a visão a Eli” (1Sm 3.15b). O próprio Amós expressa a coação de Deus quando diz: “Rugiu o leão, quem não temerá? Falou o SENHOR Deus, quem não profetizará?” (Am 3.8). Talvez o profeta que demonstra mais claramente a coação de Deus seja Jeremias; ele diz ter sido persuadido, ou seduzido por Deus: “Persuadiste-me, ó SENHOR, e persuadido fiquei; mais forte foste do que eu e prevaleceste.” (Jr 20.7a). Aqui vemos a coação de Deus também porque Jeremias sentiuse forçado, pois o SENHOR foi mais forte que ele. Desde o início, Jeremias tenta negar o chamado, porém, não consegue (Jr 1.1-10).

15 Podemos perguntar: por que Deus age dessa maneira ao chamar os profetas? Ao observarmos a vida de alguns profetas, iremos facilmente perceber a dureza da missão dos profetas. Elias, por exemplo, foi perseguido por Jezabel, e ao fugir, chegou a pedir a morte para si (1Rs 19.4). Jeremias também entrou em crise no seu ministério, ele chegou a amaldiçoar o dia em que nasceu dizendo que preferia não ter nascido (Jr 20.14-18). A tarefa do profeta não era nada fácil, se Deus deixasse que eles escolhessem, certamente eles não aceitariam o chamado, nesse caso a coação torna-se necessária. Ao mesmo tempo em que Deus coagia os profetas, Ele também prometia que estaria com eles, por mais que a tarefa fosse árdua (Jr 1.8). Os profetas poderiam confiar no SENHOR, pois Ele estaria com eles, por isso, eles não deviam temer (Ez 2.6; Êx 3.12). Apesar de não prometer que seria fácil, Deus, para trazer consolo aos profetas, prometia-lhes a Sua presença. O mesmo acontece no Novo Testamento, onde Jesus não promete nenhuma facilidade, porém, promete a Sua presença para aqueles que vão proclamar a sua mensagem (Mt 28.20). No chamado, Deus se revelava aos profetas, porém, nem sempre os profetas eram chamados de maneira sobrenatural: O chamado do profeta pode ocorrer por meio de uma experiência de revelação sobrenatural, como nos casos de Isaías (6.1-13) ou Jeremias (1.2-10); mas também pode ocorrer por meios naturais, por exemplo, quando Elias lançou o seu manto sobre Eliseu (1Rs 19.16), significando a transferência de autoridade e poder, e isso pode envolver também a unção (OSBORNE, 2009, p.332). A maneira como o profeta foi chamado não muda a sua relação com Deus e a mensagem. Alguns tendem a considerar mais capacitados aqueles que receberam o chamado com uma manifestação sobrenatural de Deus, o que não é verdade. Tanto no caso de Isaías e Jeremias, como no caso de Eliseu, o chamado foi confirmado por Deus, pois Deus falou através de cada um deles, independente da forma como aconteceu o chamado. O relato que temos do chamado dos profetas tem funções específicas: A descrição do chamado tem pelo menos duas funções nos livros proféticos. Em primeiro lugar, valida a autoridade do profeta, distinguindo-a daquela loquacidade pretendida pelos falsos profetas. Em segundo lugar, contém resumos dos principais temas dos profetas (LASOR, 1999, p. 240).

