A ciência e os avanços em psicologia

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Information about A ciência e os avanços em psicologia

Published on June 27, 2016

Author: falcoforado

Source: slideshare.net

1. 1 A CIÊNCIA E OS AVANÇOS EM PSICOLOGIA Fernando Alcoforado* Em meados do século XIX, a Psicologia, era estudada exclusivamente por filósofos. A Psicologia adquiriu o status de ciência com a formulação de teorias sobre o sistema nervoso central ao demonstrar que o pensamento, as percepções e os sentimentos humanos eram produtos desse sistema. A Psicologia é a ciência que estuda o comportamento e as funções mentais. Para se conhecer o psiquismo humano passa a ser necessário compreender os mecanismos e o funcionamento da máquina de pensar do homem – seu cérebro. As principais teorias da Psicologia no Século XX são consideradas por inúmeros autores como sendo o Behaviorismo, a Gestalt e a Psicanálise. O Behaviorismo tornou-se importante por ter definido o fato psicológico de modo concreto, a partir da noção de comportamento. A Gestalt surge como uma negação da fragmentação das ações e processos humanos postulando a necessidade de se compreender o homem como uma totalidade. A Psicanálise, que nasce com Freud na Áustria, a partir da prática médica, postula o inconsciente como objeto de estudo, quebrando a tradição da Psicologia como ciência da consciência e da razão (DAVIDOFF, Linda. Introdução à Psicologia. São Paulo: Makron, 2000 e MASLOW, A. H. (1954). Motivation and personality. New York, NY: Harper, 1954). O avanço tecnológico já se mostrou útil em diversas áreas das ciências. Assim como as outras ciências, a Psicologia tem aproveitado desse avanço tecnológico para aperfeiçoar suas técnicas de investigação e com isso as práticas que guiam seus profissionais. Foi a partir do advento das técnicas de imagem que se tornou possível observar o cérebro em ação, e assim, chamar os anos 1990 de “Década do Cérebro”, com as pesquisas em neurociências tendo um caráter de vanguarda na revolução científica (sendo muito influentes até hoje). As pesquisas sobre cognição e comportamento terminaram por se tornar ainda mais elegantes e explicativas e trouxeram evidências difíceis de refutar. Mas a prática psicológica nesses anos todos de avanço tecnológico aparentemente não havia sentido tanta mudança, nas clínicas, organizações e escolas porque o psicólogo não costumava utilizar muitos instrumentos ou aparelhos avançados para a sua intervenção, no máximo alguns testes psicológicos e neuropsicológicos. A tendência, entretanto, é que esse quadro mude. Psicólogos têm buscado diferentes formas de interagir com seus clientes, seja pelo twitter e blogs de divulgação ou de opinião, ou buscando validar atendimentos por softwares de bate-papo como o MSN. A tecnologia vem ganhando espaço nas discussões das práticas psicológicas. Uma tecnologia já conhecida por muitos, a Realidade Virtual, está sendo utilizada para auxiliar terapeutas em diversos casos, como treinamento, reabilitação cognitiva e motivação para crianças que estão passando por fisioterapia. Isso faz com que, aparentemente, seja da Realidade Virtual que se espere as maiores transformações para a prática psicológica. Estudo realizado na Universidade de Padova, na Itália, uma técnica de reabilitação para o déficit de memória em idosos com Alzheimer utilizando a realidade virtual foi testada. Os resultados apresentados revelaram que, apesar do declínio cognitivo ainda existir nestes idosos, a atenção deles melhorou consideravelmente, permitindo também uma melhora na recordação de informações a longo prazo. Na Alemanha um grupo de pesquisadores avaliou outro uso para a Realidade Virtual – e este aparentemente se tornará ainda mais útil com o tempo – a terapia para fobias. O uso de programas de