16 A autoridade para a proclamação da mensagem não vinha dos profetas, mas vinha de Deus. No chamado, Deus delegava autoridade aos profetas e era debaixo dessa autoridade que eles poderiam levar a mensagem. No Antigo Testamento existiam os profetas profissionais, que eram os profetas cultuais e os profetas da corte.17 Muitos desses profetas profissionais do Antigo Testamento foram considerados falsos profetas. Isso aconteceu porque eles profetizavam sem serem chamados e autorizados por Deus, assim profetizavam mentiras.18 Por outro lado, temos os profetas individuais, tais como Amós, Oséias, Jeremias, Isaías, Miquéias, Sofonias e etc; esses profetizavam com base numa vocação especial, por isso, estavam certos de que não estavam a serviço do santuário ou do rei, mas a serviço de Deus. Deste modo, a descrição que nós temos do chamado nos ajuda a entender a autoridade dos profetas. Os profetas foram chamados para proclamar. Shreiner (2004, p. 176) diz que: “Ser chamado e profetizar estão em relação de causa e efeito”. O chamado foi um marco na vida dos profetas. A partir do chamado, os profetas experimentam momentos de íntima relação com Deus, onde Deus lhes revela a sua palavra. Os profetas agora estavam a serviço de Deus; proclamar a Sua palavra era a missão que eles tinham. 2.2.2 Proclamando a Palavra de Deus Como vimos acima, os profetas tinham a missão de proclamar a palavra de Deus ao povo. Como mensageiros de Deus, eles deveriam anunciar exatamente o que Deus os havia mandado dizer. Vimos também que o chamado os qualificava para falar, não como representantes de uma instituição profética, mas como porta-vozes de Deus. Sendo assim, as palavras dos profetas eram palavras do próprio Deus. É válido citar alguns exemplos que demonstram que a palavra dos profetas eram as próprias palavras de Deus: Jeremias é considerado por alguns como o profeta da “palavra do SENHOR”, isso porque ele é o profeta que mais utiliza a expressão “Assim diz o SENHOR” dentre todos os profetas do Antigo Testamento.19 Na própria vocação de Jeremias Deus diz: 17 Os profetas cultuais eram aqueles que participavam do culto com os levitas e sacerdotes, já os profetas da corte, como o próprio título sugere, profetizavam na corte e eram constantemente consultados pelo rei (cf. Fohrer, 2008, p.305-308). 18 (Cf. 1Rs 22. 5-12). 19 “Conforme J.G.S.S. Thomson, Jeremias empregou ‘Assim diz o SENHOR’ ou frases semelhantes, cerca de cento e cinqüenta e sete vezes, das trezentas e quarenta e nove ocasiões nas quais tais frases se empregam no AT”. (apud. KAISER Jr, 1984, p. 236)

17 “Eis que ponho na tua boca as minhas palavras” (Jr 1.9b). Estava bem claro para Jeremias que o que ele falaria vinha de Deus e não dele, por isso, as expressões “Assim diz o Senhor” e “veio a mim a palavra do SENHOR” são bem frequentes em Jeremias.20 Porém, essas expressões também aparecem em outros profetas, tais como Isaías (Is 7.7), Ezequiel (Ez 5.5), Miquéias (Mq 4.6), Joel (Jl 2.12), Ageu (Ag 1.1), Zacarias (Zc 1.3), além de aparecer também em profetas como Micaías (1Rs 22.19), Elias ( 1Rs 17.14) e Eliseu (2Rs 3.16). É também muito comum encontrarmos passagens em que os profetas usam a primeira pessoa para falarem as palavras de Deus, afirmações como “Eu sou o SENHOR” (Is 45.5), “eu entregarei” (1Rs 20.13) e etc. deixam mais clara essa identificação das palavras dos profetas como palavras de Deus. Portanto, essas passagens confirmam que os profetas tinham consciência de que deveriam pregar somente a palavra do SENHOR, pois para isso é que foram chamados. O fato das palavras dos profetas serem palavras do próprio Deus implica autoridade divina na proclamação profética do Antigo Testamento. O porta-voz oficial de um governo não fala as suas palavras, por isso não fala com a sua própria autoridade, mas com a autoridade do governo que lhe enviou. Assim também é o profeta do Antigo Testamento, pois fala com a autoridade de Deus porque as palavras não são suas, mas de Deus. 2.3 Os Elementos da Pregação Profética Entender que os profetas pregavam a própria palavra de Deus também nos faz perceber a importância dos principais elementos da pregação dos profetas, pois eles não vêm dos profetas, mas de Deus. Estes elementos são baseados nos principais tipos de oráculos presentes na mensagem dos profetas: oráculos de acusação, oráculos de julgamento, oráculos de instrução, oráculos de esperança e oráculo de salvação.21 Tais elementos são partes da mensagem dos profetas, é como se a pregação dos profetas fosse um quebra-cabeça e cada elemento fosse uma peça desse quebra-cabeça. O objetivo desse ponto é conhecer melhor as peças desse quebra-cabeça, a fim de descobrir com mais precisão o que Deus falou por meio desses homens. A palavra pregada pelos profetas revelava o próprio caráter de Deus. 20 Algumas passagens que aparecem essas expressões (Jr 1.2,4,11e13; 2.1; 6.9,16e22; 7.1; 8.4; 9.7,17e23; 10.2; 11.1; 13.1 e etc) 21 De acordo com Hill, esses são os principais oráculos proféticos (Hill, 2007, p. 452). Hill não cita o oráculo de salvação, talvez porque trata-o junto com o de esperança, porém outros estudiosos citam (cf. Sicre, 1996, p. 154). O termo “oráculo” em alguns casos pode significar “provérbio, parábola e metáfora”, porém, na maioria dos casos o termo aparece referindo-se a um discurso profético (Cf. Youngblood, 2004, p. 1051e1052).

18 Cada elemento da pregação profética revela um pouco sobre o Seu amor, Sua misericórdia, Sua santidade, Sua justiça e etc. Assim, podemos dizer que Deus se revela através da pregação dos profetas. Não é possível analisar todo o conteúdo da mensagem dos profetas, esse também não é o objetivo aqui, mas desejo destacar os elementos mais presentes nos profetas em geral. 2.3.1 Presente e Futuro Antes de entrarmos nos elementos em si, precisamos entender a interação que existe entre presente e futuro na pregação profética. Apesar de hoje os profetas serem mais conhecidos como “aqueles que desvendam o futuro”, encontramos várias páginas dos livros proféticos sem nenhuma menção do futuro. Os profetas pregavam de forma relevante para a situação presente do povo, isso porque eles conheciam a situação presente de seus ouvintes. Segundo Shreiner (2004, p. 193), eles tinham a consciência “de que o próprio Deus, depois das intervenções ativas do longínquo passado, continua a intervir em benefício de Israel e principalmente está em ação também no presente”. Ao mesmo tempo em que os profetas eram voltados para o presente, suas pregações também possuíam o que alguns chamam de “previsão”. Contudo, a “previsão” não é a melhor palavra a ser utilizada para a profecia bíblica com relação ao futuro: É verdade que a profecia bíblica lidava com acontecimentos antes de transcorrerem, mas o propósito era que Deus fosse reconhecido por ser o causador dos acontecimentos como parte do seu plano contínuo. Em vez de considerar a profecia um tipo de previsão, julgamos mais útil considerá-la uma ‘ementa divina’. A ementa de uma matéria não prevê o que acontecerá em cada aula do semestre, mas apresenta os planos e as intenções do instrutor para cada período. O significado do documento é que o instrutor está na posição de executá-lo. Do mesmo modo, quando um juiz sentencia um criminoso, ele não ‘prevê’ o que acontecerá com a pessoa. Em vez disso, decreta o que deve ser feito e está na posição de executar a sentença (HILL, 2007, p. 454). É importante entendermos, então, que os profetas estavam somente declarando o que Deus iria fazer. Os profetas não podiam prever, mas Deus que lhes revelava os seus planos. Lasor (1999, p. 248) diz que “a profecia é uma janela que Deus abre para seu povo por meio de seus servos profetas. Por meio dela é possível ver melhor o propósito de Deus e sua obra redentora do que por outros meios”.

19 O futuro faz parte da mensagem dos profetas, contudo, o que virá no futuro quase sempre interage com a situação presente do povo. Um exemplo disso vê-se em Amós 4.1-3, onde Amós denuncia o pecado atual das mulheres de Samaria e declara o que lhes acontecerá no futuro. Outro exemplo está em Jeremias 31.31, onde Deus promete uma nova aliança; essa profecia não estava desconectada da situação presente do povo de Israel, tal profecia se referia ao futuro, mas foi um consolo para o povo que estava condenado ao exílio. Portanto, é um erro pensar que só as profecias que tratavam da situação presente eram relevantes para o povo da época dos profetas. A pregação dos profetas sempre foi relevante para seus ouvintes, mesmo quando se tratava do futuro. Em resumo, podemos dizer que a mensagem dos profetas tem dois aspectos, presente e 22 futuro. Isso nos mostra que os profetas não se prenderam somente no futuro, nem proclamaram somente para o presente, para eles Deus age no presente e agirá no futuro. Além disso, aprendemos que o presente e futuro sempre estão interagindo entre si, de maneira que a mensagem dos profetas nunca deixa de ser relevante para seus ouvintes. Esse entendimento nos trará melhor compreensão dos elementos que vamos tratar a seguir. 2.3.2 A Denúncia do Pecado Esse primeiro elemento é também chamado de “descrição da ofensa” ou “oráculo de acusação”. Em muitos casos, a mensagem que Deus tem para o seu povo não é uma mensagem fácil de ser pregada, nem mesmo fácil de ser ouvida. A atitude de pregar abertamente contra o pecado mostra-nos a ousadia e a coragem dos profetas que antes pareciam medrosos e frágeis.23 Os profetas denunciavam tanto os pecados individuais como os coletivos. Uma característica importante é que os profetas falavam diretamente para quem estavam acusando, assim, raramente falavam da pessoa ou do povo acusado, mas falavam para a pessoa e para o povo acusado. Assim, “visto que não eram filósofos ou teólogos, eles começavam, em primeira instância, por reprovar os pecados individuais que estavam diante dos seus olhos” (SHREINER, 2004, p.345). 22 Os estudiosos do Antigo Testamento frequentemente citam esses dois aspectos na mensagem profética (Cf. Lasor, 1999, p. 246-248) 23 Como vimos no capítulo 2.2.1, tal ousadia e coragem estavam baseadas na certeza de que Deus estava com eles (Jr 1.8; Ez 2.6).