2. 2 Realidade Virtual para trabalhar fobias de avião, altura e aranhas já tem se mostrado eficaz em alguns estudos, mas no caso específico da investigação realizada pelos pesquisadores alemães, questionava-se até que ponto uma aranha virtualmente desenhada obteria o mesmo efeito aversivo que uma aranha real para os indivíduos com fobia. A Psicologia do futuro deverá apresentar maior ênfase na ciência, maior ênfase na temática social, teorizações e utilização de modelos matemáticos, trabalhos sobre problemas complexos, maior profissionalização e especialização e integração da Psicologia em torno de um paradigma unificador. O futuro da Psicologia está associado ao futuro da tecnologia. O fato de o mapeamento cerebral se tornar mais barato e portátil no futuro tende a facilitar a criação de modelos cognitivos cada vez mais acurados, por exemplo. Não há como negar a importância do pensamento de Skinner sobre o futuro da Psicologia (SKINNER, B. F. Walden II: uma sociedade do futuro. São Paulo: Herder, 1972). Dentre os grandes pensadores da área, Skinner provavelmente foi aquele que mais refletiu sobre os desdobramentos que tomaria essa ciência. Skinner levanta a necessidade de haver uma ciência do comportamento para resolver os problemas que o mundo enfrentaria como a ameaça de um holocausto nuclear, a explosão populacional ou a destruição do meio ambiente. Skinner previu que soluções mais eficazes para esses problemas no futuro envolveriam a Psicologia, em vez das engenharias. Isso significa que, melhor do que desenvolver mísseis de defesa antibalística, é convencer as pessoas a não dispararem os mísseis de ataque, melhor do que criar métodos anticoncepcionais inovadores é convencer as pessoas a usá-los, melhor do que desenvolver tecnologias menos poluentes é convencer as pessoas a não poluir. Assim, o futuro da humanidade depende do avanço da Psicologia como área do conhecimento (SKINNER, B. F. O mito da liberdade. Rio de Janeiro: Bloch, 1972, SKINNER, B. F. Tecnologia do ensino. São Paulo: Edusp, 1972 e SKINNER, B. F.Walden II: uma sociedade do futuro. São Paulo: Herder, 1972). Mudanças sociais ocorrem e, no entanto, pouco crédito se dá às características cognitivas das pessoas que promovem as mudanças. Existe um avanço tecnológico e computacional que está modificando a maneira como as pessoas são estimuladas, e pessoas mais inteligentes tendem a criar máquinas que estimulem cada vez mais o cérebro humano. A Psicologia, como ciência, não deve ficar alheia à melhoria desses sistemas, pois essa ciência tem potencial para ser uma das principais ciências de apoio dessa mudança. A Psicologia também deve tornar-se uma área mais científica, seguindo a tendência mundial. Psicólogos aplicados estarão em contato com o conhecimento produzido pela ciência, serão assinantes e leitores de revistas científicas, além de produtores de conhecimento (ARDILA, R. A psicologia no futuro: os psicólogos mais destacados no mundo falam sobre o futuro de sua disciplina.São Paulo: Vetor, 2011). Não se pode esquecer que cada vez as máquinas se tornam cada vez mais parecidas com os seres humanos. Os avanços da inteligência artificial ocorrerão em níveis mais rápidos do que a humanidade possa acompanhar. As pessoas do século XXI deverão desenvolver habilidades para relacionar-se tanto com humanos quanto com computadores. Para a Psicologia, existe a implicação de que o computador pode substituir o trabalho do psicólogo. Essa é uma realidade presente e que a Psicologia, como ciência, precisa encarar. Se as máquinas já podem conversar com pessoas, não seria impossível que as máquinas pudessem fazer psicoterapia com pessoas. Essa

3. 3 tecnologia já existe, e é perfeitamente plausível que seja cada vez mais aperfeiçoada no futuro. Parece lógico que se diga que as máquinas nunca serão capazes de atuar como os humanos. Mas, cada vez que se levante alguma característica que humanos têm e que as máquinas não têm, a ciência trabalha para acrescentar tal atributo à máquina. E tem tido sucesso nisso (SKINNER, B. F. Walden II: uma sociedade do futuro. São Paulo: Herder, 1972). Skinner foi alvo de uma polêmica semelhante quando criou as máquinas de ensinar. Houve uma polêmica, pois muitos afirmavam que a máquina poderia substituir os professores. Skinner afirmou que um professor que fosse tão ruim que pudesse ser substituído por uma máquina mereceria ser substituído por uma delas. No entanto, temos que lidar com o fato de que hoje as máquinas (computadores) substituem professores na tarefa de ensinar. O conhecimento da humanidade avançou bastante, e irá avançar ainda mais pelo fato de termos máquinas ensinando humanos. Nenhum professor supera o material indexado pelo Google. As máquinas se tornarão cada vez mais parecidas com os seres humanos e a humanidade se tornará cada vez mais mecanizada. Quanto mais mecanizados os seres humanos se tornem, quanto mais parecidas com os seres humanos as máquinas se tornem em sua evolução, não há perspectivas de que as máquinas consigam satisfazer algumas necessidades humanas, pelo menos em um futuro próximo. O psicólogo será o profissional mais capacitado para a função de humanizar a humanidade, de trazer o bem-estar para as pessoas. A Psicologia do século XXI precisa aperfeiçoar e massificar técnicas para acelerar também o desenvolvimento emocional, como o treinamento das habilidades sociais. Um número cada vez maior de áreas emergentes deve surgir na Psicologia. A Psicologia é uma das ciências mais importantes na construção do futuro da humanidade, mas, antes disso, precisa construir a si própria. Novas gerações de psicólogos, cada vez mais inovadoras e inteligentes do que as anteriores, resolverão os problemas atuais da área. A Psicologia precisa aprender a reconhecer esses talentos e a valorizar as ideias dos mais jovens para acelerar seu próprio desenvolvimento (ARDILA, R. A psicologia no futuro: os psicólogos mais destacados no mundo falam sobre o futuro de sua disciplina.São Paulo: Vetor, 2011). *Fernando Alcoforado, 76, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (P&A Gráfica e Editora, Salvador, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012) e Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015). Possui blog na Internet (http://fernando.alcoforado.zip.net). E-mail: falcoforado@uol.com.br

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