20 A acusação individual pode-se encontrar, por exemplo, em Elias quando ele acusa Acabe de matar Nabote e tomar sua vinha, ele diz: “Mataste e, ainda por cima, tomaste a herança?” (1Rs 21.19). Elias também denuncia o pecado do rei Acazias: “Assim diz o SENHOR: Por que enviaste mensageiros a consultar Baal-Zebube, deus de Ecrom? Será, acaso, por não haver Deus em Israel, cuja palavra se consultasse?” (2Rs 1.16). Outro exemplo clássico é o profeta Natã que acusa Davi pessoalmente: “Por que, pois, desprezaste a palavra do SENHOR, fazendo o que era mal perante ele? A Urias, o heteu, feriste à espada; e a sua mulher tomaste por mulher, depois de o matar com a espada dos filhos de Amom”. (2Sm 12.9). Nos profetas escritores também encontramos acusações individuais, podemos citar Jeremias que denuncia o pecado do rei Jeoaquim (Jr 22.17) e do falso profeta Hananias (Jr 28.15). Isaías também denuncia a arrogância e a blasfêmia contra Deus da parte de Senaqueribe, rei da Assíria (Is 37. 23-25 e 29). Amós acusa o pecado do sacerdote Amazias que queria proibi-lo de profetizar (Am 7.16). O que chama a atenção é o fato de que as acusações dos pecados individuais quase sempre eram dirigidas para os líderes do povo. Vimos acima os reis Davi, Acabe e Jeoaquim sendo acusados, mas também vimos sacerdotes e profetas. Isso demonstra a convicção que os profetas tinham de estarem entregando a palavra de Deus e não a sua palavra. Por causa dessa palavra, eles arriscavam até a sua própria vida ao acusar um rei, por exemplo. O fato é que os profetas confiavam em Deus e tinham a convicção do seu chamado. Além de denunciarem os pecados individuais, os profetas também denunciavam os pecados coletivos. São muitos os exemplos que temos dessas acusações coletivas, porém vamos citar somente alguns. Os profetas não acusavam somente os israelitas, mas também as outras nações. Amós denuncia o pecado de Gaza e Tiro que vendiam escravos para Edom (Am 1.6 e 9), acusa também Edom, os filhos de Amom e Moabe (Am 1.11,13; 2.1). Apesar de profetizar no reino do norte, Amós também acusa o povo de Judá por rejeitar a lei do SENHOR (Am 2.4). Grupos menores também são acusados pelos profetas, Amós acusa os juízes de Israel de praticarem injustiça aceitando suborno (Am 2.6). Sofonias denuncia os pecados dos príncipes, juízes, profetas e sacerdotes de Jerusalém (Sf 3.1-4). Ezequiel obedece a Deus que mandou fazer conhecidas as abominações de Jerusalém, assim ele denuncia o pecado da idolatria, assassinato, imoralidade sexual, injustiça social, profanação do sagrado pelos sacerdotes, mentira e extorsão por parte dos profetas (Ez 22). Miquéias também denuncia a corrupção moral de Israel (Mq 7.1-6). Oséias não deixa passar os pecados de Israel sem

21 denunciá-los, ele diz: “O que só prevalece é perjurar, mentir, matar, furtar e adulterar, e há arrombamentos e homicídios sobre homicídios.” (Os 4.2). Enfim, de maneira geral, podemos ver os profetas pregando contra o pecado: Eles falam do rei e de suas práticas idólatras, de profetas que dizem o que são pagos para dizer, de sacerdotes que não instruem o povo na lei de Javé, de mercadores que empregam balanças adulteradas, de juízes que favorecem o rico e não oferecem justiça ao pobre, de mulheres cobiçosas que levam o marido a práticas malignas para que possam nadar no luxo. Tudo isso é profecia no sentido bíblico (LASOR, 1999, p. 247). Portanto, esse primeiro elemento é sem dúvida um dos mais marcantes na pregação dos profetas. O zelo pela santidade fazia parte dos primeiros pregadores, a palavra verdadeira não era escondida ou mascarada, mas pregada com fidelidade. Os profetas tinham a consciência de que o pecado destroi o homem e o afasta de Deus. Sendo assim, pregar contra o pecado para eles era primordial, pois era um alerta para o homem perdido, além disso, era uma maneira de revelar a santidade de Deus e de demonstrar que a Sua vontade para o homem é que ele também viva em santidade. 2.3.3 O Anúncio do Juízo Esse elemento é também chamado de “oráculo de julgamento” e se refere ao castigo de Deus por causa do pecado. Tal elemento aparece muitas vezes nos profetas, principalmente nos profetas pré-exílicos.24 Segundo Hill (2007), nos profetas pré-exílicos, o julgamento, em geral, era de natureza política, e eram projetados para o futuro próximo. Já os profetas pósexílicos geralmente não projetavam o juízo para o futuro, mas interpretavam as crises contemporâneas como sendo parte do juízo de Deus.25 Em muitos casos, o anúncio do juízo acompanhava a denúncia do pecado. Ou seja, depois de acusar o pecado, o profeta proferia o julgamento que viria da parte de Deus. Um exemplo clássico está no anúncio do profeta Samuel ao rei Saul, ele diz: “Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e a obstinação é como a idolatria e culto a ídolos do lar. Visto que rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei”. (1Sm 15.23). Primeiro Samuel acusa o pecado de Saul, em seguida, anuncia o castigo. Os “ais” dos profetas também fazem essa ligação entre o pecado e o castigo. Sicre (1996, p.152) 24 25 Hill diz que o julgamento constituía cerca da metade dos oráculos nos profetas pré-exílicos (Hill, 2007, p.452) (Cf. Jl 1; Ag 1.6-11).

22 observa que “o ‘ai’ introduz a acusação, seguida do anúncio do castigo”.26 No livro de Isaías 5. 8-10 temos um exemplo disso: 1 - Acusação: “Ai dos que ajuntam casa a casa, reúnem campo a campo, até que não haja mais lugar, e ficam como únicos moradores no meio da terra!” (vs. 8) 2 - Anúncio do castigo: “A meus ouvidos disse o SENHOR dos Exércitos: Em verdade, muitas casas ficarão desertas, até as grandes e belas, sem moradores. E dez jeiras de vinha não darão mais do que um bato, e um ômer cheio de semente não dará mais do que um efa.” (vs. 9-10). Ao usar essa estrutura, os profetas deixam claro o motivo do julgamento de Deus. Além disso, eles destacam que Deus julga com justiça e retidão, pois sabiam muito bem que “O SENHOR é justo” (Sf 3.5a). A pregação sobre o juízo de Deus retira a falsa segurança do povo. Israel achava que por ser o povo escolhido, não receberia o julgamento de Deus. Isaías deixa bem claro que o culto com suas ofertas não dariam um escape para Israel, porque faltava uma vida reta perante Deus (Is 1.10-17). A falsa segurança do povo é alimentada pelos falsos profetas que “curam superficialmente a ferida do meu povo, dizendo: Paz, paz; quando não há paz” (Jr 6:14). Jeremias condena a pregação que traz falsa segurança, para ele essa pregação é uma mentira. Para os verdadeiros profetas o julgamento de Deus era uma realidade, e o povo precisava ser alertado disso. Uma das maneiras mais marcantes dos profetas pregarem sobre o juízo de Deus era o anúncio do “Dia do SENHOR”: No Antigo Testamento, a expressão “Dia de Iahweh” refere-se ao grande dia vindouro de julgamento em que Iahweh se revelará visivelmente e convocará Israel ou as nações para julgamento [...]. Esperava-se que esse “dia” fosse um evento glorioso e feliz, visto que a catástrofe sobreviria sobre os inimigos de Israel, enquanto Israel mesmo se beneficiaria dos efeitos salutares do aparecimento de Iahweh [...]. Os profetas modificaram essa expectação. Amós proclamou que o “Dia de Iahweh” não significava “luz” (salvação), mas “trevas” (desastre) para o Israel pecador (Am 5.18-20) (FOHRER, 2008, p. 346-347). Mais uma vez aqui vemos a falsa segurança de Israel. Não só Amós, mas também vários outros profetas derrubaram essa falsa segurança com a sua pregação. Isaías fala desse mesmo dia chamando-o de “dia da vingança” (Is 34.8), Jeremias chama-o de “dia da ruína” (Jr 46.21), “dia da aflição” (Jr 17.16) e “dia do mal” (Jr 17.17) e Miquéias chama-o de “dia do 26 Sicre tam

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